Match Point
17 Arco 2 DOMINE! Capítulo 16 - Se for Bater, Bata até Quebrar!
Notas iniciais
O ônibus do Karasuno deslizou suavemente pelo asfalto molhado, o som dos pneus misturando-se ao leve farfalhar das folhas balançando ao vento. O brilho amarelado dos postes iluminava a calçada úmida, refletindo a umidade do ar frio daquela noite. O cansaço era palpável, pesando nos ombros dos jogadores enquanto eles recolhiam suas mochilas e se despediam com tapinhas nas costas ou acenos preguiçosos.
Charlie fechou o zíper da mochila com um movimento brusco, sentindo os músculos dos ombros finalmente relaxarem após a tensão da partida. O Karasuno havia vencido, e foi uma vitória sólida. Mas ainda assim, havia algo que pairava no ar, um incômodo que ele não conseguia ignorar.
Ao sair do ônibus, o vento frio da noite bateu contra seu rosto, e ele avistou Tao alguns passos à frente, esperando por ele com as mãos enfiadas no bolso do casaco. Charlie percebeu pela postura do amigo que ele não estava ali apenas para desejar boa noite.
“Você está bem?” Tao perguntou direto ao ponto, os olhos escuros varrendo Charlie com uma expressão séria.
Charlie arqueou uma sobrancelha, surpreso. “Estou. Foi uma boa vitória.”
“Não estou falando do jogo.” Tao suspirou, sacudindo a cabeça antes de cruzar os braços. “Estou falando do Nick.”
Charlie franziu o cenho. “O que tem o Nick?”
Tao revirou os olhos, como se a resposta fosse óbvia. “Você viu o jeito que ele estava na quadra? Como ele gritou com o Asahi?”
Charlie desviou o olhar, passando a mão pelo cabelo, tentando encontrar as palavras certas. Sim, ele tinha visto. Mas aquilo não significava nada… certo?
“Ele só estava frustrado, Tao. Isso acontece.”
“É, acontece,” Tao concordou, mas seu tom estava carregado de dúvida. “Mas esse tipo de frustração não me parece novidade pra ele. Esse tipo de explosão, essa obsessão em ser o melhor…” Tao fez uma pausa antes de continuar, a voz mais baixa. “Esses garotos são todos iguais, Charlie.”
Charlie sentiu o estômago revirar. Ele sabia onde aquela conversa ia parar.
“Nick não é como o Ben,” ele rebateu antes que Tao pudesse continuar. Sua voz saiu mais firme do que esperava.
Tao franziu os lábios, claramente insatisfeito com a resposta.
“Você tem certeza?” Ele questionou, inclinando ligeiramente a cabeça. “Porque eu já vi isso antes. Primeiro, eles te encantam. Eles te fazem acreditar que são incríveis, que você pode confiar neles.” A expressão de Tao endureceu, e Charlie sentiu o peso daquilo em seu peito. “Mas então, um dia, você acorda e percebe que está pisando em ovos. Que tudo depende do humor deles. Que se você disser a coisa errada ou fizer algo que eles não gostam, vai se tornar o alvo da frustração deles.”
Charlie cerrou os punhos. Ele entendia a preocupação de Tao. De verdade. Mas Nick não era assim. Ele não era.
“Nick é intenso, eu sei disso. Mas ele nunca me tratou mal.”
“Nem o Ben, no começo.”
O silêncio entre os dois se prolongou, e Charlie sentiu a garganta apertar.
“Não é a mesma coisa,” ele insistiu, a voz saindo um pouco mais fraca.
Tao soltou um suspiro pesado e passou a mão pelo rosto, parecendo frustrado. “Olha, eu só… eu não quero que você se machuque de novo, Charlie.”
Charlie desviou o olhar para o chão, mordendo o lábio. Ele não queria admitir, mas aquilo o afetou. O medo de Tao não era infundado. Mas… Nick não era Ben. Ele sabia disso. Ele sentia isso.
“Eu entendo,” Charlie disse, sua voz mais baixa, mas carregada de convicção. “E eu agradeço de verdade. Mas você precisa confiar em mim quando eu digo que o Nick é diferente.”
Tao não respondeu de imediato. Apenas observou Charlie por um longo momento, como se estivesse tentando enxergar alguma hesitação nele. Quando não encontrou nada, suspirou e balançou a cabeça.
Tao suspirou, balançando a cabeça. “Tá bom. Mas se ele fizer alguma merda, qualquer coisa, eu vou ser o primeiro a dizer ‘eu te avisei’.”
Charlie soltou uma risada fraca, cruzando os braços. “Acho que isso é inevitável.”
Tao estreitou os olhos, analisando o amigo por um instante antes de soltar um riso. “Mas sério, o que você viu nele? Ele parece um Golden Retriever.”
Charlie bufou, fingindo indignação. “Claro que não.”
Tao arqueou uma sobrancelha. “Ele tem cara de quem abanaria o rabo se você coçasse a cabeça dele.”
Charlie revirou os olhos, mas o sorriso teimava em surgir. “Se bem que Golden Retrievers são lindos…”
Tao soltou uma risada curta e deu um tapinha no ombro de Charlie. “Vamos para mais um capítulo de o “O Charlie Apaixonado”.”
Charlie riu junto, sacudindo a cabeça. “Talvez um pouco.”
Tao deu um passo para trás, ainda sorrindo. “Só cuida de você, tá?”
Charlie assentiu, o olhar mais suave. “Você também.”
Eles se despediram, e Charlie ficou parado por um momento, vendo Tao se afastar. Ele sabia que o amigo só queria protegê-lo. Mas, naquele momento, tudo que ele conseguia pensar era: Nick não é como o Ben.
Charlie assentiu com um sorriso pequeno, sentindo o coração bater um pouco mais rápido. Seu olhar se desviou para Nick, que ainda estava parado perto da porta do ônibus, estalando os dedos distraidamente, perdido em pensamentos. O vento frio bagunçava seus cabelos, e as luzes suaves dos postes refletiam nos olhos verdes, deixando-os ainda mais brilhantes. Charlie respirou fundo, juntando coragem antes de dar um passo à frente.
"Posso ir com você?" Sua voz saiu hesitante, mas cheia de intenção.
Nick ergueu os olhos para ele, piscando como se saísse de um devaneio. Por um segundo, pareceu surpreso, mas então seu rosto suavizou e um sorriso nasceu em seus lábios, iluminando todo o seu semblante.
"Estava torcendo por isso."
Charlie sentiu o peito se aquecer. Ele mordeu de leve o lábio, tentando conter um sorriso maior, antes de simplesmente se aproximar de Nick.
Os dois começaram a caminhar lado a lado pelas ruas tranquilas, envoltos na luz suave dos postes e no brilho distante das estrelas que começavam a surgir entre as nuvens. O ar frio da noite fazia suas respirações se tornarem pequenos vapores que se dissipavam lentamente no silêncio acolhedor da cidade adormecida. Por um momento, nenhum dos dois disse nada. Apenas ouviram o som ritmado dos passos ecoando no asfalto úmido, o farfalhar das folhas ao vento e o leve tilintar das chaves no bolso de Nick.
