Notas iniciais
Vocês me deixam felizão.

Eu seguia tranquilamente a minha nova vida acadêmica sem entender porra nenhuma do que estava acontecendo. Enquanto os professores entravam e saiam, passavam um milhão de exercícios e textos, eu já havia viajado até a parte mais profunda da minha mente. Benjamin tentava puxar assunto vez ou outra, mas eu acabava cortando o garoto ou parando de prestar atenção e só balançava a cabeça.

No terceiro tempo Wigles entrou na sala e se sentou ao lado de George. O pequeno nerd não parecia muito feliz em dividir a carteira com o chapadão, mas é como a minha avó sempre dizia “A vida foi feita pra a gente se foder”.

— Ben, vamos no café depois da detenção, você quer vir? – Uma garota loira de dreadlocks e olhos um pouco esbugalhados perguntou.

Isso me fez prestar atenção na conversa. Ben havia pego detenção? Eu mal conhecia o garoto, mas apostaria todas as minhas fixas de que ele nunca havia feito nada de errado, então a loirinha metida a riponga chega e fala sobre detenção. Eu fiquei bem surpreso, quase como se eu tivesse levado um tapa na cara.

— Como assim você pegou detenção? – Perguntei um pouco animado demais.

Benjamin abriu e fechou a boca umas três vezes antes de falar qualquer coisa.

— Aconteceu, não foi minha culpa, mas eu tenho que ficar depois das aulas por três dias. – Ele corou. – Alec, essa é a Sugar, Sugar esse é o Alec.

Quem diabos se chamava Açúcar? Eu achava que os meus pais eram loucos, mas pais que colocam o nome da fila de Açúcar devem ser muito mais pirados. Talvez fossem eles que traficassem as drogas do Wigles. Tenho que parar de criar essas teorias na minha cabeça.

— Ben, qual é? Me conte quais coisas erradas você andou fazendo. – Abri um sorriso. – Por favor.

— Sugar, eu vou com vocês. – Ben esperou a garota sair para me lançar um olhar gelado. – Por que você se importa?

— Você se torna mais interessante.

Bem respirou fundo umas duas vezes.

— Wigles estava fumando e o Sr. DiLorezo estava chegando então eu puxei o alarme de incêndio, não fiz nada de errado, apenas ajudei um amigo.

— Como você foi pego? – Eu estava me interessando muito para alguém que não se interessa por nada.

— Minha mão ficou preta por alguns dias. – Ele ergueu a mão direita, para mim ela tinha a mesma cor do resto do corpo dele. – Enfim, você quer ir com a gente?

— Não, obrigado. – Sorri simpaticamente, eu particularmente detestava ser simpático o tempo todo. – Hoje vamos jantar com o Daddy Bear.

— Daddy Bear?

— O namorado novo da minha mãe. – Respondi. – Ele parece um daqueles Bears de pornô, então eu dei o apelido.

Benjamin balançou a cabeça enquanto soltava uma pequena risada. Deus, como ele era bonito, seu sorriso era tão sincero e seus olhos eram tão doces. Aquele desgraçado estava mexendo com o meu coração (e com outra coisa).

— Eu estou morto da fome. – Resmunguei.

— O intervalo é em cinco minutos.

— Ótimo. – Falei me levantando pronto para sair da sala.

— Eu disse cinco minutos.

— Você foi feito em mais tempo que isso.

***

Além dos dois drogados, Benjamin tinha mais duas amigas. A tal Becky e uma outra garota chamada Cherry.

Wigles disse que eu me daria bem com Becky porque ele era malvada, mas eu de fato estava com medo dela. Eu não ficaria surpreso se Becky tivesse acabado de sair de uma rodinha punk. Seu cabelo preto parecia ter sido cortado por um machado ou alguma coisa do tipo, a maquiagem forte marcava os olhos azuis. Aqueles olhos azuis já haviam visto sangue de perto, sangue de outra pessoa.

Cherry era totalmente o contrário, ela era o estereótipo de patricinha em pessoa. Com o preço dos sapatos dela provavelmente eu poderia comprar um carro. Seus cabelos castanhos caiam sobre os ombros, ela era tipo a Regina George, só que parecia ser uma porta de burra.

— Então todos vocês estão na detenção? – Perguntei confuso.

— Sim. – Wigles balançou a cabeça umas dez vezes.

— Talvez eu veja vocês lá. – Dei de ombros.

— Alec, eu sei que a gente acabou de se conhecer, mas não faça nada idiota. – Benjamin disse.

— Ah não, eu nunca faço as coisas, elas só acontecem. – Falei. – É como se eu não olhasse para os problemas, mas os problemas olhassem para mim.

