Como você vive

Eles dizem que mesmo se eu viver, não é viver.
Porque o céu, sem você, parece uma prisão sem janelas.

Eles dizem que mesmo que eu ria, não é rir.
Eles dizem que eu pareço decaído e parece que estou chorando.

Mesmo se eu te amasse, eu não poderia dizer.
Eu não podia nem mostrar qualquer sinal de emoção.
Eu senti sua falta mesmo quando dormi.

Como você vive, como você vive, como você vive
Quando você está tendo dificuldade em me culpar por
Sua tristeza até que você se sinta aliviado.
Como você chora, como você chora, como você chora e você está desgastado.
Se é realmente difícil para você, apenas uma vez poderia
Se lembrar de mim? Como você vive?

Eles dizem que mesmo que eu ria, não é rir.
Eles dizem que eu pareço decaído e parece que estou chorando.

Mesmo se eu te amasse, eu não poderia dizer.
Eu não podia nem mostrar qualquer sinal de emoção.
Eu senti sua falta mesmo quando dormi.

Contra a nossa vontade, vamos rir. Contra a nossa vontade, viveremos.
Porque mesmo se você estiver ao meu lado, mesmo se você estiver de lado, você chora.

Como você vive, como você vive, como você vive
quando você...

(Saldaga – SG Wannabe)

O sol brilhava no céu azul, os pássaros cantavam e, após a chuva do dia anterior, o mundo parecia claro, radioso, renovado e intacto. Sentado, contava as horas que passavam lentamente. O palácio parecia tão monótono sem a presença de meu pai, o rei Christopher III.

Era quase insuportável fazer minhas tarefas do dia a dia sem pensar no paradeiro do rei que saíra para guerrilhar na Guerra das Reis. Isso me deixava completamente aflito, por não saber seu paradeiro e suas reais situações de saúde. Meu pai sempre fora um homem teimoso, adorava o calor da guerra e adorava mais ainda estar em campo de batalha. Os ministros o chamavam de louco secretamente, mas ele não se importava, coragem sempre foi a primeira palavra do seu vocabulário.

O modismo do momento era algo muito apreciado em famílias reais, sendo algo quase obrigatório um soberano saber se vestir adequadamente. Então eu trajava calça afinada nos tornozelos, de cor clara, quase branca, colete em um tom mais escuro próxima ao azul-marinho e um casaco preto acolchoado nos ombros e de botões até a altura da cintura. Botas de couro macio completavam as minhas vestimentas.

Sempre fui impaciente. Penso eu que, de todos, esse era o meu maior defeito. Esperar era algo muito desagradável para mim e quase sempre a ansiedade era dominante na minha forma de agir. Sobressaltei-me ao som de pequenos cascalhos sendo desferidos contra o vidro da janela do salão principal da biblioteca. Levantei-me e abri a janela dando de cara com Basilton, que se encontrava sentado no parapeito. Violentamente, o puxei para dentro com medo de sermos vistos por alguém.

— Sinto muito pela demora, tive complicações em minha casa — disse ele, sorrindo e me abraçando.

— O que houve?

— O medo que tem minha mãe da Guerra dos Reis fez com que trancasse todo o castelo, proibindo minha saída. Tive que fugir... — Baz parecia estar apreensivo com a situação, por isso não fiz mais perguntas.

— Compreendo.

— Meu pai disse, algum tempo atrás, que a literatura era para os tolos, e que príncipes como eu deveriam se focar apenas em assuntos do Estado.

Aquilo realmente era um absurdo, como um rei poderia dizer isso? A literatura era quase mágica com relação a conhecimentos de todas as áreas. Estupefato, respondi-lhe:

— A literatura é uma das mais artísticas formas de expressão humanas, juntamente com a música, com a pintura, a escultura e o teatro. Sem a literatura, o ser humano seria tão burro quanto uma pedra. Se não fosse por ela...

Baz não me deixou terminar, agarrou-me pela cintura, pressionando nossos corpos um ao outro, fazendo nossas respirações se fundirem. Ele sabia que eu adorava quando fazia isso, era quase extasiante ficar tão próximo de si.

— Proclamo meu amor por ti através dela. — Ele sorriu, e sorriu da forma mais singela e adorável que alguém no mundo poderia sorrir.

— Pare de dizer asneiras. — Dei um leve tapa em seu peito, tentado afrouxar o seu aperto para assim esconder a vermelhidão nas minhas bochechas.

