Notas iniciais
essa é a sétima fanfic, a anterior a essa se chama "Meeting Mari"

Era quase dez horas da noite e eu estava terminando de conferir toda a papelada que estava em cima da mesa antes de ir embora, como os rascunhos da nova canção de Takanori, os planejamentos do nosso próximo single, todas as pessoas com quem entramos em contato pro show que estávamos preparando para o próximo mês nos EUA e algumas anotações sobre o que queríamos alterar do novo PV que tínhamos feito há poucos dias.

Sentei na poltrona de nossa sala da P.S. Company, jogando a cabeça pra trás e respirando profundamente, colocando as mãos ao lado da cabeça e pressionando as têmporas pra relaxar a dor. Os outros já tinham ido embora há algum tempo e a sala ficava muito silenciosa quando eu me via sozinho. Mas eu não podia me dar ao luxo de me incomodar com a solidão. Não sendo o líder da banda! Não tendo garantido que nós daríamos conta de fazer esse show no exterior!

E era por ser o líder da banda que eu estava sozinho naquela sala na noite do meu aniversário. Sim, hoje era dia 28 de outubro e eu estava trabalhando como um louco depois de rejeitar uma oferta de meus amigos pra sair e comemorar. Eles tinham me comprado presentes, é claro, mas já esperavam uma reação dessas, vinda de mim: o trabalho vem primeiro!

Não que não tenham tentado fazer o oposto acontecer, um milagre... Cada um deles tinha usado suas maiores artimanhas de persuasão pra me dissuadir de ficar trabalhando nessa noite. Eu ri com cada uma delas! Takanori disse que conseguiria tudo pronto do PV no dia seguinte se eu aceitasse... Como se eu fosse cair numa dessas! Não era nem possível se eu ficasse a noite inteira negociando, imagine pro baixinho protelador? Akira resmungou o dia inteiro em meus ouvidos, dizendo que não se faz 33 anos duas vezes na vida! Como se eu não soubesse disso! Yuu era o mais decidido de todos, dizendo que sempre conseguimos finalizar nossos trabalhos em tempo, mesmo com distrações a mais. Respondi que nós cinco no tínhamos mais 25 anos e ele se calou por um breve tempo, antes de retomar incansável sua batalha. Kouyou estava animado demais com a ideia de uma comemoração pra me importunar demais como os outros. Talvez ele esteja agora mesmo comemorando meu aniversário sem mim!

Olhei distraído para o relógio e voltei os olhos pros papeis desarrumados em cima da mesa. Puxei mais uma vez a letra da música em que Takanori vinha trabalhando arduamente nos últimos dias. Era uma letra tão bonita que eu não me cansava de lê-la. Falava de buscar o que nos chama pra frente, procurar a verdade de nossos corações e nunca desistir da vida! Ele tinha me dado a mesma resposta de sempre quando lhe perguntei de onde teria vindo sua inspiração: “simplesmente nasceu!” e sorriu.

Levantei, cansado demais de ficar na mesma posição por um longo tempo. Ergui os braços acima da cabeça, me espreguiçando, sentindo meus músculos tensos e doloridos. Girei nos calcanhares impaciente, buscando qualquer coisa que relaxasse minha mente. Parecia um animal enjaulado, um louco preso, uma pessoa asfixiada. O que eu estava fazendo sozinho no dia do meu aniversário afinal?

Não quis pensar muito sobre essa questão. Saí da sala sem fechar a porta e me aproximei da máquina de café. Eu já estava parecendo com Yuu à uma hora dessas: trabalhando sem parar durante a noite e agradecendo por um pouco de cafeína. Como se eu precisasse de mais energia...

Fui até o estúdio no final do corredor e entrei silenciosamente, como se houvesse alguém dormindo ali e eu não pudesse acordá-lo. Olhei pela grande janela de vidro sobre o painel de controle, nossos instrumentos da mesma maneira que tínhamos deixado naquela mesma tarde depois do ensaio exaustivo que eu tinha proposto.

