Me Ensine A Amar De Novo?
1 Anjo? Padre? Hã?
Notas iniciais
Era noite de natal, dia 25 de dezembro. A missa já tinha terminado há horas, assim como todos os compromissos daquela igreja. A madrugada chegara e estavam todos dormindo, teoricamente.
Mas a igreja de Santa Rosa estava aberta mesmo assim. E, sentado no primeiro banco, de frente para o altar, estava um homem de terno empresarial, com a cabeça baixa escondendo seu rosto choroso. Dava para ver que era loiro, mesmo com a pouca luminosidade do lugar. Estava tudo escuro, e ele não se importava em soluçar alto, pois sabia que ninguém lhe ouviria. Esse homem era Ludwig Beilschmidt.
Ele não tinha mais esperanças, considerava-se sozinho no mundo. Tinha um alto cargo numa multinacional e dinheiro era o que não faltava. Mas lá estava ele, rico e sozinho numa noite de natal. Sem esposa, filhos, família. Só tinha um ex-cunhado, mas este estava sob os cuidados de parentes próximos. Pois ele sim tinha parentes próximos para confortá-lo na dor e no luto. Sua mansão na Áustria agora deveria estar cheia de pessoas lhe paparicando enquanto Ludwig só podia chorar numa igreja vazia.
Tinha vindo ficar ali porque não aguentaria ficar em casa, cheia de memórias dele, seu irmão albino que tinha morrido de câncer de pele à apenas alguns meses. O que ele não aceitava era que ele era tão extrovertido, tão cheio de vida... E uma morte trágica como aquela...
Seus pensamentos fúnebres foram interrompidos quando sentiu alguém tocar-lhe o ombro. Uma mão que repousava delicadamente sobre o terno já desarrumado. Demorou um pouco para levantar a cabeça, mas já havia parado de soluçar. Ele estava esperando a pessoa falar alguma coisa, mas vendo que não aconteceria, levantou o olhar.
Era um jovem, um garoto. Na verdade, considerou a ideia de ser um anjo, nada mais óbvio, pois ele estava numa igreja, e o garoto vestido de branco o olhava sereno, cheio de compaixão nos olhos. Tinha a pele branca e os olhos castanhos claros, de um tom caramelo encantador e cabelos castanhos arruivados. Ele não dizia nada, só o observava. Ludwig tinha uma ideia de como deveria estar parecendo para o anjo: o rosto vermelho e molhado de lágrimas, olheiras, o nariz escorrendo e um olhar miserável, sem esperança nenhuma.
– Você veio para me levar também, anjo? – perguntou com um quê de esperança, pois já estava cansado de viver à tempos.
– A-anjo? Não senhor, eu não sou um anjo! – tirou a mão que repousava sobre o ombro do mais velho, como se assustado com a declaração. Como se fosse um crime ele ser um anjo. – Sou só um padre...
– Nunca te vi aqui antes. – disse apenas, voltando a olhar o altar à sua frente, ignorando o padre. Nunca tinha visto um padre tão novo. Mas de fato, isso explicava a pureza e inocência que emanava do garoto, o que estava começando a constranger Ludwig que era tão impuro e sujo quanto aparentava ser.
– Por quê você está chorando em uma noite tão linda e memorável como essa? Jesus, o nosso eterno salvador, nasceu hoje, senhor. – ele disse, tentando consolá-lo.
– Para mim, essa noite não é nada linda. Ela é só um reflexo da minha solidão. – disse seco.
– Alguém próximo do senhor morreu recentemente? – perguntou escolhendo as palavras com cuidado.
– Sim. Meu irmão. – e antes que o garoto (que duvidava que fosse um padre, pois à cada palavra que dizia, mais parecia ser um anjo) – e por favor, não me chame de senhor. É estranho.
– Então, qual é o seu nome? – se inclinou no banco ao meu lado, apoiando as mãos nos joelhos, com uma curiosidade que beirava à infantil.
