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18 Capítulo 18 – Interferência
Notas iniciais
Marcado
Kaline Bogard

Capítulo 18 – Interferência
Foi com grande pesar que Kagami entrou na quadra para o jogo contra Shutoku. Tomara uma decisão complicada. Ao pesar na balança não colocara apenas seus próprios anseios. Estava preocupado com Tatsuya? Muito, a ponto de perder o sono. Mas se decidisse ficar em casa, se lamentando, Kuroko e Midorima também ficariam, para ajudar a protegê-lo. Levou em consideração os sentimentos dos Betas, os sentimentos dos companheiros de time: Hyuuga senpai e os outros se esforçaram demais para serem abandonados quando tinham chegado tão longe. Parecia uma decisão tão egoísta...
Então optou por empurrar a preocupação pelo irmão para o fundo do coração e, pelo menos durante aqueles quatro quartos, mergulhar no basquete.
Aomine, claro, estava por perto, com o celular no bolso para o caso do aparelho tocar. Akashi, Momoi e Kise também estavam por ali. Murasakibara fôra à quadra anexa, onde seu colégio teria um jogo.
A presença do Alpha era um conforto imensurável. Apesar de toda tensão, ele fazia com que Taiga relaxasse naturalmente e conseguisse se focar nos lances. Como se Daiki fosse a certeza de que tudo acabaria bem, não importasse quais obstáculos surgissem pela frente. Talvez fosse o vinculo de companheiros que proporcionasse a impressão, mas Kagami não reclamava.
Graças a isso conseguiu a concentração necessária para jogar uma das partidas mais difíceis de sua vida. Shutoku era um colégio com tradição forte no basquete. Eram todos titulares humanos, com exceção de Midorima.
E o cara era um monstro nos arremessos! Ele conseguia jogar a bola muito alto, e a demora pra alcançar a cesta destruía os nervos dos adversários que assistiam para ver se ela entraria ou não na cesta. O lema do Beta de óculos servia tanto para suas previsões quanto para os arremessos: ele nunca errava. Não importava de qual ponto da quadra lançasse a bola, seus cálculos de força e direção eram perfeitos.
Cada vez que Seirin convertia dois pontos, Midorima recorria aos arremessos absurdos, convertia três e aumentava a diferença no placar. Tanta pressão e competitividade acenderam Taiga, que se viu jogando pra valer, junto com Kuroko.
A dupla reagiu logo e a altura. Seirin era um time ofensivo e partiu pra cima. Nem a estratégia de Midorima foi capaz de segurar as pontas. Numa virada impressionante, depois de uma competição acirrada, Seirin venceu e seguiu para a próxima rodada.
Assim que saiu da quadra, a euforia da vitória se apagou. Kagami recusou ir com os colegas para comemorar o resultado. Ele foi se encontrar com Aomine, que assistiu a competição da parte mais alta da arquibancada junto com Momoi.
— Parabéns, Tai chan! — a menina sorriu — Foi um ótimo jogo. Parabéns, Tetsu chan!
Também cumprimentou o outro rapaz, observando-o longamente. Recebeu de volta um simples acenar de cabeça.
Não era a primeira vez que Kagami sentia o clima esquisito entre os dois, somado a algo mais delicado e mais óbvio. Mas não achava brecha para conversar com Kuroko, sempre reservado quanto a sua intimidade. Igualmente não se considerava próximo o bastante para questionar a garota. Restava então perguntar para Aomine, assim que surgisse a chance.
— Parabéns, Baka — Aomine também cumprimentou — Você sabe que a próxima partida da Seirin será contra Touou, não é?
O ruivo encarou Daiki. Nunca vira o rapaz em quadra, ficou ansioso pela possibilidade de jogar pra valer contra o Alpha. Esperava que nada atrapalhasse até lá, o que o fez lembrar-se de algo urgente.
— Algum contato? — perguntou, referindo-se ao celular de Himuro.
