Maybe Memories.
1 Eu estou te dizendo, eu sou uma farsa.
Notas iniciais
Lá estava eu de novo, parado em frente à porta ouvindo as discussões. Elas estavam se tornando cada vez mais frequentes e piores. Parecia que eles não podiam mais ficar um dia sem trocar xingamentos e ofensas. Eles precisavam disso, mesmo dizendo que não. Todos eles.
Michael estava sentado no sofá, fingindo algumas lágrimas pois ninguém quis comprar jogos novos para o seu videogame. Meu pai gritava dizendo que nada na vida dele dava certo e que todos ao seu redor só faziam merda.
É claro, a culpa é sempre das outras pessoas, nunca dele. Ele é apenas um bom homem que sofreu durante toda a sua infância e que merece descansar ao lado da mulher que ama enquanto fica velho. Mas não consegue, porque todos ao seu redor insistem a incomodá-lo o tempo todo.
É claro.
– Estamos fodidos –, meu pai dizia. – Estamos completamente fodidos. Já me cansei dessas pessoas tirando o pouco dinheiro que eu tenho... Michael não para de gastar com aqueles malditos jogos, e Gerard... Porra, Gerard, por que você não estuda? Não quer ser ninguém na vida? Não siga meu exemplo, Gerard, estude... Você é inteligente.
– Gerard desenha, isso é o suficiente para ele. –, disse a minha mãe, tentando ser compreensiva, mas demostrando uma clara decepção na voz. – Se é isso que ele quer, deixe-o fazer isso.
– Desenhar? Que futuro alguém que desenha pode ter? Você poderá vender alguns desenhos, alguma merda dessas, mas nunca conseguirá ter uma vida relativamente boa. Gerard, você não percebe que talvez nunca achará uma esposa se continuar assim? E você nunca terá filhos, Gerard... Você vai morrer sozinho com seus desenhos.
– Donald, por que você sempre tem que tentar humilhar as pessoas desse jeito quando está estressado?
– Mas você tem que perceber, Donna, que a vida não é bem assim. Alguém tem que chamar esses garotos para a realidade.
– Que se foda. – Sussurrei, pegando um moletom e me dirigindo para a porta. – Que se fodam todos. Não passam de um bando de hipócritas.
– Onde você está indo, Gerard? –, perguntou minha mãe, levantando-se do sofá. – Agora deu nessa de inventar de sair do nada, indo para lugar nenhum. Daqui a pouco estará como um daqueles drogados que nem em casa param.
– Vou andar, mãe. Preciso parar na casa do Ray pra falar de umas coisas da escola e tal. Eu não demoro. – respondi, saindo.
Já estava quase escuro, pois já passava das cinco horas de uma tarde de inverno.
Eu não estava indo ao Ray, realmente. Na verdade, eu nem falava direito desde o dia em que ele começou a rir da minha cara e me trocar pelos seus velhos amigos. E, sinceramente, eu nem fazia questão de falar com ele. Pessoas desse tipo não me faziam falta.
Quando dei por mim, já estava a uns quatro quarteirões de casa. Eu odiava sair naquele lugar... A cidade era pequena e a minha família era grande, isso significa que você acha um parente a cada esquina. Se você der um passo fora do lugar, com certeza terá algum filho da puta pra falar pros seus pais no outro dia.
Eu ainda andava com a cabeça baixa e rapidamente, tentando fazer de tudo para ignorar os olhares ridículos daqueles fortões metidos a grande merda que da vizinhança insistiam em me lançar. Quando percebi que já estava praticamente seguro, voltei a caminhar mais devagar e acendi um cigarro.
Ao final da rua, havia uma árvore. Já era mais vazio naqueles lados, então não se via ninguém. E o melhor era que eu sabia que nenhum conhecido dos meus pais morava por lá.
Encarei ao redor da grande árvore, galho por galho, torcendo para ninguém aparecer. Não, eu não estava fazendo nada de errado, mas também não gostava de pessoas me observando. Principalmente adultos.
Sempre com seus olhares rígidos e nos cobrando coisas. “Faça isso, faça aquilo... Ou você não será ninguém na vida”. Parece que as cobranças eram a parte mais importante e divertida de ser adulto.
Mas, caralho, eu não me via daquele jeito. Eu não me via casado e com filhos. Eu não me via levando a vida banal e cheia de problemas que os meus pais tinham. Sinceramente, eu preferia morrer.
E, mesmo que eu tivesse filhos e a porra toda, eu não me via sendo como o meu pai. Ele nunca esteve no meu lugar? É claro que já esteve... Mas ele mudou. E, porra, eu não me via mudando daquele jeito só porque pessoas ridículas me cobravam essas mudanças.
Eu já me encontrava encima da grande árvore. E, caralho, como eu amava aquele lugar. Muitas pessoas diziam que outras pessoas tristes e deprimidas costumavam usar a tal árvore para cometer suicídio através de enforcamento.
Eu não me importava. Porque, afinal, qual era o problema de estar no mesmo lugar em que pessoas que sofreram pra caralho estiveram? E esse parecia um bom jeito de se morrer, realmente. Um lugar silencioso, bonito e pouco movimentado. O lugar que eu costumava refletir sobre os meus problemas durante a minha adolescente... Poderia ser, com certeza, um bom lugar para terminar a minha vida depois que ela estivesse quase completa.
Mas não agora.
Fui trazido de volta à realidade com o barulho do meu celular tocando.
– Fala, Zacky! –, atendi, com um falso entusiasmo na voz.
– Gerard, meu amigão! A gente tá numa puta festa agora, todos da escola estão aqui e, sei lá, achei que você poderia querer dar uma passada aqui.
– Eu, ah, no consigo te ouvir. Deixa eu mudar de lugar que já te ligo, OK? – Menti.
Desliguei o celular sem saber o que fazer. Eu não sabia me misturar com essas pessoas “normais”. Pessoas civilizadas, que dançavam ao som de música eletrônica e vestindo roupas que a última revista de modo disse para eles que deveriam usar, e se esfregando como animais.
Mas eu não perderia, pois era assim que me conheciam.
Desci da árvore rapidamente, rumando para casa. Eu precisava de novas desculpas para sair de casa. Eu não poderia perder, mesmo não querendo ir. Eu poderia até não saber socializar com aquele pessoal, mas não há nada que algumas latinhas de bebidas não mudassem.
É. Por fora eu era assim, festas, bebidas, namoros, amigos. Por dentro, eu era fodido, eu era ridículo.
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