Então, sem pensar muito, Nick deslizou a mão até encontrar a de Charlie. Seus dedos se tocaram de leve antes de Nick entrelaçá-los, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Charlie piscou, surpreso pela repentina suavidade do gesto, mas não recuou. Pelo contrário, seu coração bateu um pouco mais forte ao sentir o calor da mão de Nick contrastando com o frio da noite. Ele apertou de volta, um sorriso involuntário nascendo em seus lábios. Nick o olhou de canto, os olhos brilhando sob a luz da rua, e sorriu também, pequeno e genuíno.
“O jogo foi bem intenso, né?" Charlie quebrou o silêncio, sua voz saindo suave, mas carregada de algo mais profundo. Ele queria manter o momento leve, mas havia uma preocupação sutil em suas palavras, uma hesitação que Nick percebeu de imediato.
Nick parou de andar e virou-se para ele, os olhos verdes brilhando sob a luz difusa da rua.
"Foi mesmo..." Ele baixou o olhar por um instante, como se o peso de tudo que sentia estivesse pressionando seus ombros. "...e me desculpe por tudo aquilo." Sua voz saiu mais baixa, carregada de uma culpa silenciosa que ele tentava esconder.
Charlie não respondeu de imediato. Apenas observou Nick, os traços de tensão ainda presentes em seu rosto, o jeito como ele mordia de leve o lábio inferior, o peso que parecia carregar dentro de si. E então, sem pensar muito, apenas seguindo o que sentia, ele deu um passo à frente. Levantou uma das mãos e a pousou na nuca de Nick, os dedos deslizando levemente por sua pele quente. Ele puxou Nick para mais perto, seus corações quase se tocando, e antes que qualquer palavra pudesse preencher o espaço entre eles, Charlie o beijou.
Nick congelou por um segundo, pego de surpresa, mas então seus olhos se fecharam e ele simplesmente se entregou. O beijo era calmo, mas profundo, como se Charlie estivesse tentando dizer algo que as palavras não conseguiam expressar. Como se estivesse pedindo para que Nick soltasse aquele peso, para que confiasse nele, para que simplesmente estivesse ali, naquele momento, sem o fardo do passado ou das expectativas.
O mundo ao redor desapareceu. Não havia mais a noite fria, nem os postes iluminando a rua deserta, nem o jogo que havia ficado para trás. Havia apenas o calor dos lábios de Charlie, o cheiro familiar dele, o jeito como suas mãos encontraram espaço nos braços de Nick, segurando-o firme, mas com delicadeza.
Instintivamente, Nick deslizou as mãos até os braços de Charlie, sentindo o contorno mais magro, a estrutura mais leve que parecia tão frágil e, ao mesmo tempo, tão firme. Aquilo o fez abrir os olhos por um breve momento, uma nova onda de emoções atravessando seu peito. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Charlie se afastou suavemente, sorrindo contra seus lábios.
"Uau," Nick murmurou, ainda sem fôlego. Seu coração martelava contra o peito, mas não era ansiedade ou nervosismo. Era algo mais... algo que ele não conseguia explicar, mas que fazia todo o peso que carregava parecer um pouco mais leve.
Charlie inclinou a cabeça de leve, um brilho divertido nos olhos. "Eu estava precisando disso também."
Charlie sorriu de leve, sem pressa, e puxou Nick suavemente pela mão até um banco próximo, onde os dois se sentaram. O frio da noite parecia menos cortante agora, como se tivesse recuado para dar espaço ao calor que se formava entre eles.
Nick respirou fundo antes de se inclinar, sem hesitação, e repousar a cabeça contra o peito de Charlie. Era um gesto instintivo, um pedido silencioso de conforto, de ancoragem. A respiração de Charlie era calma, ritmada, e Nick sentiu seu próprio peito desacelerar para acompanhá-lo.
Charlie reagiu sem pensar, como se seu corpo já soubesse o que fazer antes mesmo que sua mente percebesse. Seus dedos deslizaram devagar pelos cabelos ainda úmidos de Nick, entrelaçando-se suavemente nos fios, traçando caminhos sem pressa. Os toques eram lentos, cuidadosos, quase uma promessa silenciosa. Como se cada fio fosse um pensamento pesado sendo desfeito pelas pontas de seus dedos.
Nick fechou os olhos. E então, as lágrimas vieram.
Seu corpo tremeu de leve contra Charlie, quase imperceptível, mas ele sentiu. A respiração de Nick ficou mais curta, entrecortada, como se estivesse tentando conter algo que não podia mais segurar. Charlie não disse nada. Ele não perguntou, não tentou consertar. Apenas continuou ali, presente, envolvendo-o com sua presença, com seu calor, com a única certeza que podia oferecer: eu estou aqui, você não está sozinho.
Nick apertou os dedos ao redor da blusa de Charlie, como se precisasse se segurar em algo sólido. As lágrimas escorriam silenciosas, quentes contra sua pele fria. Ele não sabia por que era tão difícil. Talvez porque nunca tivesse permitido que alguém o visse assim. Talvez porque sempre acreditou que precisava ser forte, que precisava segurar tudo sozinho. Charlie apenas continuou ali, sem soltar, sem se afastar. Suas mãos deslizaram até as costas de Nick, traçando círculos lentos, como se quisessem garantir que ele não desaparecesse naquele turbilhão de sentimentos.
Foi Nick quem ergueu o rosto primeiro. Lentamente, como se o próprio peso do momento tornasse tudo mais difícil. Seus olhos estavam vermelhos, um pouco inchados, cada lágrima carregando um peso impossível de suportar. Charlie o observou, seu coração apertando no peito. Com a ponta dos dedos, ele tocou delicadamente a bochecha de Nick, secando uma lágrima solitária que descia devagar, seu toque leve como um sussurro contra a pele quente. Nick prendeu a respiração por um instante, sentindo aquele carinho sem pressa, sem necessidade de palavras. Apenas o gesto, apenas a sensação de ser cuidado, de ser visto, de não precisar esconder nada.
“Obrigado por estar aqui,” sua voz saiu rouca, baixa, como se carregasse algo muito maior do que ele conseguia dizer.
Charlie sorriu pequeno, mas genuíno, os olhos brilhando na penumbra da noite. “Sempre,” respondeu, a palavra carregada de uma promessa silenciosa. Algo que ia além daquele momento, além daquela noite. Uma certeza que ele queria que Nick nunca duvidasse.
Nick abriu a boca, tentando dizer algo, mas sua voz falhou antes mesmo de sair. Seus lábios tremeram e ele os pressionou um contra o outro, frustrado consigo mesmo. Fechou os olhos por um instante, sentindo o peso da respiração em seu peito, os ombros subindo e descendo devagar, como se tentasse encontrar estabilidade em meio ao caos dentro dele.
