Harry estava morto.

A notícia chegou enquanto o rei e a rainha — que agora estavam dividindo o cômodo — almoçavam. Margaery pode ver Daenerys e Jon reagirem quando a notícia. Este permaneceu frio e distante, enquanto Daenerys ficou lívida. Olhou para o rei, fitando com suas íris roxas.

— Como está o corpo? — Jon indagou a Marwyn, que havia lhe trazido a notícia. (Sua voz era monótona. Distante. Sem parecer se importar com a situação.)

Ao ver a fria reação do Rei, Margaery, que estava em pé, no canto do quarto, segurando uma jarra de vinho, se indagou se ele já não planejava matar Harrold. Talvez achasse que algum comparsa havia realizado a tarefa.

— Cheio de arranhões, meu Rei — o arquimeistre explicou. — Uma serva percebeu que ele estava estatelado no chão. Os guardas viram que ele estava morto ao verificarem se ele estava fingindo ou não. — Torceu a boca. — Ele… arranhou o próprio corpo. A garganta estava perfurada. Rasgou-a com as próprias unhas.

Daenerys fez uma careta. Margaery também. Tentou disfarçar seus pensamentos, mas, por sorte, ninguém a olhava.

— Suicídio? — indagou a rainha.

O arquimeistre deu de ombros.

— Me parece improvável. Ele não gritou, apenas se debateu. Difícil acreditar que alguém não grite com tamanha dor.

O Rei assentiu.

— Que acha que foi?

Margaery pode ver o nervosismo tomar conta de Marwyn. Também tomou um pouco de conta dela; seu coração acelerou um pouco e ela sentiu perder o compasso de sua respiração. Suas bochechas ardiam.

— Ainda preciso fazer a autópsia, Majest…

— Você suspeita de algo — o Rei o acusou. Deu um sorriso fraco. — Posso farejar o medo em você, mago. Diga-me. É um crime grave negar algo a um rei.

O Arquimeistre empalideceu. Parecia apavorado. Lambeu os lábios rachados e trêmulos.

— Fale logo — Daenerys o ordenou, farta da demora.

Por fim, ele respondeu:

— O Estrangulador.

O sorriso fraco nos lábios machucados de Jon morreu. Ele fitou o homem que estava de pé a sua frente com seu único olho bom. Seu olho vermelho, assustador. Seu olho de sangue.

Daenerys franziu o cenho. Olhou para o rei, perdida.

— O quê…?

— O Veneno que matou o Rei Joffrey.

Margaery segurou a jarra de vinho com mais força. Inspirou profundamente e parou de respirar. Seu rosto era de pedra.

— Acha que foi Petyr? — A Rainha perguntou. — Mas como…?

— Você achou algum vestígio do veneno? — o Rei indagou ao Arquimeistre, ignorando as indagações da esposa.

Marwyn fez que sim.

— Achei um pouco de cristais roxos no mingau.

— Sabe quem foi a última pessoa na cela? — A rainha indagou.

— Os guardas acharam uma mulher de Essos morta na neve. Com o peso da neve, não sei se foi arrastada ou caminhou, perdida, até morrer. Deduzo que a mataram para esconder o segredo. — Continuou: — Os guardas não sabem se foi ela ou não, mas só pode ter sido. De todo o modo, já dei ordens para investigarem quem ela era.

Margaery pode ver o rosto de Daenerys revelando seus pensamentos, como um pergaminho para ser lido: a confusão, o choque, a descrença…

E, por fim, o medo. Havia raiva, sim. Porém, o medo era mais visível.

Margaery sabia o motivo: para a Rainha, nem mesmo os empregados de Essos eram confiáveis.

Daenerys virou-se para as suas aias.

— Saiam — ordenou. — Saiam todas.

Margaery e as duas servas de Essos anuíram — a expressão no rosto da rainha já dizia o que era necessário para as outras entenderem o que fazer.

Margaery aproveitou o momento para ir até os aposentos de Ysilla.

Quando entrou, a moça estava em pé, de frente a lareira. Virou-se após ouvir a batida secreta de Margaery, que já abria a porta.

— Então? — Ysilla indagou. Ela segura um frasco de perfume nas mãos. Colocou-o na prateleira, em cima da lareira.

— Está feito — Margaery respondeu. De certa forma, sentiu que queria convencer a si mesma ao falar aquilo; entretanto, ainda não era capaz de pronunciar as palavras que trariam à tona tal ato cruel. Não conseguia.

Ysilla ficou com o rosto anuviado.

— Os deuses… — ela suspirou. — O que fizemos?

— Nós não fizemos nada — Margaery retrucou. — Alleras fez. Petyr mandou.

Os olhos castanhos-acinzentados de Ysilla a fitaram.

