Mayakashi
3 O Sorriso do Garoto
Notas iniciais
Capítulo 3: O Sorriso do Garoto.
Utagai wa hodoketa hazu
(Minhas dúvidas já deveriam ter desaparecido)Tooikake you no nai sappuukei
(Mas esse desgosto que não faz questão alguma)
Dakiau dake muimi to
(Está apenas me fazendo abraçar o nada)
O sol daquela tarde estava colorido de um tom alaranjado tão nostálgico que ele, por um momento, sentiu os olhos arderem.
Roxas lembrava-se, em momento assim, do primeiro dia em que pisara em Ohme; de como achou aquela cidade — aquele pedaço de um paraíso merecido após o inferno passado em Tokyo — um lugarzinho solitário e pequeno. Havia uma aura melancólica naquelas ruas, ou talvez ele estivesse vendo coisas, mas... Havia algo. Algo que o deixava profundamente mortificado.
Dividia suas noites, aquelas horas tão ou mais melancólicas que a solidão rodeada de pessoas do colégio, entre leituras e estudo. Às vezes, computador. Mais raramente ainda, TV. Engraçado, ele pensava...
Achara, sinceramente, que iria apoiar-se para sempre na internet, agora que estava em um lugar sem civilização. Mas, ao contrário do que achou, ele mantinha-se muito longe de qualquer rede de socialização, fora da realidade ou dentro dela.
Pelos deuses, não queria nunca mais aquilo...
Porque lembrava-se, com uma dor que ameaçava consumi-lo, de como foi horrível ter que olhar no rosto de Hayner, Pence e Olette quando o caso que ele tanto escondeu por tanto tempo veio ao conhecimento público.
Jamais conseguiria retratar com as palavras certas, por mais que tentasse, mesmo se usasse todo o dicionário, a vergonha, o medo, a tristeza — e tantos outros sentimentos que vieram junto, que se misturaram e não conseguiram ser diferenciados daquela agonia que era o próprio Roxas naquele momento — de ter seus amigos o olhando daquele jeito, incertos do que fazerem a seguir.
Aquele abraço que Olette lhe dera tinha um gosto amargo que perdurou em sua boca por muito, muito tempo.
Sequer tivera coragem de se despedir dos amigos de infância. Simplesmente dera adeus àquela cidade e a todos os que conhecera daquele jeito, uma palavra soprada ao vento, uma saudade, e apenas isso. Apenas por precaução, apagara os números deles de seu celular (e, mais tarde, trocara o próprio número), apagara todo e qualquer registro de si que pudesse ter na internet e também deu adeus àquele Roxas.
Nunca mais queria ter que dar adeus daquele jeito...
Às vezes, pensava em como eles deviam estar. Será que estariam magoados? Muito bravos com aquela atitude egoísta? Afinal, foram amigos por tantos anos.
Dormiam um na casa do outro, estavam sempre juntos comprando revistas, games, fazendo economias para alguma viagem juntos... Roxas lembrava-se com nostalgia daquele quarteto o qual fez parte um dia; agora reduzidos a um trio o qual ele não mais tinha notícias. Só esperava que estivessem bem.
Parecia tão certa a amizade deles...
Tão... Direita...
Quando foi que ela simplesmente esfacelou-se diante dos olhos de todos, como se fosse apenas um vidro tão frágil que só de tocar ele...
Ah, claro.
Foi ele. Foi aquele dia.
O loiro sorriu, amargo. Absolutamente tudo, não importava o quão ínfimo e sem sentido parecesse — simplesmente tudo convergia para aquele dia e para aquela pessoa.
Meneando a cabeça, Roxas fechou sua pasta.
Não adiantava chorar o leite derramado (ainda mais). A questão era: não via Hayner, Pence e Olette há mais de um ano, e continuaria assim... Para sempre. Ou, ao menos, por quanto tempo ele conseguisse manter aquela distância.
Era uma vida e lembranças que ele não queria mais.
Desviou, então, os olhos para a janela, observando o sol poente e alaranjado. O pôr-do-sol no interior era sempre assim tão lindo? Quase sentiu inveja de todas aquelas pessoas por estarem escondendo algo tão bonito quanto aquela imagem por tanto tempo de todos.
(E, com um sorrisinho, lembrou-se de que, certa feita, de sua casa, havia tirado uma foto com o celular do exato e perfeito momento onde o índigo da noite e o alaranjado do fim da tarde ainda se misturavam).
Era isso, pensou. Simplesmente isso.
Hora de seguir adiante e suportar aquela nova vida — porque ele a preferia um milhão de vezes, preferia aquela solidão corrosiva do que o desespero de estar cercado de gente e, ao mesmo tempo, continuar sozinho.
Porque era assim que sentia naquele tempo.
Dignou um último olhar à sala de aula. Estava vazia; ele sempre desaparecia providencialmente por tempo indeterminado, nunca participando, portanto, da confraternização que era a limpeza da sala (não, mentira. Uma vez só foi pego e fez seu serviço, mas ficou tão quieto e arisco que achava que eles não queriam mais que o menino permanecesse ali).
Provavelmente, sabiam que ele voltaria para pegar suas coisas, porque sempre cabia a Roxas fechar a sala e entregar a chave à professora responsável pela classe. Até chegar lá, porém, ele tinha um corredor e um silêncio todo pela frente.
Era bom, pensava. Porque somente nesses momentos é que podia respirar com alívio... Estava, afinal, sempre tão tenso em classe.
Não queria aproximar-se de ninguém
— e também não queria ser salvo por ninguém outra vez. Nunca mais aquela decepção. Mas era difícil; principalmente quando, no recreio, via as classes juntando-se e as pessoas rindo, com suas vidas normais e corriqueiras.
Invejava aquilo.
E lembrava-se com uma nostalgia que o embebia até o próximo professor entrar dos tempos em que ele também era só mais um naquela massa acéfala e sorridente que eram os alunos de colégio (se bem que, na época, ele e seus amigos ainda eram ginasiais).
Após enfim terminar sua peregrinação até a Sala dos Professores (a responsável sempre o olhava de uma forma que o fazia querer gritar — maldita ficha escolar, não pudera esconder seu pecado dos professores), o loiro respirou fundo, olhando para o teto por um momento.
— Certo. Coragem, Roxas — ele disse a si mesmo, voltando a caminhar.
Mesmo com toda a escuridão que ele atravessava (sem maiores problemas, depois que se acostuma) todos os dias, um rasgo de luz, um tímido raio de sol, ousou penetrar e tomar conta de sua consciência.
Sentia medo. Medo, porque parecia que tudo era apenas um sonho bom, e um dia ele acordaria, um dia, em sua cama, em Ohme, sozinho de novo.
...Ou pior, acordaria em Tokyo, e sentar-se-ia à mesa com os olhos de seu padrasto o observando, queimando-o de cima a baixo.
Mas era um medo tão repleto de felicidade — porque ele esquecia-se de seus problemas, de todos eles — que lhe dava medo, ansiedade, conforto, tudo ao mesmo tempo. Era estranho, precisava admitir... Nunca antes sentira algo assim, e quase achou que estivesse apaixonado (Hayner riria se ouvisse isso).