Charlie percebeu a luta nos olhos de Nick—ele via o conflito, as palavras presas, o medo de dizê-las em voz alta. Não queria forçá-lo, mas queria que soubesse que estava ali, que ele poderia falar sem medo. Então, em um tom compreensivo e gentil, apenas sussurrou:
"Quem era aquele garoto?"
Nick engoliu seco, desviando o olhar para o chão. Seu coração deu um salto desconfortável dentro do peito, como se estivesse tentando fugir da pergunta. Mas não havia para onde fugir. Quando finalmente conseguiu responder, sua voz saiu mais fraca do que queria, como se estivesse arrancando as palavras de dentro de si.
"Oikawa," ele murmurou, como se puxasse o nome do fundo da memória, sentindo o peso dele pousar sobre sua língua. "Ele... foi... meu primeiro e melhor amigo."
Foi.
Aquela palavra ecoou dentro dele como um golpe seco no peito. Foi. Não é mais. Oikawa não fazia mais parte de sua vida do jeito que deveria. Não estava ao seu lado como antes. Não ria com ele, não jogava com ele. Não o chamava mais de Niko. Nick apertou os punhos sobre os joelhos, sentindo os dedos ficarem brancos com a força que colocava ali. Seu peito estava apertado, uma dor surda que se alojava entre as costelas, crescendo a cada segundo.
"Eu estraguei tudo..." A confissão escapou antes que ele pudesse segurá-la. Nick piscou rápido, tentando conter a ardência nos olhos. "...eu era... arrogante. Eu achava que precisava provar algo o tempo todo, que precisava ser melhor do que todo mundo. E eu não percebi..."
Ele respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. O que ele não percebeu? Que estava perdendo Oikawa? Que estava destruindo a única coisa que realmente importava?
"Ele só queria jogar comigo," Nick continuou, sua voz baixa, carregada de algo que parecia arrependimento e exaustão. "Só queria que eu estivesse ao lado dele. Mas eu... eu transformei tudo em uma competição. Em uma briga. E eu perdi. Eu o perdi."
Charlie permaneceu em silêncio, apenas ouvindo, apenas estando ali.
"Ele nunca foi como eu," Nick riu sem humor, balançando a cabeça. "Ele errava tanto no começo. Mas continuava tentando. Sempre. Ele nunca aceitava a derrota. Se caísse, levantava no segundo seguinte. E eu..."
Ele hesitou, o peso da verdade se afundando em seu peito.
"...eu nunca soube perder."
Charlie inclinou um pouco a cabeça, os olhos suaves, compreensivos.
"Mas você aprendeu," ele disse baixinho.
Nick apertou os olhos por um segundo, respirando fundo. Sim, ele aprendeu. Mas o preço que pagou por isso era algo que ele não sabia se poderia recuperar. Nick apertou os olhos por um instante, tentando conter a ardência que crescia, mas era inútil. Aquelas memórias não se dissipavam. Elas voltavam como um soco no estômago, arrancando seu ar, esmagando seu peito. Ele olhou para Charlie, e pela primeira vez, sentiu que podia dizer aquilo em voz alta, que podia deixar aquelas palavras saírem sem medo.
"Eu só queria que ele ainda estivesse aqui."
Charlie piscou, surpreso com o tom da voz de Nick. Nunca o viu assim. Nunca imaginou que ele carregasse tanto dentro de si. Nick sempre foi forte, sempre foi seguro, sempre esteve no controle. Mas agora, ali, naquela rua silenciosa, sob a luz fraca dos postes, ele parecia... frágil. Charlie não sabia o que dizer. Então, apenas apertou a mão de Nick, entrelaçando os dedos com força, como se dissesse eu estou aqui.
"O que aconteceu entre vocês?" Charlie perguntou baixinho, sua voz hesitante, quase temendo a resposta.
Nick respirou fundo, e então começou a falar. Ele contou sobre o pai. Sobre as noites em que chegava em casa bêbado, gritando, quebrando coisas. Sobre os palavrões em francês cuspidos no ar, sobre as vezes em que sua mãe tentava protegê-lo e acabava sendo ferida no processo. Contou como, por anos, ele cresceu ouvindo que só os fortes venciam. Que só os vencedores mereciam respeito. Que fracassar era para os fracos.
Charlie sentiu um aperto no peito ao ouvir cada palavra. Ele queria interrompê-lo, queria dizer que nada daquilo era verdade, mas sabia que Nick não precisava de respostas. Ele só precisava desabafar. Então, Charlie ficou ali, em silêncio, segurando sua mão com ainda mais força, o polegar deslizando suavemente sobre a pele de Nick, como se quisesse apagar aquelas cicatrizes invisíveis.
Nick engoliu seco e continuou. Ele contou sobre a noite em que não aguentou mais. Sobre a noite em que saiu correndo de casa, os olhos marejados, as lágrimas quentes contrastando com o frio cortante do vento. Sobre como sentia o coração explodindo no peito, uma mistura de ódio, medo e desespero. Ele correu sem rumo, os passos rápidos e pesados na calçada molhada, tentando fugir de algo que estava dentro dele, algo que não podia simplesmente deixar para trás.
E foi então que o encontrou.
Oikawa estava lá, no parque, jogando vôlei sozinho. Seu sorriso travesso iluminava a noite, e seus olhos brilhavam como se o mundo não fosse capaz de derrubá-lo. Ele errava, errava de novo, e de novo, e de novo... e ria. Apenas ria. Como se falhar fizesse parte do processo. Como se cair não fosse o fim, mas apenas o começo.
Nick parou de falar por um momento, sua respiração tremendo.
"Ele foi a primeira pessoa que realmente me viu." A voz de Nick quebrou. "Que realmente me ouviu."
Charlie não percebeu quando sua outra mão subiu até o rosto de Nick, tocando sua bochecha quente, sentindo a humidade de uma lágrima silenciosa escorrendo. Nick fechou os olhos ao sentir o toque, se inclinando levemente contra a palma da mão de Charlie, como se precisasse daquele contato para se manter de pé.
"Nick..." Charlie sussurrou, sentindo um nó apertar sua própria garganta. Ele nunca soube. Nunca imaginou que Nick tivesse passado por algo assim.
"E eu estraguei tudo." Nick diz balançando a cabeça.
"Não diga isso." Charlie franziu a testa, a mão ainda no rosto de Nick.
"Mas é verdade." A voz de Nick estava carregada de dor. "Eu me tornei tudo o que ele odiava. Me tornei o que meu pai queria que eu fosse. Transformei o vôlei em uma guerra. Achei que precisava ser melhor, mais forte, mais rápido... e no processo, esqueci como era só jogar. Como era só... estar ao lado dele."
Nick respirou fundo, fechando os olhos por um instante, antes de abri-los novamente e encontrar os de Charlie. Ele tentou dizer algo, mas sua voz falhou, como se as palavras estivessem presas em sua garganta, pesadas demais para serem ditas. Passou a mão pelos cabelos, bagunçando-os ainda mais, tentando manter a compostura. Mas era inútil. O aperto no peito voltou, aquele peso esmagador que sempre esteve lá, escondido sob camadas de controle e silêncio.