— Um dia o desposarei, escreva isso Príncipe Even — dizendo tal coisa, me beijou. Eu nunca soube dizer exatamente como era beijar um rapaz. Eu já havia paquerado algumas garotas da corte, mas nada tão sério assim. Beijar Basilton era como um toque que começava em um lugar do meu corpo se espalhando pelo resto, como as vibrações de uma gota d'água em uma poça. Era algo quase eletrizante e ao mesmo tempo, parecia ser infinito. — Acabei de ter uma ideia maravilhosa para nós dois, querido — falou, enlaçando seus dedos negros e delicados aos meus.

— Mas sabe que posso recusar a qualquer momento não?

— Largue de ser insolente, tenho certeza de que tu irás gostar.

Cerrei os olhos, encarando-o enquanto o mesmo, após ver meu olhar sobre si, deu uma gargalhada apoiando a cabeça em meu peito, fazendo-me sentir o cheiro adocicado que vinha de suas madeixas acastanhadas. —

— Pensando bem, eu preciso mesmo distrair-me dessa aristocracia e sua disputa pelo controle interino do conselho real. — Levantei-me, fazendo-o se sentar. — Para onde pretende me levar?

— Estufa da Ala Oeste! Sei que lá há rosas negras, suas preferidas.

— Como sabe sobre a estufa de minha mãe?

— Sabendo, querido. — Beijou-me a têmpora, levantando-se por completo puxando-me para junto de si.

Após atravessarmos alguns corredores e lances de escada, chegamos à estufa que estava forrada por diversas flores, graças ao verão.

— Ali! — Baz apontou para o canto esquerdo, de onde dava para ver as belas rosas negras. — Os minutos foram passando, enquanto estávamos parados no meio da estufa, interligados pelos lábios um do outro em um beijo lento.

— Meu senhor! — Ouvi o estrondo da porta de vidro se quebrar contra a parede, fazendo-me por instinto empurrar Basilton para minhas costas, na intenção de protegê-lo. — Há notícias de vosso pai! Onde o senhor se encontra?

Avancei alguns passos, me afastando da prateleira com gardênias onde estava encostado. Seu olhar caiu sobre minha vestimenta que se encontrava aberta e minhas respiração que se encontrava descompassada.

— Príncipe, estais bem?

— Estou ótimo. — Fiz um sinal sutil para Baz não sair de onde estava. — Agora vamos ao que interessa. Quais notícias tens sobre meu pai?

— Os Cavaleiros da frota inimiga encaminharam uma carta pelo nosso mensageiro ao senhor.

— E onde se encontra essa carta? — Andei para a saída, obrigando-os a vir junto a mim.

— Aqui está — apontou para um garoto que vinha correndo em nossa direção.

— Obrigado, valente soltado. — Alisei as madeixas do pequeno antes de o cavaleiro o dispensar.

Peguei o envelope de suas mãos e nele havia um brasão que eu nunca tinha visto em minha vida, abri-o.

" 22 de agosto de 1485.

Por infelicidade vos digo através desta carta que o Rei Christopher III, último da linhagem Angevina, foi morto com golpe fatal dado por Arthur, que se tornou assim o rei de toda Inglaterra.

O atual Rei propôs terminantemente a mão de sua filha em casamento ao herdeiro do falecido Rei, para assim selarem um tratado de paz entre as duas linhagens. Caso o tratado não seja concluído em até três dias, todos aqueles ligados diretamente a Christopher III serão sentenciados à morte. ”

Lágrimas desciam por minha face quando olhei para o homem à minha frente.

— Onde está minha mãe? — Meu tom de voz saiu elevado, não era minha intenção ofendê-los, mas minha raiva aflorava automaticamente em momentos de urgência.

— Ela se encontra em seus aposentos, está lá desde que seu pai foi para a guerra.

— Convoque-a imediatamente para uma reunião particular entre nós dois, na sala de planejamento. AGORA!

Encaminhei-me para o corredor, acabando por me lembrar de Baz.

— Leve o príncipe para meus aposentos. — Eles olharam-me confusos até Basilton parecer com as roupas e cabelos alinhados perfeitamente. Assentiram rapidamente, chamando-o para os acompanhar.

Continuei meu caminho traçando o salão principal indo para o norte, adentrei a sala e em cima da mesa podia-se ver o mapa da Grã-Bretanha cobrindo toda sua extensão, e os cavaleiros de meu pai feitos sob medida em miniaturas para o planejamento da guerra que estava a ser travada.