– Ludwig. Agora, se não vai me levar hoje, volte para o céu ou seja lá de onde você veio e me deixe aqui sozinho. – o loiro disse aparentando frieza, sem querer encarar aquele anjo que estava a lhe pregar uma peça. Veja só! Depois de tudo o que lhe aconteceu, ter que aguentar um anjo sapeca brincando consigo!
– Mas eu moro aqui. Não no céu. Eu ainda não morri, Ludwig. – ele disse risonho com o erro do mais velho. – E você não está sozinho, nem nunca estará. Deus não se esqueceu de você.
– Sim, menino, ele esqueceu. Agora se me der licença, eu vou-
– Não, tudo bem, pode ficar aqui. – ele disse, segurando o pulso de Ludwig quando este fez menção de se levantar. – Eu vim aqui porque Deus me pediu. Eu estava dormindo quando ouvi a voz Dele me dizendo para ir até o Seu altar e fazer companhia para um homem sem esperanças. Então eu vim até aqui te ver.
Foi então que notou as vestimentas dele. Era uma camisola branca de um modelo antigo, que lhe cobria do pescoço até os pés, e as mangas eram tão longas que cobriam suas mãos. Seu cabelo também sugeria que ele esteve dormindo, e a única coisa que Ludwig conseguiu dizer na hora foi:
– Tem certeza de que não é um anjo? – Desta vez o garoto se limitou a rir nervosamente, e respondeu
– Senhor Ludwig, anjos são os mensageiros celestes de Deus. Eu sou só um padre.
– Enviado de Deus. – completou Ludwig quando ele terminou de falar.
– Enviado de Deus. – repetiu ele, concordando com um sorriso bonito no rosto. Ele era um jovem bonito. – Meu nome é Feliciano, mas as pessoas me chamam de Padre Feli.
– Feliciano... – repetiu Ludwig, para ter certeza de que gravaria aquele nome. Mas ele sabia que gravaria de qualquer jeito, ele não se permitiria esquecer de Feliciano. O próprio Deus tinha o mandado para ele, nunca mais o perderia de vista.
– Então Ludwig, você já ceiou? – O maior lhe lançou um olhar interrogativo, e Feliciano tratou logo de explicar — Eu sei que a ceia deveria ter sido ontem, mas aqui na igreja nós fizemos uma hoje também, só pra gente. Ontem fizemos uma com os órfãos. – ele propôs ao outro, sorrindo como se fossem velhos amigos – Eu posso esquentar algo para você comer, se estiver com fome. Nós temos macarrão, lasanha, pizzas... Também temos suco de uva e de laranja! Ou se você preferir... – e Ludwig ficou ouvindo Feliciano tagarelar. O fato de o jovem padre estar conversando com ele, tratando-o tão bem mesmo ele sendo um desconhecido, tocou o coração de Ludwig. Fazia um bom tempo que ele não conversava com alguém sem ser sobre a morte de seu irmão, sobre assuntos do trabalho ou qualquer outra coisa impessoal. Mas ali estava ele, na cozinha de uma igreja, observando um padre alegre e bonitinho de pijama programar um microondas para esquentar uma lasanha para os dois.
Quando Feliciano terminou tudo, puxou as mangas da camisola para cima e começou a lavar a louça. Ele continuava falando sem parar enquanto Ludwig ouvia tudo parcialmente do balcão da cozinha. Ludwig estava sentado numa cadeira alta bebendo um suco que o padre tinha lhe oferecido quando chegaram, e observava as costas do menor. Agora na luz, ele examinava o tamanho dos ombros de Feliciano, a cor de seus cabelos e até os seus pés.
Ludwig agora já tinha aceitado que o jovem era humano, e não um anjo. Não que Feliciano não se parecesse com um, e sim porque... ele não sabia dizer, mas tinha certeza de que ele era humano e que era novo na igreja. Ludwig nunca fora um homem religioso, mas acreditava na existência de Deus.
Mas, ultimamente Ludwig começara a duvidar da misericórdia e bondade não só de deus, mas da sociedade no geral. Seu irmão era uma peste por vezes, sempre acabava se metendo em confusão com seus dois melhores amigos, e levara inúmeros foras e patadas de Roderich durante anos de faculdade até enfim conseguir namorá-lo. Mas Gilbert era um homem tão nobre...
