Marcas de Uma Vida
3 Dor
Notas iniciais
Aos poucos Ruki foi acordando com a visão ainda embaçada, acordou estranhando o que aconteceu. Encarou o teto branco e constatou que estava em um hospital.
Aoi estava em um sofá no mesmo quarto que o vocalista, estava com a cabeça abaixada apoiada nas mãos. Começou a entender o que estava acontecendo,
_A... Aoi. — A voz saiu rouca, seus olhos estavam avermelhados.
O moreno ergueu a cabeça assustado e se levantou depressa.
_Cadê...?-Ruki perguntou receoso.
_Ele... -parou incerto. Mesmo com poucas palavras Aoi sabia que o vocalista perguntava sobre Reita.
Ruki QUERIA escutar que Reita se feriu e não corria risco de morte. Que entraria pela porta, ferido, pedindo desculpas pelo susto. Não seria o que iria escutar.
_Ruki... Ele não resistiu aos ferimentos e acabou... Morrendo no local do acidente.
_NÃO! É MENTIRA! Para de mentir-Aumentou o tom da voz- Eu quero vê-lo agora!-Chorou.
_Não torne... As coisas mais difíceis para você...
_Eu vou sair daqui e vou achá-lo!- Ameaçou a se levantar, mesmo que estivesse tonto.
Aoi o segurou e apertou o botão que chama a enfermeira. Essa entrou na sala depressa com uma ajudante e aplicou um calmante no menor.
_Shiroyama-san, vou pedir que se retire.
Ele afirmou cansado, foi ver como Uruha estava. O loiro tinha acordado algumas horas depois, não falava com ninguém, nem mesmo com Aoi. Estava quebrado emocionalmente.
_Uruha...
O loiro olhou Aoi ainda meio perdido nesse caos, estendeu a mão mostrando a caixinha preta. Uruha deixou uma lágrima escapar, deixando o coração do moreno acelerado. Aoi pegou a caixinha e a abriu, vendo as alianças de ouro com diamantes negros, pegou uma delas lendo as escritas: "Reita & Ruki".
_Iria pedi-lo... Em casamento antes do acidente. Aoi piscou algumas vezes para evitar as lágrimas.
(...)
Ruki recebeu alta na manhã seguinte ao acidente e voltaria para casa junto aos amigos, precisava do apoio deles ou não saberia como agüentar. Na saída do hospital, foram surpreendidos e cercados por fotógrafos, os seguranças ajudaram na escolta, mas não impediram que os bombardeassem com perguntas.
“Uruha-san, Uruha-san como foi o acidente”?
"Aoi você tentou prestar socorros à vítima?"
"kai onde estava no dia e hora do acidente?"
"Foi confirmado o fim do The GazettE?"
"Ruki-san vocês eram amigos íntimos?"
Mas ninguém respondeu as perguntas, entraram direto em um carro preto de vidros escuros, sendo levados para casa.
_Eu vou ficar na casa do Ruki. — Pela primeira vez depois de algum tempo Uruha falou.
Os dois desceram na frente do prédio, Ruki respirou pesado sabendo que aquilo o traria dolorosas lembranças. Foram andando sem muita pressa para dentro do prédio. Já na porta do apartamento, Ruki tirou a chave do bolso e a encaixou na fechadura. Perdeu-se durante alguns instantes vendo o chaveiro que havia ganhado duas letras "R" entrelaçadas.
Abriu a porta deixando-a aberta para que Uruha pudesse entrar, parou no meio da sala olhando tudo ao redor, estava tudo do jeito que Reita tinha deixado, Ruki podia sentir o cheiro do namorado.
Olhou para o sofá se lembrando dos momentos em que estavam juntos se beijando ou deitados assistindo TV. Observou os enfeites sobre a mesinha, viu um golfinho de cristal que ganhou quando fizeram os dois primeiros meses de namoro. Ruki jogou tudo no chão, quebrando a maioria dos enfeites que eram de vidro e cristal, virou a mesa e a quebrou. Tacou algumas coisas na parede enquanto chorava. Por fim deixou-se sentar no chão, exausto.
_Você não devia ter me deixado... Ma... Maldito! Disse que... Não... -Parou sem conseguir terminar a frase.
Uruha sentou ao lado do menor e o abraçou com força, o loiro tentava não chorar com a cena.
_Ele... Disse que voltaria... Disse que era para eu esperar... Ele mentiu para mim!-Ruki estava desnorteado.
Uruha colocou Ruki no sofá para tentar acalmá-lo, o menor conseguiu dormir enquanto Uruha limpava a bagunça.
(...)
_Aoi, leia isso. -Kai estendeu um jornal enrolado.
O moreno pegou o jornal e começou a ler.
