Maya acordou na oca curandeira. Sentia-se exausta e com o corpo dolorido. Olhou ao redor e viu duas bruxas curandeiras, uma preparando um tipo de porção e a outra ajeitando uma rede ainda suja de sangue. Lembrou-se de João e tentou se levantar. A curandeira que estava preparando a porção a barrou.

— Deite-se Maya. Seu corpo ainda está fraco, precisa de mais tempo.

— Onde estão... Onde...

— Seus amigos estão bem — interrompeu a curandeira — Estiveram aqui mais cedo para ve-la, mas tiveram que ir para aula. Disseram que voltariam mais tarde.

— Mas... E João? João está bem? — perguntou preocupada.

— Quem é João? — perguntou a curandeira com olhar confuso olhando para a outra colega.

— Nenhum João foi trazido pra cá, minha querida. — respondeu a outra curandeira que aparentava ser bem mais jovem.

— Quem estava nessa rede? — perguntou apontando para a rede com manchas de sangue.

— Ah, foi Felipe Del Passos, o aluno peruano do quinto ano. Ele cortou a mão quando quebrou um frasco de vidro durante a aula de porções essa manhã. Eu dei uns pontos. — respondeu a curandeira sorridente.

Maya sentiu-se um pouco aliviada e em partes ainda preocupada. Será que João foi socorrido a tempo? Teria ele sobrevivido? Pensou também na diretora e nos professores. A essa altura toda a escola já deve saber o que houve e Maya temia que ela e seus amigos sofressem duras detenções ou fossem expulsos da escola.

— E... Minha vó?

— A diretora Dourado está muito preocupada com você. Quase não saiu do seu lado. Mas tinha muitas coisas para resolver e eu disse a ela que poderia ir. Que você não estava mais correndo risco e logo estaria liberada. Agora beba isso — disse a curandeira senior empurrando uma xícara de chá nas mãos da menina.

Algumas horas mais tarde, Maya saiu da oca curandeira e seguiu para o templo dourado. Antes que pudesse alcançar a grande escadaria de entrada, avistou Hugo e Joana correndo em sua direção.

— Maya, como se sente? — perguntaram os jovens contentes.

— Me sinto bem — respondeu Maya feliz em rever os amigos a salvo — E vocês? E o Juan?

— Estamos todos bien — respondeu Joana — meu hermano foi até a oca guardar los materiais de la herbologia. Marcou de nos encontrar aqui fora, para irmos juntos te visitar na oca curandeira, mas acho que non precisaremos mas ir lá. Já que está aqui. — Disse Joana em tom meigo e inocente.

Juan logo apareceu e se reuniu ao seus amigos. A primeira coisa que fez foi abraçar Maya.

— Agradeço por salvar mi hermana e a mim — disse Juan empolgado — você é uma bruxa incrivé Maya e você também Hugo. Nunca conheci bruxos Ton corajosos.

— Vocês também foram incríveis — disse Maya indo da empolgação ao desânimo — devo desculpas a vocês, mais uma vez. Por todo perigo que passaram. Por falar nisso... A folha guia. Está com vocês?

— Sim. Está comigo — respondeu Hugo satisfeito — Apesar de tudo que passamos, continua inteira — disse Hugo devolvendo a folha a Maya — Agora precisamos ir logo.

— Para onde? — perguntou Maya desentendida.

— Para a sala da diretora — respondeu Hugo — A professora Dourado falou que quando você saísse da oca curandeira que nós quatro deveríamos ir para diretoria.

O estômago da garota embrulhou. Com certeza estavam muito encrencados e a diretora Dourado, possivelmente, estaria muito furiosa. Maya e os outros subiram a grande escadaria do templo e seguiram pelo corredor que levava ao jaguar.

— Pitangas azedas — disse Maya, mas nada aconteceu.

— Ah. A diretora mudou a senha, está aqui em algum lugar — disse Hugo apalpando as vestes em busca de algo — aqui está! — disse abrindo um pedaço de papel amassado — torta de laranja.

A estátua do jaguar deu um passo para o lado revelando a passagem que dava acesso a uma grande porta feita de ouro. Maya se perguntou o motivo da sua avó ter mudado a senha em tão pouco tempo. Ao se aproximarem, a porta de ouro se abriu revelando a bela sala da diretora com seus enfeites dourados e suas belas plantas tropicais.

