Nathaniel Keller

Entramos no salão. Eu segurando a mão de Summer, que olhava em volta, parecendo incomodada com tantas pessoas dentro de um lugar só. Diversos deuses e afins vieram nos cumprimentar e desejar felicidades ao casal. E obedecendo às ordens de nossos pais, sorríamos como se fosse o melhor dia de nossas vidas. Mas na verdade, era a maior mentira.

Sentia o nó na garganta só aumentar, e tentava resistir ao impulso de desaparecer sem mais explicações, mas eram olhares demais em cima de mim, pessoas demais se aproximando. Eu já começava a responder tudo no automático, com o sorriso robótico congelado em meu rosto, e Summer parecia tímida.

Quando o casal que falava conosco se afastou, inclinei-me na direção no ouvido da morena e sussurrei:

— Fala alguma coisa também, por favor. Não me deixa sozinho nessa, Summer. – respirei fundo e vi que a garota se arrepiou quando o ar quente tocou sua pele descoberta.

— Tudo bem. – sussurrou na mesma altura que eu o fiz. – Mas me chama de Sun, senão parece que você tá brigando comigo. – continuou e eu ri baixo com o comentário.

— Feito. – me afastei e passei um braço pela cintura da garota, abraçando-a de lado e trazendo mais para perto.

Fomos encaminhados para onde algumas das fotos seriam tiradas, fazendo com que não tivéssemos que falar com outra pessoa num bom intervalo de tempo.

O fotógrafo caminhava de um lado para o outro, e quando nos viu, já se apressou para nos puxar para onde queria começar a capturar o momento. E nós o seguimos sem nada perguntar, talvez porque eu não fosse muito de falar, e Summer tampouco. Só havia escutado sua voz pouquíssimas vezes; na hora dos votos de fidelidade, num pequeno diálogo que tivemos dentro da limousine, e logo agora, em seus breves sussurros.

A garota pareceu meio relutante quando viu a câmera que o homem segurava e seu suspiro foi sonoro, o que fez com que arqueássemos as sobrancelhas.

— O que foi querida? – ele correu para perguntar, preocupado.

— Nada de importante. Só não sou fã de tirar fotos, mas é o meu casamento, então abro uma exceção. – ela sorriu levemente, porém seus olhos escuros diziam outra coisa.

— Você é tão linda! – disse o fotógrafo de maneira afetada, e eu evitei franzir o cenho com a surpresa. – Pare de bobagem.

E ela realmente é linda. Quase agradeci a minha mãe quando a vi entrar no salão da cerimônia. Os cabelos longos e pretos, que caiam pelas costas, contrastando com o vestido branco. Quando ela chegou até mim, me encarando com aqueles grandes olhos escuros, quase me esqueci de que estava ali por obrigação. Quase.

Quando começamos a tirar as fotos, eu tentava ao máximo não me deixar levar pelas correntes dos pensamentos e tentava demonstrar algum tipo de boa emoção, para que não saísse como um robô em todas as fotos. Embora aquele fotógrafo parecesse feliz com qualquer coisa que conseguisse, e Summer estivesse colaborando mais, desde que falei com ela. A garota dava sorrisos e tentava parecer animada, ou algo perto disso.

Depois do que acho terem sido centenas de fotos, nossos pais apareceram ali e interromperam tudo, nos levando para um canto afastado de todas as pessoas.

— Precisamos conversar. – Hades disse firme, assim que todos estavam presentes ali. – Esclarecer as coisas.

— Finalmente. Já estava passando da hora, não? – Summer disse e cruzou os braços. Olhei para a garota, que não se deixou abalar pelo deus da morte que a encarava.

A semelhança com o pai é bem grande. A pele branca de quem aparenta nunca ter visto o sol e o cabelo preto, combinando com os olhos escuros e expressivos. A grande diferença é a altura dos dois, já que Hades é alto.

— Sim, estava passando da hora. – ele não se deixou abalar pela impertinência da filha, em vez disso, parecia querer reprimir um pequeno sorriso. – Agora vocês vão poder saber da situação como um todo.

— Podem começar a falar. – eu disse e cruzei os braços, encarando quem agora era o meu sogro, que nos olhou e balançou a cabeça, como que em incredulidade.

Perséfone, que se encontrava ao lado do marido sorriu e minha mãe fez a mesma coisa. Os olhos escuros de Hécate brilhavam de diversão.

— É, Hades, agora que já juntamos esses dois, não podemos mais separar. E eles vão dar trabalho. – ela comentou, sorrindo de canto, e Summer ergueu uma sobrancelha.

