Marés do Tempo
6 Canções da alma
Notas iniciais
Ninguém desconfiava que eu, de alguma forma, pudesse realmente encontrar as ruínas submarinas que continham o “portal”, que, eu sabia, era na verdade apenas uma fração roubada da Atlântida real, a da terra, por isso continha o portal, o teleporte havia deixado uma pequena falha.
Todas estas informações vieram da mente de Huracan. Uma coisa que muito me incomodava, pois apesar de eu ter conseguido, durante o processo, extrair essas informações, elas eram estranhamente exatas, como se ele tivesse permitido que eu as encontrasse, ou pior, como se ele as tivesse me dado de bandeja. Tinha coisa ai.
Agora faríamos nossas ultimas tarefas em terra, carregaríamos nosso galeão com todas as riquezas que conseguíssemos, e todos teriam direito de levar o que coubesse em seus baús, pegamos, caçamos e coletamos tudo que podíamos, sem sermos atacados (estranhamente, eu sabia que não seriamos), passamos o resto do dia nisso, e de noite nos reunimos, teríamos que transformar nossa nave-navio em submarino.
Não seria tão difícil, e eu e Lionel éramos mestres do improviso, os sistemas da nave precisariam ser adaptados, e teríamos que ampliar o campo energético para submergir, com algum esforço, alteramos o necessário, cuidamos para que os motores estivessem a salvo e preparamos para, na manhã seguinte, submergirmos.
Na manhã seguinte, percorri o galeão Fade to Black para completar as modificações, recalibrando os sistemas de barreira para resistir à pressão da água, preparando os canais de energia para possibilitar-nos submergir (usaríamos um sistema que transferiria a massa do navio, com base no desvio de energia, para poderemos afundar sem danos.) corri pelo convés, e tomei o timão.
–Ativem os sistemas! Retirem a ancora! Se preparem! Reservas de oxigênio ao Maximo no campo! Agora... Vamos a Atlântida!
E, com uma agitação da tripulação, o navio começou a submergir, eu girei completamente o timão, e a água chegou ao nível do convés, e com grande felicidade, eu a vi ficar na barreira, entrarmos por completo no oceano.
Navegamos para o fundo, observando as maravilhas que ali havia, todos ficaram de boca aberta com o mergulho, o mar era claro e levemente esverdeado, como o do caribe, os corais com peixes e enguias se estendiam abaixo de nós, com monumentos e palácios afundados, víamos os cardumes e os predadores espreitando em fendas.
Ativamos as turbinas e pegamos velocidade, eu girei novamente o timão, seguindo o rumo que tinha em mente, me sentia orgulhoso com meu navio-submarino.
Deixei o timão com Johnathan e desci para apreciar a paisagem submarina, Aquele mundo era impressionante, com as mais raras espécies de peixes e animais aquáticos da galáxia, convivendo em perfeita harmonia, num ecossistema único, conhecido como o Todo Azul pelos especialistas, nada mais que um sonho da ciência aquática moderna.
Apreciei aquela visão por longos minutos, enquanto os raios de sol divididos na água passavam, lentamente, pelo campo de força da nave.
Lionel apareceu ao meu lado, também apreciando.
–Tudo isso é impressionante, não é, Lionel? – disse eu, com os olhos brilhando.
–É... E mais impressionante é pensar que estou aqui com você... Com Elizabeth... Com Jasminy... Quando todo o destino nos dizia que iríamos matar uns aos outros... De todas as formas, em todos os mundos... – Lionel tinha uma feição tranquila, quase feliz.
–E agora, somos companheiros, cara, navegando por todos os mares de todos os lugares... Depois de tudo isso... – sorri profundamente, como sempre, meu sorriso era meio de lado.
Nos encaramos com um brilho nos olhos, nós nos orgulhávamos de estarmos ali, no fundo do mar do planeta do tesouro... Companheiros, depois de tudo... Como verdadeiros amigos.
A vista do fundo do mar era de incrível beleza, e o Todo azul ainda não nos revelara todas as suas surpresas, como eu iria descobrir em breve...
O navio submarino agora passava por uma enorme fenda submarina, e, no fundo dela, via-se o núcleo do planeta, que era feito de ouro maciço, isto me encantou, mas algo naquele ambiente brilhante me alertou do perigo eminente, eu não sabia como, mas este era um dos trechos mais perigosos do caminho.
Passávamos agora bem acima da fenda, e o calor da água deixou a climatização um tanto mais quente, as bolhas subiam, formando densas cortinas a nossa frente, teríamos de entrar, olhei para o caminho.