Sentei-me a poltrona que ficava um pouco distante da mesa, esperando por minha mãe.

A porta se abriu e dois soldados passaram por ela, minha mãe ao meio. Seus olhos estavam fundos e vermelhos e os cabelos desgrenhados. Assim que me viu correu para meus braços abraçando-me fortemente, senti suas lágrimas molharem minhas vestes.

Afastei-a olhando diretamente em seus olhos, levei-a para se sentar ao meu lado, logo em seguida entregando-lhe a carta.

Após ler, era evidente que estava prestes a ter um colapso nervoso, suas mãos tremiam muito e sua respiração estava ofegante quando deixou o papel cair e colocou as mãos sobre os olhos, enquanto as lágrimas escorriam por suas bochechas.

— O que faremos? — perguntei suavemente, puxando sua mão para poder olhá-la nos olhos.

— Você aceitará! Mande um comunicado para esse Rei Arthur dizendo que aceitamos o tratado.

Meu corpo travou enquanto meus olhos enchiam-se de lágrimas, levantei-me bruscamente procurando pela saída.

Isso não podia estar acontecendo comigo!

Corri o mais rápido que pude de volta para meus aposentos, a única coisa que precisava naquele exato momento era dos braços da pessoa que eu realmente amava.

Empurrei a porta, dando de cara com Basilton, que estava no meio do quarto com uma expressão aflita.

Assim que nossos olhares se encontraram, não consegui contar as lágrimas que vieram. Corri para seus braços, enlaçando os meus ao seu redor em um abraço forte, necessitado, enquanto ele sussurrava palavras de conforto para me calmar.

— Eu não quero que nada aconteça conosco — disse entre um soluço e outro.

— E nada irá acontecer, tenha fé nisso, amor.

Apertei-o ainda mais em meus braços.

— Por que você saiu correndo daquela maneira, Even. Saiba que você já está crescido para birras e.... — Minha mãe parou de falar assim que entrou de supetão em meu quarto e nos encarou. — O que está acontecendo aqui? Quem é esse garoto?

— Mãe – disse suavemente, tentado me controlar. — Não posso me casar com a filha do Rei. — Soltei-me dos braços de Baz, prostrando-me à sua frente.

— E por que não casaria? — Seu tom saiu em escárnio enquanto nos fuzilava com os olhos.

— Mãe, entenda, eu o amo e não poderia submeter-me a tais coisas.

Sua boca abriu-se em choque, quando saiu de onde estava, deu-me uma bordoada no lado direito do rosto.

— Como você ousa dizer tais palavras direcionadas a um homem? Isso é repugnante. Jamais admitirei isso.

— Não mandas em meu coração! – gritei assim que ela ousou levantar novamente a mão para mim. – Não posso casar-me com uma pessoa pela qual não sinto amor.

— Você está sendo egoísta! – gritou de volta. – Já pensou em todos que irão morrer se você não concordar com aquele tratado? Já me basta ter perdido seu pai, não suportaria perdê-lo, você não consegue compreender?

— Sinto muito, mãe, mas não vou abandoná-lo. Uma vida sem amor é uma vida sem sentido — decretei.

— Então que assim seja — disse pouco antes de se retirar do quarto para, minutos depois, cinco de meus cavaleiros entrarem e nos agarrarem, separando-nos, e minha mãe voltar com a carta do Rei em mão. — Mande esse insolente para as masmorras e cuidem para que meu filho não saia deste quarto de modo algum.

Contorcia-me na mãos dos dois cavalheiros que me seguravam, enquanto podia ouvir os gritos apavorantes de Basilton enquanto era arrastado para fora do quarto.

— O que irão fazer com ele? — gritei assim que me jogaram contra a cama. — Falem, desgraçados!

Bateram a porta em minha cara quando levantei-me para sair.

Não, não, isso não poderia estar acontecendo!

Ajoelhei-me ao pé da porta, chorando. Sabia que minhas lágrimas não me tirariam da situação em que me encontrava, mas era impossível evitá-las.

O quarto estava escuro quando ameacei abrir os olhos, não havia percebido que acabara por adormecer, então me lembrei de tudo que aconteceu. O desespero subiu-me às veias, precisava fazer algo e teria que ser neste momento.

