Maya e os Mistérios de Castelobruxo

10 Capítulo 10 - O Resgate dos Irmãos Cortez


Maya saltou sobre Hugo e o abraçou emocionada. Sentia-se feliz e aliviada ao encontrar o amigo vivo.

— Estive tão preocupada como você.

Hugo retribuiu o afeto e sentiu grande conforto e felicidade ao reencontrar a amiga.

— Estou feliz que tenha me encontrado. Foi muito inteligente usar a folha guia para me encontrar.

— Pensei nisso assim que vc sumiu. Mas a folha não funciona quando está molhada. Ela não se transforma.

— Isso faz todo o sentido! — Disse Hugo surpreso — A água deve funcionar como o contra feitiço. A folha não tem como se tornar um origami.

— Exato. Mas por sorte ela também não se desfaz. Tive esperança que depois que secasse ela voltaria a funcionar, e assim aconteceu. — disse Maya satisfeita.

O bote finalmente deixou o rio estreito e agora estava navegando sobre um rio escuro e bastante largo. Maya reconheceu que se tratava do rio negro.

— Conheço esse lugar. Para onde ele está nos levando e você tem notícias de Joana? — perguntou Maya mudando as feições, por alguns instantes tinha esquecido da tragédia.

— Sim. Aconteceram muitas coisas. — começou Hugo — esse é João boto, ele é um bruxo que vive na margem do rio.

— Sim. Eu conheço ele. — interrompeu Maya — E alguns de seus irmãos também.

Hugo se surpreendeu por alguns instantes e lembrou-se da história de Veruska. Por fim voltou a explicar a Maya sobre os acontecimentos.

— Então ele disse que Joana foi raptada pela sereia Yara e fomos atrás disso — disse mostrando o colar de búzio — Ele disse que com isso conseguiremos salvar Joana.

Maya pegou o colar de búzio das mãos de Hugo e o avaliou lentamente.

— Vocês se arriscaram muito para roubar isso da bruxa Veruska. Ela podia ter matado vocês. Sua família inteira era associada a arte das trevas. Já mataram e torturaram muitos trouxas e outros bruxos que entravam em seu caminho.

O bote bateu na margem fazendo com que Maya e Hugo se desequilibrassem. O boto saltou da água e se transformou em um homem, parecia fraco e exausto, andou até próximo de uma árvore e sentou-se no chão.

— João. Como você está? — perguntou Hugo pulando do bote e indo em direção ao homem.

— Estou legal. Sofri alguns arranhões, só preciso descansar um pouco. O rio negro é mais denso para nadar e também mais perigoso. Sinto como se minhas forças estivessem sendo sugadas.

— Descanse um pouco — disse Hugo.

— Não! — protestou Maya — Não podemos parar agora. Joana precisa da gente e temos que voltar para buscar Juan. O deixei em um abrigo na floresta mas não podemos demorar muito. Sem falar que a escola já deve ter dado falta da gente a essa altura. Já estamos encrencados demais.

— Não se preocupe — disse João um pouco ofegante — não estamos longe do território de Yara e com isso conseguiremos salvar sua amiga — disse apontando para o colar de búzio nas mãos de Maya.

Maya olhou para o colar e depois encarou João com aflição.

— Posso te fazer uma pergunta? Como sabia que eu estava chegando? Você abriu a porta do chalé de Veruska no exato momento que eu me aproximei.

— As caiporas me avisaram que você estava a caminho hoje pela manhã — respondeu João tranquilamente — Na noite passada falaram sobre a enchente e me avisaram sobre os dois jovens bruxos que foram arrastados pela correnteza. Foi por isso que nadei em meio a tempestade e encontrei o Hugo inconsciente. Joana havia acabado de ser encontrada por Yara, que estava no rio do silêncio tentando encantar trouxas, momentos antes da chuva começar.

— As caiporas — sussurrou Maya parecendo surpresa — Então elas estão nos observando. Já devem ter alertado minha vó que estamos aqui. Você falou de trouxas? Então há trouxas próximos a escola?