Minhas pupilas retraiam, eu vi, em meio as bolhas e ao calor, dois olhos, que liam mentes. Logo sumiram em meio às imensas cortinas de bolhas e vapor.
Não deveríamos entrar, mas era tarde demais e não poderíamos desviar o caminho, engoli em seco, fui para a ponta do navio e pensei: o que quer que seja, está em nosso caminho e será derrotado. Ou morreremos... bem, eu deveria considerar esta hipótese...
Entramos na cortina de bolhas e nada se tornou visível ao nosso redor, continuamos navegando por entre as bolhas, elas afetavam ligeiramente o navio, levando a uma pequena turbulência. Eu achava que já deveríamos ter passado, a cortina era maior do que eu pensara...
Algo apareceu no canto de minha visão, virei-me rapidamente, mas não havia nada lá, apenas bolhas e mais bolhas. De repente, uma leve canção começou, e, eu percebi, era um sinal mental.
“O marinheiros valentes de alma e coração, cedam seus sentimentos a nossa canção, riqueza e poder poderão encontrar, para isto basta parar de navegar...”
Olhei ao meu redor e, assustado, percebi que todos pararam seus trabalhos, incluindo Johnathan, e olhavam vidrados para fora do navio.
“cedam todos a suave tentação, deixem dominar as ações do coração...”
A canção era linda, misteriosa, quase enebriante, entrava em nossos ouvidos como o vapor em nossas narinas. Ela afetava diretamente nossos sentimentos, e nos fazia desistir de viver, apenas sob o propósito de ceder aos desejos. Era a canção mais bonita... Mais perfeita... Mais maravilhosa... Mais... Maligna.
Corri para o timão, empurrando alguns companheiros hipnotizados pelo caminho, a canção continuava, tirei Johnathan do timão, todos estavam vidrados, seus olhos, sem sentimentos.
Soquei o botão de expandir campo de força, e as bolhas se abriram ao nosso redor. Eu pude vê-las. Sereias, milhares delas. Suas faces tinham uma beleza demoníaca, assim como suas vozes. Mas eram muito estranhas em outras partes do corpo, exatamente como seres humanos que evoluíram na água, tinham guelras nos pescoços e películas entre os dedos das mãos, estavam nuas em pele e seu corpo era humano da cintura para cima, mas para baixo eram enormes caudas de peixe, escamosas e não muito agradáveis.
Eu era quase imune a canção perfeita, por conta de meus poderes mentais, mas eu estava perdido, todos no navio pareciam ter cedido, eu olhava ao redor com desesperança, todos estavam completamente...
–Capitão! O que houve? Como sairemos dessa?- Olhei abismado, Lionel subia as escadas do pátio do timoneiro, ele também não fora afetado... talvez por minha culpa...
–São sereias, como as das lendas, Lionel! Eu acho que podemos vence-las! Mas...-
Pensei, a única maneira de vence-las era cantando melhor do que elas... não, não daria, teríamos que tapar os ouvidos de todos da tripulação, e rápido. Mas neste momento a canção soou:
“Daremos a vocês a felicidade e a satisfação... Vamos, homens, homens valentes... Nos deem vosso coração...”
A tripulação finalmente se moveu, mas em outro comando. Eles se viraram e sacaram suas armas, seus olhos vidrados se voltaram para nós, a canção soava, mais forte e mais bela que antes, de beleza mortal.
–Lionel... estamos perdidos...- Disse eu, suando frio e me afastando lentamente do timão.
–Eu sei... capitão...-Disse Lionel, eu tentei sacar uma pistola, mas ele me parou –não, capitão, continuam sendo nossa tripulação...- Ele estava certo, embora os outros não pensassem o mesmo, e andavam para nós de olhos vidrados, alguns até babando, como zumbis.
Eles nos cercavam, dois vieram até nós com os punhais de cinto, eu desarmei um e torci seu braço, derrubando-o. Lionel fez algo parecido com o outro.
–Não poderemos com todos, capitão...- Eu tentava desesperadamente pensar em algo, a canção se tornara risonha e feliz, malignamente risonha e feliz. Um deles tentou me golpear, defendi com meu braço, mas ele me cortou, e golpeou novamente, fazendo um X de sangue em meu braço esquerdo.
Eles nos cercaram, eu gritei Agora! E pulamos pela baloutrada do pátio do timão, caindo na entrada da taberna, chutamos as portas juntos, entramos e trancamos.