“Morre na noite de Terça-Feira, aos 29 anos, o baixista Suzuki Akira, também conhecido como Reita, da banda The GazettE, vítima de um atropelamento.
Não foram dados muitos detalhes sobre o ocorrido e, de acordo com nossas fontes, o autor do crime ainda não foi identificado. Câmeras de segurança de algumas das lojas próximas ao local do crime poderão ajudar nas investigações.
Caso seja reconhecido, o motorista poderá pegar de dois a cinco anos de cadeia inafiançável. O suspeito fugiu sem prestar socorro à vítima por e será acusado de homicídio culposo (quando não há intenção de matar)
Os outros membros da banda ainda não deram nenhuma entrevista a respeito do acidente, também não foi divulgado se a banda substituirá o baixista ou a carreira de oito anos do The GazettE será encerrada por conta da tragédia.
Segundo o empresário da banda, estão sem previsão de quando estarão aptos a poderem depor. Os depoimentos serão essenciais para o reconhecimento do veículo usado no dia do crime, o dono do mesmo e o desfecho da investigação. Mas, corre o boato que três dos quatro membros já fizeram os depoimentos.
Foi divulgado que o velório será nesse sábado às 16 horas, porém parentes e amigos foram avisados para não divulgar o nome do local para evitar tumultos e prováveis confusões de fãs revoltados.”
Aoi arremessou o jornal no chão e se irritou.
_Como substituí-lo? Reita não é um objeto que se quebrar podemos simplesmente trocar. Merda se acham no direito de invadir toda uma vida de alguém.
_Calma, estão apenas fazendo o que são pagos para fazer. Vamos esfriar a cabeça. Sabe que não podemos parar no tempo... Temos que tentar seguir... Mesmo sendo difícil, temos que tentar.
_Sei disso e você deveria saber que tentar apagar Reita do The GazettE ou qualquer outra coisa está fora de questão. Ele ajudou a construir a banda e todo o sucesso que temos, prefiro dar como encerrada a banda a ter que continuar sem ele.
_Eu compreendo, e não quero apagá-lo de nossas vidas e mesmo que quisesse não poderia. — Kai respirou, cansado. Podemos resolver isso mais tarde, agora temos outras prioridades.
O moreno se jogou no sofá exausto, Kai sentou-se ao seu lado.
_Vai ser difícil, to sabendo. Ele... Era muito especial. -Sorriu triste- Às vezes tenho a impressão que Reita vai me ligar pedindo desculpas pelo atraso no ensaio e que estaria chegando. Ou que ele vai entrar pela porta... Invadindo meu apartamento, como sempre fazia.
_Nem me fale. Lembra de como brincávamos? Lembro até hoje daquele Live que fiz com um pano vermelho, ele ficou falando que eu estava fazendo cosplay dele, e ficava irritado. -Aoi sorriu e lágrimas se formaram.
_Se eu estivesse lá com vocês ao invés de ir embora, será que eu poderia ter evitado isso tudo?-Kai ficou serio.
_Provavelmente não, nem mesmo a gente pode.
_Sei lá! Ele me pediu para ficar um pouco mais, disse que queria os amigos por perto... E eu o que fiz? Fui egoísta querendo vir para casa encontrar o Miyavi... -Kai não pode segurar o choro.
_Não tinha como saber. Não mesmo.
Aoi suspirou vendo Kai secar algumas lágrimas que insistiam em escorrer pelo rosto. Lembrou-se que Uruha entregou uma coisa no hospital.
_Kai... — O baterista o olhou com o rosto vermelho- Uruha achou isso nas mãos do Reita... Quando ele ainda estava no chão.
Kai pegou a caixinha preta e a abriu, arregalou os olhos e não conseguiu mais prender a angústia, tirou uma das alianças e a leu. Não teve uma reação exata, deixou-se encostar no ombro do moreno, estava ficando em prantos, seu choro pesava. Aoi o abraçou forte tentando reprimir a vontade de chorar, não conseguiu. Aos poucos kai se acalmou, em seu rosto ainda tinha marcas das lágrimas.
_Ruki sabe que... Reita ia pedi-lo em casamento? -Guardou a aliança na caixinha.
_Não.
_Precisam falar para ele.
_É uma coisa difícil... Uruha ainda não fala muita coisa, acho que foi o choque. E eu? Não tenho a menor ideia do que fazer.
_Deixa que eu falo. Vou esperar a primeira oportunidade.
Aoi afirmou com a cabeça, sabia que mesmo para Kai, que tentava resolver alguns problemas mais pesados seria uma coisa difícil a fazer.
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"Embora a dor te filtra o coração cansado, faze silêncio.
Ainda que tua alma chore amargamente, silencia."
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