Notas iniciais
May é capturada e ela não se importa com o destino que a aguarda, pois como não pode morrer, a morte já não lhe trás tanto medo.

Olhei para o dono da mão que me erguia pelo pescoço e era um homem com barba um pouco mal feita, seus dentes eram um pouco grandes, mas ainda um pouco menores que os meus. Eu senti que meus olhos ainda estavam diferentes, pois meus dentes ainda estavam salientes.

– Me solte! – gritei e tentei me soltar.

– E se eu não quiser? – ele falava seriamente. Sua voz era rouca.

Tentei me soltar novamente, me balancei muito, o que foi totalmente inútil.

– Eu não tenho medo de você – eu disse.

– Sei disso. E nem precisa ter medo de mim.

Olhei para o lado e percebi July olhar pra mim no quintal meio preocupada. Revirei os olhos e disse ao homem que me erguia com uma mão:

– Faça o que quiser, eu não me importo – as lágrimas começaram a fluir ainda mais. Já não sabia distinguir se eram de raiva ou tristeza.

Ele sorriu.

– Tem certeza do que deseja criança?

– Tenho – engoli o meu choro, mas as lágrimas saíam, fora do meu controle.

Ele me soltou no chão e me pegou pelo braço de uma maneira bruta.

– Calma, eu vou de qualquer jeito.

– Uma coisa que aprendi queridinha é não confiar em ninguém.

Processei aquelas palavras. Ele tinha razão, não podia confiar em ninguém, eu havia percebido isso a dois anos atrás. Enquanto saíamos, os vizinhos pararam para me observar ser levada. Aposto que estavam pensando que me levariam para uma clínica, para a prisão, enfim, qualquer lugar que me levasse ao sofrimento e à morte. Ainda mais pela maneira que ele me arrastava pela rua. Mas uma prisão deveria ser mais tranquila que minha casa, ou... minha antiga casa.

Ele me colocou — ou jogou — em um carro, ele mesmo dirigia. Não consegui prestar muita atenção no caminho. Não conseguia prestar muita atenção em nada para ser sincera. Naquele momento eu não estava dando a mínima para o que ia acontecer comigo. Fiquei sentada lá, olhando aquela cidadezinha imprestável sumir. Assim que ela sumiu, fiquei olhando pela janela, nada mais fazia sentido pra mim, não tenho ideia para onde estavam me levando e também não me importava.

...

Algum tempo depois chegamos a uma usina nuclear. Eu não gostei muito daquilo, mas não me importei, pelo fato de saber que eu não poderia morrer, o medo já não fazia mais parte de mim. Ele novamente me pegou pelo braço, me puxou forte do carro e me levou por um caminho esquisito que dava em um lugar secreto.

Chegamos a uma sala cheia de macas dos dois lados, fazendo um corredor. Ele me jogou mais para frente como se estivesse me entregando.

– Aqui está a garota — ele disse para um homem sentado de costas numa cadeira com rodinhas.

Eu ofegava. Estava um pouco assustada confesso.

– Então... você é May — ele disse e girou para ficar de frente pra mim.

Ele tinha os cabelos pretos com pequenos fios brancos. Tinha um rosto jovial e um sorriso interesseiro. Seus olhos eram castanhos.

– E quem é você? — perguntei ainda meio suspeita.

– William Stryker, mas sou mais conhecido como Stryker.

Eu o encarava, ainda duvidando de seus movimentos.

– O que você quer de mim? – perguntei.

– Faço parte de um projeto do governo para criar uma arma, para chegar nessa arma, faço experiências. Como sei que você gosta desse lance de honestidade, quero ser honesto com você.

– Como... como você sabe disso?

– Disso o quê?

– Que eu gosto de honestidade.

– Simples, eu vigio a sua vida desde que você era bem nova e sei de tudo o que aconteceu com você. Sei que sua melhor amiga te deu as costas, que seu namorado te chamou de aberração, que seu irmão te abandonou e que por fim, você matou seu pai para ajudar sua mãe e ela recompensou você de uma maneira horrível.

Lágrimas vieram aos meus olhos e eu fiquei com raiva de estar chorando. Eu não queria chorar por aquelas coisas.

– O que você quer de mim? – perguntei com a voz embargada.

– Você será uma experiência minha, a última que faço para poder concretizar minha arma X e XI. Não precisa ficar com medo querida May. Você não morre lembra?

Ele se aproximou de mim e fez carinho em meu rosto.

– Como é essa experiência?

– Colocarei adamantium em seus ossos. Isso te deixará mais forte, mais resistente...

Ele me olhou com um olhar encorajador. Pensei rapidamente a respeito, eu não tinha nada a perder com isso. Se eu perdesse a minha vida, o que exatamente eu perderia? Todos ficariam livres de mim e isso seria a maior alegria para todos. Então minha resposta foi clara:

– Eu topo.

Ele sorriu. O homem que me trouxera aqui também sorriu para ele.

...

Me prepararam para o experimento. Me deixaram nua, apenas com um pano tapando meus seios e minha parte de baixo. Deitei numa maca fria que ficava sobre um monte d'água, como se fosse uma enorme bacia.

– Temos uma plaquinha com uma identificação. Já tem o seu nome, quer colocar algum outro nome? – Stryker perguntou.

– Não. Meu nome é a única coisa que tenho de feliz em mim. Não quero mudar nada.

Ele assentiu, terminou o colar e o colocou em volta do meu pescoço. Umas mulheres me preparavam para receber o adamantium. Ela então aplicou algo em minhas veias.

– O que é isso? – perguntei.

– Morfina.

– Morfina?

– Sim, para amenizar a dor.