— Sim — disse João tentando se levantar — pelo menos uma dúzia deles. Montaram acampamento no vale. Frequentam o rio para pescar e pegar água.

— Talvez seja o grupo que havia encontrado as ruínas. Estão mais próximos do que eu pensava — sussurrou Maya. Hugo acenou com a cabeça.

— Não deve ser coincidência. Podem estar armando alguma coisa. — afirmou Hugo olhando para Maya com seriedade.

— Do que vocês estão falando? — perguntou João confuso.

— Falaremos disso depois. Agora precisamos nos concentrar em resgatar Joana. — disse Maya se erguendo — Vamos Boto. Nos leve até Yara.

João concordou com a garota. Saltou sobre o rio e continuou levando os garotos rio acima. Alguns minutos depois chegaram em uma região mais interna da floresta, um local onde o rio perdia a força e se espalhava formando um tipo de lago com a correnteza bastante fraca. O fim desse trecho ficava estreito e Hugo percebeu que haveria uma cachoeira após o estreitamento. Mas o bote parou antes, e novamente retornou a margem.

— Então é aqui? — perguntou Hugo admirando o ambiente ao seu redor — Que lugar bonito.

— É o lago do encantamento. Sua beleza atrai muitas pessoas, trouxas e bruxos, o cenário perfeito para Yara capturar suas presas. — Explicou Maya.

João se ergueu do rio em forma de homem e fez sinal para que os jovens se afastassem da beirada. Sacou a varinha e com sua ponta tocou suavemente a superficie da água. Pequenas ondas se formaram e se espalharam até desaparecer no centro do lago.

— Me entregue o colar — disse para Maya — E deixem apenas que eu fale. Yara se ofende facilmente.

Maya obedeceu. Algum tempo depois uma agitação foi notada no meio do lago. Os três observaram a espera da aparição da sereia. Logo, um rosto de uma mulher surgiu na superfície do lago, com a água cobrindo seu corpo até o nariz. Observou os bruxos por alguns segundos e depois tornou a afundar. Hugo olhou para seus companheiros confuso e notou que Maya e João permaneciam quietos em silêncio, como se soubessem exatamente o que estava prestes a acontecer. Em poucos segundos, a mulher tornou a emergir, dessa vez revelando até os ombros. Parecia uma índia, assim como Maya, com belos e compridos cabelos negros e molhados, a pele morena e os olhos suavemente puxados.

— Novamente você por aqui Boto — disse a Sereia — dessa vez trouxe-me visitas. Dois jovens bruxos da escola de magia. Vieram estudar sobre mim?

Hugo parecia ligeiramente enfeitiçado ao olhar para a sereia. Jamais esperava que houvesse uma sereia tão linda, com base o que tinha lido nos livros, sobre serem criaturas perigosas e monstruosas.

— Olá Yara — cumprimentou João parecendo mais manso e delicado — Esses jovens são Maya e Hugo, eles são amigos de Joana.

— Joana? Quem seria essa? — perguntou Yara parecendo desentendida.

— A garota que você encontrou no rio durante a tempestade de ontem. — disse Maya parecendo enfurecida com a pergunta da sereia.

— Garota? Do que estão falando? Eu não sei de nenhuma garota — disse Yara ainda se fazendo de desentendida.

Por um instante, João percebeu que Maya iria sacar sua varinha, mas segurou seu braço antes que ela cometesse uma estupidez.

— Yara. Sabemos que está com a garota. Viemos preparados para fazer uma troca. — disse João concentrado no olhar da sereia.

— Julga-me de mentirosa? Eu lhe disse que não sei de nenhuma garota — disse a Sereia em tom sério.

Hugo pareceu ficar nervoso e virou-se para João irritado.

— Ela já disse que não está com a garota. Porque você insiste? — Gritou.

— Hugo o que há com você? — perguntou Maya assustada ao ver a atitude do amigo.

— Ele está encantado. — disse João para Maya — alguns homens são influenciados pela presença de Yara.

Maya ficou espantada. Já ouviu falar bastante de Yara e conhece um pouco de sua história, mas nunca a tinha visto pessoalmente e desconhecia esse dom de influência que a sereia possuía sobre os homens.