— Você fez parte nisso, Margaery — ela rebateu de volta. Apontou para ela com o queixo, olhando para baixo. — Olhe sua mão.

Reflexivamente, Margaery tentou cobrir a mão cortada puxando a manga verde do vestido. Tivera de fazer esse corte por causa do drama imbecil de Alleras.

Voltou a fitar Ysilla.

— Estamos juntos nessa, Lady Royce, como você bem disse — lembrou-a. — Agora — apontou para a candeia apagada na mesa —, dê o sinal para nossos aliados.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Alleras já sabia da morte de Harrold antes de Margaery. Seu corpo frio foi trazido até os aposentos de Marwyn pelos soldados: estava frio, coberto de neve. O corpo estava sem cor, com exceção da cara roxa, tão roxa e escura, que parecia quase preta. As chagas em sua garganta e peitoral pareciam vermes escuros; o sangue coagulara, ficando preto salpicado de marrom.

Os olhos azuis do corpo estavam baços, fitando o nada. De alguma forma, o olhar distante e sem vida assustava Alleras.

Ele havia matado antes, com o arco flecha; porém, eram homens de ferro, invasores. Aquele corpo à sua frente, era o de um rei. Um rei tirano e tolo, sim, mas um rei mesmo assim.

Quis ir até Sansa. Queria saber como ela iria reagir. Talvez, no fundo, ele apenas quisesse falar que livrou-a de um antigo distrator; que ela estava livre. Queria consolá-la ao falar aquilo, pedir perdão…

Todavia, não o podia fazer. Tinha que ser distante. Aproveitou que Marwyn não estava e foi até o lado de fora da torre onde estavam. Levou o arco e o alforje de flechas consigo. Assim como a adaga escondida. Preferiu deixar as correntes de seu pescoço, entretanto. Não era tanto para se esconder à vista de todos; sentia-se imerecedor 9

Vagou pela neve. Sentia-se num sonho. Um sonho febril, não primaveril. Não sentia o frio do vento que tentava lhe morder, nem o toque enregelante dos flocos tocando em seu rosto. O capuz estava abaixado, deixando seus cabelos expostos; deixou que o vento os bagunçasse, que a neve lhes dessem um aspecto açucarado.

Nem prestava atenção no caminho. As pessoas, as poucas pessoas que saiam em meio a praga, eram vultos para ela. Não via nada além do corpo morto de Harrold. De seus olhos sem vida. Da boca escancarada, parecendo ainda lutar por ar.

Ao sentir os olhos formigando, piscou algumas vezes, de forma forte. As lágrimas desceram pelas suas bochechas, queimando-lhe a pele.

Por que sentia-se assim? Harry não era nada para ele. Era um tirano.

Enquanto tentava entender o que sentia, percebeu ter apenas um vazio dentro de si. Percebeu-se que também era incapaz de pensar em algo. Sua mente estava anuviada. Não pensava em nada de fato. Nem em Harrold, nem em Sansa, ou suas irmãs, sua prima…

Queria esquecer em que situação estava, mas como? Sarella não tinha lugar ali, e Alleras… Alleras era um assassino cheio de problemas.

Queria voltar para Dorne, mas parecia ser impossível. Sentia que nunca mais sentiria a brisa quente e o toque da areia dourada novamente.

Ah, como eu queria ter paz. Queria poder ser eu mesmo; sem mentiras, sem problemas, ter as pessoas que amo…

Mas era tarde demais para isso. Chegou muito longe para voltar atrás.

Ao sentir uma dor nas pernas, parou de dar mais passos lânguidos e desajeitados. Ao ver onde estava, olhou para cima.

Ao ver a luz brilhando de forma solitária e baça na janela de Lady Ysilla, sabia que era o momento de voltar a realidade.

X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X O X

Margaery estava sentada na poltrona em frente a lareira, deixando as chamas enervarem-lhe o corpo. Ysilla estava costurando, mas parecia nervosa demais para fazer um bom trabalho.

Dada a escuridão em que se encontravam, as duas escolheram acender as velas de um candelabro.

Quando a porta se abriu, as duas voltaram as suas cabeças em direção ao som, ansiosas.

Na soleira, a figura verde e açucarada de Alleras apareceu. Ele fechou a porta e bateu um pouco em si mesmo, tirando a camada esbranquiçada de neve dele. Após tirar a maior parte, olhou para as duas, seco. Sua boca generosa estava franzida.

Margaery levantou-se, enquanto Ysilla continuou sentada. O Esfinge caminhou até ela e parou a menos de um metro a frente dele. Não se ajoelhou, nem fez uma vénia, ou mesmo qualquer gesto de galanteio. Apenas fitou-a, duramente.

