MARK ESTÁ PERDIDO – CAPÍTULO ÚNICO

“HUMANS”.

Já fazem tantos dias que estou sem comer que até mesmo perdi a conta. Comendo lixo, bebendo água do esgoto e da chuva, com o corpo tão sujo que mal dá para ver a minha cor.

Acostumei-me a ver mais carros que gente, apesar de que com tantas buzinas e rodas arrastando no asfalto toda hora deixa-me atordoado.

Enquanto caminho pela calçada, tento chamar a atenção de algumas pessoas, mas a maioria costuma ignorar-me. Havia gente que passava, me olhava “torto” — ou com pena —, outros nem sequer olhavam. Até que um homem me deu atenção, depois de tanto eu insistir e o pedi ajuda, dizendo-lhe:

— Com licença, senhor, meu nome é Mark e estou perdido. Estava passeando com a minha família, mas eles saíram, acho que foram buscar algo. E como demoraram, acabei indo procura-los, fui atropelado, machuquei a perna e me perdi deles. Será que o senhor poderia me ajudar?

— Saia do meu caminho, seu nojento!

É sempre assim, e cada vez mais vou me decepcionando com a raça humana, nunca querem ajudar quem mais precisa e são egoístas demais para perceberem e sentirem a dor do outro. Só se colocam no lugar de quem está com problemas quando sentem a mesma dor na própria pele.

Durante todo esse tempo em que fiquei morando nas ruas, fiz um amigo chamado Thomas, apesar de que ninguém o chamava pelo nome, assim como a maioria que vive nas ruas conosco. Ele estava perdido, assim como eu. Naquele mesmo dia, Thomas foi atropelado e por mais que eu berrasse por ajuda, ninguém nos socorreu e ele acabou não resistindo, ainda me manchou com seu sangue.

Demorou até dois homens virem seu corpo no meio da pista e se prestarem a recolher.

— Pobrezinho. — disse um deles enquanto ajudava o outro a colocar o cadáver de Thomas em um saco. — Olha como o amigo ficou triste.

— Uma pena que o mundo esteja assim e o motorista largou o corpo dele aqui.

— A justiça deveria fazer algo a respeito.

— Como? — um deles zombou — Ninguém liga para cães de rua.

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