Levantei-me do chão, indo depressa para frente do criado-mudo do lado esquerdo de minha cama, puxando-o totalmente para a frente e alcançando a chave mestre de todas as portas do palácio. Embaixo da cama, peguei meu cinto, onde se encontrava minha espada.

Lembrava-me quando meu pai havia me dado esta chave na intenção de que eu a guardasse como um presente, talvez sempre tivesse sabido que esse dia chegaria, parece que o destino estava conspirando a meu favor.

Fui para a ponta da sacada, segurando-me ao parapeito e colocando as pernas para fora, agarrando-me às pequenas elevações que havia na parede, rastejando para o outro aposento. Sabia que aquilo era arriscado e que poderia me levar à morte, mas eu estava lutando pelo amor. Com nada mais se podia vencer.

Assim que cheguei à outra sacada, pulei para dentro. Era o quarto privado de meu pai, recordava-me dele dizendo para seu conselheiro sobre uma passagem secreta em uma das paredes. Rapidamente encostei-me a uma delas, apalpando-a para achar alguma porta.

Encontrei um pequeno prego com sua ponta entortada para baixo. Meu pai adorava charadas. Olhei para baixo, arrastando o tapete para trás e finalmente encontrando a porta. Puxei fortemente para cima, ouvindo-a gemer enquanto era aberta.

A luz da lua conseguia iluminar três dos primeiros degraus de uma escada e o resto era pura escuridão.

Estufei o peito e comecei a adentrar a passagem. Aquela não era hora de ter medo do escuro.

Pressionava a espada numa mão e a chave na outra, enquanto ia às cegas pelo corredor. Segui tropeçando em algumas pedras que ali havia, até ver uma tênue faixa de luz, corri para mais perto, era a fechadura de uma porta, assim que cheguei ao seu alcance empurrei-a, mas nada acontecia. Encaixei a chave que estava em minhas mãos no buraco girando-a e ouvindo a tranca se abrir, suspirei aliviado agradecendo a meu pai.

Abri a porta lentamente saindo no salão de Baile, espiei para ver se não havia ninguém por perto, saí totalmente da passagem fechando a porta logo em seguida. Direcionei-me para um dos corredores diagonais que ficavam perto do Salão, ali era a passagem mais rápida para as masmorras.

Segui por um corredor extenso até ver a porta de madeira maciça envernizada, preparei a chave em minhas mãos para poder abri-la quando escutei passos do outro lado, contive-me então.

Esperei até que silenciasse tudo ao meu redor para assim abrir a porta, finalmente.

Saí nas escadas, subi-as, nela daria para todas as celas que havia ali. Enquanto aproximava-me do topo, guardei a chave no bolso e empunhei a espada em minhas mãos.

Caminhei silenciosamente por entre o corredor de porte médio, abarrotado de celas, olhando atentamente para os lados em busca de Baz. Assim que passei pela oitava cela pude ouvir ao longe lá dentro uma fungada. Tirei a chave de meu bolso e abri a porta.

Vi-o se encolher ainda mais ao canto com o barulho da porta, suas roupas estavam sujas e rasgadas. Ajoelhei-me à sua frente, puxando-o para meus braços. Assim que percebeu quem era, agarrou-se à minha cintura soluçando, passei a mão por suas costelas ouvindo-o gemer de dor. Abaixei-me um pouco mais até meus lábios alcançarem sua orelha.

— Perdoe-me, eu fui fraco em te proteger, sinto muito mesmo — ele ergueu seu cabeça a ponto que desse para ver seus olhos brilhosos pelas lágrimas. Seus lábios estavam cortados e sangue escorria, e em suas bochechas escuras havia cortes. — Você consegue andar? – Ele assentiu, agarrando-se ao meu ombro, forçando-se para levantar.

Assim que estávamos de pé, caminhei até a porta olhando para o corredor que se encontrava vazio. Teríamos que sair pelo mesmo lugar em que cheguei. Atravessamos o corredor e o Salão, saindo e indo para os estábulos.

Não ficaria nem mais um minuto neste lugar!

Montei em minha égua, colocando Baz em minha frente para não ter o perigo dele cair. Bati com o pequeno chicote que havia pegado na traseira da égua deixando-a agitada, bati novamente arriando a cela e fazendo-a correr para os fundos, onde havia a entrada pela qual Baz passava para me visitar.

Após atravessarmos, corri até não avistar minha casa às minhas costas. Teria que fugir para qualquer lugar em que pudesse amar Baz sem limitações, sem vergonha, apenas nosso amor nos fundindo um ao outro.