O céu já começava a exibir os primeiros tons de azul-índigo, o profundo tom da noite que se anunciava, enquanto algumas pequenas estrelas já atravessavam-se no tecido alaranjado, impacientes.
Em frente ao portão da escola, uma pessoa encarava o celular; a luz azulada da tela iluminava parcialmente seu rosto.
Roxas parou, respirando fundo outra vez.
A sensação de que tudo era só um sonho não parava de assaltá-lo. Era angustiante e incômodo, mas para alguém que atravessara aquele longo caminho sozinho, aquele era só um medo derramado de um corpo, como o leite. Não adiantava chorar sobre ele.
Sinceramente, ele preferiria um milhão de vezes ter tido aquele sonho feliz do que jamais tê-lo concebido. Acordaria, é verdade, mas lembrar-se-ia com um sorriso da pequena felicidade.
Era o bastante, ele aprendeu com a vida.
Sempre era o bastante.
Apressou, assim, o passo, e seu caminhar chamou a atenção da pessoa que estava esperando no portão.
— Desculpe a demora, Xion! — ele sorriu-lhe.
E a menina devolveu o riso.
------ # III # ------
— E então? Como foram?
Roxas baixou os olhos, contendo um riso.
— Acho que desisti de sequer pensar em um resultado pra essa prova... — confessou, dando de ombros. — Tudo o que sei é que a Xion vai tirar 100 de novo.
Axel cruzou os braços, também sorrindo.
— Nenhuma novidade, né?
A morena apenas corou diante dos dois comentários.
— Não é verdade... Uma vez, eu tirei 98...
O mais velho e Roxas encararam-se, ambos provavelmente pensando na mesma coisa, e não suportaram mais segurar o riso.
Xion, pacientemente, esperou que os dois terminassem, mantendo no rosto um rastro do vermelho que a invadiu anteriormente. O rosto, porém, pincelado com um toque de humor diante da cena deles.
— Bom, você vai entrar para a Toudai, então precisa mesmo estudar desde já, Xion — Axel, enfim, pronunciou-se, colocando uma mão sobre sua cabeça.
A garota encolheu os ombros, concordando.
Roxas, por outro lado, teve uma reação bem menos educada do que esperou (mas não podia culpar-se, foi mesmo uma surpresa).
— Toudai!?
— Ah, eu não... Contei? — ela o encarou.
Pelo rosto de Axel (e pelo comentário dele também, já que fora ele quem iniciara esse tópico), o único que realmente não devia saber do assunto era o próprio loiro. Ele, então, engoliu uma pergunta e apenas meneou negativamente a cabeça, esperando que aclareassem aquela afirmação.
— Bom, eu vou tentar a Toudai daqui a dois anos... — confessou, outra vez sentindo o rosto esquentar.
Fazia sentido, pensando bem...
Ela era uma excelente aluna. Estava sempre tirando boas notas, era boa nos esportes — talvez a única mácula fosse sua personalidade tímida em excesso, mas os professores a queriam bem e ela não tinha inimizades (aparentemente). Era mesmo uma típica aluna-modelo-certinha.
Roxas bem que lembrava-se de vê-la ler um trecho em inglês, na aula, quando eles ainda não eram amigos, e de ter ficado deveras impressionado com o domínio dela na matéria. Ia além do nível comum.
(Bom, ultimamente ele havia estudado bastante com ela no recreio. Se bem que, às vezes, eles mais bagunçavam do que realmente estudavam... Mas era bom. Roxas sentia falta disso).
— Não sabia — murmurou, enfim.
— Desculpe, eu realmente devia ter...
A mão de Axel sobre a cabeça de ambos, num bagunçar de cabelos quase que paternal, porém, os impediu de continuarem.
— Vocês dois são tão travados!
"Que incrível...", ele continuou pensando.
— É que não tem como não ficar surpreso com isso! — devolveu o loiro.
— Bem, não posso culpá-lo mesmo... Eu também fiquei bem chocado, apesar de ser o natural, né — concordou.
— É natural? — dessa vez, até Xion ergueu a sobrancelha.
— Digo... Se você é uma pessoa inteligente, tem mais que prestar uma boa universidade. É a lógica, não é?
Roxas riu, então:
— A vida seria tão mais fácil se todos pensassem como você, Axel.
E, em seguida, sentiu a mão dele em sua cabeça de novo.
— Ei, eu falava sério!
Enquanto aquela atmosfera tão calorosa, a qual o garoto tanto desejou desde que pisara naquele lugar, aquecia-o por dentro, uma outra coisa brotou, como uma planta o faz de baixo da terra.
Xion já até sabia o que queria da vida. Prestar uma boa universidade e, portanto, mudar-se dali. Morar sozinha, provavelmente. Ela era só uma colegial, mas ali estava... Uma pessoa com sonhos maduros o bastante. E se esforçava, ele via isso, todos os dias para concretizá-lo.
Axel também. Ele estudava e trabalhava — apesar dele ser um pouco mais misterioso que a menina —, e era tão jovem, mas já tinha a vida feita!
...E quanto a ele? Quanto a Roxas?
Preso no tempo há mais de um ano (pensando bem, ele estivera preso no tempo desde o seu primeiro abuso — há bem mais tempo), tudo o que estava fazendo era lamentar e brincar de vítima, sentindo pena de sua própria tragédia, erguendo e baixando as cortinas de sua dor particular ao seu bel-prazer.
Uma sensação sem nome o invadiu ao encarar Axel outra vez, fazendo desaparecer até o sorriso que planejava mostrar.
— Opa! — o ruivo tirou a mão da cabeça do garoto. — O que foi, Roxas? Que cara é essa?
Ele não entendera a atitude do outro.
— Hã... Não, não é nada...
— Está se sentindo mal, Roxas? — Xion insistiu.
— Não, está tudo bem...
E jamais entenderia.
Porém, se pudesse ler pensamentos, saberia o porquê de Axel ter fremido os lábios, impotente.
Porque, naquela noite, naquela igreja, naquela solidão que foi brutalmente interrompida, Axel ouvira uma história que não deveria. E que, invariavelmente, ficara marcada em sua consciência, roubando-lhe todos os pensamentos.
Ele compreendia aquele menino.
Talvez, não em um nível completa e perfeitamente profundo, porque não sofrera o mesmo, e não eram a mesma pessoa, mas... Mas ele compreendia. Ao menos, imaginava que devia estar sofrendo muito. Que haviam coisas que ele jamais poderia fazer de novo com normalidade. Que, para sempre, haveriam muitas limitações, físicas e psicológicas, na vida de Roxas.
Era deveras triste pensar naquilo, porque o garoto era tão jovem... Uma vida toda pela frente, e ela já fora tão abruptamente capitulada com aquele episódio grotesco. E, o pior de tudo: era passado. Acabou.
Não havia mais nada o que se pudesse fazer.
Só restava varrer, para sempre, a sujeira e a poeira, e esconder debaixo do carpete ou colocá-la para fora. Um ciclo interminável, porque a sujeira sempre voltaria, hora ou outra.
Ele havia insistido tanto com Xion para que ela continuasse tentando angariar a confiança do garoto porque imaginava — depois daquela confissão — que era isso o que ele mais precisava.