— Você é louco. – Becky sorriu, o sorriso dela era um tanto quanto assustador. – Vamos para o gramado antes que aquelas vadias peguem a Cirie.

— Quem é a Cirie?

— A árvore. – Sugar falou. – É um carvalho gigantesco, ele fica bem no centro do refeitório.

Eu não entendi direito o que Sugar quis dizer com isso, mas sorri, algo me dizia que quanto mais ela tentasse me explicar as coisas, mais confuso eu ficaria.

Então quando eu entrei no refeitório eu entendi o que ela quis dizer. Realmente havia um grande carvalho no centro do local. Além do fato de que o teto era de vidro e o chão era de grama. As pessoas comiam em mesas de piquenique ou até mesmo sentadas na grama. Não era só o Wigles que puxava um fumo naquele lugar.

Eu já acha os amigos de Benjamin um tanto quanto estranhos, mas como a vida nos surpreende, as coisas se tornaram mais estranhas ainda quando Sugar e Wigles saíram saltitando de mãos dadas pelo gramado.

— Eles sempre fazem isso. – Ben falou. – Tipo, sempre mesmo, não importa se eles estão chapados ou não.

— São um casalzinho simpático e estranho. – Comentei.

— Como você sabe que eles são um casal? – Cherry perguntou.

— Foi só um palpite.

Ben mandou que eu me sentasse com Sugar e Wigles enquanto ele e as outras garotas iam comprar alguma coisa para nós comermos. De fato eu estava impressionado com o refeitório, não é uma coisa que a gente vê todo dia. Eu sabia que a Demanch era uma escola sustentável, mas não tanto.

— Droga. – Sugar falou. – Droga, droga, droga.

— O que foi? – Wigles parecia tão confuso quanto eu.

— O Chad chegou. – Ela parecia preocupada. – Se ele e o Ben saírem no tapa outra vez o Ben pode ser expulso.

— Benjamin saí no tapa com as pessoas? – Perguntei assustado.

— Por que você acha que ele tá na detenção? – Wigles perguntou com um sorriso idiota na cara.

— Vai dar merda...

Ah, não vai não. Por algum motivo algumas vezes me baixa um espirito protetor dos fracos e oprimidos. Me levantei e fui na direção do tal Chad que já estava bem próximo do Ben. Chad era um pouco mais alto que o garoto, porém era mais magro, era difícil dizer quem ganharia uma briga, mas se Ben não podia mais se meter em nenhuma briga, ele não se meteria.

Quando eu alcancei os dois, Cherry e Becky seguravam Ben pelo ombro. Chad estava com o olho esquerdo roxo, então foi Ben quem ganhou a outra briga.

— Olá. – Falei com um sorriso falso.

— Quem é você?

— Alec Shallow. – Falei apertando a mão do garoto. – Olha, eu não te conheço, mas eu sei que você quer brigar, também sei que você é um idiota e deve ter o pau pequeno, mas se acha muito. Pelo seu olho eu pude ver que você não foi capaz de bater no Ben aqui, então você quer provocar ele para apanhar outra vez e fazer o garoto ser expulso. Cara melhore.

Todos me olharam surpresos, principalmente Chad, mas a expressão de surpresa logo mudou para algo mais sarcástico.

— Você arranjou um namoradinho para te defender? – Chad perguntou rindo.

— Ele tem o namoradinho e você? Tem quem? A mamãe? – Estourei uma bola de chiclete.

Chad estava vermelho, uma mistura de raiva e vergonha. Eu conhecia muito bem o tipo dele, afinal, eu também provocava as pessoas e depois me fazia de coitado.

— Eu e você na hora da saída. – Chad deu de dedo no meu peito.

— Como eu vou saber que você não vai fugir para a saia da mamãe? – Provoquei. – Cai dentro.

Me certifiquei de que Ben estava bem atrás de mim, então quando o soco veio a única coisa que eu fiz foi me abaixar e deixei o soco atingiu a cara de Benjamin que foi parar no chão com a bandeja de comida e tudo.

— O que está acontecendo aqui? – Marta Morta surgiu no meio da multidão que observava a confusão.

— Chad bateu no meu amigo e também queria me bater, só porque eu sou gay e novato. – Fiz a maior cara de coitado já vista na Demanch Academy.

— Isso é mentira! – Chad disse surpreso.

— Você está dizendo que o Ben se deitou no chão? – Apontei para o garoto que se levantava ainda meio tonto. – Senhora Morta é óbvio que ele está mentindo.

— É Morth. – Marta me corrigiu. – Agora, os dois para a sala do senhor DiLorezo.