Marcado
32 Capítulo 32 – Tormento
Notas iniciais
Marcado
Kaline Bogard

Capítulo 32 – Tormento
Não havia uma palavra adequada no dicionário de Kagami a altura de descrever como ele se sentia naquele momento.
Estava largado no colchão, de volta ao primeiro quartinho em que havia sido confinado desde o começo. Quanto tempo desde que Kentaro o arrastara e o deixara ali? Nem imaginava. Mas o suficiente para que sentisse o rosto começando a curar-se, mas ainda doía um bocado.
O sangue secara no rosto, criando uma crosta desagradável, com um cheiro férreo um tanto nauseante. Mesmo sangue que escorrera e sujara sua camisa. Até tentara limpar a face, inutilmente. Desistira, deixando do jeito que estava. O olho latejava cada vez menos, a medida que o fator sobrenatural fazia sua parte, porém continuava inchado e difícil de abrir.
Contudo, o que incomodava pra valer era a respiração. Seto judiara sem piedade. Um ato instintivo como respirar tornara-se uma missão dolorosa. Precisava inspirar devagar e de leve, caso contrário, sentia tanta dor que gotas de suor frio juntavam-se em sua testa, grudando os fios ruivos, sujos com respingos do próprio sangue.
Podia sentir Daiki tentando entrar em contato através do elo mental. Mas, dessa vez, o rapaz encontrou uma forte barreira, já que nem mesmo o Tigre desejava a ligação. Não queriam que o companheiro tivesse a noção de como ele estava. Fisicamente começara a curar-se, mas sua mente nem tanto. Se recebesse o menor gesto de conforto por parte do Alpha, não seria mais capaz de manter-se tão forte. Desmoronaria.
A certa altura, aquele garoto da franja, Kagami nem lembrava mais o nome dele, apareceu com mais água. E ele não pôde acreditar no quão difícil foi abrir aquela garrafinha. Sentar-se tornou-se uma das ações mais penosas que jamais pensara antes. Fazer qualquer nível de força afetava as costelas. Também era difícil tirar a tampa, sem poder mover a mão direita que, em algum momento, Kentaro pisara em cima, esmigalhando os dedos. Já melhorara bastante, pouco tempo atrás sequer podia movê-los.
Bebeu um gole lento, apreciando enquanto descia por sua garganta. Pequena sensação agradável diante de tudo que já sofrera. Usou o restinho para passar pela face e melhorar um pouco a aparência.
Logo deixou-se cair no colchão de novo. Os olhos presos no teto, beirando a exaustão. Daquela vez não conseguiu enganar a fome com água. Sentiu-se fraco. Toda sua energia concentrada em um objetivo: curar as feridas.
Algum tempo depois do que pareceram horas, novamente sentiu as presenças daquele Alpha e seu Beta. Vinham bem animados. Compreender aquilo trouxe forte vontade de chorar de frustração. Taiga conseguiu captar fragmentos de como eles se sentiam, sobretudo Kentaro. Só significava uma coisa... Um vínculo se tornando cada vez mais profundo.
Os dois entraram no quartinho, desperdiçando três segundos para apenas observar o Ômega, avaliando o estrago. Por puro instinto, Taiga sentou-se no colchão, gemendo baixo, mas pronto para uma ação imediata.
— Até que se recuperou mais rápido do que eu esperava. Pensei que estaria em condições piores — Hanamiya comentou desdenhoso.
— Eu também. Esse cara sintonizou naquela sexta-feira, não foi? Antes do Intercolegial começar? Será que é por ser um Ômega?
— Nah... — Makoto esnobou novamente, com um gesto de mão — Aposto que Ken-chan foi muito gentil e pegou leve. Faz um estrago maior dessa vez.