E então, sua mente o traiu.
Foi como se o presente se dissolvesse ao redor dele, as luzes amareladas da rua se apagando, substituídas pelo brilho fraco dos postes no parque, pelo eco distante de uma bola quicando no chão. Pelo som de um riso familiar. Nick piscou, mas quando abriu os olhos, já não estava mais ali.
O cheiro de madeira polida e suor impregnava o ar do ginásio, misturando-se com o som rítmico das bolas de vôlei quicando contra o chão encerado. Os refletores altos projetavam uma luz intensa sobre a quadra, destacando a movimentação ágil dos jogadores mais velhos, que saltavam com precisão milimétrica, tentando cortar as bolas lançadas pelo treinador. Cada movimento era calculado, cada jogada um reflexo da excelência que a Academia Shiratorizawa exigia.
Nicholas estava ali, parado ao lado de Oikawa, os dois vestindo camisetas de treino simples e shorts que pareciam folgados demais. O nervosismo formava um nó em seu estômago, mas ele tentava ignorar. Era isso que sempre quis, certo? Estar ali, entre os melhores, provando que podia chegar ao topo.
Mas havia algo sufocante naquele ginásio. Algo frio. Impessoal.
Os jogadores da Shiratorizawa se moviam com uma precisão mecânica, como engrenagens de um sistema impenetrável. O treinador mal os olhava, apenas avaliava, observando cada detalhe com olhos críticos, como se estivesse analisando quem valia a pena e quem era descartável.
Ao seu lado, Oikawa estalava os dedos discretamente, um hábito que tinha quando tentava esconder a ansiedade. Mas seu rosto permanecia inabalável, o sorriso confiante estampado como se não houvesse um pingo de dúvida em sua mente. Nicholas percebeu o olhar atento de Oikawa varrendo a quadra, estudando cada jogador, cada erro e acerto. Mas havia algo mais por trás daqueles olhos mel. Ele não estava apenas observando. Ele estava medindo.
"Oikawa está nervoso?" A ideia parecia absurda. Mas então, ele viu. Os dedos de Oikawa deslizaram pelo tecido do short em um movimento rápido, limpando o suor das mãos. Quase imperceptível. Um reflexo automático que Nicholas nunca tinha visto antes.
"Isso é bem intimidador," Oikawa murmurou, fingindo distração enquanto observava os cortes poderosos dos jogadores em teste.
Nicholas assentiu, sentindo a boca seca. "Eles são bons."
"Nós somos melhores." Oikawa sorriu. Um sorriso confiante, leve, como se nada ali pudesse atingi-lo. Mas Nicholas percebeu o pequeno tremor nas mãos dele. Foi só por um segundo. Um instante breve demais para qualquer um notar. Mas Nicholas viu.
O treinador chamou o próximo grupo. Era a vez deles. Nicholas e Oikawa deram um passo à frente, e enquanto caminhavam até a linha de teste, Oikawa abaixou a cabeça levemente e sussurrou algo para si mesmo.
"Se você vai bater, bata até quebrar." As palavras flutuaram no ar, baixas demais para qualquer um ouvir além de Nicholas.
E então, quando Oikawa ergueu a cabeça de novo, o sorriso travesso estava de volta. Não havia mais tremor nas mãos. Não havia mais hesitação nos olhos. Oikawa era um ator nato. Mas Nicholas sabia a verdade. Ele estava com medo e por algum motivo, aquilo fez algo dentro de Nicholas se contorcer. Nicholas olhou para a rede profissional, alta e imponente, como um muro impossível de escalar. Seu coração deu um salto.
“Ela é imensa…” murmurou, engolindo em seco.
“Relaxa, Niko! Eles abaixam pra gente,” Oikawa respondeu sem hesitar, o tom descontraído como se estivessem prestes a jogar no parque e não na academia mais prestigiada da região.
Nicholas não sabia de onde vinha aquela confiança inabalável. Mas, de alguma forma, isso o acalmava. Foi então que uma presença esmagadora se aproximou.
O treinador do time principal do Shiratorizawa, Tanji Washijō, caminhava em sua direção, as mãos para trás, o olhar severo e penetrante. Seu rosto, marcado pelos anos de experiência, era rígido como pedra, e sua postura exalava disciplina absoluta. Ele parecia carregar todo o peso da tradição do Shiratorizawa sobre os ombros, e seu olhar avaliador deixava claro que não era alguém facilmente impressionado. Nicholas se ajeitou, tentando manter a postura.
“Bom dia, senhor—” começou ele, tentando soar educado.
Mas antes que pudesse continuar, Oikawa já estava se adiantando, com um brilho animado nos olhos.
“Estamos aqui para jogar vôlei e ser os melhores levantadores do mundo!” Ele estendeu os papéis de inscrição com um entusiasmo quase desproporcional para o ambiente frio do ginásio.
Washijō pegou as folhas sem pressa, sem tirar os olhos dos garotos.
“Levantadores, é?” sua voz era grave, cortante, carregada de uma autoridade incontestável.
“É,” confirmou Nicholas, tentando manter a mesma confiança que Oikawa.
“Os melhores!” Oikawa repetiu sem hesitação, o sorriso desafiador, os olhos faiscando com ambição.
Washijō arqueou levemente a sobrancelha, mas seu rosto permaneceu impassível. Ele olhou os dois de cima a baixo, avaliando cada detalhe—altura, estrutura corporal, postura. Seu olhar era frio, calculista, como se já soubesse exatamente o destino de cada um ali antes mesmo de vê-los jogar. O silêncio se arrastou por um segundo a mais do que Nicholas gostaria. E então, finalmente, um sorriso surgiu nos lábios do treinador. Mas não era um sorriso acolhedor. Não era o tipo de sorriso que inspirava confiança. Era um sorriso carregado de algo diferente.
Desdém.
“Levantadores, hein?” Ele cruzou os braços. “E já se acham os melhores do mundo?”
Oikawa manteve o olhar firme. “Ainda não, mas vamos ser.”
Nicholas sentiu o ar pesar.
Washijō riu. Foi um riso curto, seco, sem humor.
“Vamos ver do que vocês são feitos,” ele disse, virando-se para a quadra.
E, naquele instante, Nicholas percebeu—aquele teste não seria apenas difícil.
Seria uma guerra.
Washijō os levou até uma quadra menor, adaptada para os mais novos, onde os aspirantes a jogadores do Shiratorizawa passavam pelos testes básicos. Mas nada ali parecia básico. A atmosfera era pesada, cheia de expectativas. O som das bolas quicando contra o piso, os gritos de incentivo e correções severas dos treinadores encheram os ouvidos de Nicholas e Oikawa enquanto se posicionavam para o primeiro teste.
Teste 1: Saque
Nicholas foi chamado primeiro. Ele segurou a bola com firmeza e respirou fundo. Seus dedos giraram a superfície esférica, e, quando lançou a bola ao ar, sua mecânica foi impecável. Seu saque foi direto, rápido e preciso, quicando forte contra a parede da quadra. Washijō não reagiu, apenas assentiu brevemente e fez um sinal para que repetisse. O segundo saque foi ainda melhor.