E, agora que também podia estar perto do garoto e observá-lo de perto, percebia o quanto ele era bem mais frágil do que pareceu naquela noite.
"Eu devia parar de me envolver em problemas", pensou, amargo. Porque já tinha os seus próprios; e eles eram negros. E pesavam.
Mas já era tarde demais. A ligação já estava feita.
— De verdade? — Xion o encarou.
O loiro assentiu com muita vêemencia:
— Estou bem, mesmo — e forçou um sorriso mais animado. — Desculpe, acho que fiquei pensando demais no resultado da prova...
A morena suspirou, aliviada.
— Ah, não se preocupe com isso! Você também é muito bom aluno.
Axel, naquele momento, como um expectador que de longe observa o desenrolar de uma peça de teatro, sem poder tocar ou se envolver, fez tudo o que podia naquele momento:
— Então, por que não ficam por aqui e comem algo? — e sorriu. — Mas dessa vez, não é por conta da casa.
Roxas riu. — Droga, estava contando com isso...
— Ordens superiores, desculpe — e o ruivo também.
— O que acha, Roxas? — Xion virou-se para ele. — Podemos dividir a conta. Já vamos fazer isso com a pizza mesmo.
— Sim, sem problemas
— Muito bem, então eu vou lá pedindo e guardando um lugar.
— Obrigado, Xion.
— O de sempre?
— O de sempre — assentiu.
Xion desapareceu pela porta dos fundos, deixando os dois entreouvirem o barulho do estabelecimento cheio.
Roxas levantou-se e limpou a poeira do uniforme escolar.
Vê-lo fazer aquilo pareceu trazer à tona alguma coisa. Algum sentimento, alguma vontade. Uma ânsia estranha. Axel engoliu em seco, não sabendo sequer por onde devia começar.
Houve um momento, tão rápido que pareceu nem ter existido, e tão longo que pareceu levar toda uma eternidade.
Mas ele existiu, e ele foi o culpado. Era o que Axel, mais tarde, pensaria. Ali é que começara tudo. Bem ali.
— Roxas...
O garoto virou-se, o sorriso congelado no rosto.
Estavam sozinhos, enquanto a lua iluminava aquele sorriso de quem não sabia que havia sido traído desde o início.
— O que foi?
E Axel apenas suspirou.
...Desde o início.
— Não, não é nada.
------ # III # ------
O loiro fechou a porta, e observou a luz da TV na sala como sendo a única coisa que iluminava a casa.
Passara pela cozinha, e ela estava impecavelmente limpa. Na verdade, surpreendeu-se; ele não havia passado tanto tempo fora. Estava com Axel e Xion nos fundos da pizzaria de novo, mas lembrou-se que não podia chegar muito tarde em casa. Despediu-se e seguiu seu caminho, pensando no que dizer se sua mãe resolvesse brigar com ele.
Mas, pelo visto, ela havia cuidado da cozinha para ele, e ido trabalhar (ela parecia uma criança — não conseguia fazê-lo sem a TV).
Aproximou-se com passos cautelosos e abafados ("de gato", sua mãe já comparara. "Passos de gato") da sala, imediatamente percebendo o quanto estava frio lá dentro, graças à janela que a mulher deixara aberta. Suspirando, ele foi até lá e a fechou, censurando-a mentalmente.
"Não sei como ainda não pegou uma gripe...", revirou os olhos.
Os cabelos — loiro-escuros como os seus. Sempre disseram-lhe que era a cara de sua mãe — estavam espalhados na mesa de jantar, que ela sempre usava para trabalhar. A mesma estava cheia de papéis, e uma calculadora que indicava algum número absurdo de seu trabalho ainda piscava.
Ali estava. Nama-san. Sua mãe.
A mulher que ele chegou a odiar.
Desde que o pai dele havia morrido (uma complicação tão séria para uma mera gripe. Roxas sempre teve medo de gripes por causa disso), Nama havia criado-o e sustentado sozinha.
Compreendia a dor que sua mãe devia carregar e, portanto, Roxas foi sempre um bom filho. Não a incomodava, trazia o mínimo possível de confusões ou desejos custosos para o Natal. Propositalmente, esquecia seu aniversário (mesmo que não desse muito certo na maioria das vezes — ela lembrava), na esperança de poupá-la. Até mesmo ficou feliz por ela quando, depois de tanto tempo, finalmente anunciara que estava amando uma nova pessoa e que ele iria ser seu novo pai.
...A felicidade de sua mãe.
Ela nunca, jamais deveria ter sido quebrada daquele jeito.
Ela estava sempre tão feliz com ele.
Uma figura paterna para Roxas, uma pessoa para dividir seus problemas, as finanças e as alegrias. Uma pessoa que a fazia sentir-se especial de uma forma que seu filho não conseguia.
O homem que fazia mamãe feliz...
Roxas aceitou-o.
Aceitou-o até quando não deveria — aquele trágico dia —, porque sua mãe não merecia aquele desgosto.
Ela amava aquela pessoa.
...Mas Roxas a odiava.
Os dedos do garoto deslizaram, num gesto suave, pelos cabelos da mulher. Ela pedira tantas, tantas desculpas por não ter percebido, por não ter ajudado "seu bebê" quando ele mais precisou.
"Mas, mamãe, não foi sua culpa...", ele quis dizer. Ainda queria.
A culpa foi dele. Ele é quem havia escondido aquilo de todos.
Ele é quem decidira aquilo.
Ele é quem não queria que a felicidade de sua mãe — a felicidade dela — fosse destruída daquele jeito.
Teria suportado todos os abusos do mundo, pelo tempo que fosse necessário, se aquele homem tivesse continuado a fazê-la feliz.
Mas...
— Mãe? — ele, então, a chamou, a mão ainda nos cabelos dela. — Não pode ficar aqui, vá dormir direitinho na sua cama.
Mas...
------ # III # ------
O rapaz jogou a mochila no sofá e encarou-a, distante.
Uma vontade inexplicável de pegar o próximo trem para Tokyo o assaltou. Duas estações depois da que costuma parar para a universidade, estava o hospital.
Ele desejou muito poder pegar o trem e que não houvesse aquela irritante placa de "Horário de Visitas: Encerrado" que as portas exibiam. Caminhar de novo por aqueles corredores branquíssimos e sem-graça e chegar àquele quarto.
Sabia que ela não podia falar ou mesmo se mexer, mas...
Apenas queria estar lá.
Sentia-se ridículo, como uma criança desamparada. Uma sensação deveras humilhante, precisava admitir.
...Queria estar lá, com ela.
Ela sempre fora tão boa com ele naquelas horas.
E a verdade é que — não importava o quanto já houvesse se acostumado com sua falta, com a rotina nova e com o fato de não poder vê-la todos os dias, como queria — ele sempre contara com ela para tudo.
E estar sem o único pilar de compreensão que tinha até então era... Desesperador. Mais do que isso, solitário.
...Era simplesmente...
— Errado — capitulou em voz alta.
...Que coisa. Sentia-se de novo como o moleque que ficou passando de mão em mão até a maioridade.
Será que, afinal, não fora por isso que ficou tão interessado no garoto?
Por que ele também lhe trazia aquela nostálgica sensação de...