Taiga acompanhava a troca de palavras e o repudio por esse tipo de shifter somente aumentava. Gente da pior espécie, sem escrúpulos e limites. Então Seto avançou, sobressaltando seu prisioneiro, que tentou arrastar-se para trás, em vão. Foi segurado pelo braço e erguido do colchão sem qualquer cuidado. Teve que morder a língua para segurar o grito de dor. Pensara que o estrago nas costelas já não estava tão grave. Inocente engano. Doeu incrivelmente.
Kentaro sentiu o garoto estremecer de dor e trocou um olhar significativo com seu Beta. Aquele ruivo era duro na queda. Nem apanhando tanto e ficando tão ferido se permitira gritar de dor, como se quisesse privar os inimigos de tal prazer.
— Agora quero te apresentar um joguinho diferente — Seto revelou, de modo falsamente inocente — Acho que vai se divertir bastante. Ou melhor, eu vou!
E puxou Kagami para fora do quartinho, sem tentar ser delicado ou cuidado. O garoto se deixou levar, incapaz de alguma reação, por menor que fosse. Subiram as escadas até o corredor com as salas de tortura, avançando até a segunda porta imediatamente ao lado daquela em que fora espancado.
— Espero que tudo esteja do seu agrado — o Alpha fingiu simpatia.
Hanamiya não esperou mais para abrir a porta. Um novo empurrão fez Kagami entrar no local. Um quarto nas mesmas proporções do que o outro, sem cama ou outro móvel. Cheiro de sofrimento passado e sangue antigo veio até ele, tão desagradável que sentiu uma ânsia de vomito. Os odores pareciam desprender-se das paredes manchadas com mofo e bolor. Shifters haviam passado por ali e padecido terrivelmente.
Logo entendeu o que o aguardava. Duas correntes de ferro, de grossos nós, pendiam do teto e terminavam em algemas. A visão o desesperou. Voltou a debater-se, tentando em vão escapar. Lutou o quê pôde, mas teve um dos pulsos preso e logo o outro.
Seto terminou a tarefa e recuou dois passos para admirar sua obra. O Ômega puxava os pulsos, testando a resistência das correntes. Mas era impossível para ele arrebentar.
— Estávamos ajustando a altura — informou — Nosso último hóspede era bem mais baixo...
O medo de Taiga virou pânico quando o Alpha aproximou-se de novo e com um movimento simples das mãos poderosas a camisa do rapaz foi rasgada e arrancada de seu corpo, deixando-o nu da cintura pra cima.
— Aqui, Ken-chan! — Hanamiya exclamou muito feliz. Três segundos depois, algo vibrou no ar. O coração de Kagami saltou em seu peito e bateu acelerado. A boca secou e o sangue gelou nas veias, espalhando um frio que se refletiu nas gotículas de suor que juntaram em sua testa. Redobrou os esforços para libertar os pulsos, mesmo sabendo que era inútil.
— Sabe a melhor parte? — Seto perguntou retórico — Shifters se curam rápido. Amanhã você estará novinho em folha pra outra brincadeira.
Assim que terminou a fala, agitou o braço com experiência. A ponta do chicote dançou no ar e acertou certeira as costas de Kagami, cortando a carne em diagonal. Dor inimaginável espalhou-se por cada fibra do corpo do rapaz e ele gritou alto.
R&B
Daiki estava tão inquieto quanto seu animal interior. Farejavam algo no ar... Uma estagnação anormal, quase sobrenatural. Exatamente como a calmaria antes da tempestade. O instinto alertava para a tragédia. Mas suas condições não eram nada boas.
Seu ombro piorara gradativamente. A prata impedia o processo de cura, junto com o veneno que flutuava no lugar apertado e aspirava sem poder evitar. Tal o mataria lenta e dolorosamente, se não saísse logo dali.
A falta de contato com Kagami o deixava ainda mais sem sossego. Não compreendia porque o companheiro evitava que falassem pelo elo mental. Captar o quão mal ele se sentia só piorava sua apreensão.