— Melhor irem direto ao ponto, mãe. – eu disse.

— Viemos explicar o exato motivo de o casamento ter sido necessário. – começou Perséfone, delicadamente. – Estamos com sérios problemas, crianças.

— Mãe, – Summer começou e eu evitei erguer as sobrancelhas em surpresa. – não nos chame de crianças, acho que já provamos que somos adultos o suficiente. – disse, calmamente, e a deusa concordou.

— Que tipo de problemas? – voltei a atenção para o que realmente importava.

— Problemas que estão começando a ameaçar a segurança dos semideuses do acampamento e até mesmo dos mortais. – Hades disse e eu mordi a língua para não perguntar quando eles não estavam em perigo.

Erguemos as sobrancelhas e esperamos ele continuar, o que não demorou.

— Por conta da rivalidade de Zeus e Poseidon, que passou dos limites, os semideuses e deuses menores começaram a se estranhar. Não existe mais uma trégua ou sequer tolerância. Até mesmo os semideuses do acampamento não estão mais seguros. E as coisas no Mundo Inferior também não estão boas, vocês bem sabem.

— E aí decidiram casar a gente? – Summer ergueu as sobrancelhas.

— O povo precisava de algo mais simbólico do que simples palavras para que pudessem acreditar e também se distrair. E vocês estão aqui por conta disso. Tanto vocês quanto o outro casal são a esperança. Representam algo muito maior do que vocês podem imaginar. As pessoas podem acreditar novamente.

— É só isso o que gostariam de nos dizer? – minha esposa olhou para os pais com uma emoção em seu olhar que eu não consegui decifrar com facilidade. Parecia decepção misturada com tristeza, coberta com uma máscara falha de indiferença.

Para a surpresa de todos nós, não foi Hades ou Perséfone que tomou a frente para dizer algo à filha, mas sim a minha mãe, que se aproximou e tocou o rosto da garota com serenidade.

— Não se preocupe, criança. – minha mãe sorriu e seus olhos escuros brilharam com carinho. – A vida ainda será muito boa com vocês. Confie em mim.

Enquanto observava as duas, vi pelos olhos de Summer que alguns muros dentro de si desabavam e algum carinho foi transmitido à minha mãe.

— Bem, – começou Perséfone. – nós temos um presente de casamento para o casal. – ela sorriu.

Nossa atenção se voltou para as faíscas roxas que saíam das mãos de Hécate enquanto ela as movimentava. Logo um latido foi ouvido e quando olhamos para baixo nos deparamos com um filhote de pelagem preta e coleira com uma pedra vermelha sangue.

Summer não demorou a se abaixar e acariciar o filhote.

— Ele é uma gracinha. – ela sorriu e o filhote abanou o rabo.

— Ele vai proteger vocês. – Hades disse.

— Não é por nada... Mas ele não tem cara de cão infernal. – comentei e ouvi a risada baixa das duas deusas.

— Ele pode não parecer um cão infernal no momento, mas acho que ele dá conta do recado. – Hécate estalou os dedos e o filhote cresceu até estarmos diante de um cão gigante de pelagem negra e olhos escarlate.

Summer se afastou quando o cachorro começou a mudar e logo depois riu, acariciando suas orelhas.

— Ele é uma gracinha. – olhou para os deuses. – Obrigada. – sorriu.

— Disponha, querida. – disse minha mãe. – Ele ainda é filhote e vai crescer mais. Cuidem bem dele.

Abaixei-me ao lado de Summer e acariciei a cabeça do cachorro, que estava preguiçosamente deitada no colo de minha esposa.

— Para quê essa pedra vermelha? – disse antes de segurar a pedra escarlate que estava presa à coleira dele.

— Vai ajudar vocês a controlarem as transformações. Também vai ajudá-lo a sentir o perigo enquanto não chega à idade adulta.

Assenti e girei a pedra entre os dedos; logo o cão começou a diminuir de tamanho e se assemelhar mais a um labrador, até que por fim voltou a ser um filhote.

— Mas bem, – Perséfone se aproximou e pegou o cachorro dos braços de Summer. – por enquanto eu cuidarei do pequeno. Os dois tem uma festa para aproveitar e depois vão estar muito ocupados com a lua de mel. Devolvo o presente depois.

Olhamos para a deusa sem expressão e dissemos em uníssono:

— Lua de mel?

— Claro! – ela riu. – Acharam que iam se casar e não aproveitariam a melhor parte? – Perséfone sorriu sugestiva e Hades a olhou, desaprovador. – O que foi querido? Summer não é mais criança, e agora que você a casou vai ter que suportar a ideia.