...Não.
Balançando a cabeça com uma negação tão firme que o surpreendeu (um pouco), Axel olhou para o relógio da parede, percebendo que tinha pensado demais.
Era hora de seguir com a vida, como todos faziam. Algum dia — porque a esperança era a única que restava em momentos assim — as coisas voltariam ao eixo habitual. Algum dia... Ele esperava, ao menos...
...Mas, por outro lado, tinha a mais plena certeza de que aquela seria uma péssima noite.
------ # III # ------
O garoto mantinha os olhos colados ao chão, quase como se estivesse caminhando pela própria estrada de tijolos amarelos.
Xion não era a Representante [3] (na verdade, nem sequer fazia parte do Conselho Escolar — incrivelmente, porque Roxas sempre achou que meninas tão inteligentes e boazinhas como ela deviam ser automaticamente convocadas), mas ficara encarregada de levar as cópias para a próxima aula de Prendas Domésticas para a sua classe.
Porém, os papéis eram muitos, e o loiro acabou oferecendo-se para ajudá-la a carregar tudo aquilo.
O professor que a estava entregando as cópias já olhou-o como se não acreditasse no que via. De dentro da sala (ó, vergonha!), Roxas percebeu que outras duas pessoas faziam o mesmo. Inclusive a professora responsável por sua classe (já mencionara vergonha?...).
— Me desculpe por isso, Roxas... Você estava ocupado?
— Ah, não... Tudo bem, Xion — ele forçou um sorrisinho. — Você não podia levar tudo isso sozinha e eu não estava fazendo nada, mesmo.
— Mas você está com uma cara tão...
Bom, ele estaria bem mais tranqüilo se toda pessoa que os visse juntos não fizesse uma cara de quem não está acreditando no fato; a mesma cara do professor das cópias. Será que era tão estranho assim?
Tudo bem, a fama que ele havia trazido com sua presença, em Ohme em geral, era a de alguém muito taciturno e avesso à novas amizades e experiências. Um garoto misterioso cuja voz quase nunca se ouvia, e os olhos viam-se menos ainda. Estava sempre andando sozinho e raramente era visto pelos corredores (como se tivesse algum poder de desaparecer da sala e da escola inteira! — apesar de ser somente uma certa rapidez e conhecimento dos horários escolares).
Mesmo assim, ele não achava que seria tão surpreendente assim vê-lo ajudar uma colega necessitada. Mais do que "aquele estranho" estar andando com Xion, que também não era nenhuma "menina normal", eles estavam surpresos com o fato do estranho ter saído de sua concha solitária, mesmo.
"A única coisa realmente ruim de se morar no interior deve ser isso", concluiu. As 'lendas urbanas' não estavam erradas, afinal!
— Ah, isso... — ele expirou, aliviado por perceber que, pelo que ela havia falado, ele não chegava a estar totalmente vermelho. Se bem que sentia seu rosto queimando. — Bom, é que todos estão me olhando... É meio...
— É que foi meio surpreendente mesmo, você estar me ajudando e tudo.
— É mesmo...?
— Sim — assentiu. — Eu tive que tomar muita coragem pra falar com você da primeira vez! Na verdade, você dá muito medo nos outros, de verdade. Fica tão isolado e sozinho.
Ótimo, agora o loiro tinha certeza de que estava vermelho.
— Err... Desculpe, eu acho...
Xion apenas sorriu diante do rosto cabisbaixo:
— Tudo bem — deu de ombros. — O importante é que, ao menos, comigo e com o Axel você age... Hum...
Ela pareceu buscar alguma palavra que substituísse aquele "Normal" que Roxas previu que viria.
— ...Como um garoto da sua idade. É.
Roxas também permitiu-se sorrir.
Aquela sensação de que, afinal, ela e Axel eram como sinais de Deus esteve mais forte do que nunca naquele ínfimo momento.
— Ou seja, nas outras horas eu pareço mais velho?
Mais uma vez, ela ficou pensativa.
— Acho que sim... — concordou, enfim. — Já ouvi algumas meninas comentando que acham você estranho, mas que seu rosto pensativo, "como se estivesse contemplando alguma coisa muito distante", de acordo com as palavras delas, é muito... Bonito. Foi o que falaram.
A vontade de rir de Roxas só não foi maior que a vergonha que ainda se apresentava ao sentir as pontadas quentes dos olhares alheios em suas costas.
— Elas falaram isso mesmo?
— Você se surpreenderia ao perceber o quão popular é!
O loiro não agüentou-se, e sorriu. — Não acredito!
— É verdade! — Xion devolveu, também com um sorriso no rosto.
Engraçado...
Ele lembrava-se de sua época do Ginásio. Não era assim tão popular lá; talvez porque, naquela época, ainda não tivesse nenhum problema ou segredo. Era só um garoto normal de sua idade, com amigos e uma vida igualmente normais.
Será que as garotas, afinal de contas, ficavam atraídas por meninos meio melancólicos? Jurava que nunca ia entender aquele gosto estranho!
— ...Já vi que é tarde demais pra tentar algo diferente, então — ele concluiu, dando de ombros, ainda sorrindo.
Xion, por outro lado, pareceu bem mais animada ao entendê-lo:
— Então, pretende se enturmar?
Sinceramente? Não muito. Até porque ele tinha uma sensação incômoda de que, se ousasse realmente tentar fazer amigos, iria tropeçar.
E, além disso, as pessoas dali não pareciam levar Xion muito a sério também. Ela era como... Não sabia explicar, era como uma presença invisível. Não queria ser monopolizado e renegá-la a algum canto escuro.
Preferia daquele jeito mesmo; ela, Axel e os fundos da pizzaria, à noite.
Era bem melhor assim.
— Bom... Acho que meu ciclo de amigos já está bom — suspirou. — Uma antiga tradição da minha família diz que nunca posso ter um número ímpar de amigos, então...
Ela riu. — Ah, é?
— É, senão uma maldição horrível vai cair sobre...
Antes, porém, que pudesse acabar a frase, ele engoliu-a protamente quando uma figura apressada esbarrou na garota, levando os papéis ao chão.
— Mas o que... — a voz era arrogante. Irritantemente arrogante. — Ah, ora. Se não é o senhor Peixe-Morto com sua nova amiguinha.
...Ah, claro. Seifer.
O mais irritante membro do Conselho Estudantil (na verdade, ele era só o maldito secretário, mas agia como se fosse o presidente). Roxas não havia se encontrado com ele, porque sua sorte o impedia de encontrar qualquer figura causadora de problemas até então (ou talvez, era simplesmente aquela sua rapidez para sumir da vista de todos).
Ouvira falar dele, é claro: um maldito causador de problemas. Tinha uma idéia muito "própria" de ordem, e fazia questão de que todos a seguissem.
E, claro, era um arrogante desgraçado. Ao menos, era assim que o loiro classificava gente como ele.
— Você esbarrou em mim — ele virou-se para a morena.
— Ah... — ela engoliu em seco. — Eu... Des...
— Corta essa.
Se havia algo que Roxas não suportaria era justamente aquilo: idiotas que achavam que, só porque eram um pouco mais velhos, um pouco mais fortes, tinham um pouco mais de nível na cadeia alimentar, se achavam no direito de incomodar os outros, forçar sua presença desagradável à eles.