— Maya minha querida — A diretora levantou-se de sua rústica cadeira dourada e foi ao encontro da neta, abraçando-a — fico feliz que esteja bem. Já estava prestes a visitar a oca curandeira mais uma vez.

— Fico feliz em ve-la também — disse Maya um pouco assustada — Gostaria de pedir desculpas pela milésima vez, por ter saído das dependências da escola.

— Foi uma total irresponsabilidade menina — Disse a diretora retornando para sua cadeira do outro lado da mesa — não apenas sua, mas de todos os quatro — apontou para seus amigos — Fiquem sabendo que a consequência adequada para atitude de vocês é a expulsão — Hugo e Joana arregalaram os olhos, Juan não demonstrou surpresa — Contudo, convoquei os professores hoje de manhã para discutirmos sobre a punição de vocês e concordamos que uma detenção será o suficiente por enquanto. Levando em consideração de que vocês acabaram prestando um pequeno serviço a escola.

— O que aconteceu no vale? — perguntou Maya.

— Bom, as caiporas juntamente com os professores conseguiram afugentar os trouxas após serem obliviados, é claro, e também a controlar o incêndio. Graças as habilidades do jovem Hugo Santos, tiveram um pouco de dificuldade em enxergar todo o estrago feito com todo aquele nevoeiro. — Hugo corou e abaixou a cabeça — Embora tenhamos entendido que o nevoeiro também facilitou a fuga de seus colegas — Hugo deu um leve sorriso.

— E sobre João boto? — perguntou Maya percebendo que seus amigos ficaram mudos e Joana abaixou a cabeça — Conseguiram ajuda-lo?

— O audacioso João boto infelizmente não resistiu — disse a diretora com feições desanimadas — Sinto muito minha querida. Eu soube o que ele fez por vocês, Hugo e Joana me contaram tudo. Iremos honra-lo hoje ao entardecer. O funeral já está sendo preparado.

As lágrimas escorreram pelo rosto de Maya. Joana também não conseguiu segurar o choro. Hugo e Juan ficaram bastante abatidos com a notícia. Juan abraçou a irmã enquanto Maya foi abraçada por Hugo e em seguida pela diretora. Um silêncio absoluto se fez na diretoria, com a exceção dos soluços de Maya e Joana.

Durante o período da tarde as aulas foram suspensas, para que os alunos se organizassem para o funeral. Todos os alunos, com seus vestes escolares de cor verde, se reuniram fora da escola, próximo ao grande rio que leva a floresta do silêncio. Os professores estavam juntos a eles. O belo por do sol tornava o dia alaranjado. O corpo coberto pela bandeira verde e amarela da escola foi colocado sobre o bote que pertencia a João, junto a ele estava sua varinha recuperada pelos professores.

— Para aqueles que não o conhecia — começou a diretora Dourada fazendo um discurso para todos os alunos, professores e funcionários da escola — João Boto já foi um estudante de Castelobruxo e durante muitos anos ele viveu nessas terras, assim como todos nós. Eu tive o prazer e a honra de ter sido sua professora no quinto ano. Infelizmente, João teve que abandonar a escola no sexto ano para cuidar de sua amada mãe, que pegou a febre amarela. Após sua morte, João decidiu viver sozinho e desde então assumiu o posto de guardião do rio, protegendo essa escola dos perigos mágicos e não mágicos. — A diretora fez uma breve pausa enquanto o bote era posicionado no rio — Para que fiquem informados, João Boto foi morto ontem a noite cumprindo seu dever sagrado, lutando contra a invasão de caçadores trouxas, protegendo a floresta e salvando a vida de quatro de nossos alunos, incluindo minha amada neta Maya Dourado. Sua lealdade, sua coragem e seu sacrifício serão eternamente lembrados por todos nós. Que seu espírito encontre o caminho de seus ancestrais e que o rio do silêncio guarde para sempre suas memórias.

Alguns bruxos que estavam entre os alunos mergulharam no rio e saltaram em forma de botos. Maya lembrou do que Veruska havia dito sobre os irmãos de João. Ela contou ao menos uma dúzia, entre homens e mulheres. Eles nadaram ao lado do bote rio a cima, até um determinado ponto onde o bote afundou levando o corpo de João para as profundezas. Maya entendeu que haviam colocado peso ao redor do corpo de João e usaram magia para afundar o bote.