Num momento de reflexão, senti o corpo de Baz tombar. Tentei segurá-lo mas caímos juntos. Saí debaixo de seu corpo arregalando os olhos assim que vi a flecha cravada em seu peito.

— Não! — gritei, tentando estancar o sangue que saía furiosamente. – Você não pode morrer, por favor, não. Como eu vou viver sem você? Basilton, por favor. – Encostei minha testa junto à sua, vendo-o abrir lentamente os olhos.

— Eu te amo e estou feliz de estar morrendo por amor, sou feliz por poder dizer que fui seu e você foi meu, nada mais importa. Saiba que te amei nesta vida e te amarei em outras vidas que vierem. Não desista de persistir, palavras são incapazes de expressar todo sentimento que tenho por você.

— Não diga isso, idiota.

— É a verdade. Se eu pudesse viveria minha vida novamente, só para poder encontrar você mais cedo, e assim amá-lo por mais tempo. – Sua voz começava a sumir gradativamente, emitindo um som vago, ele alcançou meu rosto acariciando-o lentamente antes de sussurrar suas últimas palavras. — Eu te amo, meu amor.

Sua mão caiu sem vida ao lado de seu tronco. Debrucei-me em cima de seu corpo que começava a esfriar, soluçando.

Minutos se passaram até que me levantei. Arranquei-lhe a flecha que estava fincada em seu peito, rodeando-a, percebendo aquele mesmo brasão o qual estava estampado na carta que recebera.

Enxuguei os olhos com a manga da blusa, havia retirado meu casaco para cobrir o corpo de Baz, após arrastá-lo para perto de uma árvore. Abaixei-me beijando a testa do cadáver do homem que eu um dia amei mais que minha vida, para logo subir em cima da égua, indo de encontro a qualquer lugar em que o remetente da flecha se encontrasse.

Após alguns metros percorridos, encontrei-me com o atirador do Rei que havia tirado a vida de Baz, pulei em suas costas, cravando a mesma flecha em sua jugular, vendo sangue escorrer, e jogando-o no rio que corria próximo.

Subi novamente na égua e, após quilômetros percorridos, deparei-me com diversas barracas menores e uma maior, mais chamativa, com cores de ouro e bronze.

Abandonei a égua, espantando-a para longe, e andei a passadas lentas e silenciosas em direção à maior barraca. Pude ver pela fresta que estavam a dar uma festa, visualizei Arthur com um cálice em mãos enquanto sentava em um troco que servia de banco improvisado no canto oposto ao qual eu estava.

Seus cavaleiros estavam todos a festejar junto a si.

Rodeei a barraca, indo para o lado em que ele estava, respirei fundo e entrei de uma vez, agarrando seu pescoço, e todos ali se assustaram com minha presença repentina.

— Eu irei matá-lo — disse em escárnio, pressionando seu pescoço.

— Insolente! Você não mataria seu rei. Não antes que meus homens lhe abatessem.

— Você não é meu rei. – Agarrei a flecha que estava escondida na traseira de minha calça, segurando-a firmemente em minhas costas. – Isso é por você ter matado o homem que eu amava. – Cravei a flecha em seu peito, puxando para o lado oposto ao furo, vendo-o se engasgar no próprio sangue que saía de seus lábios, ouvindo-o puxar o ar de modo feroz antes de dar o último suspiro

Avancei para a frente dando a todos minha visão.

— Com isso — apontei para o cadáver ensanguentado atrás de mim – eu tomo o poder. Ele tirou tudo de mim, e eu lhe tirei tudo, tornando-me assim O NOVO REI. CURVEM-SE PERANTE MIM OU MORRAM. – Minha voz saiu feroz enquanto apontava para o chão vendo todos presentes começarem a se ajoelhar.

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Havia se passado três dias desde que conseguira a coroa da Inglaterra do pior jeito que se possa imaginar. Estava debruçado em cima do caixão de Baz. Sua cerimônia de sepultamento acabara com os gritos de lamento de sua mãe, que havia sido arrastada para fora, pois não conseguia de modo algum deixar o cadáver do filho.

Suspirei.

Sentia meu coração ferido, mas ao lembrar de suas últimas palavras um conforto me tomava.

Eu havia ganhado um reino, mas perdido meu grande amor; ele, por outro lado, havia ganhado os céus e, junto ao meu coração, meu profundo amor.

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Escrita por Laura Umbelino, premiada por Originalidade.