Maria Luísa

1 Maria Luísa


Notas iniciais
Boa leitura!

“Ela gosta de revistas de moda, passeios pela manhã e chá morno. Não gosta de cheiro de canela, flores artificiais e a sensação de tocar as próprias pontas dos dedos. Ela gosta de mim. E eu, gosto dela.”

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Não vou iniciar essa história contando a vocês como conheci Maria Luísa, até porque pode ter sido na faculdade, num barzinho, na fila do cinema, comprando jornal ou procurando as chaves na entrada do meu condomínio. E, em qualquer uma dessas situações, a única coisa que importa é saber que em determinado dia de muita sorte, eu a conheci.

Vale a pena ressaltar que ela estava maravilhosa quando a conheci. O sorriso era, de longe, o mais bonito que já vi em toda a minha vida. Seus olhos não olhavam para mim, estavam atentos ao movimento do mundo. Ela deveria estar pensando em algo interessante, nunca perguntei. Eu não costumo questionar a Malu.

Devo explicar. Ela é inquestionável. Não do tipo que não se deve fazer perguntas, mas do tipo que não vale a pena perder o tempo perguntando. Maria Luísa vai e volta, sorri e chora, respira e perde o ar. Isso tudo em questão de minutos. Pra que perguntar? Ela vive. Eu observo. Acho que isso nos faz um bom casal.

Certa vez, enquanto Malu dormia ao meu lado e eu olhava o lençol cobrindo seu corpo, pensei que ela era a perfeita personificação do mar. Linda, intensa, impossível de ser dominada e uma paisagem de, literalmente, tirar o fôlego. Às vezes calma, revigorante, trazendo consigo uma brisa suave e a sensação de paz. Às vezes incontida, dominadora, explosiva e acima de tudo, inconstante. Eu nunca sei se Maria Luísa irá deixar meu corpo flutuar em sua calmaria ou se vai afogar meus pulmões em suas ondas. Só sei que a adrenalina dela faz meu coração pulsar.

Ela não tem paciência para minhas palavras-cruzadas e eu detesto a pizza de brócolis que ela pede aos domingos. Ainda assim, ela responde quando eu pergunto algo do tipo “atitude do indivíduo impertinente, com catorze letras?”, mas eu não como o brócolis. Acho que isso sempre nos diferenciou muito. Por mais que não goste de algo, Malu ainda seria capaz de lidar com aquilo. Eu não. Ela é resistente, durona, não abaixa a cabeça pra qualquer problema ou frustração. Eu implico, reviro os olhos e procuro métodos de livrar daquilo o mais rápido possível. Maria Luísa enfrenta, eu fujo.

A garota ensinou-me a ser forte. Ela gosta de escrever pensamentos aleatórios num caderno que dei no nosso último aniversário de namoro. Nunca deixa ninguém ler, nem mesmo eu. Ela diz que é viagem demais para que humanos comuns conseguissem entender, e confesso que ela tem razão. Ela tem o poder de imaginar uma nova teoria que foge completamente das leis da física e que contraria as regras da biologia, mas que com certeza agradaria os ouvidos refinados de um filósofo. É inteligente demais, saberia falar sobre Bukowski, Freud e Talles, mesmo que nunca nem tivesse lido algo sobre eles. Malu sabe conversar, essa é a manha dela.

De seus defeitos, posso dizer abertamente sobre seu orgulho. Ela nunca da o braço a torcer e prefere perder a noite do que abandonar seus argumentos. Sabe sim admitir que não estava certa, mas ah, demora! E como demora! E eu dou meus maiores sorrisos de satisfação, até ela finalmente rir comigo e deixar de lado qualquer assunto idiota que também já não importaria mais para mim.

Ela ama viajar! Nós duas viajamos muito, para cidades próximas e muito distantes. Compramos presentes para a família e tiramos fotos nos pontos turísticos. Maria Luísa adora traçar rotas estranhas e comer comidas típicas. Eu prefiro apreciar a vista do hotel e como fazemos sexo em cada um deles. Ela ama acordar cedo e tomar chá de hortelã enquanto conta-me sobre seus sonhos. Eu adoro olhar no castanho dos olhos dela e imaginar se um dia teremos filhos com aquela mesma genética. Ela reclama da minha postura na cadeira, eu reclamo que ela pega guardanapos demais.

Malu gosta de dirigir. Ela dirige melhor do que eu, é atenta e respeita minimamente os detalhes de segurança no trânsito, além de ter a paciência de um buda. Às sextas, costuma visitar seus pais, que moram do outro lado da cidade. Eu costumo ir com ela, gosto de ver o jardim que seu pai cultiva e dos biscoitos que sua mãe compra. A família dela, também minha, é muito amável. Eles repetem histórias do passado e elogiam meu casaco, mesmo já tenham visto mais de cinco vezes. Já são velhinhos, Maria Luísa é a filha mais nova. Os irmãos mais velhos moram no exterior, mas sempre enviam vídeos engraçados para nós.

Numa tarde quente de verão, o meu amor sofreu um acidente de carro. Ela tinha vinte e nove anos e fazia piadas sobre chegar na casa dos trinta. Eu ria das piadas e concordava, ela estava mesmo ficando velha. Quando ligaram do hospital, disseram que eu precisava assinar alguns documentos. Ela ainda sim estava bonita com uma roupa tão ridícula e o semblante tão calmo. O mar, que tanto se jogava nas ondas e não desistia de sua própria força, fez-se calmaria. Eu estava afogando, mas o mar não respondia ao meu sufoco.

Aprendi com ela que a vida é breve e que nunca devemos contar histórias boas com verbos no passado.

Malu vive no mar agora. E suas palavras desconexas, sempre no presente, fazem meu coração pulsar. Ela gosta de revistas de moda, passeios pela manhã e chá morno. Não gosta de cheiro de canela, de flores artificiais e a sensação de tocar as próprias pontas dos dedos. Ela gosta de mim. E eu, gosto dela.

Notas finais
E aí, gente? Gostaram?

Fiz em um dia bem reflexivo, mas achei que ficou bonitinho kkkk
Em breve pretendo postar outras histórias!

Até mais! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!