Marcado
22 Capítulo 22 – Domingo Parte I
Notas iniciais
Marcado
Kaline Bogard

Capítulo 22 – Domingo
Parte I – Desperte com os anjos SQN
Após a espécie de reunião, o Pack se separou. Aomine ficou com Kagami no apartamento, Akashi, Midorima e Momoi foram embora. Kise, Kuroko e Murasakibara não estavam muito longe dali, vigilantes.
— O que quer fazer? — Daiki perguntou para o companheiro enrolado na manta ao seu lado no sofá. O apartamento parecendo estranhamente vazio.
— Um banho seria ótimo — ele respondeu meio preguiçoso, não se dava conta de que precisaria da ajuda do outro para isso.
— Não — Daiki respondeu, sem hesitar. Ainda que a idéia de dividir o banho com Kagami fosse tentadora, não queria que seu cheiro diminuísse do corpo dele tão já.
— Mas...
O Alpha ficou de pé, cortando o protesto.
— Melhor dormir um pouco. Você está cansado e precisa recuperar as forças o máximo que conseguir. Vou dar um jeito no lençol da cama — encerrou o assunto saindo da sala e deixando Taiga sozinho.
O ruivo desistiu de argumentar. Estava melado de suor e outros fluídos. Um banho naquele momento cairia divinamente. Mas era impossível ignorar os sentimentos do outro garoto. Talvez aquela necessidade de deixar um sinal de posse fosse exclusivo de Alphas, porque Kagami não se sentia assim em relação a ele.
Não restou opção a não ser ficar quietinho esperando. Estava tão letárgico que, nem se quisesse, conseguiria sair do sofá.
“Não precisa fazer faxina, Aho”, resmungou pelo elo mental, achando que Daiki demorava demais.
“Aa... não tava encontrando os lençóis limpos.”
Taiga girou os olhos. Não era mais fácil ter perguntado? Alphas...
Pouco tempo depois, Aomine veio buscar o companheiro para que pudessem descansar. Enquanto o carregava nos braços, deixou escapar uma risadinha.
— O que foi? — o ruivo perguntou, desconfiado.
— Ainda bem que você não é a Cinderela — debochou — Aonde eu ia achar sapatinhos de cristal do tamanho de pranchas de surf?! Tava fodido...
— OE! Como se os seus pés fossem menores! — Kagami ficou indignado.
— Mas eu sou o príncipe.
— Você é um idiota — a reclamação terminou em um gemido dolorido.
— O que foi? — Daiki se preocupou.
— Meu pescoço — a frase veio com um suspiro — Tá começando a latejar...
O Alpha não disse nada. A aparência geral da ferida não era das melhores, esperava que não doesse tanto quanto parecia que ia doer... ou Kagami acabaria com um péssimo humor, pra variar. E ele nem queria pensar em como disfarçariam aquilo para que ele fosse às aulas ou durante o resto do Intercolegial! Talvez um pouco de maquiagem da Satsuki ajudasse a esconder o estrago.
Entrou no quarto e acomodou seu companheiro sobre a cama, agora com um lençol limpo. O anterior estava enroladinho em um canto do quarto. Deitou-se ao lado dele, puxando-o para seus braços logo após ajeitar a manta sobre os dois.
— Pode ser a Bela Adormecida, tá bom? Assim eu te acordo com um beijo... — falou, meio a sério, meio brincando e deu um beijo de leve sobre os cabelos ruivos, aproveitando para aspirar aquele aroma mais uma vez: o seu cheiro misturado com o de Taiga. A Pantera agitou-se em seu interior, exalando satisfação e orgulho. Sentimentos gêmeos aos de Daiki.
Envolvido pelo calor aconchegante, o Ômega nem respondeu a provocação. O cansaço bateu forte e ele se deixou levar. Em segundos, ambos estavam adormecidos.
R&B
Alguma coisa estava errada. Muito errada. Daiki não deveria estar sentindo aquela dor! Arregalou os olhos, despertando por completo, subitamente consciente. Seu ombro... olhou para o lado e demorou alguns segundos para compreender a cena. Kagami, mordendo o seu ombro por sobre a camisa.