— Ouvi as notícias — Margaery disse, quebrando o silêncio. — Seu trabalho deu certo, Alleras.

O Esfinge apenas assentiu.

— Falou com Sansa? — ela indagou.

Ele apenas fez que não com um meneio da cabeça.

Ela aspirou o ar profundamente, irritada pelo silêncio desse rapagão.

— Você falou com ela? — insistiu.

Desistindo do tratamento de silêncio, Alleras chacoalhou a cabeça e disse:

— Não, não falei. Nem sei se ela já sabe da morte de seu marido.

Margaery assentiu. Era melhor assim; não podiam arriscar qualquer suspeita para cima de ninguém no grupo.

— Ótimo. — Agora apenas precisava esperar Baelish.

— Vai me contar mais de seus planos? — perguntou Alleras, impaciente.

— Paciência, meu caro Esfinge — ela respondeu. — Tudo no seu devido tempo.

O rapagão bufou, cravando os belos olhos escuros e brilhantes nela, mal-humorado.

Margaery não se abalou; tinha recebido olhares piores de gente pior. Alleras não lhe faria mal — por ora, pelo menos. Logo, ela sabia, teria que se livrar dele.

Sem demorar muito, quando Alleras pareceu que iria dizer alguma coisa, Lorde Petyr apareceu, fechando a porta atrás de si. Usava uma roupa marrom, simples e puída, como a de um servo.

— Aparentemente, nosso plano criou frutos rápidos — ele comentou, sorrindo de forma simples. Ao ver a figura de Alleras, o brilho em seu olhar sumiu, mas o sorriso falso se manteve. — Ah, vejam só quem…

Sibilando como uma serpente, Alleras retirou a adaga da manga do manto, fazendo um brilho fosco cintilar rapidamente, deu dois passos largos até Petyr, colocando o braço contra a garganta dele, pressionando-o para trás, obrigando o pequeno homem a dar passos para trás para que não caísse, até forçá-lo a ficar de costas contra a parede. O rosto de Petyr se contorceu numa careta de dor, ficou vermelho e inchado, parecendo sufocar. (Margaery e Ysilla nem tiveram tempo de reagir, tamanha a velocidade de Alleras; a Royce apenas pode soltar um rápido grito assustado.)

Alleras desceu o braço, pressionando-o contra o peito de Petyr e colocando a adaga contra sua garganta.

— Diga-me — crocitou Alleras —, por que não devo matá-lo agora? Se metade do que ouvi sobre você for verdade…

Apesar da pressão o impedindo de respirar, Petyr conseguiu forças para retrucar:

— Garanto que todas são verdades… — sua voz era falha — mas que… mesmo assim, não sabe nem metade do que realmente fiz de… maldade…

Alleras fez um som de desdém, mas ficou visivelmente abalado pela resposta de Petyr. Logo, voltou a expressão colérica. Pressionou ainda mais a lâmina contra a pele do pequeno Baelish.

— Alleras — Margaery o chamou. Nada a agradaria mais do que deixar o rapagão matar o homenzinho; porém, precisavam dele vivo.

— Fique fora disso! — Ribombou Alleras em resposta. Ela não gostava disso. Tinham que ser quietos.

— Sei de seus sentimentos, Alleras — insistiu ela. — Acredite, gosto de Petyr tanto quanto você, mas, por agora, precisamos dele.

Alleras fez um movimento rápido, pressionando ainda mais Petyr, movendo um pouco a faca na garganta dele, pronto para cortar…

Se controlando, ele inspirou e expirou, calmamente. Abaixou a cabeça, fechando os olhos. Pareceu murmurar algo numa língua que Margaery não conhecia.

Após isso, Alleras afastou-se de Petyr, que resfolegou ruidosamente, ainda vermelho e tossindo, e guardou a lâmina entre as mangas de seu manto. Fitou o olhar escuro e enfurecido em Petyr, que ainda estava a tossir.

Quando pareceu recuperar um pouco de fôlego, Lorde Baelish olhou para o rapagão que quase o matou.

— Bem — uma de suas mãos alisava a garganta —, parece que, coff, coff, nosso caro Esfinge é cheio de métodos de matar.

— Lembrai disso, Baelish — avisou Alleras.

— Ah, eu vou. Garanto que sim. — Limpou a garganta e se aprumou. — Bom, eu também ainda tenho minhas surpresas.

Alleras deu um sorriso seco.

— Ah, é? E qual seria, Lorde Mindinho?

Petyr sorriu. Um sorriso simples.

— Sei que seu pai não teve filhos, para começar.

O rosto de Alleras ficou anuviado, os olhos se arregalaram, as sobrancelhas arquearam. Sua pele marrom empalideceu, perdendo seu brilho fosco.