— Nada — ele respondeu sem rodeios — Quer voltar para o apartamento agora? Vou ficar lá com você.
Kagami nem se deu ao trabalho de rebater. Era óbvio que shifters tinham mais liberdade com os pais do que humanos normais. Parecia tudo bem para a família de Aomine e dos demais que ficassem tanto tempo longe, só para cuidar de um Ômega.
Ou, quem sabe, os pais desses rapazes sabiam da importância de um Ômega e justamente por isso permitissem tanta autonomia de decisões para manter Kagami no Pack, a salvo de outros shifters.
— Tudo bem — anuiu — Mas vamos passar no Maji Burger antes.
— O que meu companheiro quiser — debochou um pouco.
Mas Kagami ignorou a brincadeira boba e olhou para Momoi.
— Talvez você pudesse ficar com Murasakibara até o jogo dele terminar...? — falou um tanto sem jeito — Pra que ele não fique sozinho...
O pedido surpreendeu aos outros. Primeiro porque Murasakibara não era o tipo de shifter que precisava de apoio. Segundo pela solicitação ter sido feita a garota, ao invés de algum dos outros Betas. Apesar de ser uma solicitação inusitada, Aomine acenou para Satsuki, dizendo que ela devia obedecer. E assim foi feito.
“Taiga, isso o que você fez...”, a voz de Daiki soou direto na mente de Kagami.
“Aa, depois a gente fala Aho. Não é o lugar!”, respondeu desconfortável.
O Alpha ergueu uma sobrancelha e não rebateu. Intuía a intenção de seu companheiro. Precisavam esclarecer algumas coisas.
R&B
O Maji Burger estava vazio àquela hora. Aproximava-se do horário do toque de recolher e nenhum estudante queria dar bobeira e acabar sendo detido por algum oficial da polícia. Mas isso não era algo que preocupasse Daiki e os outros.
Depois de comprar uma montanha de hambúrgueres e dois copos grandes de refrigerante, foram se acomodar na mesa mais ao fundo, distante dos poucos clientes que ali estavam. Três humanos, zero ameaça.
Kise e Kuroko ficaram do lado de fora, por precaução. A presença de Midorima se aproximava também. Todos se moviam em prol do objetivo em comum: proteção e segurança.
Com ar distante, Taiga pegou o primeiro lanche e começou a comer devagar. Estava cansado, com a mente cheia de problemas e precisava de um banho. Mas se fosse direto para o apartamento afundar em pensamentos negativos, surtaria! Além disso, captava traços de certa resistência vindos de Daiki. Seu animal interior estava inquieto, querendo deixar tudo em pratos limpos com o Alpha.
— Não me condene! — o ruivo acabou resmungando de boca cheia — Não pude evitar.
Daiki deu um gole no refrigerante gelado.
— Você afastou a Satsuki do Tetsu de propósito — afirmou, olhando longamente para seu companheiro. Não compreendia a interferência do outro em um assunto complicado.
Kagami mexeu-se inquieto na cadeira. Detestava estar na berlinda, porém não podia esquivar-se à explicação.
— A parte shifter do Kuroko e da Momoi se reconheceram como companheiros — ele foi dizendo — Mas... não sei dizer. É como se...
— A parte humana não aceitasse isso — Daiki respondeu simplista — Acontece o tempo todo, Baka. Nem todo mundo é como a gente.
O ruivo parou de mastigar. Ele analisou a frase por um tempo, com as bochechas infladas de hambúrguer, fazendo Daiki ter vontade de cutucar com o dedo. Tão fofo.
— Mas, — engoliu com dificuldade — O Kuroko e o Kise...
Referiu-se a fragmentos de algo que já captara entre os dois. Aquela expressão sempre indiferente de Kuroko era uma máscara que o protegia, mas não o bastante para esconder os sentimentos que flutuavam através do laço que unia o Pack.