— OE! — sentou-se na cama, livrando-se do ruivo que caiu sobre o colchão — O que está fazendo, Baka?!
— O que pareceu que eu estava fazendo?! — Kagami devolveu a pergunta furioso, deitado de mau jeito — Uma cesta de três pontos?! AHO!!
— Você... você me mordeu?!
— Ah, sérião, gênio?! Desculpa, pensei que fosse a Bela Adormecida e te dei um beijo de bom dia! — o ruivo continuava irritado.
— Beijo?! Tava me dando uma dentada de bom dia! Ficou louco, Kagami?!
— Correção: quase de boa noite, né?! — o garoto esbravejou — Daiki, eu acordei faz horas! Horas! E esperei que acordasse. Mas você não acordou. Então eu te chamei, várias vezes, tentei te cutucar, te balançar, te dar uma cabeçada, usar o elo mental inútil! E você não saiu desse coma!
—... — o Alpha não disse nada. Olhou em volta até se deparar com o relógio digital sobre o criado-mudo ao lado da cama. Quase uma hora da tarde. Ops...
— Eu cansei de esperar! Tenho que levantar pra mijar! Preciso de um banho, tô morrendo de fome e essa droga de Marca tá doendo pra caralho! Se eu pudesse sair dessa porra de cama sozinho já tinha feito, maldito! E os seus roncos me deram dor de cabeça!
Ondas de estresse e irritação deixaram Daiki meio atordoado. O nível de mau humor de seu companheiro estava no limite. Era seu habito dormir até tarde no domingo, estava acostumado. Pelo jeito Kagami era justamente o contrário. Tudo bem, até concordava que não devia ter sido fácil despertar e ficar imóvel sobre o colchão por horas, dependendo de uma ajuda que não vinha. A mordida no ombro devia ter sido um recurso desesperado.
— Entendi... me dá um segundo — ele resmungou, tentando se situar melhor. O primeiro passo era o banho e cuidar da ferida com alguma pomada. Depois precisavam comer alguma coisa. Começou a dar-se conta do vazio em seu estômago.
Em silêncio, arrastou-se para fora da cama e fez a volta para pegar Kagami nos braços, deixando a manta sobre o colchão. Espiou a Marca e respirou fundo. Não era uma visão das mais bonitas. O ferimento tinha o formato da arcada dentaria de Daiki e os sulcos mais profundos começavam a cicatrizar, a pele ao redor estava escurecida, num tom de roxo quase preto.
Por sorte, o banheiro daquele apartamento era feito em uma mistura de padrões, assim abaixou a tampa do vaso ocidental e colocou o Ômega sentado. Kagami já estava recuperado o bastante para, pelo menos, sentar-se sem apoio. Mas oscilava um pouco, de um lado para o outro. Daiki sentiu-se culpado. Devia ter alimentado seu companheiro horas antes, para que não estivesse tão fraco. Ainda era inexperiente e isso refletia no Ômega, precisava prestar mais atenção em detalhes e não ser tão egoísta. O ruivo era sua responsabilidade agora.
— Suman — resmungou quase inaudível. Não estava acostumado a pedir desculpas.
— É bom mesmo! — Kagami refutou com um bico.
— OE! Eu tô me desculpando, baka. Seja humilde e aceite!
— Aceitar? Se eu pudesse, chutava essas desculpas e enfiava no teu rabo!
O Alpha irritou-se com tanta resistência. Deu meia volta pronto para sair do banheiro e deixar que o outro se virasse sozinho. Mas antes de chegar a porta, parou e respirou muito fundo. Espiou por cima do ombro e olhou Kagami, sentado e segurando nos dois lados do vaso para ter algum equilíbrio; devolvendo o olhar com orgulho e rancor. Não havia a menor chance dele se virar sozinho.
— Espera, vou pegar uma roupa pra você.
Taiga desviou os olhos e manteve o silêncio. Seu humor estava perigosamente baixo, mas o Tigre começara a influenciá-lo, como a criatura perseverante que era.
