Nos próximos quinze minutos, todas as duplas que derem um beijo caprichado vão ganhar dois drinks por conta da casa.

A música parou somente pelo tempo que foi preciso para que a DJ da noite anunciasse aquela curta frase. Aquilo não havia sido especificado em nenhum convite, então foi uma surpresa grata para a esmagadora maioria na festa, e logo o ambiente se encheu com gritos de comemoração.

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E Yan e Vinícius estavam convenientemente diante do bar naquele exato instante. Mas não foi como se isso significasse automaticamente que Yan soubesse o que fazer.

Mesmo que eles não tivessem se movido, acabaram indo em direção ao bar por conta da quantidade esmagadora de casais que começou a se amontoar loucamente lá, e nunca na vida Yan viu tantas pessoas ao mesmo tempo tentando fazer com que seus beijos fossem notados. Os barmans pacientemente pediram para que as pessoas fizessem filas em frente a cada um, e Yan continuava embasbacado, olhando para toda aquela confusão e sem ter coragem de encarar Vinícius. A cereja no topo do bolo foi avistar Sara no meio de tudo aquilo agarrando uma garota que, pelo carimbo no braço, era seu match, e saindo em seguida alegremente brindando os drinks que receberam.

É claro que ele não vai querer me beijar, ele é hétero! Mas ele meio que me jogou uma indireta, não foi? Ele tava brincando ou o quê? Puta que pariu, e se ele for bi-curioso e quiser me beijar? Não, ele com certeza tava só zoando com a minha cara.

Yan engoliu em seco, nervoso, mas tomou coragem para erguer o olhar para o rosto de Vinícius.

Foi nesse exato momento que tudo deu errado.

Provavelmente confundidos com as dezenas de casais que estavam ali, os dois foram empurrados para uma das filas que andou rápido demais e antes que pudessem fazer algo a respeito um barman os encarava, esperando que se beijassem.

Aquela era a cena mais inusitada que Yan poderia imaginar para aquela noite.

— Não, pera, é um engano — ele gaguejou, se atrapalhando. — Ele não… Eu não…

Yan olhou de olhos arregalados para Vinícius, e certamente esperava igual ou pior desespero em resposta, e não a calmaria e determinação que refletiam no rosto do outro — ou talvez álcool demais afetando o cérebro, ele não saberia dizer.

— Que se foda!

Ele não sabia se aquela frase tinha sido pra si mesmo ou para o garoto de cabelos azuis, mas a próxima coisa que Yan tinha consciência é que os lábios de Vinícius tocavam os seus.

O rapaz podia realmente ter segurado o rosto de Yan com as duas mãos e o puxado para si um tanto quanto desajeitadamente, mas aquele beijo em si não era nem um pouco desajeitado; de início, apenas pressionaram os lábios, como se ambos hesitassem, mas isso durou tão pouco tempo que eles logo se beijavam em um ritmo desesperado e frenético e por um segundo Yan esqueceu tudo ao seu redor, até mesmo o seu nome.

Quando se separaram, ele encarou Vinícius, o peito subindo e descendo rapidamente, inexplicavelmente sentindo que faltava algo pela quebra do beijo, tão repentinamente quanto havia começado.

O barman os encarou com indiferença e deslizou dois copos pelo balcão, já chamando o casal seguinte. Vinícius e Yan mal tiveram tempo de pegar os drinks e já tinham sido empurrados para longe.

Yan ficou estático, encarando a bebida colorida em suas mãos enquanto tentava raciocinar. Tudo havia acontecido tão rápido que ele mal conseguia processar ainda que Vinícius realmente tinha o beijado. E que beijo. Ele provavelmente só havia beijado duas ou três pessoas daquele jeito a vida inteira. Aquilo era mesmo real?

— Ah, nossa…

Jogou a franja azul para o lado e esboçou um sorriso involuntário, ainda com a respiração um tanto descompassada. Diante de si, Vinícius o olhava com uma expressão indecisa, perdido entre o interesse e todo o impacto do momento.

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— Eu com certeza… — ele começou, a respiração falha, a voz tentando soar mais alta que a música. — Com certeza tô muito bêbado… Meu Deus do céu… Olha o que eu fiz…

Yan revirou os olhos, encontrando por fim um fio de sanidade. Um beijo regado de álcool no meio de uma balada e com um objetivo material não era, nem de longe, algo realmente grave em sua opinião.

— Não é hora de conflito moral, amore. — concluiu então, dando em Vinícius tapinhas amigáveis no ombro. — Bissexualidade tá aí pra ser celebrada.

O outro somente riu, sem graça. Ele havia bebido um pouco, mas não o suficiente para entrar em um estado alcoolizado de semi-consciência. Talvez só estivesse ligeiramente menos escrupuloso que o normal, mas qual era o real problema nisso?

Nada, fora ter beijado um homem, ele ironizou, dentro da sua cabeça. Durante toda a sua vida, sempre fora totalmente seguro da sua sexualidade. Gostava, se atraía, namorava mulheres. E, por mais que Yan fosse muito legal…

Não é hora de conflito moral, ele dissera. Era exatamente um conflito que Vinícius tinha naquele momento. Porém, felizmente, ele tinha um copo gelado de mojito em sua mão. E, perdido entre a música, a dança e as luzes piscantes, preferiu saborear a mistura de rum, limão e hortelã e, talvez, aumentar um pouco a concentração de álcool no sangue.

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O aviso da DJ havia sido o suficiente para retomar o clima entre Victoria e Sara. Aos gritos, devido à música alta, e alternando caipirinhas, cervejas e outras bebidas, elas haviam passado uma boa quantidade de tempo conversando sobre o passado.

Victoria, há muito, havia deixado de sentir mágoa das garotas patricinhas que gostavam de fazer brincadeiras maldosas com ela, durante a escola. Adulta, abandonara o visual “maria-macho” para aprender que podia se vestir como bem entendesse sem que isso afetasse, de qualquer maneira, sua sexualidade. No entanto, encontrar Sara depois de tantos anos havia sido uma grata surpresa. Sobretudo porque não era mais a Sara patricinha, mimada e arrogante de quinze anos, e sim uma mulher bissexual, extremamente inteligente, estudante de Ciências Sociais, que trabalhava, morava sozinha e, além de linda, tinha uma conversa contagiante. Ou, pelo menos, essas haviam sido as primeiras impressões de Victoria.

— Eu quero ganhar esse drink. — Sara constatara, logo que ouviu o aviso. Abrindo um sorriso, agarrou Vic pela mão.

E, segundos depois, estavam diante do bar.

O beijo não durou muito, mas deixou Sara querendo mais. Quando ela recebeu o drink, percebeu estar mais interessada em Victoria do que em álcool, morangos, açúcar e gelo. Era engraçado perceber que, além do match da festa, elas haviam combinado também em personalidade, assuntos, atração física. E tudo se tornava ainda mais engraçado devido ao pequeno detalhe sobre o passado que ambas compartilhavam.

— Vem dançar. — Vic a chamou a certo ponto, puxando-a para a pista, e Sara não pôde negar.

Logo, começou uma música que ela conhecia e adorava. Divertida, deixou que o corpo acompanhasse a batida. Dançou junto a Victoria incansavelmente, parando, de vez em quando, para trocar com ela alguns beijos que tinham sabor de morango e limão.

A certo ponto, pensou ter visto Yan dançando com o mesmo cara que, anteriormente, havia sido identificado como seu match. Sorrindo, torceu para que ele tivesse a mesma sorte que ela.