Me Traga à Vida

15 Lutar Como Uma Garota



“Essa noite

Você foi vítima do seu próprio erro (foi você quem escolheu)

Engoliu seu próprio destino

Coração de pedra, alimento pras cobras (segure as críticas, diga meu nome)

Querido, pode chorar (chore), chore mesmo (por que você não chora?)

Hora de pagar pelo que começou, quem está arrependido agora?

Conte suas mentiras, é, fale o que quiser

Mas será que você luta como uma garota?

Luta como uma garota”

(Evanescence Fight Like A Girl)



Bonnie


De manhã Abby resolveu sair para fazer compras e prometeu que voltaria logo. Então, quando ouvi o barulho de batidas na porta, achei que fosse a minha mãe retornando, porém me enganei.

— Olá, Bonnie. — Do outro lado da porta estavam Caroline e Elena Gilbert com seu cabelo curto e uma expressão abatida.

— Olha, eu... não quero... incomodar. Foi a Caroline que... que... praticamente me arrastou aqui. — Elena gaguejava nervosa.

— Tá. Foi culpa minha mesmo. Nós estávamos passando aqui perto, então, eu achei que... não teria problema passar e te dizer um “Olá!” — Caroline me deu aquele olhar persuasivo. — Além disso, te trouxe Donuts e capuccino.

A princípio fiquei paralisada, ainda em choque por estar cara a cara com Elena, pois minha última lembrança dela era de vê-la em coma dentro daquele caixão. No fim troquei um sorriso forçado com ela. Ironicamente, nós duas compartilhávamos o mesmo desconforto e nervosismo. Pena que Caroline parecia alheia a isso, pois jogou seus braços sobre os nossos ombros e quando me vi estava presa num abraço coletivo.

Enfim, nos separamos e eu, rapidamente, lhes dei as costas, porém lhes permiti que entrassem. Infelizmente, a casa da vovó ainda estava cheia de poeira e desorganizada, pois tinha ficado trancada pelos últimos três anos.

— Bom, a casa ficou abandonada todo esse tempo. Então, me desculpem pela bagunça. — Me vi comentando, enquanto seguíamos para a cozinha.

— Não se preocupe, amiga. Você sabe que eu sou ótima em organizar a bagunça. — Caroline usou sua velocidade sobre-humana para retirar todas as teias de aranha da sala e colocar os objetos em seus devidos lugares e, ainda por cima, lavou a louça. Isso me fez rir. Ela já tinha se mostrado prestativa quando me ajudou a organizar o meu quarto ontem a noite.

Eventualmente, aceitei o tal capuccino e um donuts, assim, tinha uma desculpa para manter a minha boca ocupada. Elena por outro lado, olhou para os doces com uma cara de enjoada, antes de desviar o seu olhar para mim.

— Ei, Bonnie... — Elena havia se sentado do outro lado da mesa bem na minha frente. — Como você está?

— Sei lá... confusa... — No começo hesitei e fui um pouco ríspida na resposta, porém ao encara-la me senti mal e troquei de postura. — Nem acredito que já se passaram três anos e aconteceu tanta coisa.

— Eu sei como é a sensação. — Elena afirma com uma postura simpática. — No meu caso fiquei em coma por dois anos e meio e quando acordei, fui forçada a enfrentar uma realidade diferente... — Seus olhos se fecham e ela solta um suspiro. — Eu nem podia estar com as minhas melhores amigas, porque uma estava proibida de pisar em Mystic Falls e a outra estava... supostamente, morta. — Não sei, mas de repente fui sentindo a conversa ficar cada vez mais tensa. — E havia o meu namorado, mas ele estava trancado num Caixão na cripta Salvatore e eu também estava com muita raiva dele. — Seu olhar se fixa em mim e não é mais tão amigável.

— Por que você estava com raiva dele? — Logo, percebi que não deveria ter feito aquela pergunta.

— É sério que você vai fingir que não sabe, Bonnie?! — Agora Elena não parecia mais simpática e tão calma.

— Ei, ei, ei garotas... que tal mudarmos de assunto? — Caroline tenta amenizar a situação e mudar o tom da conversa, mas o clima já havia azedado.

— Sabe, Bonnie... eu li o diário que você deixou para mim. — Por um instante, fiquei paralisada, em choque. — Eu nunca poderia imaginar que... uma das minhas melhores amigas, me odiasse tanto. — Me senti intimidada e resolvi me levantar e saí da cozinha. — Ah, agora que estou aqui na sua frente, você vai fugir?! — Entretanto, ela resolve me perseguir até a sala. — Bonnie, não seja uma covarde!

— Você tem razão. — Eu retruco enfurecida. — Porém, não retiro nenhuma vírgula do que escrevi naquele diário. — Dessa vez, encarei ela, demonstrando todo o meu rancor. — Eu realmente me cansei dessa amizade tóxica que existia entre nós.

— Amizade tóxica?! Sério isso, Bonnie? Você realmente me odeia tanto assim? Isso não é justo!

