ALEXIA

Estva cada dia mais difícil. O orfanato não era muito visitado por casais interessados em adotar adolescentes de dezesseis anos como eu, no máximo nos observavam pelo canto dos olhos. Os sortudos — como chamamos as pessoas que conseguem ser adotadas — são sempre crianças.

Como ainda era menor de idade, não poderia fugir de lá por conta própria, só podia esperar (impacientemente) até ser adotada por alguém. Às vezes, ficava imaginando se isso um dia aconteceria comigo: Eu ficar tanto tempo lá, que me expulsassem por já estar adulta.

O que me confortava, era não ser a única de "idade avançada" no Infância Feliz — sim, esta era a merda do nome do orfanato, que tipo de lugar se chama Infância Feliz? — haviam também umas outras cinco pessoas, entre elas estava Haley, minha melhor amiga.

Nós duas nos conhecemos desde quando me entendo por gente — pera... eu me entendo por gente? — não me lembro a quando tempo estávamos lá, mas ela era apenas alguns meses mais velha que eu e mesmo não sendo muito baixa, era mais alta que eu -pensando bem, quase todo mundo da nossa idade é maior que eu — e ouvimos falar que aqui chegamos quase na mesma época, então crescemos juntas.

Ah, já ia me esquecendo de mencionar o mais importante: somos semideusas! Me lembro como se fosse ontem, um garoto de aparentemente doze ou treze anos de idade chamado Taylor, chegou no orfanato a uns nove anos atrás, quando tínhamos apenas sete anos. Ele sempre fazia questão de estar sempre perto de nós, era muito magrinho , porem era alto, de cabelos castanhos encaracolados. Um dia, ele nos levou ao Acampamento meio Sangue ( C.H.B ) onde descobrimos que sou filha de Apolo -me disseram que parecia aparentemente com ele... o que???- e Haley de Zeus.

Até hoje frequentamos o acampamento durante as férias, onde são sempre épocas calmas e felizes para nós, lá estamos sempre em segurança, apenas treinando , pois nunca iríamos em uma missão, lá era o único lugar onde ficávamos tranquilas. Sem se preocupar com a névoa ou monstros.

Eram cerca de 10:00 da manhã quando eu acordei,como era sábado, pus um bikinni e uma roupa comum por cima — minha camisa favorita da minha banda favorita: Imagine Dragons , e um short jeans — e desci até a cozinha.

Depois de pegar minha comida, fui ao refeitório, onde encontrei o Josh. Era meu grande amigo (grande em todos os sentidos ) ele estava comendo ovos com bacon e mesmo sem estar frio, usava seu moleton GEEK de sempre. Me sentei ao seu lado

– O-Oi, Alexia — falou arrumando os óculos — dormiu bem?

– Alex, Josh. Por favor. E na verdade não.

– O de sempre?

– Sim, — respondi pegando meu sanduíche — o de sempre.

O de sempre = pesadelos! Ouvi dizer que isso é normal para semideuses, com um aviso para um futuro próximo, para nos assustar, ou até mesmo para nos enganar. Mesmo sendo frequentes, não conseguia me acostumar com aqueles malditos pesadelos.

Josh me encarava, e quando eu o olhava, ele virava o rosto. Ele era muito bonito, com cabelos castanhos claros em um topete liso, óculos grandes destacando seus belos olhos verdes , pele branca e sempre estava com algum livro, seja de literatura ou da escola.

Ele era meio nerd e sempre me ajudava com os deveres de casa, mas seu único problema era a timidez, especialmente comigo ou com qualquer outra garota. O único momento em que ele se soltava era quando estava tocando teclado,o que ele fazia de melhor — tínhamos uma banda chamada Who We Are (nome pouco criativo) , eu era a vocalista e tocava baixo, a Haley era guitarrista e cantava algumas musicas- mas quando ele não tocava, sempre ficava nervoso com companhias femininas , gaguejando, suando, e ajustando o óculos ao rosto freneticamente.

Depois do café da manhã, fui ao meu quarto silenciosamente para não acordar a Haley ( dividíamos quarto)onde escondia uma prancha de surf atrás do armário. Pulei a janela, e dei de cara com um muro alto feito de tijolos. Certo, ao star não foram feitos para escalada — pensava enquanto subia o muro -mas lá vamos nós.

Mesmo com uma prancha dificultando tudo, consegui pular o muro que dava acesso a uma praia. As ondas estavam enormes e com água gelada, o dia estava quente, perfeito para surfar.