...Afinal, pessoas assim desesperadamente o faziam lembrar daquele desgraçado, que também abusou de seu status para...
Além disso, verdade seja dita, aquele olhar arrogante de Seifer, como se Xion fosse uma idiota só por não ter lambido o chão onde ele pisava tão logo se encontrou com ele, era... Irritante. Só para dizer o mínimo.
— Xion, não peça desculpas pra esse idiota — o garoto avisou.
— O que você disse?
— Foi você quem esbarrou na gente — devolveu, sem deixar-se ameaçar (já estava acostumado. Em sua outra escola, era assim também...). — Era você quem devia pedir desculpas para ela.
O loiro aproximou-se do outro, observando-o de suas alturas.
— E quem é você para me dizer o que devo fazer?
— O que tá pegando, Seifer!?
Xion estremeceu, percebendo os dois que sempre andavam com o secretário aproximarem-se.
Roxas também já havia ouvido falar deles; Fuu e Rai. Nunca sabia quem era quem, porque os dois simplesmente estavam sempre junto daquele idiota. Só sabia que eram igualmente dois idiotas.
...E que Seifer, o mais idiota deles, ia usar da presença deles, em especial a do grandão que não parecia um colegial, e sim um universitário, para forçar algum respeito temeroso neles.
— Oh, Fuu. Rai. Chegaram em ótima hora.
— O que aconteceu?
— Esse garoto... — apontou para Roxas. — ...Ousou me responder.
(Oh, ótimo. Ao menos, parecia que ele nem estava mais prestando atenção em Xion. Um problema a menos).
Rai (provavelmente) estalou os punhos.
— Devemos dar uma aula extracurricular de Boas Maneiras à ele!?
— Pode tentar — o loiro devolveu.
Seifer pareceu divertido.
— Ora, então o senhor Peixe-Morto tem alguma vontade, afinal.
Porém, por uma ínfima distração, Roxas olhou para a sua direita, onde os estudantes do segundo ano o observavam, temerosos.
Certamente, um professor já fora avisado daquilo. Era questão de tempo para que fossem todos pegos e direto para a Sala de Advertência. Ele não podia deixar que Xion tivesse seu Relatório de Desempenho Escolar sujo por um motivo tão besta e, pior, por uma pessoa tão besta quanto aquele Seifer.
Virando-se para o outro lado, então, ele ajoelhou-se e passou a recolher os papéis caídos, surpreendendo a garota (e os valentões).
— Deixa eles pra lá — resmungou. — Vamos levar isso aqui para a sala, Xion. Já está quase na hora de entrarmos.
— Ah... Certo — ela assentiu, também ajoelhando-se.
Seifer estreitou os olhos:
— Não vire as costas para mim, garoto.
Para uma pessoa tão arrogante quanto aquele loiro idiota, Roxas pensou, alguém que virasse as costas e não lhe dirigisse sequer a palavra era perfeito. E era o que ia fazer.
Um grande momento de silêncio imperou, enquanto os dois idiotas observavam o idiota-mor parecer estremecer de pura raiva.
Dando um passo à frente, pretendendo seguir seu caminho, como era o plano inicial, Seifer aproximou-se de Roxas, o suficiente para que somente ele e Xion ouvissem suas últimas palavras.
— Você se meteu com a pessoa errada.
Roxas revirou os olhos.
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Uma coisa que Roxas não sabia, porém:
Seifer nunca fazia ameaças em vão.
------ # III # ------
"Como você está?
Ele não fez nada com você depois da aula?"
Roxas riu, na solidão de seu quarto.
Distraiu-se por alguns momentos, digitando o email de resposta à Xion em seu celular. Na verdade, precisava admitir que foi ótimo ter brigado com aquele idiota.
"Estou vivo, não se preocupe."
Uma mensagem lacônica e rápida.
Para a sorte dos dois, aquela briga não dera em nada, e o professor apenas limitou-se a uma conversa com os dois sobre limites. Não precisaram assinar nada, e Roxas insistiu até o fim que a culpa fora dele, e que Xion nada tinha a ver com aquilo. Ao menos, se sentiu mais satisfeito ao ver que ela não seria prejudicada.
Claro, depois precisou agüentar as desculpas dela por todo o caminho até em casa. Mas tudo bem...
Naquela noite, ele não poderia ir até à pizzaria. Prometera que ia voltar mais cedo para casa, já que sua mãe pedira durante o café-da-manhã. Ela voltaria tarde, e sempre ficava preocupada quando não estava para recepcioná-lo. Não pretendendo contrariá-la, ele aceitou a condição.
(Xion prometera que ia comer aquela especial pelos dois. Talvez, a única parte realmente invejável daquela história).
...Mas, diabos, sua mãe estava demorando hoje.
Imaginou que ela traria alguma comida de fora para que se sentassem juntos à mesa de jantar, como naqueles filmes bobos, e contassem histórias divertidas de seus dias.
Roxas, com um sorrisinho irônico, recordou-se das primeiras vezes que tentaram isso em Ohme.
Ele não tinha amigos e sempre mentira para Nama.
Dizia que havia feito um trabalho em grupos, que havia marcado três gols na aula de Educação Física ou somente recebido uma carta de amor que deixara no armário da escola. Eram histórias que faziam sua mãe sorrir, como que aliviada por seu filho estar superando aquele trauma, e a satisfaziam.
Pequenas mentiras que Roxas contava para salvá-la da verdade: não, ele não superara. E, quem sabe, jamais chegaria a superar.
Antes que pudesse perder-se em memórias infelizes, porém, o telefone o salvara.
Levantando-se num salto da cama, o loiro correu até a sala.
A voz de sua mãe, do outro lado da linha, pareceu finalmente acordá-lo para a verdadeira realidade: aquela era Ohme. Aquele era o presente. E já não havia mais nada que se pudesse fazer, de qualquer forma.
"Boa noite, Roxas querido."
— Boa noite, mãe... Onde está?
"Desculpe, eu te disse para chegar mais cedo, mas eu mesma não pude... Houveram alguns problemas aqui na firma..."
— Você ainda não saiu!?
"Não. E não vou sair tão cedo..."
— É muito grave? — preocupou-se. Ela não costumava ficar lá para fazer serviço-extra. Trazia-o simplesmente para casa.
"Não precisa se preocupar com isso. Voltarei, só que um pouco tarde... Acho que não precisa me esperar acordado..."
— Mas...
"Ah, quer que eu lhe traga alguma coisa?"
Roxas engoliu em seco.
Havia uma animação quase falsa naquela voz. Como se, sim, ela estivesse com um problema, mas, assim como ele, que simplesmente fingia histórias divertidas, ela também estivesse fingindo a sua.
Perguntou-se o quê poderia ter dado errado e se ela realmente estava até mesmo em Ohme e não em outro lugar. Nama podia fazer aquilo, e faria sentido, porque afinal ela sempre foi uma pessoa ocupada e ainda haviam problemas judiciais e das outras papeladas pendentes.
...Roxas não queria ser um mau filho.