– Ludwig? – a voz macia de Feliciano lhe chamara de muito perto, e ele instantaneamente levantara o olhar, dando de cara com o rosto do menor. Durante um tempo que não saberia descrever como curto ou longo, Ludwig ficara com os cotovelos apoiados no balcão, e as bochechas apoiadas nas mãos, fitando o mármore escuro. Agora estava fitando os olhos de Feliciano, e não podia negar que eles eram... muito... bonitos...
– Você está bem? – sem resposta – Eeeeei, acorda! – chamou rindo Feli enquanto beliscava o nariz reto de Ludwig, fazendo-o acordar do transe. O empresário logo começou a se desculpar e se ajeitar na cadeira alta que se encontrava. Seu coração estava acelerado e seus sentimentos estavam confusos e embaralhados em seu peito, estava se sentindo muito estranho!
Enquanto Feliciano ria da falta de jeito do alemão e servia a lasanha, Ludwig tentava disfarçar como podia seu momento de confusão. Ele nunca havia se sentido assim, era tão... diferente! Como se de repente seu mundo girasse em outra direção...!
– Me desculpe, eu estou muito distraído. – murmurou o loiro, evitando olhar nos olhos de Feliciano muito diretamente.
– Não, tudo bem... Você está passando seu primeiro natal sem o seu irmão, sim?
– Estou...
– Eu entendo se você não quiser falar sobre ele, mas, para você estar sentindo tanto a perda dele... significa que ele foi um ótimo irmão. – e depois de proferir aquelas palavras, sorriu na tentativa de lhe animar, e de novo Ludwig foi tomado por sensações estranhas e novas, meu peito se enchendo de um calor agradável que lhe dava o estranho impulso de abraça-lo.
Estava tão absorto em sua confusão interior, que só conseguiu suspirar ainda o encarando. Mas daquela vez ele não precisou de um puxão no nariz para se recompor, e assim fez, bebendo um gole do suco e tossindo para limpar a garganta. Durante todo o processo, Feliciano aguardara pela resposta pacientemente.
– O nome dele era Gilbert Beilschmidt, ele era três anos mais velho que eu. – começou a narrar fatos aleatórios sobre seu irmão, e logo ele e Feliciano estavam rindo dos “feitos históricos” dele. Durante aquele momento Ludwig se permitiu esquecer que ele não mais existia.
Agora já haviam terminado de comer, e ele ainda contemplava as risadas do italiano, com uma felicidade que há muito tempo não sentia. Ficara uma hora conversando com o jovem padre, e seu coração se sentia tão leve! Ludwig queria nunca mais abandonar a sensação que era fazê-lo rir e estar junto à ele, como se fossem amigos de longas datas.
– Hahahaha, seu irmão era tão engraçado! – disse Feli – Eu adoraria tê-lo conhecido... – completou com um sorriso triste. Mesmo quando estava cabisbaixo, ele sorria. Sempre sorria.
– Tenho certeza que ele também iria adorar conhece-lo, padre... Muito obrigado por hoje, me sinto bem melhor. – comentou sinceramente.
– Ah, que bom, Ludwig! – exclamou pegando suas mãos e unindo-as – Que Deus te abençoe e você continue-
– Ei, que barulheira é essa? – perguntou uma voz irritada vinda da porta, e Feliciano pôde ver perfeitamente quem era, pois estava de frente para Ludwig e a porta. Ele soltou as mãos rapidamente e Ludwig sentiu como se sua pele estivesse reclamando pelo fim do contato, mas antes que pudesse ser invadido por sentimentos confusos, se virou para ver de quem se tratava.
E quando se virou, Ludwig pôde ver um rapaz de cabelos castanhos e pele branca que se parecia com Feliciano tirando o fato de que seus olhos eram cor de caramelo e não tinham aquele brilho adorável do outro. As sobrancelhas e todo o resto do rosto estavam franzidos em irritação e ultraje, pelo visto Ludwig não seria assim tão bem recebido por todos...
