Marcado
2 Capítulo 02 – Equilíbrio quase perfeito
Notas iniciais
Marcado
Kaline Bogard

Capítulo 02 – Equilíbrio quase perfeito
No fim das contas Kise não aguentou a curiosidade. Os relatos sucintos de Kuroko não eram suficientes para saciar a vontade de saber. Palavras vagas para tentar descrever o que só pode ser sentido.
Por isso reuniu sua coragem e foi até Seirin espiar o que acontecia ali em Tokyo e estava fadado a mudar o destino de muitas pessoas. Já tinham um amistoso marcado, mas não aguentou e foi ao colégio rival antes. Chegou causando e chamando atenção, como sempre acontecia quando o belo loiro passava por um lugar.
Mal pôs o pé na quadra e captou a mudança. Sutil, leve, muito suave, uma minima ondulação no ar que passaria despercebida por um expectador mais desatento. Não era o caso de Ryota Kise, que mantinha todos os sentidos em alerta.
Foi cercado pelo time de basquete de Seirin e desafiado, como esperava. E venceu sem dificuldade, ainda que não fosse seu desejo apenas exibir sua força de um dos membros da geração milagrosa, era impossível não se empolgar quando a energia tão ancestral correra por suas veias.
Agora compreendia Kuroko. E concordava com o rapaz, quando ele dizia que precisavam dar o primeiro passo o quanto antes, clamando aquele poder para o grupo. Estavam diante de uma raridade. Logo a corrida começaria e poderiam perder o esperado prêmio!
— Pode ter certeza que na próxima eu vou vencer! — Kagami exclamou exaltado, empolgado pela demonstração de habilidades dada por Kise. Aquele fora quase um “um-contra-um”. Um aperitivo do que estaria por vir quando Seirin e Kaijo se enfrentassem no amistoso.
Kise olhou para o garoto sentado no chão. Um sorriso inabalado suavizava as feições angelicais do jovem loiro. Estava ansioso pelo confronto, claro. Mas sabia que o resultado não seria diferente. Seirin nunca venceria.
Ao invés de responder a Kagami, voltou-se para o antigo colega e colocou uma mão atrás da cabeça, parecendo sem jeito.
— Ne, Kurokocchi... podemos conversar um pouco?
— Claro, Kise kun.
— Oe!— Taiga tentou protestar, mas Hyuuga o impediu.
— Espere, Kagami. Eles são ex-companheiros de escola. Devem ter muito o que falar.
E diante do olhar espantado do resto do time, os dois saíram da quadra. Caminharam lado a lado até achar um lugar isolado, onde poderiam falar com mais calma. Kise sentou-se no banco, Kuroko ficou em pé ao seu lado.
— Aqui é seguro?
— Hn. Seirin é um colégio novo. Encontrei apenas humanos.
Confiante nas palavras do rapaz, Kise deixou a emoção vir à tona. Kuroko pode captar ondas de empolgação chegando a si.
— Isso foi demais, Kurokocchi! — abriu e fechou as mãos — Ainda me sinto um pouco estranho, como se tivesse recarregado cem por cento da bateria!
— É mais ou menos essa a sensação.
— Mas... tem umas coisas inesperadas. Você percebeu?
O rapaz acenou com um gesto de cabeça. Claro que percebera naqueles dias de convivência. Já dissera tudo para Aomine, em duas ou três reuniões extra-oficiais que fizeram no telhado do colégio. Ainda assim, ele se negava a dar o primeiro passo! Incompreensível.
— Começa com aquele anel que Kagami tem no pescoço — Kise levou uma mão ao queixo — É feito de prata.
— Hn. Isso comprova a lenda de que Omegas não são suscetíveis à prata.
— E todo o cordão também é feito de prata pura envelhecida. É um trabalho de mestre, muito bem elaborado...
Kuroko concordou com um aceno de cabeça.
— Foi feito para proteger a energia e impedi-la de se expandir. Dificulta que outros possam identificar a verdade de forma leviana — respirou fundo — Acredito que nem Kagami kun saiba o que leva no pescoço.
— Nenhum mestiço vai descobrir que Kagami kun é um Omega. O problema são os Nascidos.
— Já disse que Seirin não tem nenhum Nascido. Nem mestiços pude identificar ainda. Somente humanos — olhou em volta. Continuavam sozinhos naquela parte do colégio — Mas quem quer que tenha dado essa corrente e o anel sabia bem o que estava fazendo...
— Outra coisa que percebi foi como as habilidades do time de Seirin melhoraram, Kurokocchi. Isso me preocupa. Humanos são verdadeiros parasitas.
