Aquela não seria a ultima vez que eu o veria, mas era uma despedida. Uma despedida silenciosa e triste, feita com o coração. Uma história sendo deixada para traz, lembranças sendo guardadas no lugar mais profundo do coração, para nunca mais virem à tona. Ele estava lindo como eu nunca o vira antes, e eu quis tanto, naquele momento, voltar do início e reviver toda a nossa história de novo. Mas já havíamos sofrido o bastante, e a vida estava nos empurrando para a frente. Por mais que a nossa vontade fosse a de ficar lá atrás, e reviver aquelas memórias de novo, de novo e de novo, quantas vezes fossem necessárias. Mas ele tinha deixado uma marca em meu coração que eu levaria com orgulho para o resto da vida. Bernardo fora a grande história de amor da minha vida, e as cicatrizes que eu levava mostravam que eu havia sobrevivido a grande batalha interna, entre meu coração e a força do destino.

— Para onde você vai? — perguntou Bernardo, enquanto nós sentávamos na grama nos fundos da igreja. A lagoa estava calma, e a cor da água me lembrava a cor dos olhos dele, com a mesma serenidade.

— Rio Grande do Sul, eu acho. Ainda não sei. — respondi, soltando um suspiro. Eu me sentei ao lado de Bernardo, sem me preocupar se a grama verde e bem cortada sujaria meu vestido rosa claro, que o próprio Bernardo escolhera.

— Louise — disse ele, olhando para meus olhos. — Eu sinto muito, mas sabe, acho que deixamos as coisas fugirem um pouco do controle...

— Por três anos?

— Me desculpa, eu não quero te magoar, não quero te ver sofrendo, mas eu não sei o que fazer. Eu tentei, mas quanto mais eu me afastava de você, mais eu sentia sua falta. — Bernardo falava olhando diretamente em meus olhos, com a calma que só ele conseguia me trazer. — Eu sei o quanto isso é difícil pra você, eu não queria te machucar.

— Eu estou bem — eu menti. — Pelo menos, eu acho que vou ficar. E eu quero que você seja feliz. Acima de tudo, você é um dos meus melhores amigos, e a vida é tão grande, tudo se ajeita no final.

Ele me abraçou, e foi como na primeira vez. E quase como que inconscientemente, nossos lábios se encontraram. O sol estava se pondo, o vento soprava leve e eu quis, do fundo do meu coração partido, que aquele momento durasse para sempre. Eu quis morar num abraço dele, viver dos seus beijos. Havia sido intenso e profundo, mas chegara a hora.

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As portas se abriram. A música começou a tocar. Quando meus pés adentraram aquela igreja, eu que sempre fora ateia, rezei, para que nós dois estivéssemos fazendo a escolha certa. Eu podia ver o nervosismo, o medo, e a felicidade em seus olhos. Enquanto eu caminhava sob um tapete vermelho em direção ao altar, tudo passava em minha mente como um filme.

Tudo começou com o beijo perfeito, e depois disso nós podíamos sentir o veneno se instalando, percorrendo nossos corpos. Quando te conheci naquela tarde quente eu jamais imaginaria que tudo isso aconteceria. Mas tinha data certa pra acabar. Foi você quem me mostrou o céu, depois me atirou no chão. Foi você quem curou minhas feridas, para depois abri-las com toda a força.

Chegamos ao altar e meus olhos já estão marejados de lágrimas. Sinto um peso no peito, e nossos olhos se encontram. É difícil se contentar com olhares quando os corpos já se conhecem e as almas se pertencem.

Eu queria subir naquele altar e segurar a sua mão, dizer que eu te amava e que eu ficaria para sempre do seu lado. Mas isso é uma honra das noivas, as madrinhas se contentam em olhar e desejar felicidades.

Quando sua esposa me escolhera para ser a madrinha de casamento, você não ficara nenhum pouco feliz com a notícia. Mas ela não sabia, nunca soube, e ela não tinha culpa. Nós éramos os culpados. Nossa história era uma confissão secreta e misteriosa, feita de um coração a outro.

Quando ela subiu naquele altar e segurou sua mão, eu olhei para o salão da igreja lotado. Nossos amigos estavam todos ali, e a maioria deles sabia de tudo. Alguns tinham acompanhado nossa história até ali. Olhei para meu melhor amigo, você o escolhera para ser o seu padrinho de casamento. Ele havia percebido a tristeza e a angústia em meu olhar. Ele sussurrou um "vai ficar tudo bem".

Olhar para você tornava tudo mais difícil. Mas eu sabia, você a escolhera, e seria ela quem passaria todos os dias com você a partir daquele momento.

Meu coração sempre soube, nós éramos destinados a dizer adeus.


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A festa fora linda. A noite estava estrelada e a Lua cheia brilhava intensamente. Mas chegara a hora.

— Você precisa mesmo viajar? — perguntou Marie, a garota que agora era casada com Bernardo, e que também se tornara minha amiga.

— Preciso — respondi, tentando segurar as lágrimas. — Obrigada mesmo por me deixar fazer parte disso, eu desejo toda a felicidade do mundo à vocês.

— Você se tornou minha melhor amiga, e eu não poderia ter escolhido alguém melhor para estar ao meu lado nesse momento. — respondeu Marie, me abraçando.

Eu já havia tirado o vestido de festa e vestia meus jeans rasgados e uma camiseta. Depois de me despedir de todos, segui para o estacionamento da igreja, foi quando vi Bernardo encostado em minha moto.

— Se cuida, ta bom? — ele disse, me abraçando forte, e percebi que como eu, ele também estava segurando as lágrimas. Foi então que eu as deixei cair. Era um choro silencioso, como a nossa história.

— Eu amo você.

— Eu te amo, Louise. — eu ouvi sua voz rouca sussurrando em meu ouvido, e tentei gravar a voz dele em meus pensamentos, para que pudesse a ouvir quando sentisse falta. A mesma voz que me acalmara tantas vezes, agora me dizia um "adeus".


Eu subi na moto e botei a mochila nas costas, dei uma ultima olhada para traz antes de colocar o capacete. Eu o vi ali, parado, me vendo partir. Coloquei o capacete e abri a viseira, acelerei. Deixei que o vento secasse minhas lágrimas, e desejei ao Universo, que as lembranças ficassem para traz, junto com a estrada. Segui acelerando pela estrada, sentindo o vento em meu corpo. Eu não sabia se estava fazendo a escolha certa, mas naquele momento, eu só deixei o destino me levar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.