– Fratelo! – exclamou Feliciano sorrindo alegremente ainda em seu lugar em frente ao loiro – Que faz aqui?
– Eu quero é saber o que você faz aqui na cozinha de madrugada com um completo estranho!! O que foi que eu disse sobre não falar com estranhos? POR QUE VOCÊ NUNCA ESCUTA?! QUER ACORDAR A IGREJA INTEIRA?! O BISPO NÃO VAI FICAR NADA FELIZ AO SABER DISSO QUANDO ELE VOLTAR!
– M-mas... é você quem está gritando...
– Não me interrompa!! – disse um pouco mais baixo (mas ainda gritado) e se virou para Ludwig com as mãos na cintura, lembrando-o demais uma governanta brava com as crianças sujas de lama no sofá — E você quem é?!
– Ele se chama Ludwig, e por favor seja gentil com ele Lovino, ele acabou de perder um parente muito importante. – respondeu Feliciano por ele, enquanto se aproximava por trás e punha a mão em um de seus ombros largos, fazendo-o tenso e desconfortável por ter seus problemas expostos daquela forma.
Lovino se calou e mudou de posição na mesma hora, deixando a boca abrir-se e procurando pelo olhar do irmão. Ludwig não se virou para trás para ver como estava o menor mas só de ver Lovino já entendera que estavam a ter uma discussão silenciosa. Lovino tinha as sobrancelhas franzidas e agora a boca fechada em uma linha reta, como se desconfortável com a situação, e nos olhos cheio de perguntas. Ludwig não era um ótimo observador, mas sabia ler o ambiente, e percebera duas coisas. A primeira, que esses dois eram mais que colegas de igreja, talvez irmãos ou primos a julgar pela semelhança. E segundo, que Feliciano sabia que Lovino havia passado por alguma perda de família ou situação parecida com a sua e que deveria entender o que ele estava passando.
O silêncio durou mais alguns instantes até que viu Lovino assentir ainda calado, encarando intensamente seu muito provavelmente irmão, e disse em um tom de voz brando.
– Eu vou voltar a dormir, mas às 7 horas em ponto vou voltar e espero que o senhor esteja em casa descansando – falou olhando para Ludwig surpreendendo-o pela mudança de atitude, logo depois olhando para Feliciano – e acho muito bom que você esteja aqui! – estava claro para Ludwig quem era o mais velho e responsável dali.
O jovem saiu das vistas deles enquanto ainda falava, ele estivera o tempo todo no portal da cozinha, que não era muito grande. Os azulejos da parede eram brancos com ramificações laranja e o chão era branco e simples, assim como o teto. A cozinha toda era simples, na verdade.
– hehe perdoe meu irmão, ele é uma boa pessoa, de vero. – disse risonho Feliciano, atraindo Ludwig para se virar e olhá-lo. Já tinha guardado os pratos na pia, e agora sorria para ele levemente. – O nome dele é Lovino.
– Ah... – Ludwig não sabia o que dizer
– Então, já está amanhecendo não é mesmo?– comentou despreocupadamente, olhando para a janela, constatando para Ludwig que sim, estava amanhecendo e ele deveria estar em casa. Não que alguém estivesse esperando por ele em casa, ou que ele tivesse um horário para acordar naquele dia, que era feriado, mas... Ludwig sentia que deveria estar em casa.
E além desse sentimento que não conseguia descrever, ele não queria causar problemas para Feliciano, que em uma hora conseguira fazê-lo sentir mais apreço por ele do que por pessoas que Ludwig conhecia à anos. O jovem era muito bom, e não conseguia pensar em nada que correspondesse à toda a gratidão que Ludwig sentia, mas certamente agradeceria devidamente quando aparecesse a chance.