— Yara. Liberte a garota e te darei isso. — disse João mostrando-lhe o colar de búzio.

A sereia perdeu a pose. Sua feição mudou como se tivesse sido surpreendida por algo extremamente inacreditável. Olhou para o colar como se estivesse olhando para um tesouro muito brilhante.

— Como conseguiu isso? — perguntou a sereia.

— É real. Conseguimos adquirir de Veruska. — continuou João a fitando atentamente.

— Ela simplesmente aceitou lhes da esse colar? — perguntou a sereia ficando desconfiada.

— Não foi fácil. Mas ela não resistiu a proposta que fiz a ela — disse João com as mãos trêmulas.

— Que tipo de proposta faria a bruxa da selva sombria abrir mão de um dos seus tesouros mais preciosos?

— Dei-lhe algo que ela almejava mais do que esse colar.

Maya estava prestes a perder a paciência. Porém João continuava a fazer sinais para que se acalma-se. Hugo parecia desconfiado e volta e meia olhava para Yara como se tivesse contendo um grande desejo de pular na água.

— Tudo bem — disse a Sereia se aproximando do grupo e subindo sobre uma pedra. Revelando a metade peixe do seu corpo — Entregue-me o colar. Deixe-me vê-lo mais de perto — disse estendendo a mão.

João hesitou e Maya também fez um sinal de negação para o bruxo. Hugo fez um movimento tentando tomar o colar de João que o empurrou.

— Entregue logo o colar a ela! Ela está pedindo. — gritou Hugo descontrolado.

Maya segurou seu amigo e tentou acalma-lo.

— Nos mostre a garota e lhe entregarei o colar.

A sereia ficou em silêncio. Ambos se encararam por um tempo. Por fim Yara tocou a água e fez um gesto com as mãos, como se tivesse fazendo um desenho na superfície. Logo, o lago ficou agitado e tentáculos gigantescos emergiram do centro. Em um desses tentáculos estava Joana abraçada e adormecida, completamente ensopada e mais pálida do que o normal.

— Entregue-me o colar — Disse Yara novamente estendendo sua mão.

Maya e Hugo ficaram perplexos ao ver a garota sendo abraçada por um tentáculo gigante. Que criatura terrível seria aquela nas profundezas do lago? E qual estado essa garota estava naquelas profundezas? João hesitou por um momento mas acabou se aproximando de Yara e lhe entregando o colar. A sereia admirou o objeto com os olhos repletos de desejo e colocou o colar em seu pescoço. Sussurrou algumas palavras para o búzio e depois o abriu. Um tipo de areia dourada voou do búzio e penetrou em seu rosto. A cauda de peixe se tornou belas pernas, dando a Yara uma forma naturalmente humana. Ela desceu da pedra e andou sobre a terra admirando seu corpo.

— Yara — Disse Maya chamando sua atenção — Nossa amiga, liberte-a.

Yara virou para os tentáculos que se moviam sobre o lago e fez um gesto com a mão como um chamado. O tentáculo que segurava Joana abaixou, colocando a garota deitada aos pés de Maya e depois afundou, desaparecendo no lago. Maya abaixou-se para olhar a garota. Ao sentir o toque da garota, a palidez no rosto de Joana desapareceu e seus olhos se abriram lentamente. Maya sentiu que o encanto de Yara sobre a menina havia se desfeito.

— Agora peguem suas amiga e saiam logo daqui. Temo que coisas ruins estão prestes a acontecer na floresta — Disse Yara em tom sério.

— O que você quer dizer — perguntou Maya aflita.

— Muitos caçadores trouxas estão se aventurando por essas matas. As criaturas mágicas estão assustadas e algumas irritadas. Sinto que uma ameaça muito grande está por vim. Ja faz centenas de anos que não vemos tantos trouxas por essa região.

— Soubemos que eles estão acampando no vale — disse Maya — não entendo porque as caiporas não os espantaram.

— Se as caiporas não conseguiram espantar os trouxas então deve haver magia envolvida — disse João — E se há magia envolvida, há um bruxo por trás disso.

