Marry Me
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Summer Rey
Saí da banheira e sequei-me com a toalha preta e felpuda que esperava dobrada logo ali. Enrolei-a em meu corpo e peguei o pente na bancada, desembaraçando meus cabelos negros cuidadosamente.
Tentava afastar de minha mente os pensamentos insistentes de que toda a minha vida mudaria, e que daqui a algumas horas, estaria casada com um homem que não conheço. Bem, tudo isso não estava funcionando, eu não conseguia afastar as ideias de minha cabeça.
Deixei o pente novamente sobre a bancada de mármore e saí do banheiro, vendo várias mulheres andando pelo meu quarto, arrumando coisas aqui e ali. Uma delas logo tratou de me entregar um roupão e me guiar para trás de um biombo que foi colocado em um canto de meu quarto. Desfiz o nó da toalha e vesti o roupão preto, fechando e amarrando-o.
Ao sair de trás do biombo, vi que no centro do quarto estava uma cadeira, de frente para um grande espelho. Uma moça magrinha e de estatura baixa veio até mim, enquanto ajeitava os cabelos castanhos claros no coque.
— Bom dia. – ela sorriu gentil. – Podemos arrumar seu cabelo, senhorita?
Ela estava sendo bondosa e gentil comigo, portanto disse a mim mesma que não poderia ficar de cara amarrada enquanto alguém tentava fazer com que me sentisse melhor.
— Claro. Podem sim. – segui a moça até a cadeira.
Uma moça nova de cabelos preto azulados em um corte chanel se aproximou e passou os dedos pelos meus cabelos.
— São lindos. – elogiou. – O que acha de apararmos um pouco para dar movimento?
— Sem tirar no comprimento? Eu realmente não quero que eles diminuam. – olhei para ela, que riu.
— Tudo bem. E o que acha de secarmos depois e fazermos cachos? Podemos prender em alguns lugares específicos e colocar pontos de luz. Você concorda?
Percebi que para tudo o que faziam, pediam sempre minha opinião. Apesar de tudo o que acontecia, ainda era meu casamento e eu podia escolher o que fazer ou não em meu dia de noiva.
— Concordo. – sorri, simpatizando com as garotas. – Qual o nome de vocês? – perguntei para as garotas que estavam lá comigo.
— Sou a Maggie, senhorita. – disse a moça de cabelos pretos. – E aquela é a Sarah. – indicou a garota magrinha, que sorriu enquanto entregava a tesoura a Maggie.
As duas se distraíram com meu cabelo enquanto eu via através do espelho os fios caindo no chão. Por sorte meu cabelo era bastante longo, e Maggie cumpriu a promessa de não me deixar perder no tamanho.
Assim que terminaram, vi que meu cabelo estava cortado em camadas, e isso o deixava com mais movimento. Sarah pegou um secador e uma escova roxa. Observei enquanto meu cabelo tomava mais forma.
— Está gostando, senhorita? – Sarah indagou.
— Estou sim. – lancei um sorriso tímido, que a moça retribuiu.
Quando meu cabelo já estava totalmente seco, as garotas me guiaram até outro lugar no quarto, para fazer as unhas e também limpeza de pele. E eu permaneci quieta, deixando que realizassem seu trabalho. Senti que passavam algo frio em meu rosto, e fiz uma careta. Escutei risinhos e permiti que um sorriso fraco escapasse.
— Você não poderá falar, senhorita. – Sarah orientou, quando terminou de passar o que quer que fosse em meu rosto. – Mas será por pouco tempo, prometo.
Assenti devagar e continuei com os olhos fechados, enquanto esperava o tempo passar. E quando tudo aquilo acabou – ou seja, quando tiraram aquilo do meu rosto – eu tinha a pele de um bebê.
Ao me levantar – sim, eu estava deitada – vi que enquanto eu permanecia de olhos fechados, algumas das mulheres que estavam ali pegaram o meu vestido e deixaram ali no quarto, exibindo toda a sua beleza.
Três dias atrás, realizei a prova de vestidos, para decidir qual usar hoje. Pelo menos alguma coisa eu poderia escolher, mas comparado a tudo o que acontecera, e o que ainda vai acontecer, é quase um nada. Porém, eu preferia não reclamar.
Mesmo que eu não soubesse de nada, nem mesmo as flores que usariam na decoração do salão. Eu era mesmo uma noiva muito informada. Mas meu pai me disse que seria o certo a se fazer, pelo bem do Mundo Inferior, e que eu entenderia tudo mais tarde. Só esperava que esse “mais tarde” chegasse logo.
Respirei fundo e olhei para as garotas, querendo saber qual a próxima coisa que teria que fazer. Elas disseram que seriam as sobrancelhas, e que eu não precisava ter me levantado, então tratei de voltar a me deitar.
Sarah cuidava de minhas unhas enquanto Maggie me torturava lentamente enquanto moldava minhas sobrancelhas. Eu tentava não demonstrar expressões de dor ou desconforto.
Quando enfim terminaram, duas outras moças – que aparentavam mais idade do que as meninas – vieram me buscar para levar a outro canto. Elas me mostraram o vestido e perguntaram se trouxeram o certo.