“Boa potência,” murmurou o treinador, anotando algo em sua prancheta.
Oikawa veio logo depois. Ele girou a bola entre os dedos, esticou os ombros e lançou-a para o alto. Seu corpo se moveu com fluidez, mas o contato com a bola não foi perfeito. O saque saiu forte, mas sem controle, e bateu na fita da rede antes de cair. Oikawa franziu o cenho, mas rapidamente sacudiu os ombros e riu baixinho para si mesmo.
“Tenta de novo,” Washijō ordenou.
O segundo saque foi melhor, passando por cima da rede, mas sem potência suficiente para ser um desafio para qualquer defensor decente. No terceiro, ele tentou compensar com mais força, mas a bola saiu completamente para fora.
Nicholas sentiu um leve desconforto ao ver aquilo. Ele nunca havia visto Oikawa errar tantas vezes. Mas Oikawa não parecia abalado. Ele ajeitou os cabelos, respirou fundo e se posicionou de novo, determinado.
Teste 2: Recepção e Defesa
O teste seguinte foi recepção. Dois treinadores mais velhos começaram a lançar bolas rápidas em sua direção. Nicholas flexionou os joelhos e ajustou sua postura instintivamente. Seu primeiro contato foi limpo, amortecendo o impacto e enviando a bola para uma altura confortável. Seu segundo foi ainda melhor. Ele estava focado, cada movimento fluindo com naturalidade.
“Ele já tem boa leitura de jogo,” comentou um dos auxiliares.
Quando chegou a vez de Oikawa, o cenário foi diferente. O primeiro saque lançado contra ele quicou desajeitadamente de seus antebraços, desviando para o lado. O segundo bateu no chão antes mesmo de ele reagir. Ele apertou os lábios, os olhos focados. No terceiro, tentou ajustar sua postura e conseguiu um toque melhor, mas ainda era instável.
Washijō estreitou os olhos. “Se não consegue nem receber um saque, não tem lugar aqui.”
Nicholas sentiu algo se revirar dentro de si. Ele nunca tinha ouvido alguém falar com Oikawa assim. Mas Oikawa apenas respirou fundo, se ajeitou novamente e esperou pela próxima bola. E então, ele começou a melhorar. Mesmo errando, cada nova tentativa era um pouco mais precisa. Ele absorvia os erros e se adaptava. Quando conseguiu devolver uma bola perfeita para o meio da quadra, sorriu satisfeito.
Teste 3: Levantamento
Finalmente, era a hora do teste que definiria o papel de ambos em quadra. O treinador pegou uma bola e a lançou para Nicholas, que a recebeu com suavidade e fez um levantamento preciso. A bola girou no ar, com a trajetória exata para um atacante acertar no ponto ideal. O segundo foi igualmente perfeito. Washijō franziu o cenho levemente, mas não disse nada.
Nicholas já sabia que seu levantamento era bom. Ele tinha instinto. Tinha visão de jogo. Podia sentir o posicionamento dos jogadores ao seu redor e adaptar cada toque com precisão.
Oikawa veio logo depois. E o desastre começou. Seu primeiro levantamento saiu completamente torto, enviando a bola para a lateral. O segundo foi muito curto. O terceiro longo demais. Washijō cruzou os braços, claramente impaciente. Nicholas engoliu em seco. Ele nunca viu Oikawa errar tantos levantamentos seguidos. Mas o que o deixou mais impressionado não foram os erros.
Foi o sorriso.
Oikawa errava, ria de si mesmo, balançava os ombros e tentava de novo. E de novo. E de novo. E então, aos poucos, seus levantamentos começaram a melhorar.
O sétimo saiu mais alinhado. O oitavo estava quase perfeito. No nono, a bola encontrou exatamente o ponto ideal para um atacante pular e acertar.
Oikawa sorriu grande, satisfeito. “Acho que agora foi.”
Nicholas observou aquilo em silêncio. Havia algo naquele garoto que ele não entendia. Uma resiliência que ia além do talento, além da técnica. Oikawa não apenas jogava. Ele aprendia e nunca desistia.
No final dos testes o treinador reuniu todos os garotos que fizeram o teste e disse:
“Todos os nomes que eu chamar fiquem a minha direita.”
Os garotos escolhidos se afastaram para a lateral do ginásio, suas expressões um misto de alívio e orgulho. Alguns se entreolhavam, sorrindo discretamente, enquanto outros mantinham uma postura mais contida, ainda processando a escolha. Nicholas, entre eles, tentava manter a compostura, mas seus olhos continuavam fixos em Oikawa.
Oikawa ainda estava parado no meio da quadra, seu corpo imóvel, mas seus olhos se movendo rapidamente entre os outros jogadores, como se estivesse esperando que seu nome fosse chamado a qualquer momento. Seus dedos tamborilavam contra a perna, um movimento pequeno, mas que Nicholas reconhecia como um sinal de nervosismo. E então, lentamente, seu sorriso começou a vacilar.
Washijō, o lendário treinador da Shiratorizawa, finalmente levantou o olhar da prancheta. Seu rosto era marcado pela idade e experiência, seus olhos afiados como lâminas avaliando tudo ao seu redor com precisão implacável. Com sua postura rígida e braços cruzados, ele exalava autoridade, alguém que não fazia concessões, que não desperdiçava palavras ou oportunidades. Ele varreu o ginásio com o olhar, como se estivesse conferindo pela última vez se havia tomado a decisão certa.
Oikawa franziu as sobrancelhas, o sorriso agora um fantasma do que fora momentos antes. "Sensei...," ele chamou, a voz ainda carregada de sua confiança habitual, mas havia algo de ansioso ali. "...acho que o senhor esqueceu de chamar o meu nome."
Washijō o encarou, seus olhos frios e avaliadores. "Eu não esqueci."
As palavras caíram como um martelo. Nicholas sentiu algo se contorcer em seu peito. Ele prendeu a respiração, esperando que Oikawa reagisse, esperando que dissesse algo, qualquer coisa. Mas por um momento, Oikawa apenas ficou ali, piscando devagar, tentando processar.
"Mas..." Oikawa riu baixinho, quase sem humor, inclinando ligeiramente a cabeça. "Eu fiz todos os testes. Eu..."
"Seus resultados foram inferiores aos dos outros candidatos," Washijō cortou, a voz baixa, mas com um peso esmagador. "Sua técnica é inconsistente. Seu saque é impreciso. Seu levantamento não possui instinto. Você não tem talento."
Aquela última sentença foi como uma faca atravessando o peito de Oikawa. Nicholas viu seus dedos se fecharem ao lado do corpo, os ombros enrijecerem, mas o sorriso ainda estava lá—fraco, instável, como vidro prestes a trincar.
Os outros garotos que não foram chamados abaixaram a cabeça, encolhendo os ombros como se tivessem sido reduzidos a pó. Mas Oikawa ficou onde estava. Seus olhos mel brilhavam de um jeito estranho, como se quisesse desafiar as palavras do treinador, como se estivesse prestes a abrir a boca e argumentar. Mas ele não o fez.