Margaery franziu o cenho. Olhou para Petyr:

— Que quer dizer? — exigiu saber. — Ele é filho de Oberyn Martell! Eu mesma…

— Ah, nosso companheiro veio da virilha do Víbora Vermelha, disso não tenho dúvidas. — Voltou a encarar o rapagão. — Mas Oberyn nunca teve filhos, apenas filhas. — Olhou de esguelha para Margaery. — Você mesma viu algumas em Porto Real, Milady, tenho certeza.

Isso era verdade. Margaery viu as irmãs de Alleras. Mas, se o que Petyr dizia era verdade, então…

— Quem é você, então? — indagou ela, olhando para Alleras, como se ele fosse um estranho. Ysilla Royce aproximou-se por de trás dela.

— Ande, Esfinge — falou Lorde Petyr. — Mostra quem tu és.

Alleras pareceu voltar a si e olhou para Petyr com asco no olhar.

— Eu… Eu sou Alleras. Ele é quem sou. Ele é quem sou de verdade.

— Diga quem você é — insistiu Petyr. — Ande!

Alleras fez um muxoxo.

— Sou Alleras, mas nasci no corpo de Sarella, satisfeitos?

— Isso não responde nada! — reclamou Margaery. — Quem é Sarella? É seu nome verdadeiro?

Ele sibilou, parecendo um gato irritado.

— É o nome que me deram!

— Chega de enigmas, Esfinge — ralhou ela. — Fala logo.

Alleras suspirou, parecendo ter suas forças esgotadas, abaixou a cabeça. Levou uma mão até seu bolso.

Ao ver aquele simples gesto, Margaery deu um passo para trás, empurrando Ysilla consigo, para que ela também não fosse pega por alguma lâmina. Petyr ficou nervoso, principalmente após Alleras começar a retirar a mão do bolso, mas não tinha para onde sair — estava com as costas contra a parede imensa.

Por sorte, Alleras (ou Sarella, Margaery já não tinha certeza de nada) apenas revelou uma joia verde na mão.

Antes que Margaery ou mais alguém pudesse indagar o que era esse objeto, o Esfinge murmurou algo em outra língua e seu rosto mudou.

O queixo, os olhos, o cabelo, a altura… tudo isso pareceu se manter. Entretanto, era visível ver os traços mais femininos agora, e mesmo os traços mais “masculinos” não escondiam seu rosto.

Era uma mulher.

Os olhos de Margaery se abriram mais, cravados na imagem de uma mulher alta e bonita, usando roupas de homem.

— Como…? — Nem conseguiu falar mais nada.

Então lembrou-se da magia de Melisandre; a bruxaria daquela sacerdotisa a fez parecer com Jeyne Poole.

Mas teria Alleras usado a mesma mágica? Ou algum truque parecido?

— Sarella é o nome que meus pais me deram — explicou, agora tendo a voz de uma mulher. — Mas não é quem eu sou. Não sou uma mulher, sou um homem. Sou Alleras.

— Blasfêmia! — Crocitou Ysilla, afastando-se um passo para trás. — Feiticeira!

A mulher que se autodenominava Arellas a olhou com indiferença.

— Não importa o que pensa de mim. — Uma luz surgiu da gema verde e o rosto de Alleras voltou. — Sou Alleras.

Ysilla o olhou com seus olhos multicoloridos, de cenho franzido, como se Alleras tivesse feito algo reprovável.

Petyr olhava para o rapagão com estranheza, mexendo um pouco as íris pálidas de seus olhos aqui e ali, esmiuçando cada detalhe da figura a sua frente. Margaery daria dois dragões de ouro para saber o que ele pensava; o que passava por nessa cabeça cruel e fria, que havia conseguido tripudiar a todos que conhecia.

— Se vão me revelar — falou Alleras, após guardar a gema que mudava sua forma —, façam isso logo.

Nem Margaery nem Petyr fariam tal coisa — ainda mais este último, pois ele estava com a corda no pescoço. Precisavam de Alleras. Além do mais, ele facilmente mataria todos ali antes que ousassem chamar alguém.

— Não seja tolo — Margaery disse, achando mais seguro tratá-lo pelo gênero que ele preferisse —, sabe que não faremos isso.

— Por ora — retrucou ele.

— De todo o modo — ela o ignorou —, temos de continuar nossa aliança. Harry morreu, mas este é apenas o começo. — Olhou para Petyr, ainda no canto da parede. — Temos de prosseguir; temos que acabar com a união de Jon e Daenerys.

Petyr deu esgar de sorriso. Ele sabia do que ela realmente falava: a trama para atacar Arianne tinha que entrar em andamento.