Expecto Patronum — disse a Diretora Dourado erguendo sua varinha.

Uma onça prateada saltou da ponta de sua varinha e correu pelo céu, agora noturno. Após alcançar o topo das árvores, a onça prateada esturrou, tão alto, que assustou as aves, que voaram preenchendo o céu.

Após o funeral, todos se reuniram no grande campo próximo ao templo. Uma enorme fogueira foi acesa e vários alunos, professores e funcionários se reuniram próximo a ela. Havia uma grande mesa de madeira repleta de comida, principalmente com frutas nativas, peixes cozidos e javalis assados. Havia também muita bebida, nenhuma contendo álcool, em sua maioria eram sucos de frutas. Maya, Hugo, Juan e Joana se reuniram em uma mesa, afastado dos outros alunos. Queriam ficar a sós entre eles e compartilhar o luto unidos. Afinal, foram os únicos que tiveram mais contato com João nos últimos dias e os que sentiram mais a sua perda.

— Um viva aos enigmáticos! — gritou um aluno com uma taça de suco na mão.

Maya ficou ligeiramente incomodada.

— Porque estão nos chamando assim? O dia todo. Todo lugar que passamos alguém nos chama de enigmáticos.

— Foi culpa da Joana — acusou Hugo — Ela espalhou para vários alunos o que aconteceu com a gente.

— Apenas contei sobre nossa aventura — disse Joana se defendendo de forma meiga — Sobre que fui sequestrada por uma sereia, sobre como nos defendemos dos trouxas. Hugo foi muito inteligente em conjurar aquele nevoeiro.

— E você foi bastante habilidosa defendendo aqueles disparos — disse Hugo sorridente.

— E foi verdade que vocês lutaram contra uma bruxa das trevas? — perguntou Juan empolgado.

— Sim. A cuca Veruska — respondeu Hugo ainda mais empolgado — Ela conjurou um bando de corvos contra nós. Eu e João os queimamos. Maya havia a atacado em forma de onça e depois a petrificou.

— Uau! — Disse Juan impressionado — Eu queria ter participado. Isso foi bastante perigoso.

— É por isso que estão nos chamando de quarteto enigmático — disse Joana sorridente — Acho um título adorável.

— Que bom que vocês estão felizes — disse Maya ironicamente com o olhar de desprezo — Gostaram de quase terem perdido a vida de vocês? Só estamos aqui graças a João e as caiporas. Esse funeral poderia ter sido nosso.

Todos ficaram chocados e mudaram suas feições. Maya demonstrou arrependimento e pediu desculpas pelas palavras.

— Ainda não consigo aceitar a morte de João — levantou-se tristonha — Vou para minha oca. Preciso ficar um pouco sozinha.

Maya seguiu pelo campo. Hugo se levantou mas foi impedido por Joana que o segurou.

— Vamos da um tempo a ela. Ela conhecia João a mais tempo que a gente. — disse Joana.

Hugo concordou. Os três passaram o resto da noite em silêncio. Terminaram suas refeições e retornaram as suas ocas.

No dia seguinte, os quatro enigmáticos (como ficaram popularmente conhecidos) cumpriram a detenção na floresta do silêncio, ajudando a remover as árvores e a vegetação destruída pelo fogo e plantando novas sementes de árvores em algumas áreas do vale, principalmente árvores mágicas com características agressivas, sob a supervisão do professor Robert. A diretora achou prudente realizar o plantio de árvores que pudessem amedrontar trouxas que se atravessem a se aventurar naquela região, para ajudar a aumentar a proteção dos arredores da escola. Maya mentiu ao ser questionada sobre os objetos dos trouxas que foram encontrados, temendo que a diretora os destruísse ou guardasse por anos.

— Nós os perdemos — disse Maya — os trouxas tomaram de volta e os objetos se perderam com o incêndio. Acredito que tenham sido destruídos.

A diretora acreditou na versão da neta com uma certa desconfiança. Maya guardou a varinha e a folha guia em um baú que possuía em sua oca e o trancou. A medida que os dias foram passando, Maya aos poucos iam esquecendo deles.