Ele já fora até demais. Matara o marido de sua mãe. Destruiu sua carreira e suas chances de felicidade. Fê-la se mudar e abandonar várias coisas.
Ele... Não queria mais causar problemas.
— Não precisa, mãe — e, então, forçou um sorriso radiante, mesmo que ela não pudesse vê-lo. Precisava fingir aquilo para que sua voz parecesse também convincente e feliz. — Sei que está ocupada e, provavelmente, quando sair, as coisas já vão estar todas fechadas... Volte bem, só isso.
Um risinho do outro lado do fone avisou-o que sua mentira foi bem sucedida. Como sempre.
"Tudo bem. Então, vá dormir cedo, está bem?"
— Pode deixar — assentiu. — Lavarei a louça também.
"Muito obrigada, querido."
— Boa sorte, mãe. Até mais tarde.
"...Até mais tarde."
Roxas desligou o telefone. E, tão subitamente quanto aquele telefonema, uma solidão angustiante abraçou-o forte até demais.
------ # III # ------
...Ele prometera lavar a louça e dormir cedo, não é?
Bom, ao menos lavara a louça.
Mas, percebendo-se sozinho com aquela angústia sem-nome, o garoto soube que não conseguiria dormir. Nem tampouco tinha vontade de ficar naquela casa, subitamente sufocante. Apenas em nome dos velhos tempos, pulara a janela para isso, e não a porta, mesmo estando sozinho.
Ohme era mesmo muito melancólica à noite. Mas, de alguma forma, aquilo mais o acalmava em vez de piorar seu espírito. Era uma espécie de melancolia convidativa, como duas dores diferentes que atraem-se, não se repelem.
Andara sem rumo por um bom tempo, encarando aquela lua azulada num céu cheio de estrelas. Sempre sentia uma estranha vontade de chorar quando a via.
Era o mesmo tipo de lágrimas amargas que ele tinha vontade de derramar quando, enquanto fazia o dever de casa, enquanto tomava banho ou mesmo enquanto colocava seus sapatos, lembrava-se de um par de olhos cobiçosos, um quarto com cheiro de morte e...
...E não era hora de lembrar daquele tempo.
Talvez, nunca fosse.
Roxas achava melhor que esse dia nunca chegasse, realmente.
— Mas, realmente... É uma cidadezinha muito interessante... — comentou para si, em voz alta, tentando esquecer.
Uma pena que, dessa vez, esquecera seu celular na pressa. Pretendia explorar um pouco mais; se encontrasse alguma rua interessante, teria de rezar para que, amanhã, encontrasse-a do mesmo jeito curioso.
Distraído como estava, só notou quando ouviu-o chamar que havia alguém mais além dele na rua.
— Roxas?
Virando-se, surpreso, ele divisou a silhueta esguia de cabelos ruivos e rebeldes. Sentiu o coração saltar, provavelmente de susto.
— Ah... Axel?
O ruivo, também surpreso por ver o garoto na rua àquela hora da noite, ergueu a sobrancelha, encarando-o.
— O que está fazendo aqui?
— Hã... — como explicar a situação...?
O mais velho, porém, colocou uma mão em sua cabeça, interrompendo-o:
— Não deve ficar até tarde por aí, viu? É perigoso.
Outra vez, a mesma sensação de descrença que o invadiu quando comentou sobre assaltos por ali com Xion estava presente.
— É perigoso mesmo?
Por outro lado, Axel quase sentiu vontade de dizer que era.
...Bem, não que não fosse. Onde quer que existissem pessoas, existiria perigo. Aliás, ele próprio era um perigo.
— Tá, não é tão perigoso. Mesmo assim, não deve ficar na rua!
Roxas sorriu:
— Certo, papai.
Para o ruivo, ouvir aquilo foi como a pior das ofensas. Foi uma espécie de golpe, não do tipo que se pudesse ver ou tocar, mas que doía tão mais do que machucados físicos. Ele não pôde trair-se e deixar aquela dor aguda estampar-se no seu rosto, mas teve vontade. Observou Roxas, para ver se a própria expressão do garoto também mudaria, porque...
Imaginava que, se fosse difícil para ele, devia ser ainda pior para quem passara por aquilo. Mas, de qualquer forma... Não podia deixar ele perceber que aquela palavra — papai — não era um tabu apenas para o loiro.
— Nem ouse mais me chamar disso, ouviu? — ele fingiu estremecer de nojo. — Crianças me dão arrepio...
— Tudo bem, tudo bem — o loiro riu. — Desculpe.
Outra vez, estiveram encarando-se em um silêncio contemplativo, algo de quem procura qualquer coisa a ser dita.
— Estava voltando pra casa, é? — foi Roxas, então, que quebrou-o.
— Não consegui burlar o serviço. Saí mais tarde hoje — assentiu.
— Hum... Posso acompanhá-lo até sua casa?
— Hein?
O garoto quase sentiu-se corar.
— Hãã, eu sei que parece estranho, mas não tenho nenhuma intenção ruim, nem nada do tipo, juro! — meneou a cabeça, envergonhado. — Só estava caminhando e pensei, "bem, já que estamos aqui"... Mas não vou entrar nem nada, está tarde, e você precisa descansar, e...
O ruivo sorriu.
— "Intenção ruim", é?... — repetiu, rindo, para si. — Tá bom, Roxas, tá bom. Pode parar.
Ele suspirou:
— Obrigado...
— Eu não moro assim tão perto daqui. Quer mesmo acompanhar? Sua mãe não vai ficar...
Oh, mas isso não era da sua conta, era? Axel não soube como continuar.
— Não, sem problemas... Ao menos, até a esquina... Só preciso caminhar um pouco...
Ele voltou a andar, e o loiro o seguiu. Houve um breve silêncio entre eles, talvez uma falta de assunto típica, talvez ainda o suto do encontro, talvez porque um menino não devia estar àquela hora perambulando por aí, e...
— Sua mãe realmente não vai ficar preocupada?
— Hoje ela... Voltará tarde — ele negou.
— Ou seja, ela pensa que você estará dormindo.
— Não se preocupe, tenho tudo sob controle — ele deu um sorrisinho quase presunçoso, que Axel não associaria normalmente à Roxas.
— É mesmo...? Isso soou bem pouco convincente, devo dizer.
— Está tudo bem mesmo, sério — assentiu.
Estava mesmo?...
Axel não sabia se devia mesmo aceitar que um garoto andasse com ele, mesmo numa cidadezinha, num momento tão silencioso e escuro como aquele. Era meio perigoso, além disso, de alguma forma, não parecia certo.
Ele suspirou. Aquela ia ser uma longa volta para casa...
— Mas e você, aliás? Qual a sua desculpa para estar aqui? — bom, tinha de admitir: estava curioso.
— Hum...
Outra vez, o garoto lembrou-se de ter falado sobre algo assim com Xion.
Naquele dia, sentira vergonha de admitir seu hobby esquisito, mas agora era apenas... Como dizer? Uma parte dele que sabia que aceitariam. Até porque imaginava que sabiam que aquela era uma cidade pequena, mas muito curiosa.
— De vez em quando, eu gosto de sair e perambular sem rumo — confessou.
— É mesmo?
Ajeitando a mochila nas costas, Axel parecia realmente surpreso ali.