Alleras não podia saber de nada, pois ele poderia matar todos eles.

— O que devo fazer? — indagou Alleras, carrancudo, depois deu um sorriso amarelo. — Devo matar mais alguém.

Essa era a pergunta mais importante. Margaery e Petyr trocaram olhares, o sorriso dele ficou mais largo, seus olhos brilharam, e falou:

— Seu mestre, Marwyn.

Se Petyr esperava obter algum divertimento ao falar aquilo, ficou decepcionado.

— Que seja — foi tudo que o Esfinge respondeu.

Margaery o olhou, desconfiada.

— Não acha que vamos acreditar assim tão fácil que…

— Marwyn é um louco, não um mago, muito menos um arquimeistre — Alleras retrucou. — Ele apoia Daenerys por poder, eu a apoiei porque vi que ela era nossa salvação. — Torceu a boca. — Mas, agora, creio que ele estava certo ao dizer que não devemos nos levar por profecias.

— E como pretende dar um fim nele? — indagou Margaery. — Marwyn é um arquimeistre. Ele conhece…

— Sei o que aquele metido a mago conhece e desconhece — Alleras insistiu, irritado. — Ele não suspeita de mim; tem mais motivos para suspeitar de Jon ou de suas irmãs. — Concluiu: — E, além do mais, a praga tem pairado, lembram? Nem Marwyn mais facilmente vai achar que está infectado.

— Acha que ele poderia acusar o Rei e suas irmãs? — perguntou Petyr, levantando uma sobrancelha.

O rapagão respondeu com um dar de ombros.

— Talvez? Que diferença faz; isto apenas causará mais discórdia entre a Rainha e suas cunhadas.

Fazendo-se notar, Ysilla comentou:

— Por que suspeitariam da princesa Arya? Entendo vir de Sansa, mas a Arya…

— Arya é uma puta! — ralhou Margaery, no auge da cólera. — Aquela imbecil me destratou, destratou os amantes… — Balançou a cabeça. — Ela tem seus truques, acredite. É perigosa. — Ao falar tudo isso, pensou um pouco, e falou: — Talvez… Talvez também devêssemos cuidar dela.

Assentindo, Alleras ecoou suas palavras:

— A princesa é perigosa. Até Marwyn tem medo dela, e quase nada o assusta, acreditem. Mesmo Lady Melisandre pareceu desconfiada dela, pelo que vi. — Continuou: — E ainda tem os poderes dela; a princesa tem uma gama assustadora de poderes e truques. Vejam só o que ela fez ao Olho de Corvo.

Mindinho não pareceu impressionado.

— Arya não é o problema. Pelo menos não por agora. — Olhou para Alleras. — Você vai matar Marwyn, tenho certeza, mas não é apenas isso que você fará pela nossa aliança.

Alleras grunhiu, franzindo o cenho.

— Que mais quer?

— Ora, minha amada filha lhe confiou como um dos contadores do ouro, não?

Ao entender onde Lorde Petyr queria chegar, a raiva de Alleras sumiu (ele havia cerrado os punhos quando Petyr chamou Sansa de filha), dando espaço para a surpresa, arqueando as sobrancelhas, depois as juntando, apertou os olhos, olhando para Petyr de modo cerrado.

Também seguindo o mesmo raciocínio de Lorde Baelish, Margaery falou:

— Você tem contato com o ouro de Sansa — pontificou. — Com Marwyn fora de campo, você estará mais próximo ainda do tesouro.

— E daí? — ele indagou, tentando parecer indiferente, mas Margaery sabia que ele apenas queria negar todo o assunto.

— Você revelou ter seus segredos — rebateu ela, irritada por toda essa enrolação que o Esfinge estava fazendo. — De certo, pode adulterar uma moeda de ouro também.

— Os Bravosi logo perce…

— Sim, eu sei! É isso que queremos! — Crocitou, irritada. — Mas faça durar. Faça-os acreditar, faça Sansa acreditar… por um tempo, é claro. Faça-os ver e morder uma moeda falsa, faça-os acreditar que o ouro é real.

— Não posso fazer ouro surgir do nada! — vociferou ele, parecendo ficar vermelho de ódio. — Seria tolice!

— Então coloque um pouco entre o ouro real — sugeriu Petyr. — Coloque moedas falsas com as verdadeiras. E, caso precise, esconda as verdadeiras em algum local seguro. O septo abandonado seria minha sugestão.

Margaery marcou a menção de Petyr. O septo abandonado e obscuro de Harrenhal… Sim. Podia ser lá que ele estava escondido.

Alleras pareceu indignado ao ouvir todas aquelas palavras. Balançou a cabeça.