Washijō continuou. "O jogo de vôlei não é para aqueles que treinam mais. É para aqueles que nascem para isso. Você pode se esforçar o quanto quiser, mas nunca vai ultrapassar aqueles que foram abençoados com talento genuíno."
Um nó se formou na garganta de Nicholas. Ele sentiu o olhar de Oikawa vacilar, indo para o chão por um breve segundo antes de voltar a encarar o treinador. Seu peito subia e descia rápido demais, como se estivesse tentando manter a calma, tentando segurar algo dentro de si.
“Treinador,” chamou Oikawa, a voz trêmula, mas ainda determinada. “Me dê mais uma chance! Tenho certeza de que consigo atingir a média!”
“O Shiratorizawa não é para jogadores que atingem a média...” O treinador virou-se para ele, os olhos frios, cansados. “Vai pra casa garoto” disse, seco.
Oikawa balançou a cabeça, se recusando a acreditar.
“Mas eu quero jogar vôlei!” Sua voz quebrou no final. “Eu juro que posso ser bom nisso!”
O treinador suspirou e apertou os olhos. Quando voltou a falar, sua voz foi ainda mais dura.
“Você não tem talento. Nem aptidão. Vôlei não é pra você.”
Aquelas palavras foram como um faca no peito de Oikawa, mas ele com uma fúria no olhar disse com uma voz desafiadora.
“Eu desafio seu melhor jogador!”
Uma risada sai da boca de Washijō. “Não temos tempo para perder com isso”
“Treinador...” a voz de um garoto soa atras deles e todos se viram. Ushijima Wakatoshi era uma presença esmagadora. Alto, imponente, com músculos definidos e um olhar frio e calculista, ele exalava uma confiança inabalável. Seu uniforme impecável da Shiratorizawa se ajustava perfeitamente à sua postura rígida, e seu cabelo escuro curto acentuava a expressão séria de alguém que sabia que era o melhor. Seu olhar nunca vacilava, seus movimentos eram calculados e, ao contrário de Oikawa, ele não desperdiçava palavras. Para Wakatoshi, vôlei não era apenas um esporte. Era uma afirmação de superioridade.
“Se você conseguir defender tres cortes do Ushijima, talvez você tenha uma chance” Washijō disse
“Aceito!” Oikawa encara Ushijima
Ushijima pegou a bola com calma, como se segurasse algo muito menor do que realmente era. Seus dedos largos a envolveram firmemente, mas seu rosto permaneceu inexpressivo. Ele não precisava exibir confiança—sua presença já era esmagadora por si só.
Oikawa engoliu em seco, mas manteve o olhar firme. Ele não ia se acovardar. O ginásio ficou em silêncio enquanto Ushijima dava um passo para trás, preparando-se. Seus olhos escuros analisaram a quadra em um instante. Não havia hesitação, não havia dúvida. Havia apenas a execução perfeita de um movimento que ele já havia repetido incontáveis vezes.
E então, ele lançou a bola para o alto. Seu corpo se moveu com uma precisão absurda. A perna de apoio flexionou suavemente, o tronco inclinou no ângulo ideal, e o braço dominante se ergueu como uma lâmina afiada. No momento exato, o braço desceu com um impacto devastador.
O som do contato foi como um trovão rasgando o ginásio. A bola disparou como um míssil, atravessando o espaço entre Ushijima e Oikawa em uma fração de segundo. Oikawa viu tarde demais. O golpe foi tão brutal que a bola explodiu contra o chão ao seu lado antes que ele pudesse sequer reagir. O som do impacto ecoou pelo ginásio, a madeira da quadra quase vibrando com a força do golpe.
Oikawa piscou. Ele nem teve tempo de se mexer. O silêncio durou um segundo antes de ser quebrado pelo riso abafado dos outros garotos. Alguém assobiou em surpresa. Outro soltou um comentário divertido sobre como Oikawa nem teve tempo de piscar. Oikawa sentiu o rosto queimar. Mas não sorriu.
Ushijima apenas se endireitou, seu olhar fixo em Oikawa, como se já soubesse que aquilo aconteceria.
“Isso foi só o primeiro,” Ushijima disse pegando outra bola. “Vou facilitar para você na próxima”
“Não quero sua piedade, de o seu melhor.” Oikawa diz com seu sorriso e todos se surpreendem
Ushijima pegou outra bola, girando-a levemente entre os dedos, sem pressa. Seu rosto permanecia inexpressivo, mas seus olhos escuros carregavam um peso quase impiedoso. Ele não via aquilo como um desafio. Não via como uma disputa. Para ele, Oikawa não era uma ameaça. Era apenas alguém no caminho.
Oikawa respirou fundo e se posicionou melhor, flexionando os joelhos, tentando prever a trajetória antes mesmo de a bola sair. Ele precisava estar pronto.
Ushijima deu dois passos para trás, preparando-se para seu segundo ataque. O silêncio no ginásio se tornou denso, carregado de expectativa. Todos sabiam o que vinha a seguir.
E então, como um raio, a bola subiu.
Ushijima saltou com uma facilidade assustadora, como se a gravidade não o afetasse. Seu corpo parecia esculpido para aquele movimento. Cada músculo trabalhou com precisão. O braço se ergueu, os dedos se abriram no ponto máximo de alcance, e, no momento exato, o golpe veio.
Dessa vez, Oikawa viu a bola, mas não foi suficiente. O som do impacto foi ainda mais brutal. Um estrondo seco, como se algo tivesse sido estilhaçado no ar. A bola atravessou o espaço entre eles em um piscar de olhos. Oikawa moveu os braços instintivamente, tentando amortecer o impacto, mas o choque foi tão forte que seus pés deslizaram para trás contra o piso encerado.
Um zumbido tomou seus ouvidos. A pressão da bola fez seus braços formigarem. Seu corpo foi empurrado para trás pela força do golpe, e ele sentiu as pernas vacilarem por um instante. Ele piscou, atordoado. O ginásio parecia girar por um segundo.
A bola bateu contra a parede no fundo da quadra com um impacto surdo antes de quicar e rolar lentamente para o lado. O silêncio durou um segundo. E então, alguém riu.
"Ele nem conseguiu segurar!" uma voz comentou.
"Ushijima está jogando sério agora," outra acrescentou.
Oikawa respirou pesadamente, os braços ainda vibrando com o impacto. Mas ele não se mexeu. Não cedeu. Ushijima apenas observou, sem qualquer mudança de expressão. Ele não parecia satisfeito. Nem impressionado. Apenas pegou outra bola, preparando-se para o terceiro e último golpe. Oikawa ergueu a cabeça devagar, o peito subindo e descendo com a respiração pesada. Seus olhos mel brilharam com algo selvagem, indomável.
“Desiste?” Ushijima perguntou, sem arrogância, apenas um fato.
Oikawa passou a língua pelos lábios e seu sorriso surgiu, lento e travesso.