— Sim, sim. – assenti, enquanto encarava o vestido. – É esse.
Olhar para aquela peça de roupa me causava sensações estranhas. Um aperto no coração e também a impressão de falta de ar. A mudança pode nos afetar de diversas formas. Aposto que se eu fosse uma noiva comum, daquelas que estampa o maior sorriso do mundo nos lábios, e que está tão ansiosa para ver o homem que ama a esperando no altar, eu estaria sentindo borboletas em meu estômago.
O que eu não daria para ter isso agora? A possibilidade de uma vida feliz, ao lado do homem que amo. Queria poder sentir as borboletas em meu estômago, mas a única sensação que parecia ser permitida a mim, era a de alguma coisa importante sendo arrancada de meu ser.
Era o vazio, o desespero. E de certa forma, a decepção. Por esperar que alguém fizesse qualquer coisa que fosse para impedir aquilo de acontecer, mas saber que não teria para onde fugir. Era um pouco decepcionante, sim.
Porém, ao mesmo tempo, a sensação de estar cumprindo o meu dever era um pouco gratificante. Saber que eu estava fazendo o certo, para ajudar meu pai a vencer algo muito maior. Mesmo que o custo para isso acontecer fosse a minha vida, eu o faria.
Suspirei e balancei a cabeça. Voltei para a moça que me acompanhou até ali.
— Desculpe, eu acabei me distraindo. Pode repetir sua pergunta?
— Gostaria se saber se a senhorita já escolheu os brincos que irá usar. – repetiu sua pergunta anterior.
— Ah. Ainda não, havia me esquecido dessa parte. – dei um sorriso sem graça.
Ela sorriu, compreensiva.
— Venha comigo, senhorita. – ela me guiou até um aparador, onde diversos brincos estavam perfeitamente organizados. Olhei para todos eles, até que meus olhos se fixaram em um específico, que parecia combinar perfeitamente com meu vestido.
— Esse aqui. – disse enquanto pegava o brinco e entregava para a moça. – E agora? O que tenho que fazer?
— A senhorita já decidiu que sapatos irá usar? – os olhos dela brilharam, como se esperassem que eu dissesse não, só para que ela pudesse me acompanhar até lá. Sorri com isso.
— Ainda não. Mas estava pensando em um sapato com tiras. – comentei.
— Venha, vou levá-la para escolher. – ela me guiou para uma porta, que quando abriu, vi que se tratava da entrada para uma sala com diversos calçados.
— Acho que vou ter que escolher um branco. – disse enquanto passava por todos os sapatos pretos que chamavam a minha atenção. Era um tanto difícil resistir. Provavelmente Afrodite não reagiria bem se eu aparecesse em meu casamento com um vestido branco e uma sandália preta.
Ri baixo enquanto imaginava a cara de total indignação da deusa. Logo depois entortei a boca e encarei os sapatos, inclinando levemente a cabeça.
Optei por uma com um salto não muito alto – embora eu fosse uma garota baixinha e tinha chances de meu noivo ser alto – por conta do conforto. Ela tinha duas tiras finas e delicadas que passavam por cima dos dedos.
— Acho que vou com essa aqui. O que acha? – perguntei para a moça.
— Creio que vão combinar perfeitamente. São delicados, como a senhorita. – respondeu e eu sorri agradecida e levemente sem graça. Costumo não saber como reagir a elogios.
— Então o sapato já está escolhido.
— Só precisamos terminar de arrumar o seu cabelo, então a maquiagem. Depois que se vestir, estará pronta para a cerimônia.
Eu não acreditava que estaria tão pronta assim daqui a algumas horas. Algumas coisas pareciam tão surreais, enquanto outras eram incontestáveis. Às vezes achava que não tinha psicológico para esse tipo de coisa, e em outras eu parecia a pessoa mais forte e corajosa do mundo inteiro.
Era um furacão que vivia dentro de mim. Uma interminável bagunça, e eu estava para achar alguém que conseguisse me compreender.
Quando saí da sala dos sapatos, me deparei com Maggie e Sarah com sorrisos felizes no rosto, totalmente animadas com a ideia de arrumar meu cabelo. Eu não poderia ficar triste com aquelas garotas tão contentes por me ajudar.
— Vamos terminar com meu cabelo? – sorri, tentando ficar empolgada. Aquilo provavelmente me ajudaria levar as coisas com mais facilidade.
— Claro! – Sarah logo tratou de me puxar pela mão e me guiar até a cadeira. Maggie estava com o baby liss na mão e encarava meu cabelo pensando no que poderia fazer.
Não demorou muito para as duas estarem fazendo a festa com o meu cabelo. Cacheando, prendendo, analisando e enfeitando. E eu só conseguia rir e me segurar àquele momento de felicidade que estava tendo.
E no fim de toda aquela bagunça, o resultado estava incrível. Os cachos caíam pelas minhas costas e havia pontos de luz em lugares estratégicos, brilhando conforme eu me mexia. Estava lindo, e eu estava sorrindo abertamente.