— Daenerys e Sansa confiaram parte desta tarefa a mim. Minha cabeça…

— Estará a mostra se for pego, sim — concluiu Petyr. — Mas a imagem da facção Stark-Targaryen estará perdida. O Banco de Ferro fechará de vez com Aegon… que, por acaso, está casado com a sua prima, não é? — Deu um risinho.

Alleras grunhiu. Margaery sabia que Baelish estava certo.

— Para o inferno, Baelish! Que os outros o levem! — Virou-se para Margaery. — Farei o que pedem; todavia, saibam que faço apenas pelo bem de minha família.

Margaery assentiu.

— É pelo bem dos reinos, Alleras — disse ela. — Daenerys traz apenas guerra.

— E você traz morte para tentar a paz? — Virou o rosto para Petyr e apontou para ele com um gesto rápido do queixo. — Onde Petyr traz paz? — Olhou para ela novamente. — Onde começa e onde termina sua mágoa, Milady? O que é justiça e o que é vingança?

Margaery não respondeu. Ninguém mais falou nada. Ela apenas fitou o olhar escuro e oblíquo de Alleras. Apenas o fogo crepitando fazia algum som no ambiente.

Antes que alguém pudesse falar algo, Alleras apenas girou os calcanhares, andou até a porta dos aposentos, abriu a porta, fechando-a novamente após atravessar a soleira.

Quando ele saiu, o silêncio permaneceu por um tempo, tão denso, que parecia até tangível. Denso. Quase sufocador.

Não estava agindo apenas por ódio, disse a si mesma. Daenerys era má. Não existia sombra e luz nela, apenas sombras. Era por isso que Margaery estava agindo contra ela, porque Daenerys era uma ameaça aos sete reinos.

Ysilla foi quem quebrou o silêncio:

— Margaery, como sabe que pode confiar nele? Ou nela… — Balançou a cabeça. — Tanto faz, como pode ter certeza?

Margaery se virou para falar, mas foi Petyr quem respondeu:

— Alleras luta pela sua família — pontificou. — Fará tudo ao seu alcance para salvá-la.

— Não podemos confiar num dornês — Ysilla retrucou, batendo o pé. — Não basta ele ser bastardo do Víbora Vermelha, nem sequer contou a verdade sobre quem ele era!

— Acalme-se, Ysilla — pediu Margaery. — Não acredito em Alleras. Sei que logo ele se voltará contra nós. Porém, precisamos dele. Por enquanto, é claro.

— Quando Alleras tiver cumprido seu papel — Petyr disse —, ele não será mais necessário.

Ao ouvir aquilo, Margaery sentiu seu estômago apertar, como se suas tripas se entrelaçassem. Quantas mortes ainda teriam até que aquele pesadelo acabasse? Quanto sangue Westerosi seria derramado até que pudesse descansar? Será que nunca teria fim?

Ignorou a dor na barriga e a secura na garganta, tentando se manter de cabeça erguida.

— Se a trama do Sul se seguir como queremos, Alleras pode ser problema. Talvez… — Lambeu os lábios rachados. — Talvez tenhamos que terminar o papel dele mais cedo.

Petyr assentiu.

— Não se preocupe. Alleras logo estará fora do jogo, acredite. Assim como sua irritante família.

— E, caso consiga se livrar mesmo deles — Lady Ysilla falou —, o que se seguirá?

Peyr sorriu, cofiando a barba pontuda.

— Ora, ajudaremos as coisas a se acelerarem. Sabe, eu preferia deixar a guerra se alastrar, mas, caso nosso plano dê certo, talvez a guerra contra o Sul seja terminada de forma mais rápida, com apenas uma parcela remanescente das forças de Aegon restarão. Deixemos que Daenerys cuide delas, que seja odiada pelos reinos; a facção dela estará sendo odiada de qualquer forma. — Concluiu: — Assim, voltarei a tramar na velha corte vermelha da Capital, onde poderei voltar mais a ativa, e onde poderei atrapalhar mais os nossos queridos Stark.

Margaery ergueu uma sobrancelha.

— E depois? O que você ganha nisso tudo?

Mindinho deu um dar de ombros.

— Sansa voltará para o Norte, onde talvez deixe-me em paz. Seu irmão, porém, ainda estará sob minha mira.

Isso não respondia a nada, a menos… Teria Petyr entrado numa missão destrutiva e suicida? Sabia que ele nunca sairia daquela situação vivo; teria deixado o ódio falar mais alto ou ele apenas teria mais algum plano sórdido?

— E caso Aegon não morra? — indagou ela.

Outro dar de ombros foi dado como resposta.

— Arianne e suas primas estarão mortas, tenho certeza. Aegon estará livre para casar-se.