E Aomine nem tentava pensar na fome e na sede. Apesar disso, conseguia mover-se pelo quarto. Desde a última vez, quando sua Pantera se manifestara mais ferozmente, um pouco de sua energia voltara, mas não era o bastante para o tirar do cativeiro. Bem que tentara arrombar a porta duas ou três vezes. Só conseguira piorar seu estado.
Qualquer preocupação consigo mesmo desapareceu quando Taiga agitou-se por algum motivo. Primeiro uma certa preocupação e algo de receio. Então raiva. Muita raiva.
“Kagami”, sondou através do vinculo mental. Bateu de frente com um bloqueio, algo que não era apenas de seu companheiro. Não soube explicar bem a situação, mas foi como se o próprio Tigre rechaçasse sua presença. Por algum motivo, Taiga queria isolar-se e ficar sozinho. Havia algo de dor física, o Ômega estava machucado. Isso era óbvio e trouxe uma onda de revolta a Daiki.
A ideia de seu companheiro sendo agredido era mais do que odiosa. Não apenas por ele ser sua alma gêmea, mas Taiga era um cara legal, tinha bom caráter. A personalidade era forte e um tanto difícil? Sim. Agia como um baka cabeça quente? Oh, e como! Mas ainda era um rapaz de bom coração e boa índole. Não merecia tal tipo de sofrimento imposto por mau caráter da pior espécie!
Após isso, algum tempo de estagnação. Captou resquícios fracos de rancor, desespero e desconforto físico. Como se a corja da Kirisaki Daichi estivesse dando um descanso para o Ômega. Durante todo esse período não viu sequer uma brecha para falar com o companheiro.
“Kagami...?”, tentou pela infinitésima vez, com paciência, embora acabasse sendo bloqueado de novo. Por algum motivo muito forte, Taiga não o queria em sua mente. No fundo encarava o porquê. Era a forma que o Ômega encontrara de proteger Daiki, parcamente, claro. Faria o mesmo se estivesse no lugar dele. E proteger-se a si mesmo, de algo que fizera o Ômega sentir humilhação.
“Kagami?”
Silêncio foi sua única resposta, junto com raiva desmedida, cega; embora não fosse voltada contra si. Daiki franziu as sobrancelhas intrigado e pronto para insistir. Então o medo veio. Ou melhor, uma onda de pavor desabou sobre Aomine, deixando-o fraco e tonto. Levou a mão ao peito, colocando-a sobre o coração que bateu forte e rápido, em resposta aos sentimentos de seu companheiro.
Algo terrível estava prestes a acontecer. Algo que o machucaria e contra o qual nada poderia fazer. Qualquer reflexão desapareceu de sua mente quando uma dor excruciante o atingiu feito um projétil, atravessando sua alma. Ânsia contraiu-lhe o estomago vazio, enquanto um gole de bile subiu por sua garganta trazendo o gosto ruim aos lábios. Cambaleou. Só não caiu por apoiar-se rápido na parede mais próxima.
“Kagami!”, o chamado foi incisivo. A tortura contra o rapaz recomeçara impiedosa. “Você precisa entrar na Zona, entendeu? Taiga!!”
A Zona parecia o único lugar seguro no momento, pelo menos para a mente do Ômega, pois seu corpo...
Novamente a dor atingiu Daiki, violenta e indefensável. Não era seu sofrimento. Era o sofrimento de sua alma gêmea, muito pior de se sentir. Acabou caindo de joelhos no chão e abraçando a si próprio.
Na terceira vez, gritou alto, enquanto a Pantera rugiu com ferocidade. Os olhos brilharam com intensidade, reluzindo o poder sobrenatural em sua alma. Estremeceu de dor, mas foi diferente. Não veio de Taiga. A injuria estremeceu seu corpo, nascendo da espinha dorsal.
Soube imediatamente o que acontecia. A Pantera saia da Zona, em resposta ao sofrimento do Ômega. Ela abria caminho a força, trazendo consigo ferocidade e descontrole.
E a forma completa de um shifter.
continua...
Fale com o autor