Marte: -50°
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Haviam muitas pessoas falando em outras línguas. Espero que eu não surta antes daquela viagem acabar.
Peguei minha mala e arrumei uma cabine – que consistia em uma cama menor que uma de solteiro, um prateleira atrás da cama para guardar objetos — para mim ficar, perto do meu grupo — eu não queria ficar rodeada de gente que eu não sabia me comunicar.
A nave era enorme, e tinha tudo o que precisávamos. Só o que precisávamos que trazer era roupas, itens pessoais de higiene e algo que quiséssemos.
Eu não estava com a mínima vontade de dormir ou comer, embora havia muitos fazendo-o, então peguei meu livro e comecei a lê-lo.
— A leitura parece interessante. — Heather disse quando se sentou ao meu lado.
— Ah, Heather. Não vejo você desde a entrevista. Como vai?
— Bem. Digo, preferia estar em casa, mas bem. E você?
— Que bom que não sou a única a pensar assim. Eu estou bem, na medida do possível.
— Eu tenho esperanças que vamos conseguir.
— O problema não é nem ir. É nunca mais voltar.
— Talvez consigamos. Um dia.
— A esperança te faz miserável. Quero dizer, mantenha as expectativas baixas, assim não se desapontará tanto, e pode te deixar mais surpresa.
— É, quem sabe? — Ela sorriu, tristemente.
— Eu vou comer alguma coisa. Quer vir junto? — Me levantei.
— Não, vou tomar um banho. Até mais.
Fui à copa, que aparentemente estava cheia.
— Parece que vamos encontrar esse lugar cheio sempre. — Conor murmurou em meio ao tumulto.
— E parece que voltamos à época das cavernas onde as pessoas usavam as mãos para se comunicar.
— Creio que essa vai ser a parte mais fácil da situação.
— Talvez. A menos que você já teve aula de libras.
— Acho que teria sido uma boa ideia.
Nós dois demos uma risada, e sentamos em uma mesa.
— Você acha que temos alguma esperança de algum dia voltar? — Sussurrei perto dele.
— Não é impossível. Mas dadas as circunstâncias, acho que é muito cedo pra afirmar.
Eu juntei os lábios e concordei com a cabeça.
— Entretanto é muito possível que consigamos pelo menos ter uma vida lá. Porque o governo mundial não teria gasto tantos bilhões se não tivéssemos chances, não acha?
— Sim, claro. Mas se conseguirmos isso, talvez seja provável conseguir também como voltar, não é mesmo?
— Já pensou que, talvez, se der certo, você não queira voltar?
Pensei naquilo por alguns segundos. O que ele queria dizer? Que pode dar tão certo que nós consigamos criar um mundo melhor que a Terra?
— Você pode estar certo. Mas não é por mim. Quer dizer, é por mim também, porém não estou tão segura que não gostaria de voltar um dia. — Retruquei, com um sorriso.
— Isso só o tempo dirá.
Eu comi alguma coisa e voltei a ler.
•••
À noite, tomei um banho e todos nos reunimos para jantar. Nós só tínhamos 3 refeições por dia, então eu devia aproveitar. Claro que nós fomos treinados para lidar com a fome, assim como o frio.
A única coisa que eles não conseguiram treinar, foi a vontade de ir embora. E o medo.
Foi servido macarrão com carne moída e salada de pepino. E um suco de manga natural.
Como seria minha ultima refeição em dez horas, até o café da manhã do dia seguinte, eu aproveitei pra encher bem a barriga.
Terminei de comer, fui para a minha cabine ler e fechei a porta – que por sinal era grudada na cama -, esperando que ninguém viesse me incomodar.
Toc, toc.
Pois é, não durou muito tempo.
Abri a porta estilo leque e Heather estava do outro lado.
— Oi, Heather.
— Hey. Posso... Entrar? – Ela pediu.
— Claro. – Eu encolhi minhas pernas para que ela coubesse lá dentro.
— Eu estou me sentindo meio sozinha, e como você é a única com quem eu falo aqui...
— E quanto ao Conor? Vocês não se falam?
— Na verdade, nós estamos... Ficando. – Ela confessou com um sorriso no rosto.
Eu olhei fixamente pra ela, sem falar nada por uns 3 ou 4 segundos, só encarando, incrédula.
— Audrey? Tá tudo bem?
Eu desviei o olhar, tentando esconder minha cara de desdém.
— Sim, eu só... Me deu uma tortura momentânea. Desculpe. Ahn... Você e o Conor ficando? Que legal, vocês... Combinam. – Não combinam.
— Obrigada! Ele é tão lindo! E eu gosto dele. – Ela estava em êxtase só de falar nele.
Poxa, que legal, quando finalmente eu acho um cara interessante e que faz meu estilo – o que, tipo, nunca acontece – ele é ficante da minha “amiga”. Argh.
— Ele é realmente um cara bacana. – Eu estava fingindo estar de acordo.
Nós falamos mais e mais do Conor, e ela fez perguntas que acho que só uma tia faria, por exemplo, sobre meu namoradinhos, se eu achei algum cara interessante...
“Claro que eu achei”, pensei. “E é o cara na qual você beija constantemente.”
Até que ela foi embora. Não sei se eu deveria gostar dela por ser legal comigo e tentar ser minha amiga, ou se deveria odiá-lá por namorar ele.
Por enquanto vou ficar com a primeira opção. Por enquanto.
Se passou uma semana desde o primeiro dia de viagem. Uma semana sentindo falta de casa. Uma semana sem minha família. Uma semana no espaço. Uma semana evitando-o.
Depois de 7 dias, você acostuma com a ideia de que deve se afastar da pessoa. Pelo menos foi isso o que aconteceu comigo. Mas foi meio difícil, considerando o fato de que ele vem falar comigo constantemente.
— Audrey! Hey! — Ele gritou para mim. E eu fingi que não escutei. Ele foi chegando mais perto.
— Está tudo bem? Eu te chamei e você não escutou.
Virei para ele, fazendo cara de surpresa.
— Ah, oi. Desculpa, eu não ouvi. — E voltei a fazer o que estava fazendo: arrumando minha "cama".
— O General Stedger precisa de você lá em baixo. Ele mandou te avisar.
— Okay, obrigada. — Deixei o que estava fazendo e andei para o hall, onde ficava a cabine de controle da nave, dispensando Conor.
Uma ignorada aqui, outra evitada acolá. Seria assim por um bom tempo.
Fale com o autor