Margaery estreitou os olhos. Teria Petyr pensado em casar Sansa com Aegon? — Bom, ele ainda a via como sua filha, e já havia criado a aliança com um reino ao casá-la com Harry, então…

Porém, Petyr esquecia que Margaery também estava solteira, e que sua casa era muito mais importante do que a casa Stark — embora Aegon já tivesse apoio da Campina sem a união deles; todavia, talvez funcionasse mais do que um matrimônio com Sansa, visto que o Norte não gostava da ideia de voltar a se ajoelhar ao trono.

— Só espero — disse Margaery — que não demore com suas tramoias ao sul. Temos de ser rápidos, antes que a guerra volte.

Ysilla bufou:

— Jon e Daenerys não se movem. São capazes de perderem mais tempo aqui nesse castelo horrível, enquanto Aegon se banqueteia no corte. Estamos quase ao lado da Corte inimiga, e simplesmente não agimos!

O que a moça falava era verdade: estavam perdendo tempo. Tal qual Petyr havia falado, a guerra estava parada. Daenerys e Jon, mesmo que fracos, facilmente poderiam esmagar o exército inimigo de Aegon — entretanto, estavam parados, deixando reinos abandonados, a comida se esgotando, tendo de cuidar das brigas pelos povos homogêneos, deixando soldados morrerem pela praga…

Enquanto isso, o inimigo ao sul se preparava para eles, mesmo que a próxima batalha nunca acontecesse.

— Vamos ter de aproveitar este tempo — disse Margaery.

Petyr formou um arco com uma das sobrancelhas.

— Que tem em mente? — indagou-lhe.

— Você disse, há algumas noites atrás, que andei fazendo amigos. Bem, esses amigos andam desgostosos com o novo governo.

— Desgostosos o bastante para virar-se contra o próprio Rei? Tem certeza?

— Posso ver até onde alguns podem ir.

Petyr analisou o que ela havia dito, assentindo lentamente, cofiando a barba.

— O ódio contra Daenerys é realmente grande a esse ponto, admito. Minha própria filha a odeia com todas as forças, ajudando, mesmo sem talvez nem ver, o ódio contra a Rainha.

— É isso que Daenerys faz — Margaery apontou. — Cria ódio, destroi nossas vidas. Ela vai criar mais e mais rivais sozinha.

Petyr sorriu.

— Meu plano principal era que a guerra no Sul se iniciasse o quanto antes, assim os monarcas estariam distraídos com o caos, mesmo que por apenas um certo tempo. E eu poderia usar isso como tempo para fazer mais um pouco de caos. — Deu de ombros e olhou para Ysilla. — Mas, como bem disse Lady Royce, nossos monarcas perdem seu tempo aqui neste castelo, deixando a neve se acumular. Temos de agir agora, ou logo seremos descobertos.

— O que podemos fazer? — indagou Ysilla, olhando para ambos, em busca de uma resposta.

Margaery se prontificou em responder.

— Lorde Petyr está isolado, mas eu e você ainda estamos livres, Ysilla.

A moça abaixou os olhos cinzentos.

— Que podemos fazer? Não temos nada, somos meras mulheres — lamentou-se ela.

— Mas ainda temos nossas armas. — Aproximou-se de Ysilla e colocou as mãos nos ombros dela, de forma acalentadora. — Os Lordes vão adorar apoiar uma jovem que foi trocada por uma bastarda.

Ysilla ergueu os olhos ao ouvir aquilo, como se tivesse acendido uma chama de esperança nela. Fitou Margaery em silêncio, olhando-a com olhos que ondulavam entre o castanho e o cinza. Era possível ver uma inocência e desespero neles.

— Vamos falar com Lorde Waynwood — Margaery falou. — Ele já deve estar a par da morte do primo. Talvez ele suspeite de Sansa, talvez ele mesmo vire suspeito… Não importa. Ele irá querer saber quem herdará o Vale.

— E o que falaremos? — perguntou Ysilla, numa voz falha.

Margaery sorriu.

— O que ele quiser ouvir.

— Talvez Lady Margaery possa dar mais do que só palavras — sugeriu Petyr, fazendo ambas se virarem para não o encararem.

Margaery não gostou de como aquilo soou.

— O que quer dizer?

— Que você ainda é donzela. E solteira.

Margaery enrubesceu ao ser relembrada de sua atual condição. Não era motivo para vergonha, mas ainda era estranho ser uma donzela por tanto tempo.

— Rolland já tem terras — lembrou-lhe Margaery. — E não existe certeza de que meu irmão…

— Não existiam certeza absoluta de que Robb morreria, e você e sua vó não tardaram em tentar casar Sansa com Willas, mesmo assim.

— O quê!? — Ysilla ficou chocada.

