Margem do Formosa

5 O café dos sobreviventes


Ana acordou antes das seis com a sensação de que a Fazenda Formosa tinha organizado uma reunião contra o sono dela.

Primeiro vieram as galinhas, indignadas com algum assunto urgente no terreiro. Depois, as cigarras começaram uma disputa sonora sem vencedor possível. Em seguida, um cachorro latiu perto da varanda, outro respondeu mais longe, e alguma coisa no forro arranhou a madeira com a tranquilidade de quem não pagava aluguel.

Ana abriu um olho.

— Eu não assinei contrato com vocês — murmurou.

O gambá, ou o que quer que fosse, respondeu com mais um arranhão.

Ela virou de lado e puxou o travesseiro sobre a cabeça.

A tentativa durou onze segundos.

Do lado de fora, Seu Cícero chamou:

— Café, pinguinha.

Ana ficou imóvel.

Café era uma palavra respeitável.

Com esforço, ela se levantou. O corpo inteiro parecia ter sido dobrado errado durante a noite. O banho de caneca, a cama estreita, o calor, os mosquitos e a consciência de que havia um gambá administrando negócios acima do teto tinham cobrado pedágio.

Quando apareceu na varanda, usando camiseta amassada, cabelo preso de qualquer jeito e expressão de quem havia perdido uma guerra íntima contra a vida rural, Seu Cícero já estava sentado à mesa grande de madeira.

Havia café numa garrafa térmica antiga, pão na chapa, queijo, manteiga e uma cumbuca com goiabada.

Ana parou diante da mesa.

— Seu Cícero, eu não sei se isso é café da manhã ou pedido de desculpas da fazenda.

Seu Cícero serviu café para ela.

— Um pouco dos dois.

Ana sentou-se devagar. A varanda ainda estava fresca, com o a sensação de umidade vindo do terreiro. O mato alto brilhava de orvalho. Ao fundo, o rio Formosa aparecia pouco, mas dava para ouvir um rumor baixo, constante, como se a propriedade tivesse uma respiração escondida.

Ela pegou a xícara com as duas mãos.

— Dormiu bem? — Seu Cícero perguntou.

Ana olhou para ele por cima do café.

— O senhor quer a resposta educada ou a resposta judicialmente útil?

— A verdadeira.

— Fui intimidada por um chuveiro, humilhada por uma geladeira e ameaçada psicologicamente por um gambá.

Seu Cícero mordeu o pão para esconder o sorriso.

— Ele é quieto.

— Seu Cícero, ele correu uma maratona em cima do meu quarto às duas da manhã.

— Deve ter sido um rato, então.

Ana abaixou a xícara.

— Isso não melhora.

— Não?

— Não.

Ele riu baixo.

Ana tomou um gole de café. Era forte, um pouco amargo e muito melhor do que ela esperava. Isso a irritou quase tanto quanto a bomba d’água ter falhado exatamente como Gabriel Belmonte dissera.

Ela olhou para o terreiro.

— A bomba voltou?

— Voltou de madrugada.

— Ótimo. Ela também tem vida noturna.

Seu Cícero apontou com o queixo para a lateral da casa.

— A correia está ruim. Seu Gabriel falou certo.

Ana fechou os olhos por um segundo.

— Eu estava tentando começar o dia sem essa informação.

— Mas é importante.

— É. Por isso é pior.

Ela abriu a pasta que havia deixado sobre a mesa. Dentro, os papéis pareciam ter se multiplicado durante a noite. Contas, notificações, listas incompletas, recibos velhos, nomes de fornecedores e anotações do tio Augusto em pedaços de papel que não obedeciam a nenhuma lógica aparente.

Ana pegou uma caneta.

— Certo. Hoje eu preciso entender o que existe, o que funciona e o que está apenas fingindo.

Seu Cícero apoiou os antebraços na mesa.

— A senhora mal chegou.

— Ana.

— O quê?

— Me chama de Ana. Dona Ana me faz parecer proprietária de pousada mal-assombrada.

Seu Cícero sorriu.

— Pra mim vai ser sempre pinguinha.

— Pinguinha eu aceito. Dona Ana, não.

— Tá certo, pinguinha.

Ana puxou uma folha em branco.

— Vamos começar pelo básico. O que ainda produz alguma coisa?

Seu Cícero olhou para o terreiro, pensativo.

— Tem as galinhas.

No mesmo instante, uma galinha passou correndo pela frente da varanda, perseguida por outra, como se as duas tivessem uma pendência criminal.

Ana acompanhou a cena.

— Elas produzem ovo ou conflito?

— As duas coisas.

— Quantos ovos por dia?

Seu Cícero coçou a barba.

— Depende.

Ana levantou a caneta.

— Depende de quê?

— Do humor delas.

Ela encarou o caseiro.

— Seu Cícero.

— Umas oito dúzias na semana. Quando estão boas.

— E quando não estão?

— Menos.

— Quanto menos?

Ele pensou.

— Bem menos.

Ana anotou:

Galinheiro: produção variável. Medir.

Depois perguntou:

— Horta?

Seu Cícero desviou o olhar para o lado da casa.

— Tem.

— Esse “tem” veio triste.

— O mato tomou um pedaço.

— Quanto?

— Um pedaço grande.

Ana anotou:

Horta: localizar sob o mato.

Seu Cícero apontou para o fundo.

— Tem o galpão também. Ferramenta, peça, umas coisas guardadas.

— Funcionam?

— Algumas.

— Quantas?

— As que não quebraram.

Ana respirou fundo.

— Eu vou precisar de números, Seu Cícero.

— Número certo eu não sei.

— Então hoje a gente descobre.

Ele ficou quieto por um instante. Não ofendido ainda. Apenas desconfortável. Como se Ana tivesse acabado de apontar uma lanterna para uma bagunça que ele já conhecia bem, mas preferia atravessar no escuro.

Ela percebeu e suavizou a voz.

— Não é cobrança. Eu só preciso enxergar.

Seu Cícero passou o polegar pela borda da xícara.

— Seu Augusto fazia no caderno.

— Qual caderno?

Ele soltou uma risadinha sem graça.

— Aí é que está.

Ana olhou para a pasta.

— Tem mais de um?

— Tem uns na cozinha. Uns no depósito. Um talvez na caminhonete velha. Outro eu vi no escritório.

Ana fechou os olhos.

— Perfeito. Um sistema distribuído de caos.

— Como?

— Nada. Vamos tomar café antes que eu tente demitir uma galinha.

Seu Cícero riu.

Ana tomou outro gole e puxou a primeira folha limpa para perto.

No topo, escreveu:

Plano de sobrevivência — Fazenda Formosa

Abaixo, depois de pensar por alguns segundos, completou:

Prazo inicial: 30 dias.

Seu Cícero olhou para a frase.

— Trinta dias pra quê?

Ana encarou o terreiro, a casa cansada, o mato alto e a própria lista incompleta.

— Pra descobrir se isso aqui tem pulso.

O vento passou pela varanda, mexendo devagar uma das redes vazias.

Seu Cícero ficou sério.

— Tem, pinguinha.

Ana olhou para ele.

— Então hoje a gente mede os batimentos.