— Estão apaixonados — Aomine completou a frase como se fosse óbvio — E daí?
— E daí?! Como assim “e daí”, aho! Você vai ficar só olhando?
Daiki cruzou os braços sobre a mesa, franzindo as sobrancelhas.
— O que quer que eu faça?
— Você não sente que... — silenciou. Teve um pressentimento — O Tigre não se conforma. Ele está me deixando louco com isso, como se eu tivesse que fazer alguma coisa pra mudar a situação.
— Ee? — a revelação surpreendeu o Alpha. Seria possível que um Ômega conseguisse desfazer um reconhecimento entre dois shifters, ou melhor, da metade animal de dois shifters? Nunca ouvira falar em nada aquele respeito, mas Ômegas eram um mistério total para si.
— Momoi também gosta de Kuroko, isso é claro. Mas... mas... que merda! Triângulos amorosos entre shifters são uma bosta de complicação! — Taiga levou as mãos aos cabelos e os bagunçou — Nem é um triangulo se pensar bem... leve em consideração a parte shifter e a parte humana... ta mais pra sexteto amoroso.
Aomine deu uma risadinha. Com certeza shifters eram complexos. Recostou-se na cadeira e voltou a sugar refrigerante pelo canudinho. Pelo menos seu companheiro estava entretido na situação e afastara de si a preocupação pelo irmão sumido. Ele merecia uns momentos de paz.
— Você acha que seu animal é capaz de mudar a situação? — perguntou antes de pegar um hambúrguer para si. O ruivo comia com tanto gosto que acabou sentindo apetite. Daquela vez não houve reclamação.
— Não sei. Mas o Tigre acha que é e quer tentar, pelo menos.
Balançando a cabeça, Daiki concordou. Nunca passara por sua cabeça algo dessa proporção. Todos sabiam que laços entre companheiros shifters duravam a vida toda. Se Kagami conseguisse romper isso, Kise e Kuroko talvez tivessem uma chance. Satsuki sofreria, claro, entretanto também ficaria livre para buscar um novo companheiro. Só via vantagens!
— Hn. Mas não force nada.
— Claro.
Voltaram a comer e assim ficaram, silenciosos, por longos minutos. Até Taiga resolver falar o que estivera ruminando.
— Ne... também notei que o Midorima... — deixou a frase no ar.
— O animal interior dele reconheceu um humano como companheiro. Sim, Bakagami. Isso também é possível — adivinhou a questão antes mesmo que fosse elaborada — De onde você acha que vem os Mestiços? São shifters que se envolvem com humanos. Não é proibido. Mas é um caso em que o reconhecimento é uma via de mão única. Humanos não tem parte shifter para retribuir o laço. Eles se apaixonam, claro. Há sempre um risco grande de no futuro o relacionamento terminar, porque humanos são instáveis no que sentem.
— Então aquele garoto lá sabe da nossa... raça?
— Não. Temos uma lei não escrita de manter tudo em segredo. Humanos podem fazer parte do Pack, eles serão cuidados e tratados como iguais, mas sem saber da verdade. Aos olhos dele será apenas um grupo de amigos muito próximos.
— Aa... — voltou a se concentrar em comer os últimos hambúrgueres, dividindo-os com Daiki.
Findado o momento de esclarecimentos, a preocupação com Himuro voltou de mansinho, desanimando Taiga. Um dia inteiro sem qualquer tipo de contato. Hanamiya sequer aparecera nas competições. A semana se encaminhava para o fim, Seirin não tinha mais jogos, já encerrara a rodada. O próximo seria contra a Academia Touou, escola onde Aomine estudava. Mas até lá, já teria passado o sábado e já teria recebido a bendita Marca, pois se enfrentariam na segunda-feira. Estremeceu.
Reconhecendo os sentimentos ruins do companheiro, Daiki estendeu a mão e colocou sobre a dele, passando algum conforto. Era uma das poucas coisas que podia fazer no momento.
continua...
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