Quando pulei o muro de volta, Haley ainda roncava em seu beliche — mesmo sendo 13:30 da tarde — subi em seu beliche e vi várias latas de Coca-Cola a seu redor, sua camisa GG do Red Hot Chilli Peppers toda manchada com o refrigerante, seus cabelos negros no mesmo estado que a camisa, e sua guitarra vermelha a seu lado. Encontrei abaixo do travesseiro, um papel com várias partituras, aparentemente escritas a não muito tempo atrás.

Fiz a primeira coisa que me passou a cabeça, pois aprendi uma coisa depois de muito tempo com a Haley: pessoas com sono pesado como ela, são quase impossíveis de acordar.

Desci do beliche, e fui té o armário da Sra. Susan , a zeladora, e peguei um balda d'água. No banheiro, o enchi de água gelada . Lá notei minha aparência ao me olhar pelo espelho : estava ainda mais bronzeada, meus cabelos loiros estavam ainda com aparência molhada, minha camisa estava encharcada por eu tê-la vestido por cima do bikinni molhado e meus olhos azuis (muito confundidos com verde) estavam muito avermelhados por culpa do sal . Notei que o balde já estava cheio a muito tempo, e a água já esborrava.

o levei até o quarto, subi até o beliche da garota com ele e joguei toda a água nela como um caloroso (ou não) Bom Dia!

Ela se levantou assustada, e logo me olhou furiosa com aqueles olhos azuis acinzentados

– Sua filha de puta! — ela gritava- vou te matar!

– Calma frôzinha, não se exalte.

Ela me empurrou do beliche, o que não teria sido tão engraçado se eu não tivesse a puxado comigo enquanto ela ria da minha cara. O que não foi muito brilhante — como se eu fosse muuuito brilhante — pois ela caiu em cima de mim.

Uma queda rápida e dolorosa

– Caralho! Faz um regime — pedi — pelo amor dos deuses.

– Eu também te amo, mas a baleia aqui é você. Até com cheiro de maresia você está!

– Pode sair de cima de mim, filé?

Ela se levantou falando coisas tipo "Eu sei que sou um filé","sei que sou gostosa" e "autógrafos aos fãs só depois". Pensei em falar "só podia ser filha da Zeuza Fabulous" ou até "Ah sim, claro. Sou fã da Coca-Cola girl ",mas achei melhor não falar nada.

Descemos para o almoço, para nossa surpresa nossos amigos ainda estavam la: Stacy, William e Josh

Pegamos o prato do dia, espaguete , e nós nos sentamos na mesa retangular de seis lugares onde estavam, Stacy estava ao lado de William , seu namorado , e para não cortar o clima, decidimos sentar no lado onde Josh estava, eu sentei ao seu lado, e Haley sentou ao meu, ficando na ponta e me encarando.

– O que foi? — perguntei incomodada- por que está me olhando assim? Me achou bonita?

– Idiota... — ela respondeu — ou nem tanto, por que se sentou bem ao lado dele, né Alex? Garota esperta!

Ela falou bem no momento em que eu levava uma almôndega a boca, mas com sua resposta, acabei a derrubando na minha camisa. Josh também não esperava isto como resposta, seus óculos caíram no chão.

Os três deram risadas e eu tentava limpar minha camisa com um guardanapo, o que só fez espalhar o molho .

– Cadê meus óculos? — o garoto perguntava tateando o chão em sua busca

Will notou algo no chão, a sua esquerda, e pegou

– Ta aqui, cara.

Hiley sorria nada discreta, enquanto ele colocava seus óculos, aliviado. Stacy, acostumada a tocar bateria na banda, tocava na mesa com os talheres.

– Alguma novidade sobre a banda? — a garota perguntou

Ela era magrinha, com pele parda, cabelos e olhos negros , e mechas verdes no cabelo — mas ainda ontem não eram cor-de-rosa? — enfim, ela mudava a cor das mechas do cabelo, como trocava de roupa.

Depois da pergunta feita pela namorada, Will pareceu mais concentrado na conversa. A luz batia em seus olhos cor de âmbar, deixando-os ainda mais dourados:

– Ainda estou esperando uma ligação — disse o ruivo, aparentemente animado com esta tal ligação- ainda não posso falar os detalhes, mas tenho certeza que gostarão.