Domingo estava péssimo. Torcia para que não piorasse.
R&B
Depois do despertar conturbado, com ambos já banhados e arrumados, Daiki achou pomada anti-inflamatória e usou para passar sobre o pescoço de Taiga, arrancando gemidinhos doloridos do garoto. Cobriu com gaze, aliviado porque; como bom atleta, Kagami tinha um kit de primeiros socorros bem completo.
— Quer que eu peça pra alguém comprar algo pra gente comer? — o Alpha iniciou um princípio de diálogo, captando pelo vínculo que o nível de estresse do outro já não beirava o fatal. Colocou o companheiro sentado à mesa da cozinha.
— Não — ele respondeu. Estava limpo e aliviara a bexiga. Seu pescoço ainda latejava, mas em um nível suportável. O remédio para dor de cabeça fazia efeito e o corpo, ainda que tivesse a impressão de estar travado, dava sinais de melhorar e tornar-se um pouco mais leve. Restava apenas a fome colossal — Tem comida na geladeira, é só esquentar no micro-ondas.
Desse jeito, Daiki encontrou arroz branco ocidental e curry em grande quantidade. Esquentou rápido e sentou-se em frente ao ruivo para que começassem a tardia refeição. Kagami recuperara-se o bastante para conseguir comer sozinho, ainda que a mão tremesse ao segurar o talher. Só aceitou ajuda para encher o prato e repetir a refeição.
Na terceira rodada, com o humor consideravelmente nas alturas, Taiga sentiu-se mais animado para começar o dialogo.
— Acha que devemos chamar aqueles caras pra comer? — agora sentia a presença de Satsuki e Midorima por perto do prédio.
— Não. Eles devem ter se prevenido, mas pode perguntar pelo elo se quiser.
Taiga balançou a cabeça, descartando a oferta.
— Isso aqui tá bom — Aomine elogiou, terminando o primeiro prato que comera devagar e dando-se por satisfeito, enquanto Kagami devorara o terceiro e não dava mostras de ter comido o bastante.
— Fui eu que fiz — ele revelou com a boca cheia — Curry é a minha especialidade.
— Você cozinha? — o Alpha não escondeu a surpresa.
— E muito bem, por sinal — Taiga sorriu com as bochechas infladas e grãos de arroz presos à face.
Daiki imitou o gesto, mas foi um sorriso torto, colocou o talher sobre o prato e o afastou para o lado. Então cruzou os braços sobre a mesa e lançou um olhar muito sério para o companheiro.
— Sinto muito por ter perdido a hora, Bakagami. Eu tô acostumado com uma rotina e vou precisar de tempo para mudar isso... — prendeu um suspiro e revelou algo que desconfiava — Marcar você consumiu mais energia do que eu esperava. Aquele sono profundo foi uma forma de me recuperar, ou eu teria acordado quando me chamou.
Taiga estreitou os olhos e mastigou em silêncio por alguns segundos, só respondendo depois de engolir.
— Eu entrei em desespero! Não sabia mais o que fazer para te acordar e... Droga, sinto muito pela mordida. E pelo surto. Talvez eu tenha exagerado um pouco.
“Um pouco?!!”
“OE! DAIKI!!”
“Aff, não era pra você ter recebido esse pensamento...”
Kagami riu daquilo, apesar de tudo. Agora que suas necessidades mais básicas foram atendidas, sentia-se mais como ele mesmo. Ainda havia muito o que amadurecer no relacionamento de ambos. Eram adolescentes, inexperientes, de personalidades fortes. Mas toda relação era assim, não? Desde que estivessem dispostos a se conhecer e a ceder ocasionalmente, desde que respeitassem o vínculo e um ao outro, ficariam bem.
“E só pra constar: eu não ronco, Bakagami.”
“Não ronca baixo!”, Taiga devolveu divertido.
Daiki não respondeu, apenas observando enquanto o companheiro empurrava o prato em sua direção, um gesto evidente de quem desejava mais comida. Uma onda de carinho o atingiu forte.
É, eles ficariam bem.
continua...
Fale com o autor