Era sábado, fazia um dia que os cortes haviam ocorrido, fazia de tudo para escondê-los.

Já era de noite, Gina havia acabado de chegar em casa, comprara balas numa sorveteria próxima. A tigela em que as colocara era vermelha em formato de coração, sentiu um aperto.

Entrou na internet, ele estava disponível. O que fazer? Decidiu chamá-lo para conversar.

Gina diz:

Oi.

Fred diz:

oi

Gina diz:

ou...

Fred diz:

fala

Gina diz:

te amo

Fred diz:

=D

Gina diz:

sabe, faz tempo q eu não te digo isso lol

Fred diz:

vdd kk

Gina diz:

pensei que seria bom dizer

Fred diz:

é k

Gina diz:

vc me ama? k

Fred diz:

não sei

Gina diz:

imaginei '-'

Fred diz:

éer kk

Pronto. Tudo havia desabado. Não tinha total certeza antes, mas agora sim, Gina sabia, tinha a mais absoluta razão de que Fred não a queria. Provavelmente teria achado alguém melhor, uma menina com mais corpo que ela, um rosto mais bonito, um cabelo melhor ou simplesmente não tivesse tantas espinhas como ela, ou pior ainda, não fosse maluca, não se cortasse. Após esse pensamento, surgiu em sua cabeça, como um flashback o dia em que havia dito a Fred que havia se cortado, mal sabia o garoto que ele era o motivo.

Depois de tanto reclamar, se lamentar, procurar soluções, a menina rendeu-se. O relógio já marcava 00:09 e ela estava sentada ao lado do computrador, lendo Harry Potter e as Relíquias da Morte. "Por que ele não pode me amar da mesma forma que Rony ama a Hermione?", pensou. Concluiu que já era hora de se deitar, pois estava sentindo sono. Guardou o livro, foi até o banheiro e escovou os dentes. Pegou na cozinha um copo d'água, para que pudesse tomar uma cápsula de calmante, que tomava todas as noites, mas que não estavam surtindo efeito, pois seus pensamentos continuavam feridos, misturados, nem ela mesma conseguia entender o motivo pelo qual dependia tanto de Fred. Nunca se sentiu assim com nenhum outro menino, nunca foi daquelas que sofria por meninos.

Ao se deitar, já era meia noite meia. Era uma maldita noite fria, tentando entender essa vida, cobriu-se. Gina não podia encontrar um jeito de descrever o que sentia naquele momento. Estava tudo lá dentro e o que ela fazia era esconder. Ela queria que tudo fosse embora. O que faria Fred, se descobrisse que ela havia se auto-mutilado por sua causa? "Me chamaria de masoquista, como da última vez", pensou irritada, "Mas é claro, ele é um ser humano frio e asqueroso, não tem sentimentos, não sofre, não chora".

Ainda deitava, Gina começou a refletir sobre os bons momentos que os dois tiveram. Lembrou-se do primeiro beijo, há 8 meses atrás, quando os dois não eram muito mais novos, mas pareciam tão diferentes. Ela, pequena como sempre, e ele alto com cabelos lisos e um boné de aba reta. Como havia mudado! Ultimamente se encontrava com cabelos meio raspados e cacheados, pareciam mais claros. Para ela, continuavam perfeitos. Lembrou-se de quando só estavam os dois nas escadas do shopping, felizes, juntos, num momento só deles. Na sua opinião, meninos jamais pensariam assim. Não conhecia nenhum menino que agisse como ela, que perdesse seus pensamentos antes de dormir em alguém que amasse muito, nenhum menino jamais faria isso, Fred jamais faria isso. Será que Fred se importara com ela, realmente? Dera valor ao que ela sentia? Ou apenas fingira? E o que ganhara com aquilo? O poder de manipulá-la, para beijá-la quando bem quisesse? Fred sabia muito bem como reconquistá-la, e, mesmo tendo consciencia disso, Gina sempre se deixava levar. Era como se ele tivesse a amarrado e jamais soltado, ora afrouxasse um pouco a corda e puxasse de volta para seus braços como quisesse. Gina não sabia se o que ele sentira fora real ou apenas estivesse brincando com seus sentimentos. Confusa, rezou e adormeceu, mergulhada em seus pensamentos e flashbacks sobre Fred, que vinham constantemente à seu cérebro, atrapalhando seu sono.