— Eu adorei, garotas. – falei para as meninas que admiravam sua obra, satisfeitas. – Ficou lindo. Nunca mais vou arrumar meu cabelo com outras pessoas. – ri.
As garotas só sorriam mais com os elogios, e eu gostei disso. Era a felicidade em pequenos gestos. E eu sabia que enquanto as coisas fossem difíceis, eu teria que me apegar às lembranças dos momentos felizes que tive enquanto a vida ainda era mais fácil.
E talvez eu estivesse ficando chorona e dramática demais.
— Agora, Srta, vamos fazer sua maquiagem. Tem alguma preferência? – Maggie perguntou.
— Eu não sei como pensaram na maquiagem, mas eu gosto de olhos marcantes, então gostaria de um pouco de preto. E acho que como o casamento é durante a noite, não vai ter problema.
Sarah assentiu.
— Claro. Podemos fazer uma mistura de branco com preto, ou uma sombra nude com uma preta.
— Esfumado. – Maggie sugeriu.
— Exatamente. O que acha? – e então as duas entraram numa conversa empolgante sobre maquiagens, pedindo minha opinião vez ou outra. Quando notei, Sarah estava prendendo minha franja com um grampo, enquanto Maggie procurava a base que daria certo com o meu tom de pele.
O quarto já estava mais vazio, não tendo muito mais o que arrumar ali. Algumas garotas apenas observaram Maggie e Sarah trabalharem, enquanto outras poucas andavam para lá e para cá arrumando coisas que pareciam fora de lugar.
— Achei! – Maggie exclamou e Sarah se virou para saber qual era o motivo do “escândalo”. – Acho que essa base vai dar um bom acabamento e deixar a pele dela bem natural.
— Deve dar certo. Vamos descobrir agora. – a baixinha saiu da minha frente para que a morena pudesse começar o seu trabalho.
Somente fechei os olhos e deixei que elas fizessem o que fosse necessário. Não deveria ser muito pior do que as sobrancelhas, aquilo sim era uma bela tortura.
Meu noivo deveria estar acordando agora, e tomando um remédio para tentar acabar com a dor de cabeça de ressaca que era causada pela bebedeira na noite passada, que provavelmente foi sua despedida de solteiro ou qualquer coisa do tipo. Enquanto eu sofria com minhas sobrancelhas. O mundo não é justo, não é?
Eu achava que dormiria se continuasse com os olhos fechados por mais dois minutos. Porém me pediram para abrir os olhos antes disso, para que eu pudesse ver se a pintura de meus olhos estava ficando de meu agrado, e eu respondi positivamente.
A cada momento eu me surpreendia mais com aquelas garotas, e sendo sincera, nunca mais iria querer que outra pessoa me arrumasse para festas senão elas. As duas eram umas gracinhas.
Vi que elas decidiram não colocar cílios postiços, pois os meus já eram grandes ao natural e ficariam no ponto somente com o rímel. E eu tentava imaginar como estava ficando tudo, já perto da finalização.
Elas pediram para que eu não abrisse meus olhos enquanto não tivessem terminado, e eu atendi, ficando de olhos fechados até receber a permissão para abri-los.
Eu estava linda. As sombras eram de tons nude e preto, marcando bem os olhos, como eu havia pedido. O blush dava cor ao meu rosto, que parecia ter a pele mais macia do mundo, e meu batom não chamava muita atenção.
Tudo parecia tão simples, mas em conjunto tão perfeitos, combinando suas belezas e simplicidade e virando uma coisa incrível. E ao soltar minha franja, fiquei ainda mais satisfeita com o resultado. Agora só faltava me vestir, e aí estaria pronta.
— Posso colocar o meu vestido? – perguntei, olhando para as pessoas a minha volta.
— É claro! – todas logo se animaram com a simples menção de ver a noiva inteiramente vestida e foram logo me guiando para trás do biombo, me entregando uma lingerie branca e deixando-me ali para me vestir.
Logo levaram o vestido até mim, e eu o vesti, saindo de lá somente para que o fechasse nas costas, coisa que eu não conseguia fazer. Uma moça ruiva me levou os sapatos e outra me entregou os brincos.
No fim de tudo aquilo, eu me senti a noiva mais linda do mundo. E deixei que essa sensação transbordasse dentro de mim, aproveitando cada segundo dela.
Aquilo tudo foi bom enquanto durou, os momentos de felicidade dentro daquele quarto cheio de pessoas contentes. E elas conseguiram me transmitir todo aquele sentimento, e eu as agradeci por isso. Seriam ótimas lembranças.
Mas então meu pai bateu na porta, perguntando se eu estava pronta para ir, e meu coração gelou. Acenei levemente para todas as meninas e fui até a porta, para abri-la e olhar para os olhos negros do deus do Mundo Inferior.
— Você é a noiva mais linda do mundo. – ele sorriu, e não pude deixar retribuir.
— Obrigada, pai. – abaixei a cabeça, levemente sem graça.
— Está pronta? – perguntou, e eu assenti levemente. Saindo daquele lugar de braços dados com o deus da morte, pronta para ir de encontro com o meu destino.
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