Suspiramos aliviados. Até que mãos nos pegaram e imobilizaram com habilidade e, de quebra, tacaram nossas testas no chão com um barulho de coco caindo.
Reconheci o toque e o cheiro adocicado no ar. –Certo Ghost, eu sei que lhe dá enorme prazer me ver ferrado deste jeito, mas já pode me largar- Disse com a voz meio apertada pela minha bochecha amassada no chão.
–Esses caras são doidos! É só começar a tocar uma musiquinha que todos começam a atacar!- disse Elizabeth, enquanto Ghost me levantava com um sorriso maroto. Eu adorava essas garotas, ainda bem que não seguíamos as velhas regras de mulheres dão azar, desde que encontrei Mary Read e Anny Bonny fica meio difícil continuar com essa crença.
Eu e Lionel nos recompomos, a taberna estava uma confusão, haviam companheiros nocauteados por todos os lados, e as garotas tinham apenas alguns fios de cabelo fora do lugar. Olhei impressionado para Elizabeth, Ghost, Jasminy e Juliana.
–Bem, garotas, é o seguinte... Estamos cercados de sereias malignas por todos os lados e elas cantam lindamente bem, os marinheiros estão hipnotizados, e nosso navio está parado. Logo eles arrombarão a porta e nos pegarão, precisamos de um plano. E rápido.-
O microfone anunciou: Campo de força retraindo, inexistência em 7 minutos, perigo.
–Que merda! Os controles ficam lá fora! E eles estão completamente controlados! Bem, precisamos resolver isso, e mais rápido ainda.-
Ghost falou –Alguém aqui sabe como derrotar sereias?- Nesse momento, sai correndo para minha cabine, voltando pouco depois, a ponto de ouvir Jasminy dizer:- Teriamos que cantar melhor do que elas!-
–Pois eu acho que sei o que fazer!- Disse eu, voltando, com uma guitarra stratocaster, amplificadores e os amplificadores.
–Peguem os instrumentos da banda da taberna, e vamos dar um show para nosso publico!- Disse eu, dando um longo agudo na guitarra ligada.
Eles me encararam daquele jeito: é serio isso? Eu os encarei, eu iria tentar. Coloquei a caixa de som ao lado da porta.
–Vamos, não vamos morrer por isso!- Disse eu bem quando os hipnotizados começaram a arrombar a porta, virei-me, e dei um chute que arrombou a porta e os derrubou, tocando um acorde da guitarra.
Começei a tocar a primeira musica que me veio na cabeça. O campo de força estava tão fraco que algumas sereias já estavam em parte dentro do navio, e cantarolavam para nós, seu halito cheirava a morte.
“I'm so happy
'Cause today I've found my friends
They're in my head
I'm so ugly, but that's okay
'Cause so are you, we broke our mirrors
Sunday morning is everyday
For all I care, and I'm not scared
Light my candles in a daze
'Cause I've found God
Yeah, yeah (x7)”
Cada acorde da guitarra saia de minha alma, assim como cada som parecia refletir o que sentia pelos meus companheiros, com os quais eu navegava, mas as sereias ainda cantavam melhor, os hipnotizados levantaram-se novamente, e pegaram as armas, mesmo sobre as vibrações de nosso som, não era suficiente, eu e meus companheiros iriam, sobre o som da morte, e nem nossas vozes, nem nossos corações nos salvariam, fechei os olhos e toquei mais um pouco, pensando que seriam os últimos acordes de minha vida, cai de joelhos enquanto tocava.
–“I'm so lonely, but that's ok
I shaved my head, and I'm not sad’-
Era a voz de Ghost, um tanto quanto rouca, ela pegou o microfone e continuou a musica, eu levantei os olhos, e olhei para ela, ela sorria, levemente.
Levantei-me, e continuei a cantar, meus companheiros também estavam a postos, todos em seus instrumentos, Lionel entrou com a bateria, Jasminy com um piano, Elizabeth com o baixo e Juliana com outra guitarra, todos juntos comigo.
And just maybe I'm to blame
For all I've heard, but I'm not sure
I'm so excited
I can't wait to meet you there, but I don't care
I'm so horny
But that's okay, my will is good
Yeah, yeah (x7)
Os Hipnotizados desvidraram os olhos, as sereias começaram a gritar desesperadamente, feriram nosso ouvidos, eles sangraram, mas continuamos cantando. Elas se desesperaram, e começaram a nadar em círculos ao redor do barco, Johnathan se levantou e ligou de volta o campo de força, expulsando-as, tocamos os últimos acordes, ganhamos.
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