"Se for bater, bata até quebrar!" ele gritou, a voz ecoando pelo ginásio.
Ushijima apenas assentiu, sem demonstrar emoção.
"Que assim seja," ele respondeu, levantando a bola uma última vez.
Ushijima pegou a última bola com a mesma calma implacável de sempre. Seus dedos giraram-na levemente, os olhos fixos em Oikawa, mas sem qualquer traço de provocação. Ele não precisava intimidá-lo. Ele sabia que sua força falaria por si só. Oikawa continuava parado, ainda com o corpo reverberando da última recepção falha. Seus braços pesavam, os músculos tremiam, mas ele não recuou.
Ushijima deu três passos para trás, preparando-se. A tensão no ginásio era sufocante. Todos estavam esperando o golpe final, e ninguém parecia acreditar que Oikawa realmente tentaria segurar aquele último ataque.
Mas ele tentaria.
Ushijima lançou a bola para o alto. Seu corpo se moveu como uma máquina perfeitamente calibrada. O salto foi impecável, os olhos fixos no ponto exato onde a bola deveria encontrar sua palma. Sua mão abriu-se, como a garra de um predador, e no segundo exato em que seus dedos tocaram a superfície, o golpe veio.
E foi o mais forte de todos.
O ar ao redor da bola pareceu rasgar. O som do impacto contra sua mão ecoou como um trovão, reverberando pelas paredes do ginásio. Oikawa viu a bola vindo, mas desta vez, não houve tempo. Nenhuma fração de segundo para reação. Nenhuma chance de ajustar a posição. A trajetória era reta, afiada, certeira.
A bola atingiu Oikawa diretamente no rosto.
O som do impacto foi seco e brutal, como se algo tivesse rachado. Seu corpo foi lançado para trás, os pés saindo do chão antes que ele desabasse de costas contra a quadra. O silêncio que veio depois foi quase tão violento quanto o golpe. Por um instante, ninguém se mexeu. O som abafado da bola quicando e rolando até parar no canto do ginásio foi a única coisa que preencheu o vácuo deixado pelo impacto.
Então, vieram as risadas.
Baixas no início, depois mais ousadas. Alguns dos jogadores murmuraram entre si, balançando a cabeça em descrença. "Ele realmente achou que podia pegar essa?"
Nicholas não ouviu mais nada.
"OIKAWA!"
Ele se jogou no chão ao lado dele, os olhos arregalados, as mãos tremendo ao segurar seu ombro. Oikawa estava imóvel, a respiração pesada e entrecortada.
E então, o sangue.
Um fio vermelho escorria lentamente de seu nariz, tingindo sua pele clara e pingando contra a madeira polida da quadra. Nicholas sentiu o estômago revirar.
Washijō, do outro lado do ginásio, apenas suspirou, entediado.
"Tragam uma toalha para o garoto," disse, como se estivesse lidando com algo inconveniente, e virou-se para continuar seu caminho, como se nada daquilo fosse digno de atenção.
Mas Nicholas não desviou o olhar. Ele viu quando Oikawa piscou lentamente, como se estivesse processando tudo. Viu quando ele levantou uma das mãos, tocando o próprio rosto e sentindo o sangue quente escorrendo.
E então, viu o sorriso.
Um sorriso pequeno, dolorido, torto. Mas estava lá. Nicholas sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aquele sorriso não era de alguém que havia sido derrotado. Era de alguém que acabava de encontrar um novo objetivo. Nicholas esperou que ele desmoronasse. Esperou que ele reclamasse da dor. Esperou que ele ficasse bravo ou, pelo menos, frustrado. Mas quando Oikawa finalmente ergueu o rosto, Nicholas estremeceu.
Seus olhos mel brilhavam. Não de lágrimas, não de raiva. Mas de algo mais intenso. Algo que Nicholas nunca tinha visto antes. Oikawa se levantou devagar, ignorando a dor no rosto, ignorando o sangue. Ele inclinou a cabeça para cima, encarando Washijō e Ushijima com um sorriso selvagem, quase desafiador.
"Eu vou ser o melhor levantador que você já viu!"
O ginásio ficou em silêncio. Washijō parou, olhando para ele por cima do ombro. Sua expressão era fria, desprovida de qualquer traço de surpresa ou curiosidade. Para ele, aquilo era apenas uma criança se agarrando a um sonho impossível.
"Mas não no Shiratorizawa," respondeu, com indiferença cortante, antes de dar as costas e continuar caminhando.
Oikawa não se mexeu. Seus punhos estavam cerrados, os ombros tensos, mas seu sorriso não vacilou. Não dessa vez.
Ushijima ainda estava parado, observando Oikawa com um olhar analítico. Ele nunca entendeu aquele tipo de jogador. Para ele, esforço nunca superaria talento. Mas, de alguma forma, havia algo intrigante na determinação de Oikawa.
"Você não deveria insistir em algo que não pode vencer," disse Ushijima, com a mesma serenidade impenetrável de sempre.
Oikawa limpou o sangue do nariz com o dorso da mão e riu, um som baixo e rouco.
"Você vai ver, Ushijima." Ele deu um passo à frente, seus olhos brilhando com um desafio perigoso. "No final, eu vou te provar que esforço e trabalho duro vencem o talento natural."
Nicholas prendeu a respiração. Aquela não era uma promessa vazia. Não era orgulho infantil. Era algo mais profundo. Oikawa acreditava naquelas palavras com cada fibra de seu ser. Sem esperar mais nada, Oikawa girou nos calcanhares e saiu correndo do ginásio. Nicholas ficou ali, parado, observando o amigo desaparecer pelo corredor.
O treino havia terminado, mas para Nicholas, o dia ainda não estava completo. Ele pegou sua mochila e, sem precisar pensar duas vezes, seguiu até a Quadra do Rio, o lugar onde ele e Oikawa sempre treinavam juntos. Aquele espaço, afastado do barulho da cidade, com o rio correndo suavemente ao lado e o vento frio bagunçando seus cabelos, era quase um refúgio.
Ao se aproximar, ele encontrou Oikawa exatamente onde esperava – no meio da quadra, treinando saque. Nicholas parou por um momento para observar. Oikawa segurava a bola com seriedade, os olhos mel brilhando com concentração. Ele jogava a bola para cima e, no instante em que se preparava para saltar, sua língua escapava levemente no canto da boca – um hábito inconsciente que Nicholas havia notado fazia tempo. Mas o tempo do salto ainda não era perfeito. Ele errava a altura e o contato, fazendo a bola cair no chão mais vezes do que gostaria.
Nicholas sorriu de canto, cruzando os braços enquanto esperava a reação de Oikawa. Antes que pudesse dizer algo, Oikawa percebeu sua presença. Seu rosto imediatamente se iluminou com um sorriso travesso, o tipo de sorriso que fazia Nicholas esquecer qualquer preocupação.
"Niko!" Oikawa correu até ele, segurando a bola contra o peito. "Você pode me ensinar tudo o que sabe?"