Coloquei meu café na mesinha próxima e fui até minha bateria. Era sempre uma sensação indescritível sentar nela. Deslizei minhas mãos lentamente pelos tambores e pelos pratos reluzentes como quem acaricia os pelos de um gato ronronando no tapete. Peguei minhas baquetas e batuquei lentamente no tambor a minha frente, fazendo um som ritmado, mas ainda assim baixo. Meu pé fez com que outro tambor soasse, mais alto que a batida anterior. Repeti os movimentos, incluindo cada vez um novo som nas minhas batidas e em pouco tempo eu movia todo o meu corpo e fazia muito barulho.

Escutei uma batida mais fraca que não vinha de minha bateria e parei abruptamente, vendo uma garota parada à porta aplaudindo meu pequeno show particular. Eu estava suando muito e senti que uma lágrima quente escorria do meu olho. Inspirei profundamente, fechando os olhos para que minha visão voltasse ao normal e eu pudesse focalizar melhor quem tinha me visto extravasando.

Ela tinha os cabelos curtos num castanho-acaju lindo e brilhante, seus olhos eram arroxeados e profundos, cheios de meiguice, sua boca era desenhada com cuidado sob o nariz no rosto com formato de coração. Era uma garota alta e magra, com curvas acentuadas. Usava a camiseta dos nossos staffs, que eu lhe dera quando a contratei no mês passado, e uma jeans preta. Mariana...

Ela continuou a me aplaudir parada à porta do estúdio e eu sorri sem jeito para seu sorriso exuberante, como tinha feito todas às vezes desde que nos conhecemos naquela linda tarde de setembro.

- Não achei que tivesse mais alguém aqui... – eu disse me levantando da bateria e largando as baquetas, secando o suor de meu rosto junto com as lágrimas na manga da blusa. Suas mãos pararam de produzir som e se uniram, entrelaçando os próprios dedos num gesto que eu sabia ser nervosismo.

- É... Eu também pensei isso... – ela deu uma risadinha tímida. – Posso perguntar Kai-san, o que o senhor faz aqui até tão tarde na noite do seu próprio aniversário? – sua pergunta tão amigável contrastava gritantemente com a formalidade com que insistia em me tratar. Por que os outros era o Taka-chan, o Aki-chan, o Kou-chan e o Yuu-chan e eu continuava sendo o Kai-san? Por que eu continuava sendo o senhor enquanto meus companheiros de banda já eram seus amigos? Eu tinha alguma coisa errada?

- Estou sem ânimos pra comemorações... – respondi e minha voz saiu muito cansada. Usara todas as minhas últimas energias na bateria e, por um breve momento, prestei atenção aos meus músculos, antes tão tensos, agora muito relaxados. Voltei a olhar Mari. – E você, Mari-chan? O que faz aqui essa hora da noite?

Seu rosto ganhou uma tonalidade muito parecida com seus cabelos e ela torceu os dedos uns nos outros. Mantive a conexão de nossos olhos, apesar de querer desfazê-la urgentemente. Mariana mordeu os lábios e inspirou.

— Tenho... Tenho uma coisa... Pra você... – ela disse timidamente e eu ergui as sobrancelhas, surpreso. – Espere só um minuto, onegai? – assenti sem palavras e ela saiu rapidamente do estúdio.

Olhei a minha volta toda a solidão que voltava a me cercar. Seria a idade que estava me tornando assim tão paranoico? Não esperei muito até vê-la voltar ao estúdio, carregando um embrulho prateado com um laço vermelho preso a ele.

— Feliz aniversário!- ela disse timidamente, estendendo o embrulho na minha direção e eu estendi meu braço pra pegá-lo.

— Você... Não precisava... Mari-chan... – disse com o presente nas mãos e ela olhou para baixo o rosto muito corado, extremamente lindo.

- Mas eu queria... – ela mordeu novamente o lábio rosado, delicado como uma pétala de rosa.

Abri o embrulho e lá dentro havia duas baquetas de cor escura. Em uma delas havia gravado em letras douradas “gold hands” e em sua irmã gêmea, “drums no kami-sama”. Dei risada achando o presente incrível e ela ergueu o rosto muito corado sorrindo pra mim.