– Ludwig? – Feliciano chamava mas Ludwig pareci distraído novamente, encarando-o perdido em pensamentos – Haha, você é tão engraçado~ — chegou bem perto de onde ele estava sentado e tocou com suas mãos nas bochechas dele, levantando seu olhar para si e acordando-o do transe em que estava. – heh~ oi~
– eh? ...ah!! – e levantou-se depressa, arrumando o terno que estava todo bagunçado, e a gravata, enquanto evitava olhar o menor e repreendia-se mentalmente por estar agindo tão estranho. – Me desculpe, eu-
– Está distraído, tudo bem. Eu também fiquei. – sorriu docemente, e agora que o loiro notava que Feli parecia compreensivo demais com a situação, será que... havia passado pelo mesmo que ele?
– Você também... ? – não sabia como perguntar, pois como bom alemão que era, não tinha tato nenhum para assuntos mais sentimentais.
– Sim, mas é uma longa história, eu posso te contar no caminho para casa, se quiser. Você mora perto daqui? – Feliciano tinha suas dúvidas, a julgar pelos trages do outro, que sugeriam que ele vivia andando de carro por aí.
– Ah, sim, é perto. – assentiu, e então Feliciano sorriu mais e começou a andar em direção à saída da cozinha, e Ludwig logo o seguiu.
Estavam já do lado de fora da igreja, Feliciano estava fechando o pequeno portão de grades do jardim enquanto falava:
– Eu deveria ter trancado a igreja! Ufa, ainda bem que o lovi não lembrou de me repreender por isso também! – e ria bobamente enquanto tagarelava.
Ludwig esperava por ele pacientemente na calçada, e um pouco ansioso para o assunto da “longa história” de Feli. Não poderia negar que sim, estava muito curioso para saber sobre a vida daquele homem pequeno e frágil que vivia sorrindo e tinha conseguido fazer seu coração ficar quente como em anos não ficava. O alemão não se considerava uma pessoa curiosa, não vivia perguntando sobre a vida dos outros, nem nos assunto de seu irmão ele se intrometia!
Mas agora via que aquele padre era a exceção.
– Pronto! Agora podemos ir!~ — e os dois começaram a caminhar silenciosamente. Ludwig já estava começando a lamentar que não seria daquela vez que descobriria mais sobre a vida do menor, quando ele voltou a falar:
– Sua casa é muito longe daqui? Como ela é? Tem certeza que não mora em um apartamento?
– Ah... – Ludwig ficou sem jeito de responder tantas perguntas, não estava acostumado com aquela atenção – Eu moro em uma casa, mas é a muito pouco tempo que estou nela, antes morava em uma aqui mesmo neste bairro, só que eu vendi.
– Por que? – perguntou sem entender a indireta de “eumoravacomomeuirmãonaquelacasaporfavornãopergunte”
– Porque ela me traz lembranças ruins.
– ...lembranças do seu irmão? – Ludwig já estava começando a se irritar, como era possível uma pessoa ser tão tapada?! Suspirou nervosamente e tentou não tremer a voz.
– Sim. – conseguiu responder decentemente sem gagejar, mas Feliciano pareceu (finalmente!) entender que o assunto era delicado demais.
– Ah ah!! Desculpe Ludwig! Eu não tinha percebido! Aaaaahhh desculpe desculpe!! – começou um escândalo com direito a olhos cheios de lágrimas, e antes que o mais novo de fato começasse a chorar, Ludwing resolveu mudar de assunto
– Você é italiano? – e imediatamente Feli parou seu escândalo encarando-o surpreso. Ludwig desejou ter uma câmera para registrar o momento, ele parecia tão jovem e vívido, a pele branca de seu rosto levemente corada nas bochechas, os olhos castanhos expressivos e intensos, com um brilho tão puro, justificavam a confusão inicial de Lud ao pensar que ele era um anjo. E os lábios rosados e finos pareciam lhe chamar, não que Ludwig fosse gay, mas-
– Sim, como descobriu?! – sorriu surpreso o recém descoberto italiano, sem perceber o clima de novela que antes se instalara, apenas na imaginação de Ludwig, que no momento balançava a cabeça como se para tirar tais idéias absurdas absurdas de sua mente. Sempre fora um homem concentrado e rígido, e agora que conhecera um padre fofinho ficava a fantasiar por meros segundos como se fossem dias?! E espera, FOFINHO?! Não era gay, então o que estava acontecendo?!!
