Marcas da Meia Noite

16 A resposta está em nós


Notas iniciais
POV Liz "Tenho vontade de protegê-lo. Estender os braços para ele, abraçá-lo e dizer que vai ficar tudo bem. Mas não só dizer. Quero fazer com que tudo fique bem. E é irônico, porque a última coisa que posso fazer é protegê-lo."

Encaro Mitchel, surpresa de que ele tenha chegado àquela conclusão tão rápido.

Sim, éramos nós. Essa era a minha desconfiança, desde o primeiro momento em que começamos a ter aquelas visões. Eu sempre as assistia do ponto de vista de Camila, mas me perguntei como aquilo era possível se o diário era escrito por Victor. Foi aí que eu entendi.

Aquele Conjuro não era para nos fazer ver o que aconteceu. Era para nos fazer lembrar.

E agora eu e Mitchel estamos presos um ao outro. Para sempre.

**

– Acho que já sei para onde devemos ir — ele diz.

Ergo uma sobrancelha, olhando-o. Isso era novidade. Geralmente, era eu que guiava, eu dizia o que fazer. E agora é ele que sabe para onde ir.

– Tem certeza?

– Acho... que sim. Bom, analise meu raciocínio. — Ele faz uma pausa. — Nós estivemos na casa do meu pai que era da família por gerações. Talvez tenha sido ali que Camila e Victor viveram.

É, aquilo faz sentido.

– Minha tia Ridley me contou sobre isso, uma vez. Ela... viajava muito, e disse que topou com um Wight, certo dia. A curiosidade foi mais forte que ela. Procurou de onde aquela família tinha vindo, mas não havia registros.

Ele assente, enquanto caminhamos até o final da rua. Dobramos uma esquina, até que ele fala:

– Não sei quando, mas já ouvi algo assim, na casa do meu pai. Provavelmente eles mudaram o sobrenome. Inventaram. Para que as suas famílias não os encontrassem.

– Nunca houve registros disso, até onde eu saiba. Conjuradores são famílias muito tradicionais e que prezam o sobrenome... — Mas lembro-me da história do meu pai. Quando ele conheceu John Breed. Ele também era uma espécie jamais vista antes. Isso não o impediu de existir. Então continuo: — Mas você pode ter razão.

Olhamos adiante e, a mais ou menos uns trezentos metros, vemos duas casas frente a frente, completamente opostas uma a outra.

A casa da direita lembrava uma fortaleza medieval. Altos muros, e até algumas torres. As vidraças da janela, agora cheias de poeira, eram escuras. A porta de madeira aparentava ser pesada. Eu a via como uma noite sombria. Quem quer que morasse ali, não gostava muito de convivência.

Já a casa da direita parecia o sol. O branco predominava na cor e os vidros, mesmo que quebrados agora, eram transparentes. Mesmo que estivessem rasgadas, podia-se ver várias cortinas. No andar superior, várias janelas escondiam o que eu supunha serem quartos.

– Onde estamos? — pergunto novamente.

– Voltando ao meu raciocínio... Bem, estivemos na casa do meu pai, que foi onde Camila e Victor viveram. E também, provavelmente morreram. — Assinto, e ele continua: — Depois viemos pelo túnel e chegamos aqui, no carvalho. E saímos exatamente pelo portal de onde eles partiram.

– Tudo bem, continue — peço.

– Acho que temos que voltar ao início. Nós achamos o diário na casa do meu pai, e estamos vendo as visões na ordem certa. Na ordem das datas.

– E?

Mit pega o diário e o estende para mim. Eu o toco e, no mesmo instante, sinto minha mão formigar.

– Está sentindo? — pergunta. — Eu não podia sentir antes. Mas agora que meus olhos...

– Estão dourados — ajudo.

– Sim. — Ele se mexe em desconforto. Toco em seu ombro e fixo meus olhos nos seus. Mitchel respira fundo e pega a minha mão, entrelaçando nossos dedos. Volta a falar: — Bem, agora eu posso sentir.

– Talvez seja porque seus poderes se revelam completos agora. — Paro. — Mas e por que eu não pude sentir antes?

– Porque eu só sinto quando você toca também.

Olhamo-nos fixamente. Agora que temos uma ligação que ultrapassa muitas vidas, essa coisa, essa atração que eu sinto por ele e que eu tentei negar, fica mais forte a cada segundo.