— O que não é justo, Elena? Ah, você queria que eu fosse aquela Bonnie corderinha, que sempre se sacrificava para que a pobre Elena, estivesse segura e feliz?

— Ei, parem de brigar! — Caroline tenta inutilmente, impedir a nossa briga, porém é tarde demais.

— Mas espera… eu me sacrifiquei sim para que você pudesse estar nos braços do seu namorado egoísta. — Minhas palavras eram cheias de sarcasmo. — Aliás, vocês são o casal perfeito, dois egoístas que eu me arrependo de ter conhecido. — Admiti isso, nervosamente, com o coração martelando no peito, enquanto meu corpo tremia.

— Você é uma hipócrita, Bonnie! Já esqueceu que você também me traiu? — Elena grita com lágrimas nos olhos. — Você dormiu com o Damon enquanto eu ainda era a namorada dele. E, talvez, vocês dois já tivessem me traído antes. Me lembro até que o Kai fez insinuações sobre vocês dois quando estavam presos no mundo prisão. Então, era verdade?

— Você vai acreditar naquele sociopata? — Eu cruzo as mãos na frente do peito e lhe dou um olhar desafiador.

— Não. — Ela soluça e Caroline tenta acalmá-la e a leva para se sentar no sofá. — Eu quero escutar a verdade da sua boca, Bonnie. — As duas olham para mim.

— A verdade é que… foi apenas uma única vez. Eu estava cansada de ser a boa moça. — Comecei a me explicar. — E, pela primeira vez, eu queria sentir aquele amor avassalador, imprudente e perigoso... — Desabafei, praticamente, tendo que revelar que, por um momento, senti inveja de Elena. — Eu me tornei aquilo que mais criticava em você. E, no final, acabei me deixando ser seduzida por aqueles belos olhos azuis.

Dessa vez, me sinto vulnerável e me vejo presa naquela memória daquela noite de natal em que transei com Damon. E aquela lembrança me machuca e me faz se sentir tão culpada.

— E quer saber, eu me arrependo amargamente disso. — Eu lhe dei o meu olhar mais sincero. — Esse será para sempre… o meu maior erro. — Então, naquele exato momento, a porta se abre...

— Damon, o que você faz aqui? — Caroline pergunta desesperada, enquanto nos deparamos com o vampiro segurando uma cesta numa mão e na outra a Miss Cuddles.

— Acho que cheguei na hora certa. — Ele sorri sarcástico. — É bom ver as garotas mais importantes da minha vida, reunidas outra vez. — Ele pisca para mim e tenta me entregar o urso de pelúcia. Em contrapartida, estou boquiaberta com a sua tamanha cara de pau.

— Você é um babaca! — Caroline reclama e furiosa, puxa a Miss Cuddles da mão dele. — Não vê que elas estão brigando por sua causa. — Fico pasma vendo ela bater nele com o meu ursinho de pelúcia.

— Ah, Barbie! — Damon já estava pronto para arrancar a cabeça dela, neste momento, resolvi que precisava parar aquela confusão.

— Chega de brigas! — Entrei na frente deles e coloquei a mão no peito duro, forte e frio de Damon. — Você não deveria estar aqui. — De repente percebi que o vampiro usava a camisa xadrez azul que eu havia lhe dado de presente anos atrás. Isso me afetou mais do que deveria, sobretudo, porque me deparei com o olhar intenso dele.

— Bon-Bon… — Sua voz é rouca quando murmura aquele apelido idiota. Eu resolvo me afastar puxando a minha mão do peito dele. — Eu achei que vocês estariam famintas. Trouxe o café da manhã. — Ele ergue a cesta entusiasmado, porém percebe que nenhuma de nós demonstrou animação. — Olha, eu sinto muito. E, eu assumo toda culpa. A culpa foi minha, Bonnie. — Por fim, Damon muda a sua postura e nos encara sério. — Não vale a pena vocês duas estragarem a sua amizade… por minha causa.

— Até que, enfim, concordamos em alguma coisa, Damon. — Caroline é arrogante e severa com ele. — É melhor você ir embora. — Os dois se encaram com raiva fervilhando em seus olhos e, antes que outra discussão se iniciasse, de repente Elena começa a passar mal.

Damon corre até Elena e a pega nos seus braços com todo cuidado e preocupação. Eu observo a cena dos dois e sinto um aperto doloroso no coração e aquele sabor amargo do ciúme. Aquilo me dá a certeza de que eu preciso, urgentemente, me afastar deles. Eu preciso cortar os laços que me prendem a eles e seguir em frente.

Eventualmente, Damon e Caroline decidiram que o melhor era levar Elena para o hospital. Ela ter passado mal foi bom por um motivo: consegui me livrar dos três. Pelo menos por agora respirei aliviada.

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Depois de toda aquela confusão pedi para Abby ligar para Caroline que avisou que Elena estava bem e que em breve nós teríamos um novo membro chegando no grupo. Não entendi o que ela quis dizer com isso, mas a loira deixou claro que eu deveria parar de brigar e fazer as pazes.

