Marigold
1 'Round and 'round she goes, my little marigold
Notas iniciais
A cor preferida de Eloá era laranja, então Alicia concluíra que qualquer flor laranja fosse boa o suficiente. Ela nunca havia comprado flores para ninguém antes, e certamente não era familiar com a linguagem das flores; só entrou na floricultura e escolheu o primeiro arranjo alaranjado que viu. Era bonito. Era laranja. Alicia tinha certeza de que aquelas flores cresciam aos montes no parque em que elas haviam tido o primeiro encontro. O que mais ela poderia pedir?
Alicia nunca imaginaria que o problema eram as flores. Quando Eloá riu ao ouvir seu pequeno discurso, ela simplesmente concluiu que o problema era o pedido. Contendo a vontade de sair correndo e se esconder num buraco, ela deu um sorriso sem graça e disse:
— Foi muito piegas?
Eloá se esforçou para parar de rir. O riso não era maldoso – Alicia não achava que Eloá fosse capaz de rir de forma maldosa –, mas, mesmo assim, era desconcertante. Aquele era exatamente o motivo pelo qual Alicia nunca fazia gestos grandiosos ou românticos. As respostas eram muito imprevisíveis, e sua autoestima, muito frágil. Quando Eloá finalmente conseguiu se acalmar o suficiente para falar, Alicia já estava a meio caminho de se sentir a menina mais idiota do planeta Terra.
— Não, foi fofo – disse Eloá, por fim. Ela pegou as flores e as analisou, soltando uma última risadinha. – Foi muito fofo, Ali, de verdade.
Alicia olhou para as flores. Não era um buquê, mas sim um vaso, de forma que não murchassem logo e Eloá pudesse cultivá-las, porque Alicia sabia que ela gostava de jardinagem. E de laranja. E de grandes gestos românticas. Ela não conseguia ver onde seu plano dera errado.
— Então... Algum motivo específico pra você ter rido da minha cara agora? – perguntou, tentando não soar muito chateada.
Eloá estendeu uma mão para tocar o rosto dela, com ternura. Ela era a delicadeza em pessoa; fora um dos motivos pelos quais Alicia se apaixonara por ela.
— Desculpa, Ali – disse ela. Ainda estava sorrindo. – Eu não quis constranger você. As flores são lindas. Você é linda. Foi um pedido perfeito, em quase todos os sentidos.
“Quase perfeito” normalmente era algo ruim, mas Alicia concluiu que podia se contentar com a definição, daquela vez. Talvez “quase perfeito” fosse bom o suficiente.
— Isso é um sim? – Em outra ocasião, ela tentaria esconder a esperança em sua voz, mas aquilo era inútil com Eloá. – Ou é o começo de um não bem delicado?
Em resposta, Eloá a beijou. Foi um beijo suave, como o primeiro que elas haviam trocado, rodeadas por flores laranja em um parque municipal no primeiro dia do primeiro mês de verão.
— É um sim, sua besta – respondeu ela, quando as duas se separarem. – Sim, eu quero namorar com você. Sim, eu estou perdidamente apaixonada por você. E sim, eu amei as flores, você sabe que amei. É só que, bem... Você sabe que tipo de flores são essas?
— Eu, hm, não sei o nome delas – admitiu Alicia, constrangida. – Lembrei que elas crescem naquele parque, e, bem, naquele dia, você me disse que laranja era sua cor preferida, então achei que fosse gostar delas.
— E eu gostei – assegurou Eloá. – Só que, por acaso, eu também sei muito sobre botânica e a linguagem secreta das flores. – Ela tocou as pétalas de uma das flores no vaso cuidadosamente. – Essas são calêndulas.
Alicia nunca ouvira aquele nome antes. Ela fitou as flores com apreensão.
— Certo. E elas significam...?
— Medo, desespero, pesar, tristeza – Eloá riu ao ver a expressão escandalizada da nova namorada. – Não são muito boas pra se dar a alguém.
— Ai, meu Deus – murmurou Alicia. Ela cobriu o rosto com as mãos, sentindo suas bochechas arderem. – Eu sou uma idiota.
O toque suave de Eloá em seus pulsos fez com que ela abaixasse os braços.
— Uma idiota muito, muito fofa – disse Eloá. O sorriso dela era radiante; era praticamente impossível não sorrir de volta. – Eu entendi a intenção, Ali, é isso que importa.
— Eu te pedi em namoro com flores que significam basicamente tudo que não queremos pro nosso namoro – observou Alicia, enquanto Eloá entrelaçava os dedos aos dela. – Isso não é um mau sinal? Tipo, você não acha que pode trazer azar pra gente? Ou que eu tô agourando nosso relacionamento?
— Bem, a calêndula é conhecida como “flor-de-todos-os-males”...
— Não tá ajudando!
Ao contrário de Alicia, Eloá parecia estar achando muita graça da situação. Ela levou a mão da namorada aos lábios e beijou a palma.
— Também é conhecida como “maravilha-dos-jardins” – disse ela. – E seu nome significa “primeiro dia de cada mês”.
Alicia sorriu, apesar da vergonha.
— Como nosso primeiro beijo.
— Exatamente – Eloá a beijou novamente nos lábios. – Vamos focar nisso, tá? Vamos pensar que isso significa que, por mais que as coisas nem sempre saiam como nós planejamos, sempre teremos as melhores intenções e encontraremos um jeito de olhar pro lado positivo.
As palavras fizeram o coração de Alicia aquecer, lembrando-a do porquê havia achado que aquela menina merecia o esforço para um gesto grandioso e romântico.
— E elas vão ficar ótimas no seu quarto, né?
Eloá deu um pulinho de empolgação, ainda segurando a mão de Alicia.
— Com certeza! Laranja. Vão combinar direitinho com meus outros enfeites.
Alicia riu e a puxou para mais um beijo. Parecia que elas iam ficar bem, afinal.
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