– Eu ando aprendendo umas múcicas novas no teclado — disse Josh — e as vezes, Stacy as repassa para a bateria

Haley acabou de comer

– Andei compondo uma nova música, mas não a terminei ainda. E ainda preciso de uma letra. Alex?

todos olharam para mim

– Ta bem, isso você pode deixar comigo

– Vou buscar as partituras — Haley avisou enquanto se levantava — vem comigo. Valeu?

– Falou.

Me levantei também, e com ela, fomos até nosso quarto. Quando saímos de lá, já com as tais partituras e a guitarra, encontramos em frente a porta, a Srta. Tokkigo — não se deixe enganar pelo "srta." , ela nos obrigavam a chamá-la assim , e nunca de "sra." mesmo tendo lá seus secenta anos de idade ou mais — , ela conversava com uma mulher que nunca havia visto antes.

Era muito bonita, muito branquinha assim como a Haley, de olhos azuis como os meus, cabelos ruivos , entre trinta a quarenta anos, e muito elegante em um terninho cor de grafite .

Ela nos encarou , deu um sorriso doce como saudação, e voltou falar com aquela velha senhora oriental, aparentemente nós suas eramos o assunto entre elas. Não conseguia sair de lá com elas bem na frente da porta, então sentamos no beliche e fingimos não ligar para a conversa. Até sermos chamadas em voz alta

– Sim , sra. Tokkigo — respondemos em coro

– Senhorita, por favor. Bem, esta é a ... Pela misericórdia, o que diabos aconteceu com vocês duas?

A mulher disfarçou um sorriso.

– Ér... — tentei responder

Ela perguntou como se estivéssemos saído de um lixão, mesmo nós duas estando em péssimo estado, não era pra tanto.

Eu estava apenas com uma camisa totalmente manchada de molho de tomate, camisa e shorts molhados por cima do bikinni e meu cabelo ainda tinha sal. E Haley estava só do jeito que acordou : com um camisão amassado e ,manchado de Coca-Cola, assim como seus cabelos despenteados também estavam e com resto de maquiagem preta borrada e totalmente encharcada... ok, ok, realmente estávamos saídas de um lixão.

– Ãn... esqueça. Bem, esta é a srta. Potts , ela dejesa falar com as duas. Vou deixá-las a sós.

Congelamos. Não que a mulher desse medo, mas ela aparentava muita autoridade.

Então , deixamos os papéis e a guitarra de lado.

– Eu não fugi do muro do I.F. hoje de manhã, moça.Não fiz nada, sou inocente!

Haley me deu uma cotovelada e a Srta. Potts sorriu novamente

– Não, eu não estou aqui por isso... espere, você já fugiu daqui hoje?

–Mas não fui eu que roubei a grana que aqueles pirralhos juntaram vendendo limonada, isso foi ela que fez — apontei para Haley — para comprar cordas novas para a guitarra.

Ela pôs a mão na testa como se dissesse "santo Zeus, dai-me paciência".

Maldita benção de Poseidon, cala a boca, desgraça.

Ela estava sem paciência , mas a Ruiva apenas sorria

– Relaxa, Ruivinha — ela continuou — Alex só está chapada!

– Ah, então são realmente vocês duas que eu procuro.

Eu entendi que a Haley só disse que eu estava chapada para limpar nossa barra ,mas ela só fez nos dar uma fama ainda pior! Alem de ladras e fugitivas, nós não éramos bêbadas! E eu esperava que a mulher ficasse decepcionada — como todo mundo ficava — mas ela apenas agiu como se realmente esperasse por isso.

A garota desconfiou e logo tentou fazer carinha de cachorrinho abandonado ( o que não deu certo) enquanto perguntava:

–Detenção?

A srt. suavisou a postura e relaxou os ombros.

– Por que eu daria detenção a vocês?

Ela não tinha motivos suficientes? Mas... se ela não estava alí para isso, o que droga ela estaria fazendo conversando com a gente? Saber as ultimas fofocas ,é que não era.

– Pera aí — pedi — se você não é a dona do I.F. , quem é você? O que faz aqui?

Ela não respondeu, apenas sentou-se num largo banco azul presente no corredor e sinalizou sutilmente para que fizéssemos o mesmo.

Olhei apavorada para Haley

– Fodeu? — murmurei

–Fodeu! — ela retrucou

Acho que fodeu vem a ser nosso sempre.Nos sentamos a seu redor, ela nos encarava com aqueles belos olhos azuis. Nós apenas a encarávamos de volta, e assim, permanecemos por alguns longos seguntos