- Domo arigato gozaimasu, Mari-chan – estiquei o braço e toquei a pele macia de seu rosto, acariciando sua bochecha rosada com o polegar. Seu rosto era tão liso e quente. Meu dedo continuava lentamente a carícia enquanto eu dava um passo em direção à garota.

- Doita... – ela começou a dizer, mas a interrompi antes de terminar, unindo nossos lábios num único movimento, sem que ela pudesse reagir e me afastar antes que tocasse sua boca delicada com a minha.

Não houve espanto em seu rosto quando me sentiu colado a ela, segurando sua cintura e seu rosto contra o meu corpo. Foi como se ela já esperasse aquilo. E quem foi surpreendido fui eu quando seus braços envolveram meu pescoço e me puxaram ainda mais para o nosso beijo. Minha mão em sua cintura deslizou até suas costas, apertando-a em meu peito, enquanto a outra deslizava pelos fios de cabelo cobre — afogueados, prendendo-os em meus dedos com carinho. Senti seus dedinhos acariciando minha nuca, arranhando um pouco e toda a minha pele ficou arrepiada.

Separei meus lábios e ela imitou meu movimento, talvez por reflexo. Inspirei seu hálito doce e fui completamente tomado pela sensação maravilhosa de tê-la ali, rendida em meus braços. Eu já tinha perdido tanto tempo... Tanto tempo que podia ter feito a coisa certa e não fiz... Tanto tempo que eu podia ter me declarado... Tanto tempo que eu podia já tê-la em meus braços... E esse tempo praticamente não significou mais nada quando sua língua adentrou minha boca, convidativa e curiosa, tocando cada canto de meu interior, me fazendo delirar de prazer.

Ficamos ali nos beijando um tempo incontável, uma eternidade perfeita, até que nosso ar acabou e tivemos que nos separar contrariados. Sua mão tocou meu rosto e eu beijei-lhe a palma, puxando sua cintura esguia novamente contra meu corpo, nos encaminhando para o pequeno sofá que havia ali na anti-sala do estúdio e me sentei com ela no meu colo, beijando seu pescoço.

- Eu adorei o seu presente... – sussurrei em seu ouvido e a pele dela se arrepiou.

- Sabia que ia gostar... Yuk-chan... – ela sussurrou de olhos fechados e novamente me surpreendi. Era a primeira vez que ela me chamava tão carinhosamente.

Sua cabeça deitou em meu ombro e eu beijei sua testa, apertando-a aninhada em meu peito. Eram atitudes tão espontâneas que parecia algo casual. Um de seus dedos foi brincar com meu cabelo, como uma criança, e eu sorri, beijando seu pulso que roçava em meu queixo.

- Aishiteru... Mari-chan... – disse hesitante e seus olhos encontraram os meus com uma felicidade inflamada por trás de suas íris. Suas mãos seguraram o meu rosto e seus polegares fizeram movimentos circulares em minhas bochechas, me fazendo rir.

- Aishiteru mo... Yuk-chan... – ela respondeu doce e lentamente, destacando cada uma das sílabas, e uniu nossos lábios mais uma vez num beijo ainda mais delicioso que o primeiro.

Eu a amava... Desde o primeiro momento em que a vi... Desde que ela entrou na minha sala pra entrevista pros staffs. Por algum motivo inexplicável, eu sempre soube que aquela era a mulher da minha vida, a mulher com quem eu passaria o resto de meus dias, com quem eu dividiria minhas felicidades e minhas tristezas, dividiria as minhas conquistas e minhas frustrações. E, por um motivo ainda mais inexplicável, eu tinha adiado aquele momento tão mágico, aquele encontro.

Encerramos o beijo e Mari ficou acariciando meus cabelos, sua cabeça deitada novamente sobre meu ombro, murmurando em meu ouvido uma melodia que eu não conhecia, mas que me acalmava. Fechei os olhos, aproveitando o carinho e a canção e tinha certeza de que poderia adormecer ali. Porque eu não me sentia mais preso, ou angustiado, ou asfixiado, ou solitário. Não tendo encontrado a canção de Mari!

Notas finais
mereço reviews?
a próxima fanfic da série se chama "Minha Noite com o Ruki" e foi a fanfic que deu origem a tudo isso!!!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!