— O que tem de bom para ver por aqui?
O outro sorriu. — Ah, tem várias ruas bem curiosas... Às vezes, quando passo por elas, me sinto como num filme de terror.
— Já experimentou passar na minha rua? Aquilo é um terror.
— É muito escura?
— Nem tanto — suspirou. — Mas é um terror por si só. Os vizinhos, Roxas... Quem precisa de ruas escuras e frias quando se tem vizinhos como aqueles?
Ele pareceu sem-jeito.
— Não conheço praticamente ninguém daqui...
— E, sinceramente, faz muito bem — outra vez, o sorriso sarcástico de Axel brotou. — Certas pessoas simplesmente não merecem que percamos nosso tempo com elas.
— Sim... Está certo... — assentiu.
O sorriso aumentou:
— ...Como o Seifer, né?
E Roxas, em comparação, sentiu seu estômago dar um súbito giro de 180º e se reduzir ao tamanho de uma semente, não exatamente na ordem.
— Vo-você soube...!?
— A Xion esteve comigo hoje — deu um tapinha na cabeça do garoto.
— É... Mesmo... — ele suspirou.
Engraçado. Então era assim que os caçulas sentiam-se, quando subjugados pelo olhar de um irmão mais velho?
Roxas não sabia o que esperar de Axel, quanto àquela história. Na verdade, não sabia o que esperar de Axel em geral. O rapaz movia-se a atos tão contraditórios. Ora estava tão focado e sério — uma ruga de preocupação que preocupava o próprio loiro —, e ora estava simplesmente... Axel. Não sabia descrever com uma palavra melhor.
Por isso, naquele momento, esperando por algum comentário ou reprovação, não sabia de verdade o que esperar dele. E, de alguma forma, aquela falta de chão o deixava nervoso.
— Por que fez aquilo?
Oh... Uma reação parecida com a do seu professor?
— Bom, eu... Ele estava se aproveitando da Xion, e então...
— Bah, não perguntei isso — ele deu de ombros. — Por que não calou a boca dele com um soco? ...Apesar da sua atitude ter sido muito cool.
A sensação de ter um peso retirado dos seus ombros.
— Achou mesmo!?
— Claro! — concordou. — Nunca fui com a cara daquele pentelho arrogante. A Xion estava reclamando dele algumas vezes, mas acho que ela não era audaciosa o bastante para enfrentá-lo (apesar dela ter muita coragem nos momentos mais estranhos)... Você foi lá e fez isso. Fiquei mesmo impressionado.
Bem, não era algo do que se orgulhar, exatamente, mas naquele momento, Roxas ficou satisfeito.
— Pode deixar, se faz assim tanta questão, vou puxar outras brigas com ele.
— Você, garotinho? — o ruivo riu.
— Sei que pode não parecer, senhor Adulto... — o outro também viu-se rindo. — ...Mas eu sei me cuidar.
...É mesmo?
Então, perguntou-se, por que motivo deixou aquela história continuar por "tanto tempo", como o próprio alegou em sua confissão?
Axel não sabia se ele falava só de saber se cuidar ou de dominar alguma arte-marcial (se bem que sua compleição física não deixava transparecer a ciência de algo assim), mas se sabia tão bem se cuidar, que motivos teria para deixar aquilo continuar? Não tinha sentido.
Bem, claro, era seu padrasto (de alguma forma, aquilo fazia a história adquirir um tom ainda mais péssimo do que já tinha). Devia hesitar em colocá-lo em uma posição desfavorável... Porque, óbvio, ele teria sido desonrado até a quinta geração, preso e teriam jogado a chave fora por uma coisa daquelas.
Mas teria sido aquilo mesmo? O "amor" de um enteado que fez com que suportasse a humilhação, mesmo depois de ter ficado doente?
(Aliás, o que será que o garoto teve?...).
Não querendo bancar o detetive ou o metido (mais do que já estava bancando — afinal, ouvira algo que não deveria), mas pensou se "só" isso fosse mesmo suficiente. Se não havia alguma outra variável no meio daquela equação. Para que o resultado fosse "aquilo", deve ter sido algo muito significante.
O ruivo bem que teve vontade de perguntar, afinal, o quê havia acontecido, onde poderia ajudar, mas... Mas não. Era só um desejo inútil.
— Eu não teria tanta certeza, garotinho — ele disse, então, colocando a mão sobre a cabeça do loiro, brevemente.
Após o que pareceram ser longos meses de contemplação, Axel surpreendeu-se ao ver que o garoto não parecia ter ficado muito preocupado. Passara-se pouco tempo "no mundo de fora", então.
— Não sou garotinho — ele resmungou.
— É sim. Mal entrou na puberdade — o outro insistiu, já contendo um riso diante daquela insistência em provar-se adulto.
...De certa forma, Roxas o era.
Teve de enfrentar coisas que muitos adultos não precisaram. Amadureceu de formas que nenhum adulto amadurece. De certa forma, sim, ele era mais maduro que o próprio Axel.
— Já tenho 15 anos!
— ...Você é novinho, garoto.
E tocou em sua cabeça de novo. Um profundo sentimento de pesar dominou-o. Era como estar olhando, presenciando ali mesmo, uma inocência que perdeu-se como num tropeçar, em algum lugar do caminho.
Doía encarar aquela tragédia. E, mais do que a tragédia, doía ficar inerte a ela, sem poder falar nada. Ajudar pelas sombras não parecia do seu feitio.
— É tão novinho e já passou por isso tudo.
...Mas, claro, ele jamais diria isso. Jamais.
Então, só restou-lhe uma (ou duas?) coisa: rir. Fingir. Que quer que fosse.
— Tá bom, Eu-Sou-um-Adolescente, você venceu. Está bom assim?
Ele bufou de novo:
— Melhor.
— Agora volte a falar comigo sobre isso só quando puder beber por lei.
Roxas ergueu a sobrancelha, o sorriso irônico voltando:
— E você por acaso já pode fazer isso, senhor Eu-Sou-um-Adulto?
E, neste momento, Axel virou o rosto.
— ...Isso não importa.
Cruzando os braços, em uma pose vitoriosa que o fez sentir-se quinze vezes mais alto do que o ruivo de fato, o garoto deu a volta, procurando ver o rosto derrotado do mais velho, que obviamente virou-se de novo e escondeu-o.
— O que foi, Axel? Demais pra você?
O outro apenas suspirou, como que aceitando a derrota, e virou-se de novo para encarar Roxas.
— Não fique tão animado — sentenciou. — Em pouco menos de dois meses, poderei fazer isso, já.
O loiro sorriu.
— Volte a falar comigo sobre isso só quando puder beber por lei.
— Ora, seu pequeno...
Quando Axel deu-lhe uma chave de braço e emendou, logo então, um baguçar de cabelos quase que fraternal, Roxas percebeu, em meio ao divertimento que a situação lhe causava... O quanto, afinal, ele sentira falta daquilo.
Lembrava-se com nostalgia de que Hayner fazia o mesmo nele quando era derrotado no videogame (e, às vezes, eles começavam guerrinhas depois disso) ou em uma discussão. No encosto do sofá, nessas horas, Olette sorria, junto com Pence, diante das brincadeirinhas bobas dos meninos.