Nicholas piscou, surpreso pela pergunta direta. Oikawa, por sua vez, abaixou um pouco a cabeça, sem graça, e chutou levemente o chão.
"Eu sei que ainda sou ruim," admitiu, a voz mais baixa do que o normal. "Mas eu quero ser bom de verdade. Eu quero jogar vôlei como você."
Nicholas sentiu algo quente crescer dentro dele. Oikawa sempre tinha essa mania de falar o que sentia sem rodeios, e isso o fazia diferente de qualquer pessoa que Nicholas conhecia. Sem pensar muito, Nicholas ergueu a mão e segurou o rosto de Oikawa, levantando-o levemente para que seus olhos se encontrassem.
"Nós seremos os melhores levantadores desse mundo!" disse Nicholas com um sorriso determinado.
Oikawa piscou algumas vezes, surpreso, antes de seu sorriso travesso voltar. "Isso é uma promessa, Niko?"
"É um fato," respondeu Nicholas, cheio de confiança.
E assim começou a rotina. O tempo foi passando, e tudo o que Nicholas aprendia no time, ele ensinava a Oikawa. Os dias se tornaram um ciclo de treinos intensos e brincadeiras. Nicholas tinha um talento puro, uma precisão natural para o vôlei, enquanto Oikawa era pura determinação. Ele errava mais do que acertava, mas nunca desistia. Cada saque errado era seguido por um murmúrio de frustração e um "só mais uma, Niko!". Cada levantamento malfeito fazia Oikawa bufar, mas logo ele se ajeitava e tentava de novo.
"Você tem que sentir a bola," explicava Nicholas, demonstrando um toque suave. "Não é só sobre força. É sobre controle."
Oikawa tentava repetir o movimento, mordendo o lábio em concentração. A bola subia... subia... e então saía completamente do alvo.
Nicholas gargalhou. "Se continuar assim, vou te transformar no meu assistente!"
Oikawa abriu a boca, chocado. "O quê?! Nem pensar!"
"Então acerta esse levantamento!" Nicholas provocou, jogando a bola para Oikawa.
Oikawa pegou a bola no reflexo, os olhos estreitando de brincadeira. "Eu vou ser tão bom quanto você!"
"Se não for, vai ter que carregar minha mochila todo dia," Nicholas zombou.
Oikawa bufou e jogou a bola com força contra Nicholas. "EU NUNCA VOU CARREGAR SUA MOCHILA!"
Nicholas desviou e riu, pegando outra bola e jogando de volta.
E então começou.
Uma guerra de bolas.
Oikawa correu atrás de Nicholas pela quadra, tentando pegá-lo. Nicholas, sendo mais rápido, desviava no último segundo, rindo alto. Oikawa se jogou para cima dele, mas Nicholas escapou novamente, provocando.
"Vai desistir tão fácil assim, Oikawa?"
"EU NUNCA DESISTO, NIKO!"
Eles correram um atrás do outro pela Quadra do Rio, as risadas ecoando pelo ar frio da tarde. Era impossível não notar a alegria genuína nos olhos de Oikawa enquanto ele tentava, em vão, pegar Nicholas. Foi assim que eles foram crescendo juntos, um desafiando o outro. Foi assim que Nicholas aprendeu que o vôlei podia ser mais do que um jogo. Foi assim que Oikawa aprendeu que errar não significava perder. E foi assim que, sem perceber, os dois se tornaram inseparáveis.
Nick abriu os olhos voltando ao presente e encontrou o olhar suave de Charlie fixo nele. O peso das lembranças ainda estava em seu peito, como uma âncora impossível de soltar.
"Oikawa é a pessoa mais determinada que conheço." A voz de Nick saiu mais baixa do que ele pretendia. Ele apertou as mãos sobre os joelhos, desviando o olhar. "Eu não sei se posso vencê-lo."
Charlie permaneceu quieto por um momento. Então, com a mesma calma de sempre, segurou a mão de Nick entre as suas.
"Ainda bem que eu vou estar com você," respondeu ele, sua voz carregada de convicção.
Nick sentiu algo dentro dele ceder. Como se, por um instante, todo o peso desaparecesse. Ele olhou para Charlie de novo, e o mundo pareceu desacelerar.
Foi instintivo.
Nick se inclinou e, sem hesitar, capturou os lábios de Charlie nos seus. Foi diferente de antes. Não havia hesitação, não havia pressa. Era um beijo que carregava tudo o que ele não conseguia dizer, tudo o que ele queria que Charlie soubesse. Seus dedos deslizaram pela linha do maxilar de Charlie, subindo até sua nuca, puxando-o para mais perto.
A brisa fria da noite passou entre eles quando seus lábios se separaram, mas Charlie não se afastou completamente. Ele permaneceu ali, perto, a respiração ainda misturada com a de Nick, como se nenhum dos dois quisesse romper o momento tão depressa. Seus dedos ainda seguravam firme o tecido da jaqueta do Karasuno, como se ele fosse a única âncora que o mantinha no chão. Nick sentiu seu próprio coração martelar no peito, não de incerteza, mas de algo mais profundo, algo inegável.
Charlie abriu um pequeno sorriso, os olhos brilhando sob a luz fraca do poste da rua. Havia algo nele naquele instante que parecia diferente—mais leve, mais certo, como se aquele momento tivesse apagado todas as dúvidas.
"Até amanhã," disse ele, a voz baixa, carregada da intensidade do que acabara de acontecer.
“Até” Nick diz suavemente
Eles se despediram, cada um seguindo seu caminho. Mas enquanto Charlie caminhava para sua casa, Nick permaneceu parado por um momento, olhando suas costas se afastarem, sentindo algo novo crescer dentro dele. Quando finalmente retomou seus passos, não foi em direção à sua casa. Seus pés o guiaram quase por instinto, sem que ele precisasse pensar. E quando percebeu, já estava lá.
A Quadra do Rio.
O vento frio balançava levemente as folhas das árvores ao redor, e o som das águas do rio ecoava suavemente, um murmúrio constante que preenchia o silêncio. O chão de concreto da quadra tinha marcas desgastadas, traços de velhas batalhas de treinos passados. A rede velha ainda estava ali, os postes ligeiramente tortos, testemunhas de incontáveis partidas entre ele e Oikawa. Era um lugar cheio de lembranças. Algumas boas. Algumas que Nick preferia esquecer. E então, ele percebeu que não estava sozinho. Havia uma silhueta na quadra.
Um rapaz de costas para ele, vestindo uma regata leve e shorts, como se a noite fria não o incomodasse. Seus cabelos castanho-claros estavam levemente bagunçados, e seus ombros estavam relaxados, como se ele já esperasse por alguém.
Nick sentiu o corpo paralisar. O frio da noite parecia se intensificar, mas ele não sabia se era o vento ou o arrepio na espinha. Ele não precisava ouvir a voz dele. Não precisava vê-lo se virar para saber quem estava ali. Mas então, ele se virou. Os olhos mel encontraram os seus. E ele sorriu.
"Achei que fosse te encontrar aqui, Niko." Diz Oikawa
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