— Melhor vocês irem, enquanto ainda dá tempo — disse Yara para o grupo — E João. Obrigada pelo colar.

Hugo lhe deu uma olhada enciumado. João fez uma reverência para a sereia e saltou sobre o lago. Hugo e Maya ajudaram Joana a se levantar e a colocaram sobre o bote que começou a navegar sendo puxado pelo Boto. Agora seguiam pelo rio negro o caminho de volta para a floresta do silêncio.

Ao chegarem na casa-balsa de João boto, os jovens amarram o bote ao lado da casa e foram para seu interior. Lá explicaram a Joana o que havia acontecido enquanto João boto preparava seu especial chá de ervas mágicas e camomila, enquanto assava alguns peixes.

— Não podemos demorar — disse Maya ansiosa — deixei seu irmão esperando em uma cabana na floresta. Não imaginei que fosse demorar tanto. Ele já está esperando a tempo demais.

Ouviu-se um estalo e no meio da casa uma criatura humanoide, vermelha e peluda surgiu.

— Tuka! — gritou Maya surpresa — o que veio fazer aqui? Achei que estivesse irritada.

— E estou! — disse a caipora — E nem por isso deixei de cuidar de você sua mimada ingrata!

— Cuidar de mim? — Maya se levantou irritada — Passamos por maus bocados! Não me lembro de você ajudar em momento algum!

— Quem você acha que avisou a João Boto de sua chegada essa manhã? E o alertou sobre seus amiguinhos arrastados pela correnteza? Eu estava aqui o tempo todo! Mas deixei que tudo acontecesse para vocês aprenderem o quão perigoso é a floresta. o quão perigoso é sair da escola. Seu amiguinho de proteção nos olhos quase vira comida da cuca Veruska — berrou apontando para Hugo — vocês quase foram mortos por ela e seu bando de corvos e essa garotinha iria passar o resto de sua vida nas profundezas do lago encantado, servindo de troféu da Yara! — apontou para Joana — se não fosse por mim o pior teria acontecido.

— Não esqueça que eu também tive uma participação importante nessa ajuda. — Disse João boto entregando uma xícara de chá para Joana — Mas sendo honesto, a caipora está certa. Vocês três correram um grande risco hoje e se ela não tivesse avisado, vocês provavelmente não estariam aqui agora.

— Tudo bem — disse Maya diminuindo o tom da voz — agradeço a vocês. Por tudo que fizeram por nós. Reconheço que errei em traze-los para fora dos limites da escola. Não imaginei que tudo isso iria ocorrer. — lamentou Maya olhando para Hugo e Joana.

— Não se desculpa Maya. Você não nos forçou a nada — disse Hugo.

— É sí — concordou Joana — viemos por nossa própria vontade. Non há motivos para desculpar-se. Se bem que no imaginei que la selva era Ton perigosa.

— Também não é hora de agradecer — interrompeu Tuka — ainda falta um de vocês que está em perigo.

— Juan? — todos pareciam perguntar ao mesmo tempo — Onde ele está? O que aconteceu? — perguntou Maya preocupada.

— Esta no Vale — disse Tuka — no acampamento dos trouxas. Ele foi capturado.

— Qual o problemas de você e suas irmãs? — perguntou Maya enfurecida — Porque deixaram os trouxas acamparem tão perto da escola? Vocês não estão cumprindo seu papel!

— Não ouse desonrar meu dever e de minhas irmãs — gritou Tuka ficando mais vermelha do que o normal — O vale não faz parte dos arredores da escola e os trouxas não estavam fazendo nada de errado até capturarem uma onça.

— Non é hora disso — disse Joana — precisamos ajudar meu hermano.

— Eu conheço o caminho para o vale. Vamos indo! — disse Maya andando em direção a porta da casa.

— Não posso deixa-los enfrentarem os trouxas sozinhos — Disse João Boto — eu irei com vocês. Vocês são apenas crianças o que faz de mim o responsável.

Os quatro bruxos saíram da casa-balsa e seguiram por um caminho pela mata, guiados por Maya. Tuka desapareceu com um estalo.