– Hahaha, você é engraçado Ludwig~ — comentou Feliciano novamente, achando fofo e engraçado como o alemão se distraía rápido. Achava que talvez fosse por causa da perda de seu irmão mais velho.
– Ahm, do que falávamos?
– Hhahahahahaha~ Acho que falávamos de italianos... – comentou risonho
– Ah sim, claro. Uh, seu irmão também?
– Obviamente, já que somos gêmeos. – e ao ver a surpresa de Ludwig não aguentou e riu mais – Não tinha percebido?! Todo mundo percebe! És mesmo distraído, Ludwig! Haha
– Não sou! É sério, eu nunca sou assim, é só que hoje eu... – não sabia o que explicar, e acabou ficando ainda mais frustrado. O que estava acontecendo com ele?! Era culpa desse menino?!!
– Eu e meu irmão somos órfãos, mas o tio da nossa falecida mãe cuidou da gente. – começou a contar mesmo sem Lud ter perguntado, com um sorriso nostálgico, olhando o chão – A gente chamava ele de avô mas o nome dele era Romulus, e ele criou a gente na igreja que ele cuidava lá em Roma. Ah, ele era padre também! – acrescentou como se fosse uma informação muito importante, e voltou a olhar para Ludwig enquanto andava, sorrindo abertamente. O mais alto percebeu que estavam já a duas casas de sua casa.
– A gente decidiu que queria ser como ele, sabe? Ele foi um homem muito bom, e amou muito a gente... – sua voz foi morrendo e Ludwig não precisou perguntar para entender que este Romulus que era o falecido entre os gêmeos. Feliciano não parecia triste, apenas conformado e nostálgico. Esperava um dia superar a perda de seu irmão e conseguir conversar assim abertamente com qualquer um.
Qualquer um... esse termo incomodou o alemão muito profundamente, do fundo de sua alma, ele não queria ser qualquer um para o ruivo. Ah não, ele queria ser alguém importante para ele, alguém que o italiano pudesse confiar, e que se lembrasse com um sorriso como aquele. Alguém que ele sentisse falta.
Percebeu então que tinha parado e que Feliciano também, os dois estavam na calçada em frente à sua casa. A distância da casa para a igreja era de três ruas, não era tão longe. O sol já tinha nascido e o céu estava cinzento, típico de inverno, mas surpreendentemente não estava nevando nem dava sinais de nevar, a rua estava limpa e seca, apenas muito fria. O bairro de Ludwig e Feliciano era como os típicos bairros americanos que apareciam na tv, tinha ruas perfeitamente asfaltadas e lisas, calçadas bem cuidadas e todas as casas tinham um gramado aberto na frente e atrás também, e até eram separadas por cercas de madeira.
A casa de Ludwig era de madeira azul clara com detalhes brancos e tinha dois andares e um sótão em cima. Tinha uma varanda e uma garagem, e uma árvore na frente com um balanço de pneu que foi deixado lá pelos antigos donos. Ludwig olhando o balanço acabou imaginando-se a empurrar Feliciano nele, o mesmo rindo alegremente e- ah, não! Tinha que parar com essas coisas tão sem sentido! Ah, estava tão confuso...
– É a sua casa, Lud? – perguntou Feliciano, que tinha parado por inércia mesmo e estava vendo que o loiro observava a casa e estava corando olhando um... pneu?
– Sim, é. – virou-se para o italiano e ele olhava o pneu pendurado na árvore com uma expressão interrogativa, as sobrancelhas franzidas em confusão como se tentasse entender algo muito difícil. Ludwig não conseguiu deixar de achar muito fofo. E o apelido que ele tinha feito para ele... Na verdade ele já escutava de seu irmão, mas era raro, na maioria das vezes era chamado de
– ...west...
– Ah? Disse alguma coisa? – parou de encarar o balanço, desistindo de entender o que se passava pela cabeça do alemão, e olhando Ludwig mais uma vez ficar sem jeito com seus próprios pensamentos. Ele ficara realmente curioso com aquele homem, queria saber o que se passava com ele, era tão fechado e misterioso...