— Deuses. – disse minha esposa e eu a olhei. A morena estava com o rosto vermelho como uma pimenta. – Eu vou... Acho que não falei com aqueles convidados ali. Eu vou lá.

Ela bateu as mãos no vestido para afastar os pelos do cachorro e saiu apressada sem sequer olhar para trás.

Prendi o riso e baixei o rosto para disfarçar. Não demorou muito e todos nós estávamos rindo da semideusa envergonhada. Até mesmo Hades, que a princípio era o alvo da brincadeira.

— Eu vou atrás dela. – disse e acenei com a cabeça para os deuses antes de sair atrás da noiva.

Passei por diversos convidados e dessa vez não precisei fingir sorrisos, porque ainda estava afetado pela graça de ver a semideusa corada. Procurei a minha esposa por entre aquelas pessoas até ver um pedaço de vestido branco se afastando apressadamente.

A garota de cabelos negros estava perto da mesa do nosso bolo e a cheguei perto a tempo de ver que ela roubava um docinho. Ergui uma sobrancelha e parei atrás da morena.

— Roubando doces? – disse baixo e a garota se virou, fazendo questão de mastigar lentamente. Passou o polegar no canto da boca para limpar um pouco de chocolate e então disse:

— Acho que tenho um passe livre de noiva. – piscou.

— Hm... E será que eu tenho passe livre de noivo? – cruzei os braços.

— Não. – disse de forma séria e eu fiquei sem saber o que dizer, até que ela sorriu e continuou. – Mas eu te empresto o meu. – pegou um doce e o aproximou da minha boca.

Uma ideia passou pela minha cabeça enquanto eu comia o doce e acho que minha expressão demonstrava divertimento, já que Summer ergueu uma sobrancelha.

— O que foi? – perguntou e eu pedi para que ela esperasse eu terminar de comer. A garota cruzou os braços e esperou.

— Então... Vai me tratar assim na nossa lua de mel? – sorri de canto e prendi o riso enquanto a garota respirava fundo.

— Idiota. – disse e virou as costas. Não aguentei e comecei a gargalhar. Pude vislumbrar um leve sorriso nos lábios da semideusa.

A festa não se seguiu da forma como eu imaginava. Não foi nada horrível, já que depois de rir um pouco eu consegui descontrair um pouco mais.

A minha esposa também parecia um pouco mais leve com o passar do tempo, e até conseguimos dançar a valsa sem parecer dois robôs no meio do salão. Dançamos junto com o outro casal com várias pessoas nos olhando e flashes vindos de todas as direções.

No dia seguinte estaríamos na TV Hefesto e nas capas das revistas de Afrodite e Eros, mas tentei ignorar esses pensamentos até que não fosse mais possível.

Depois de várias danças, fotos e refeições, fomos liberados para a nossa Lua de Mel. Quem nos buscou foi Afrodite, que já estava com tudo preparado.

— Isso é mesmo necessário? – Summer perguntou.

— Essa parte é a mais necessária! – disse ela, indignada. – E não reclamem sem saber o que os aguarda! Eu passei muito tempo preparando o cronograma da viagem de vocês e a opção de não ir simplesmente não existe, entenderam? – a deusa cruzou os braços e nós concordamos.

— Mas então, para onde vamos? – perguntei.

— A primeira parada de vocês é em Paris, porque a cidade do amor é perfeita para isso. – sorriu. – E depois vocês têm três semanas de tour pela Europa com todas as despesas pagas pelo Olimpo, presente meu para vocês, um dos meus novos casais favoritos. – apertou nossas bochechas.

— Três semanas na Europa? Com tudo pago? – perguntou minha esposa. – Acho que estou começando a gostar dessa ideia de casamento, afinal de contas. – brincou e eu a olhei, erguendo as sobrancelhas.

— Não tem como não gostar. – falou a deusa e logo depois assumiu um tom mais sério e segurou as nossas mãos. – Vai ficar tudo bem com vocês, não se preocupem. Eu não teria concordado com essa loucura se não soubesse o que o amor reserva para cada um. – sorriu para nós com ternura.

Eu e Summer abrimos a boca para tentar falar alguma coisa, mas nada saía. Afrodite riu, deixou um envelope cor-de-rosa nas mãos da morena ao meu lado e acenou.

— Aproveitem a lua de mel, pombinhos! Logo, logo receberão mais notícias! – mandou um beijo no ar ao final da frase e uma fumaça vermelha com cheiro de rosas nos envolveu e já não estávamos mais no salão de festas.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.