Margaery a ignorou, nem sequer a olhou. Sentia suas bochechas arderem ainda mais.

— Tem um bom ponto — ela concordou com Mindinho, a contragosto. — Mas deixe isso comigo, Lorde Baelish. Entendeu?

Ele apenas a fitou, com um sorriso de troça nos lábios, divertido com a irritação que causou nela.

— Que seja, então — Petyr concordou e se adiantou para sair da li.

— E a trama no Sul? — indagou ela.

Petyr, ainda de costas, parou, virou uma parte do rosto, mostrando metade de sua fisionomia, olhou-a de esguelha, sorrindo.

— Relaxe, logo terá seu precioso anel de volta, tenho certeza.

Margaery juntou as mãos, alisando a região do dedo onde ficaria o anel.

— Ela terá como mandar notícias? — Margaery. — Não sei nada sobre a minha mãe, nem da minha avó…

Petyr abanou a cabeça.

— Não. Nem nós falaremos muito. Apenas poderemos mandar o que Elinor e seus aliados devem fazer.

Margaery assentiu, torcendo a boca.

— E que aliados são esses? Posso saber?

— Não.

— Humpf! É bom não tentar me fazer de boba novamente, Lorde Mindinho! Já não sou uma mulher para se fazer troça.

Os olhos de Petyr brilharam de divertimento.

— Ah, isso eu sei. Soube de como aprontou no Vale.

Margaery ignorou a irritação queimando as suas bochechas, assim como ignorou a troça de Petyr.

— E não sabe me informar nada sobre nada que está acontecendo na corte? — interrogou-o, duvidando de suas capacidades de obter informação, na tentativa de que ele lhe falasse algo.

Infelizmente, Petyr não caiu na armadilha.

— Talvez, mas você não vai deixar de ajudar mesmo assim. Chegou muito longe.

Margaery fez um muxoxo. Ele estava certo.

— Que seja — respondeu ela, irritada. — Quando vamos nos encontrar? Nem preciso dizer que não pode ser mais aqui.

— É óbvio. E não se preocupe, saberá quando será a próxima vez.

Margaery fez outro estalo com a língua. Assentiu, deixando-o partir.

— E agora? — indagou Ysilla, quando ficaram a sós.

— Agora — Margaery virou-se para ela —, vamos até Lorde Rolland. Ele deve ter outros lordes do Vale junto de si. Devemos aproveitar a situação.

Ysilla assentiu. Girou os calcanhares, foi até a lareira e pegou o frasco de perfume.

— Devemos ir bem bonitas — falou a moça, e Margaery concordou com um aceno. — Ninguém vai realmente sentir falta de Harry, e, mesmo que tenhamos que fingir luto, podemos falar que soubemos antes de conseguirmos nos arrumar.

— Muito bem — Margaery concordou. A moça tinha algum talento, tinha de admitir.

— Posso te emprestar algum vestido, se quiser — disse Ysilla, voltando a se aproximar dela. Ofereceu o frasco de perfume para Margaery. — Quer? A princesa Arya que andou distribuindo para todas as Ladies.

Ao ficar a par de tal informação, Margaery franziu o cenho. Sentiu o cheiro doce pairar no ambiente, advindo do recipiente.

— A princesa Arya?

Ysilla fez que sim.

— Ela mesma o fez — explicou. — Fez com pétalas de rosas do inverno, usando os mesmos métodos que algumas Cidades Livres de Essos usam para fazer seus perfumes.

Margaery surpreendeu-se que uma selvagem como Arya fosse capaz de fazer algo assim. Era muito… delicado para ela.

Olhou para o frasco, agora aberto, observando o líquido azul feito de extrato de rosas de inverno — as únicas flores que cresciam nesse inferno enregelante em que se encontravam, mesmo que até elas começassem a sucumbir.

Esses tipos de perfumes são mais caros que ouro, lembrou-se.

Voltou a olhar a moça Royce.

— Arya fez isso para todas as Ladies?

— Para que elas pudessem repor os perfumes perdidos e vendidos. E, é claro, elas pagaram para isso. — Apontou para o frasco. — Meu pai comprou este para mim.

Margaery assentiu lentamente, voltando a olhar para o perfume. O cheiro era doce e potente, como Margaery bem se lembrava, porém ainda mais forte.

Desconfiada, deixou-o de lado. Devolveu para Ysilla.

— Melhor não usar, acredite. Não confie em nada que vier de Arya.

Ysilla assentiu, mas sua expressão sorridente mostrava que não levou o aviso a sério.

— Não sei como uma mera fragrância pode ser perigosa, Milady.

Margaery tinha uma expressão seca e séria.

— Acredite — insistiu —, nada de bom pode vir de Arya Stark.