Margem do Formosa

14 A volta da civilização


Na manhã seguinte, a Fazenda Formosa parecia quase pacífica.

A bomba funcionava. A geladeira roncava com menos rancor. As galinhas estavam ocupadas demais em alguma disputa interna para cercar Ana no terreiro. E, na varanda, o café saía quente da garrafa térmica como uma pequena prova de que nem tudo havia declarado guerra.

Ana estava sentada à mesa grande, com o notebook fechado à sua frente, o mapa da fazenda aberto de novo e uma folha de papel onde escrevera, em letras firmes:

O QUE SOBROU

Horta. Pomar. Galinheiro. Cozinha. Depósito. Faixa da estrada. Feira.

Olhou para a lista.

Depois para o mato.

Depois para a lista de novo.

— Sobrou pouco — Ana disse.

Seu Cícero, sentado na outra ponta da mesa, passou manteiga num pedaço de pão.

— Pouco ainda é alguma coisa.

— Sim. Essa é a frase otimista que as pessoas dizem antes de descobrir que “alguma coisa” precisa de tampa, embalagem, transporte, nota, preço, cliente e ração.

Seu Cícero mastigou devagar.

— Você acordou animada.

— Eu acordei irritada.

— Melhor que triste.

Ana olhou para ele.

— O senhor está ficando bom em gestão emocional.

— Aprendi com galinha. Quando uma cisca demais, a outra bica.

Ana abriu a boca para responder, mas o som de um motor surgiu na estrada.

Ela ficou imóvel.

— Se for Gabriel Belmonte, eu vou jogar café nele.

Seu Cícero olhou por cima do ombro.

Uma caminhonete branca apareceu no terreiro, com uma escada presa no teto e o logotipo de uma empresa de internet pintado na lateral. Ana se levantou tão rápido que a cadeira arrastou no piso da varanda.

— Não acredito.

Dois técnicos desceram do carro. Um deles, magro, de boné azul e prancheta na mão, olhou para a casa com a cautela de quem avaliava se o telhado era estrutura ou sugestão.

— Bom dia. Instalação de internet para Fazenda Formosa?

Ana quase desceu os degraus da varanda sorrindo.

— Sim. Sou eu. Ana. Pessoa física, pessoa jurídica, sobrevivente de zona sem sinal.

Ana virou-se para Seu Cícero, com uma felicidade genuína demais para um fio.

— Seu Cícero, hoje eu volto a existir.

Seu Cícero olhou para a caminhonete.

— Mas você já existe, pinguinha.

— Oficialmente, não. Sem internet, eu era um boato com tênis sujo.

O outro técnico tirou a escada do carro e apontou para o telhado.

— Precisamos subir no telhado alto.

Ana olhou para as telhas antigas.

— Alto tipo “seguro” ou alto tipo “vamos assinar um termo de responsabilidade”?

O técnico olhou para o telhado de novo.

— A gente vê na hora.

— Péssimo.

Seu Cícero levantou-se.

— O telhado da lateral está melhor.

Ana virou para ele.

— Melhor quanto?

— Cai menos.

— Seu Cícero.

— É verdade.

Os técnicos começaram a instalação. Um subiu na escada, outro entrou na sala para verificar a tomada e o roteador. Ana acompanhava tudo como se fosse o nascimento de uma entidade sagrada.

— Cuidado com essa tábua — ela avisou. — Ela range, mas acho que ainda não odeia ninguém.

O técnico pisou.

A tábua rangeu.

Ele parou.

Ana apontou.

— Viu? Personalidade.

Na sala, o segundo técnico procurou um ponto para colocar o roteador. Seu Cícero ficou observando o aparelho preto com duas antenas.

— Isso que faz a internet?

O técnico respondeu:

— Esse distribui o sinal.

Seu Cícero franziu a testa.

— Igual rádio?

Ana explicou:

— Mais ou menos. Só que em vez de música, vem cobrança, ansiedade e vídeo de gato.

Seu Cícero pareceu considerar.

— E precisa disso?

— Infelizmente, sim.

Lá fora, o técnico gritou do telhado:

— Dona Ana, pode testar agora!

Ana pegou o celular com as duas mãos.

O ícone de Wi-Fi apareceu no topo da tela.

Ela prendeu a respiração.

— Temos sinal.

Seu Cícero sorriu.

— Então funcionou?

Ana abriu um aplicativo de teste de velocidade.

— Ainda não. Agora vem o exame de sangue.

O ponteiro digital começou a subir.

Ana ficou parada, concentrada como se acompanhasse batimentos cardíacos numa UTI.

— Vai, vai, vai…

O resultado apareceu.

Ela ergueu os dois braços.

— Cento e trinta e oito mega!

Seu Cícero olhou para o técnico.

— Isso é bom?

O técnico respondeu:

— Pra cá, é.

Ana corrigiu:

— Para mim, hoje, isso é renascimento tecnológico.

O técnico do telhado desceu, limpando as mãos na calça.

— Só assinar aqui.

Ana assinou quase com carinho.

— Vocês aceitam café? Pão? Doce de goiaba experimental? Ainda não matou ninguém oficialmente.

O técnico de boné aceitou um vidro pequeno de goiabada com uma felicidade simples. O outro pegou pão com queijo. Seu Cícero contou que a bomba quase queimou na noite anterior. Ana contou que o gambá do forro talvez fosse inquilino antigo. Os técnicos riram, prometeram “dar uma olhada na posição da antena se o vento mexesse demais” e foram embora deixando para trás a coisa mais preciosa que a fazenda recebera desde a chegada dela:

três barrinhas de Wi-Fi.

Ana voltou para a varanda com o celular na mão.

O mundo estava de volta.

Ela sorriu.

Por cinco segundos inteiros, aquilo pareceu uma vitória.