Tenho vontade de protegê-lo. Estender os braços para ele, abraçá-lo e dizer que vai ficar tudo bem. Mas não só dizer. Quero fazer com que tudo fique bem. E é irônico, porque a última coisa que posso fazer é protegê-lo.

Desvio meu olhar do seu. Ele percebe porque solta a minha mão e volta a observar as casas e depois o diário.

– Acho que devemos tentar desfazer — diz.

– quê? — sobressalto-me. Meus pensamentos estavam distantes.

– O Conjuro do diário. Acho que está enfeitiçado.

– Ah — é minha resposta genial. — Sim, acho que sim.

– Se estiver mesmo com um Conjuro, confirmará meu raciocínio.

– Tudo bem, vamos logo com isso, então — digo. — Toque no diário e pense nele se revelando para você.

– Tão fácil assim?

– Você é um Cataclista, cabeção. Pode fazer o que quiser, só em pensar.

Ele me olha, com um sorriso descarado no rosto. Eu rio, ao ver sua expressão. Faz tanto tempo que não o vejo fazer graça que delicio-me com o momento.

– Tudo, é? — indaga.

– Nem tudo — respondo e percebo meu rosto esquentar. — Vamos logo!

Ele toca no diário e sua mão encosta na minha. Sinto minha pele formigar, mas suspeito que não tem nada a ver com o diário. Fecho meus olhos e concentro-me no Conjuro. Aos poucos as palavras chegam e recitamos juntos:

Ostende nobis teipsum,

Tempus autem non est tempus,

Vita autem non est vita.

Et nos cedamus.

..

Revele-se para nós,

Tempo que não é tempo,

Vida que não é vida.

Entregue-se.

Linhas de fogo envolvem nossas mãos. Abro os olhos e observo Mitchel. Ele está com medo, percebo. Chamo-o e ele me olha.

– Apenas pense — sussurro.

Ele fecha os olhos novamente e eu faço o mesmo. E viajamos.

~~

– Mitchel? — pergunto.

Pela primeira vez, nós somos nós, realmente. Nada de Camila ou Victor.

– Ainda somos nós? — ele pergunta de volta.

– Sim, é o que parece. — Olho ao redor. — Que lugar é esse?

– Não faço a menor ideia.

Mas quando ele fecha a boca, a cena muda.

– E estamos de volta ao mesmo lugar.

– Mas que di... — Mitchel começa.

– Shh!

Parece que voltamos no tempo. E dessa vez, era o tempo de fato. Não nossas memórias. E eu soube disso porque via duas pessoas saindo das casas gêmeas contrárias.

– Olha — murmuro para Mitchel.

– São...?

– Acho que sim.

– As duas sombras se aproximam de nós. Começo a prestar atenção nos traços da menor. Os gestos são suaves. O seu vestido vai até o chão. Ela caminha até a mim.

– Camila — digo.

Ela sorri. Olho para Victor, e ele está em frente a Mitchel.

– O que querem de nós? — pergunto.

– Não — diz Camila, com a voz suave. — O que vocês querem de si mesmos?

– Não entendo — Mit fala.

– Lembrem-se de uma coisa — dessa vez é Victor que diz. — O amor exige sacrifícios. Nem sempre é o que esperamos. E pode haver mais de uma maneira dele se realizar.

Mitchel franze a testa.

– Isso não muda muita coisa.

Camila sorri e responde:

– Acredite. Muda tudo.

Então eles estendem as mãos e nos tocam. E nos unimos.


~~

Já não somos mais somente Liz e Mitchel. Agora somos também plenamente Camila e Victor. E o sentimento, percebo agora, nasce de novo.

Estamos voltando no tempo. As páginas do diário se reorganizam.

A resposta está no passado, está no presente.

Entramos na casa da noite.

A resposta está em nós.

Notas finais
Ooi, amores!! Então, vocês estão vendo que não estou conseguindo postar nos dias corretos, né? Bom, peço desculpas por isso! Estou tentando! Mas, por incrível que pareça, a cada dia acontece algo! Enfim, o que mais? Ah! Estou super feliz, porque minha página no Facebook, Livros e Minhas Fases, está com mais de 4.000 likes em menos de 20 dias!! Outra coisa: dia 6, domingo, é meu aniversário! Completo 18 anos! E quero pedir um presente a vocês: comentem! Amo comentários e respondo a todos! Quero conhecer aqueles que acompanham Marcas ;) E, olha, estou começando a chamar de Marcados, os fãs da história! E aí, você é um Marcado? Beijoos ♥