É verdade que aqueles tempos acabaram, e agora nada mais eram do que agradáveis memórias para Roxas, mas houveram coisas boas na sua mudança.
Não eram mais Hayner, Pence e Olette, mas eram Axel e Xion. Eram pessoas novas e maravilhosas.
O loiro achou (e talvez até desejou) que devesse estar sempre sozinho. Era seu pecado, portanto, só seu. Não precisava e nem queria envolver mais ninguém naquela história. Não era justo. Mas ali estava: entregou-se. E, sim, ele temia todos os dias que seus novos amigos descobrissem seu pecado e... E...
...E o olhassem do mesmo jeito que Olette. O abraço e o olhar de pena dela. E o olhar de quem não sabia o que fazer ou dizer de Hayner...
Ou mesmo o olhar do próprio Roxas, quando olhou-se no espelho depois de toda aquela história...
Eram coisas que ele nunca mais queria.
Amizade não era guardar segredos ou ameaças, mas ele não podia contar aquilo para Xion e nem para Axel. Era exigir demais deles e de si próprio. Não que estivesse sendo falso ou que não confiasse neles...
...Era só uma precaução.
Só uma forma de se proteger daquela humilhação.
Mas, o que realmente importava é que agora estava sorrindo. Ao menos, por enquanto, ele estava... Muito feliz. Como não achou que seria de novo.
— Ai, ai! Pare, Axel! — ele gemeu, tentando soltar-se do ruivo. — Está muito tarde, vão nos ouvir e...
— Então, você desiste? — mas ele não parou.
— Ah, eu desisto! Pare!
E, com alívio, Roxas viu-se libertado daquele abraço de urso. Tossiu, mais por efeito dramático do que por necessidade propriamente dita.
— ...Isso não foi muito adulto.
Axel, dando de ombros, voltou a caminhar como se nada acontecera.
— Bom, nenhum de nós é isso ainda, não?
— Olha, Roxas...
— O que?
O ruivo apontou para a rua à esqueda, iluminada fracamente por um poste de luz. Praticamente deserta àquela hora, a área mais parecia um cenário de terror. Do tipo preferido de Roxas.
— Aquela é minha rua. Posso seguir sozinho, já.
— Ah... — mas já? Como o tempo passava quando se divertia!
O loiro sentiu falta daquilo também; de se distrair a ponto das horas não passarem como uma tortura, mas somente como... Horas. Como devia ser.
— Acho melhor você ir pra casa. Sua mãe pode chegar e não te ver no quarto — o mais velho disse, excepcionalmente sério. — Já imaginou o drama que você vai ter que ouvir?
O garoto sorriu, então.
— Se bem que... Alguém pode ter visto nós dois aqui a essa hora. Será que ela não vai ficar sabendo igual?
Axel, precisava admitir, surpreendeu-se:
— E isso não o preocupa ainda mais!?
— Claro que não — deu de ombros. — Você é meu amigo, afinal. Posso explicar isso pra ela.
— Sou seu amigo, é claro... — certo, ele também precisava admitir: ficou feliz de ouvir a confirmação. — ...Mas sou um universitário. E tenho tatuagens e roupas estranhas.
Roxas riu.
— Certo, obrigado pelo aviso! Preciso me afastar do Senhor Adulto-Má-Influência-e-Tarado, então, antes que ele me pegue.
Assim como quando foi chamado de "papai", mesmo que fosse uma brincadeira, aquilo trouxe uma sensação desagradável à Axel. Era como estar afundando em alguma coisa, em algum lugar, e sequer saber direito para onde iria ou porquê acontecera.
Difícil de descrever, mais difícil ainda de sentir...
E, mais do que nunca, ele desejou saber se, para o garoto, era tão difícil falar quanto para Axel, ouvir — apesar de que Roxas não podia nem sonhar que o ruivo sabia de seu pecado indelével —, afinal, só fazia pouco mais de um ano que tudo aquilo acontecera, e Deus sabe há quantos anos antes daquilo ele já era abusado. Se disse que começou ainda no seu ginasial...
Tocou na cabeça do garoto, então, e bagunçou seus cabelos de novo.
— Eu não abusaria de você nem que me pagassem. Cê não faz meu tipo.
O sorriso de Roxas (seria ele falso ou verdadeiro naquele momento?) alargou-se diante da frase.
— ...É, eu sei. Ainda bem.
"Eu também sei", ele disse-lhe, mentalmente. Em segredo. Como tudo entre eles parecia ser. Sempre em segredo.
— Ei, não sou tão ruim não, tá legal? — o ruivo fingiu-se de ofendido. —Não despreze antes de experimentar!
— Tá me estranhando, é? — riu o outro.
— Que nada, você cai fora! Prefiro os morenos! — e emulou um tom mais afetado, que arrancou mais risos do mais novo (que, aparentemente, também já se esqueceu que estavam no meio da rua na noite alta).
Afastando-se, ele também emulou uma postura altamente máscula.
— Ceeeerto, vou indo, então... Ouvi minha mãe me chamar, sabe...
— Então vá lá, garotinho.
— Até amanhã, senhor Tarado.
Ajeitando a mochila em seu outro ombro, Axel sorriu enigmaticamente.
— Sugiro que olhe debaixo da sua cama hoje, antes de dormir, Roxas...
— Debaixo da cama? Por que não fica dentro do armário?
O ruivo precisou rir, apesar de ter (tentado) fingido-se de ofendido.
— Ha, ha, muito engraçadinho — e, em seguida, retornou à expressão séria quase habitual. — E vê se volta direto pra casa, viu, Roxas?
— Pode deixar, Papai.
Ele estremeceu. — ...Credo.
Virando-se, o garoto retomou sua caminhada de volta para casa (certo, divertira-se o bastante. Chamaria aquele dia de "completo").
Mal sabia ele que Axel falara aquela última palavra com um nojo real.
E mal sabia Axel que Roxas também não sentiu-se muito feliz de ter de repetir aquele título.
...Mas era sempre o segredo.
O indelével segredo.
Notas finais
O capítulo 2 de Mayakashi foi escrito em meio aos últimos suspiros de meu notebook. Pouco mais de duas semanas depois da postagem, ele simplesmente morreu. Simples assim. Não teve mais conserto, mas consegui salvar alguns arquivos que tinha guardado antes por temer isso.
A maioria, porém, perdeu-se para sempre. Incluindo as fanfics.
Fiquei muito desanimada com essa perda e, somando o desânimo de ter que agora dividir o note da minha irmã com a falta dos meus antigos documentos, ter de recomeçar do zero e com as semanas de provas da faculdade e o escambau, acabei deixando de lado as fics um pouco.
Porém, graças à insistência dos leitores e minha própria saudade acumulada, voltei (para ficar, espero) ao fandom KH. Maya foi a primeira a ser atualizada e, agora que chegamos em uma parte muito boa, eu não pretendo parar tão cedo. Prometo DE VERDADE, o capítulo 4 não irá demorar tanto quanto esse. Esse teve motivos especiais. u.u
Enfim, eu peço milhões de desculpas a todos os leitores...
E muitíssimo obrigada pela compreensão. ^^
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