– Nada. Ahm, essa é a minha casa, enfim. – apontou para a casa em frente à eles com enquanto o outro estava afagando sua própria nuca. No fundo ele só queria adiar aquele momento em que voltaria para o vazio de sua casa e provavelmente nunca mais teria uma conversa como essa com Feli.
– É muito bonita. – comentou sorrindo radiante para ele
– Obrigada. Mas eu nem escolhi, foi comprada às pressas, eu vendi tudo o que tinha quando ele se foi.
– Ah... – Feliciano se calou por um tempo, os dois parados em frente à casa sem saber como se despedir, até que ele olhou para o horizonte e viu que o Sol já tinha nascido, ele tinha que voltar para a igreja antes que Lovino acordasse!!
– Eu tenho que ir, estou atrasado! – não usava relógio nem tinha celular, então não teria como checar a hora, e Ludwig percebeu isso logo olhando em seu relógio de pulso e dizendo em um tom brando e gentil, quase sorrindo.
– Agora são 6:47, dá tempo de você voltar sem pressa.
– Que bom! Então estou indo pra não me atrasar! – e abraçou Ludwig pelos ombros o mais forte que a diferença de alturas deixou, e Ludwig arfou em surpresa, não estava esperando. Mas ao ver que o italiano não ia desfazer o contato, permitiu-se abraça-lo de volta, envolvendo sua cintura e mergulhando seu rosto na curva de seu pescoço, sentindo o cheiro desconcertante dele, era muito bom.
O abraço foi desfeito, e depois de Feli lhe dizer com preocupação que ele precisava se trocar e ir direto pra cama dormir pelo máximo de tempo possível, o jovem foi embora. Ludwig ficou ainda na calçada em frente à sua casa observando o mais jovem se distanciar, e só saiu dali quando ele virou a esquina.
Ludwig andou pelo gramado que já estava começando a ficar grande demais até a varanda da casa, que tinha uma cadeira de balanço, uns vasos com plantas que comprara sem se importar com a espécie e um tapete pendurado na cerca de madeira dela. Destrancou e entrou na sala que tinha nada além do básico, tirando uma estante de livros. Ele vendera a antiga casa mobiliada e comprada novos móveis e eletrodomésticos, queria começar do zero.
Na época, começar no zero parecia-lhe uma boa solução, começar uma nova vida agora sem seu irmão, e deixar para trás as lembranças daquela casa.
Não que agora ele se arrependesse, não, só que se mudar assim não tinha sido como imaginava. Já estava naquela casa a dois meses, quase três, e percebera que se acostumar não seria nada fácil. Seus pais moravam muito longe e já estavam idosos, morar com eles poderia até tirar a parte da solidão, mas seria muito complicado. E tirando os pais só tinha Kiku de amigo de verdade mas este estava no Japão e só voltaria em dois meses. Os dois melhores amigos de seu irmão mostraram preocupação no início mas quando Gilbert se foi os dois entraram em um luto tão intenso quanto o dele.
E claro, tinha Roderich mas este estava na Áustria com seu primo Henry a lhe cuidar, não o via desde o enterro.
Ludwig percebeu que estivera por muitos minutos parado no meio da sala com a mão apoiada no sofá pensando na vida. Que inútil... Deveria estar é seguindo os conselhos de Feliciano e indo dormir, seria o melhor a se fazer. Falando nele... Como era gracioso aquele padre, tão doce e meigo, Ludwig queria poder continuar a ver aquele rapaz, ser seu amigo. Ainda não tinha nenhum plano mas-
Se interrompeu ao sentir um arrepio na espinha, junto a um frio diferente do que fazia do lado de fora da casa. Viu sua respiração formar fumaça à frente de seu rosto e um barulho de vento nas janelas, as cortinas se mexendo. Estava tudo muito estranho, e olhou para o chão rapidamente antes de olhar para cima e abrir os olhos em espanto total, ao ver ao lado na antiga estante de livros ninguém menos que
– GILBERT!!
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