— Sim. Um Omega é capaz de captar a energia da natureza e distribui-la aos seus companheiros. Quando mais forte um Omega é, mais forte ele torna aqueles ligados a ele por um vínculo.
— E Seirin me pareceu ter uma ligação profunda entre os seus membros.
Tetsu acabou indo sentar-se ao lado do loiro. A conversa seguia mais longa do que esperava.
— Vínculos com humanos não são fortes. Um Alpha como Aomine kun pode mudar isso sem dificuldades. É outra coisa que me preocupa.
— Sim, a falta de movimento de Aominecchi. É a primeira vez que temos a chance real de conseguir um Omega. Por que ele não faz nada?
Aquela era uma dúvida de Kuroko também. Desde o primeiro contato com Taiga, seu animal interior reagira na medida de sua personalidade. Ficar sem fazer nada era quase doloroso para si. Sentia-se inútil.
— O pensamento de Aomine kun é algo que não posso compreender — ergueu os olhos para fitar o céu de azul tão intenso quanto seus pacatos olhos.
Kise sorriu.
— Agora estou no mesmo barco que você!
— Hn. Nós dois somos defensivos. Nascemos para proteger o que é importante.
O equilíbrio sempre fora um dos segredos do sucesso da geração milagrosa. Nunca antes um time de Nascidos se unira em tão perfeita harmonia. Três pessoas de índole passiva, voltados para a defesa. Três pessoas de natureza agressiva, feitos para atacar. E um Alpha. Sete criaturas unidas pelo destino.
Equilíbrio quase perfeito. Quase. Faltava apenas um Omega para fechar o círculo.
Mas nem tudo era tão simples quanto a teoria. A personalidade de cada um deles bagunçava muita coisa! Desde um Alpha que não assumia sua posição de líder; a um Beta inconformado, que achava que deveria ser o Alpha. Um Beta que podia prever o futuro. Outro que só era mantido sob controle se ingerisse grandes quantidades de glicose. Uma fêmea extremamente perceptiva. Isso só pra começar a puxar a ponta do fio da meada!
— Kurokocchi... o intercolegial se aproxima. Vamos encontrar Nascidos Betas, Nascidos Alphas e Mestiços. Aominecchi tem que tomar uma atitude antes que alguém o faça. Essa é a nossa chance — sorriu sonhador — A lenda sobre a prata é verdadeira. Omegas não se afetam e podem usar como proteção. Então talvez...
— Talvez as outras lendas sejam verdadeiras também.
Tetsuya sabia que sim. Desde que conhecera Kagami pela primeira vez e a energia elemental pura correra por suas veias começara ter os sonhos. Olhou rapidamente para Kise. O rapaz, provavelmente começaria a sonhar também.
Talvez aquela fosse a solução! Se Aomine e Kagami se encontrassem a parte mais instintiva despertaria. Quem sabe Daiki assumisse o papel que nascera para desempenhar e saísse da estagnação. Se ele começasse a sonhar também.
— Kise kun, depois que encontrei Kagami kun comecei a ter sonhos com o meu animal interior.
O loiro arregalou os olhos e encarou o outro garoto, surpreso.
— Sério, Kurokocchi?! O que você vê? Como ele é?
—Não posso ver direito, o sonho é obscuro, somente uma sensação. Penso que vai entender em breve.
A garantia renovou o animo de Ryota. Ele deduziu o óbvio.
— Também vou começar a sonhar. É isso que tenta me dizer?
— Hn. É uma possibilidade muito grande, Kise kun.
Reclinando-se no banco de cimento, foi a vez do loiro erguer os olhos e mirar o distante céu azul.
— E você tem ficado mais forte. Percebi isso. Como faz parte do time, Kagami kun está intensificando suas habilidades também. Não é nada muito grande — refletiu — Por causa do anel de prata que impede a energia de fluir com força total.
— Não posso evitar. Somos colegas de time, estamos na mesma sala. Desde o começo criamos um vínculo e o respeito de Kagami kun por mim cresceu desde o começo. Ele me reconheceu como um membro da geração dos milagres, aceitou minhas habilidades. Naturalmente os laços se criaram.
— Relaxa, Kurokocchi. Não estou te julgando. Mas quero compartilhar isso. Quero me tornar mais forte, passar os limites. Quero que o nosso equilíbrio não seja mais quase perfeito. Quero que ele seja totalmente perfeito — então virou-se para Tetsuya e tornou-se sério — Se Aomine não fizer nada, nós teremos que fazer.
Kuroko não disse nada. Não foi preciso.
A determinação em seus olhos afirmava que era bem aquilo que estava pensando.
continua...
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