Caroline ainda não entendeu, que o clima não estava favorável para uma reconciliação.

O resto do dia tentei me distrair arrumando a casa, até que Abby me fez se lembrar da cesta de café da manhã de Damon que ficou esquecida no sofá. Quando parei para olhar me deparei com torradas, queijos, maçãs e as famosas panquecas com presas de vampiro.

— O cheiro ainda está ótimo. E, olha Bonnie, tem um cartão aqui.

— Joga fora. Eu não me importo. — Falei com indiferença, mas Abby me ignorou e começou a ler...

— Bonnie, esse é só um pequeno pedido de desculpas, feito com muito carinho e nostalgia. Eu sinto a sua falta e a Miss Cuddles também... Do seu Vampiro Favorito... — Ela ri me mostrando o tal bilhete idiota com uma caligrafia perfeita. — Damon, desenhou até um coração. Isso num é fofo?! — Abby inesperadamente, estava se divertindo com essa situação que eu achava constrangedora.

— Ele não tem nada de fofo. Ele é só um idiota. — Resmunguei me sentindo consternada. Peguei a Miss Cuddles (que agora precisaria ser costurada por causa da fúria da Caroline) e a abracei.

“Damon realmente achava que uma dose de nostalgia seria o suficiente para consertar a nossa amizade?”

— Bonnie, no que você está pensando? Você pode desabafar comigo, filha. Sem julgamentos. Eu prometo ser uma boa ouvinte.

— Eu estava pensando que eu deveria ter te ouvido anos atrás, quando você me disse pra esquecer da Elena e ir embora. Você tinha razão... Eu deveria ter abandonado esta cidade e ido embora, sem olhar para trás.

— Bem, se você quiser sair de Mystic Falls, você poderia vir comigo. Você seria bem-vinda. — Abby pareceu se animar com a ideia. — Ou poderia passar uma temporada comigo e depois retornar. — Ela pega a cesta e leva para a cozinha, determinada a guardar a comida antes que estragasse.

— Não. Se eu sair daqui. Eu não penso em voltar... — Murmuro a seguindo. — Nunca mais.

— Nunca é muito tempo, Bonnie. — Abby me encara com ponderação. — Aqui é o lugar onde estão enterrados seu pai e a sua avó. E também onde estão seus amigos. Agora você está confusa, magoada, mas um dia isso vai passar.

— Você não entende... Eu preciso cortar os vínculos que me prendem à esse lugar. Especialmente, agora que sinto que não sou mais... uma Bruxa.

Eu tento explicar que há uma parte que sente um certo aperto no coração com a perda da magia, porém sinto que lutar para continuar a linhagem das Bruxas Bennett, se tornou um fardo e não vale mais a pena. Cheguei a conclusão que quero uma vida humana normal, pensar mais em mim e parar de se sacrificar pelos outros, contudo, em Mystic Falls isso será impossível.

— Eu te entendo. Mas, você parece querer contar os laços com o mundo sobrenatural. — Abby para e me olha com uma expressão apreensiva. — Eu sou uma vampira e gostando, ou não... estou conectada com o sobrenatural. Portanto, onde eu me encaixo na sua vida normal? Como fica a nossa relação agora?

— Minha relação com você é diferente. Você é a minha mãe, é a única família de sangue que tenho. — Afirmo.

— Mas eu... — Ela desvia o olhar para o chão, como se tivesse envergonhada. — Eu também não fui uma mãe legal. Eu também te magoei, Bonnie.

— Eu sei. Mas eu já disse que te perdoei. — Me aproximei dela e ergui o seu rosto. — Eu gostaria que sejamos, a partir de agora, mãe e filha de verdade. — Ela me encarou com uma expressão aliviada e sorriu.

Depois do nosso bate-papo sincero, Abby resolveu me apoiar, disse que se eu quisesse ir embora com ela, ou para qualquer outro lugar do mundo, eu poderia contar com a sua ajuda. Isso me confortou e me encheu de esperança. Mas, havia um porém...

— Eu acho que antes de você partir, Bonnie... Você precisa também perdoar a Elena e o Damon. Assim será mais fácil seguir em frente.

— O quê?! — Fui pega desprevenida pelas suas próximas palavras.

— Damon e eu tivemos uma conversa sincera... Ele chegou a me pedir perdão por ter me transformado em vampira. E eu o perdoei. E isso foi tão bom, porque agora sinto o meu coração mais leve. Você, deveria fazer o mesmo, Bonnie. — Ela segura a minha mão, carinhosamente, e me olha com seriedade. — Perdoar sempre é um ato muito bonito e é um sentimento libertador.


Notas finais
Perdoar é um sentimento bonito, mas também é difícil. E ai o que vocês acharam do acerto de contas das amigas? 😱😱 Eu achei divertido e difícil de escrever. Tentei ser justa com os sentimentos das duas. E eu acho que isso é tudo culpa do Damon mesmo. Aquele vampiro sem Vergonha 😅