Doeria tanto assim? Espero que essa tal de morfina funcione então. O pânico tomou mais conta de mim. Fiquei ofegante por uns instantes. Estava deitada olhando pro teto.

Ouvi Stryker falar com alguns homens do governo enquanto me preparavam.

– Essa será apenas uma experiência.

– Mas Stryker, ela é apenas uma criança.

– Senhor, ela é uma criança eterna. Ela não envelhece, logo, nunca será adulta.

Então a maca começou a descer e fui mergulhada no tanque cheio de água. Obviamente taparam minha boca e meu nariz para que a água não entrasse por esses lugares. Para respirar colocaram oxigênio entrando pela minha boca.

Fiquei debaixo d’água e pensei em como seria a tal experiência. Olhando, vi uma serrinha no meio dos meus olhos. Era um pouco difícil se mover naquela água. Então as serrinhas começaram a girar e se aproximavam cada vez mais da minha pele, senti meu coração se acelerar, sentia o movimento fazer pequenas ondas na água. Em poucos segundos as serras começaram a furar minha pele. O que doeu mesmo foi quando se infiltraram em meus ossos e o líquido começou a se espalhar pelo meu esqueleto.

A dor era imensa, acho que é impossível descrever uma dor que se iguale àquela que estava sentindo. Minha respiração começou a falhar. Como descrever essa dor? É como se uma chapa de ferro estivesse te espremendo e espremendo e ia espremendo cada vez mais até que você grita por não está aguentando, mas eles não escutam e continuam. Essa era uma dor aproximada do que eu estava sentindo.

A dor aumentava cada vez mais, aquele líquido se espelhando por meus ossos doía bastante, parecia que eu ia explodir. Me mexi para mostrar o quanto estava doendo, mas eles eram espertos e as cordas que me prendiam eram muito fortes. Minha respiração foi ficando cada vez mais rápida e meu coração disparava em batimentos. Até que não consegui mais ter reação alguma e meu coração parou por alguns segundos, mas eu ainda via e sentia tudo.

Meu coração voltou a bater aos poucos e bem devagar. Senti as serras saírem do meu corpo e meu corpo parecia mole. A maca subiu e eu ainda estava mole, não sentia meu corpo.

Me levantaram repentinamente e me sentaram. Meus olhos estavam abertos e eu nem piscava, mas meu corpo estava completamente mole. Colocaram uma camisa enorme em mim, parecia um vestido. Me fizeram levantar, não consegui ter firmeza em meus pés e logo comecei a cair. Alguém me segurou com dificuldade, devia estar bem pesada agora que meus ossos haviam se transformado em adamantium.

Eles falavam, mas não conseguia ouvi-los. Me levaram para um quarto e me jogaram numa maca com alguns lençóis. Fiquei deitada, mas não sei por quanto tempo. Então meu corpo começou a queimar e a doer, principalmente meus ossos. Meu corpo tremia de dor, era imensa mas ainda não conseguia gritar, comecei a apertar as cobertas, minhas unhas começaram a crescer, elas agora eram pratas, meus dentes nasceram mais doloridos dessa vez. Tudo parecia doer mais que o normal.

Me virei de bruços, apertei as cobertas e comecei a me levantar. Levantei-me mais furiosa que o normal, minha primeira vontade foi a de voltar para minha cidade e acabar com todos aqueles que se disseram meus falsos amigos e me fizeram falsas promessas.

Olhei minhas unhas, estavam brilhantes e eu sentia que estavam mais afiadas. Fui até a porta do quarto em que me encontrava e arranhei a porta de um lado e depois do outro. Não doeu nem um pouco minhas unhas, era como rasgar uma pele. Arranhei bastante a porta e depois a chutei bem forte, o que a fez voar bem longe.

Do lado de fora haviam vários seguranças, comecei a bater e a matar todos como uma felina, eles raramente tocavam em mim, até que o homem que havia me trazido pra cá disse:

– É melhor ficar quieta!

– Ou o quê?

Olhei para ele com um olhar sedutor e sorri desafiando-o.

Ameacei atacá-lo e investi em sua direção. Ele então me deu um tiro no ombro, que fez uma pressão pra trás. Olhei aquele tiro e olhei para ele. Enfiei minha unha no buraco que a bala abriu em meu ombro e a tirei de lá de dentro. Mostrei a bala para o homem e dei um sorriso sedutor.

– Ops — joguei a bala pra frente como se fosse uma sujeirinha mínima que havia acabado de tirar do meu corpo -, acho que não funcionou.

Fui na direção dele furiosamente e consegui rasgar sua pele facilmente, como se fosse papel. Ele também me deu um soco que me fez ir um pouco pra trás, fiquei ainda mais nervosa e quando voltei para atacá-lo, Stryker apontava uma arma em minha direção. Ri.

– Isso não vai funcionar — eu disse me divertindo.

– Vamos ver então.

Ele atirou em meu coração e dessa vez eu senti. Eu realmente estava morrendo naquele momento. Tentei tirar a bala mas meus movimentos estavam diminuindo.

– Como...? Como...? – eu não conseguia falar.

Minhas pernas bambearam, apoiei na parede e comecei a cair. Stryker se aproximou de mim.

– Gostou? São balas de adamantium. Elas não podem te matar, mas fazem um efeito muito bom. Você morre por algumas horas.

Ele riu e eu fui perdendo a força de todo o meu corpo e não conseguindo manter meus olhos abertos.

– Por que não me deu uma dessas? – perguntou o homem indo ao lado dele meio nervoso.

– Achei que você daria conta sozinho.

Eu não tinha mais movimentos, nem piscava, mas ainda ouvia um pouco.

– Leve-a e coloque-a em sedativo durante vinte e quatro horas.

Eu o vi me carregar, mas depois tudo se apagou.