Marcado
24 Capítulo 24 – Ruína
Notas iniciais
Marcado
Kaline Bogard

Capítulo 24 – Ruína
A quadra estava lotada. A academia Touou tinha tradição no basquete e uma grande torcida, todos curiosos para confirmar o resultado da noite. Entre os humanos, espalhados na arquibancada, captava-se a presença de dez Betas desconhecidos e três Alphas. Apesar de não mostrarem nenhuma intenção agressiva, a Geração Milagrosa estava atenta e colocada em pontos estratégicos, pronta para ação rápida.
Tudo pelo clássico do Intercolegial: Touou versus Seirin, Alpha contra Ômega, auxiliado por um Beta.
Vários fatores pareceram se somar contra Seirin, infelizmente. Uma vez em quadra, ficou óbvia a inegável superioridade da Academia Touou. Todos os seus jogadores eram de primeira linha, e Daiki sequer podia ser comparado a eles. Não precisou dar tudo de si, como imaginou a princípio.
Outra coisa que ficou clara foi a dificuldade de Kagami em dar aqueles seus saltos monstros, estratégia a que tanto recorrera na partida anterior. Riko logo deduziu que era uma conseqüência do confronto contra Shutoku, pois Taiga passara dos limites, obrigando seu corpo adolescente a um esforço que não estava pronto ainda. Somente os shifters desconfiavam da verdade.
Essa condição de um dos principais jogadores da Seirin expôs o quão despreparados eles ainda estavam, pois mesmo dando tudo de si, não conseguiam vencer. A diferença no placar apenas aumentava e aumentava.
— É inútil — Akashi, que assistia do fundo da quadra, sussurrou — O resultado já está definido.
Perto dele estava um Alpha. Desconhecia aquele cara e seguia seus movimentos com atenção, alternando olhares entre o jogo e o rapaz. A notícia sobre o Ômega se espalhava como areia ao vento. Situações como aquela seriam freqüentes e suportáveis, desde que não viessem com intenções agressivas.
Outro que observava tudo sem revelar interesse era Midorima. Ele estava sentado numa das cadeiras, mas próximo ao corredor de acesso, fato que facilitava qualquer ação imediatista. Captava dois Betas por perto, mas não o bastante para saber com exatidão quem era. Carregava no pescoço uma corrente banhada a ouro no melhor estilo daqueles rappers norte-americanos. Combinava em nada com ele! O item de sorte do dia.
— Esses caras ganharam mesmo da gente? Não acredito!
— Aa — Midorima respondeu sem prestar muita atenção ao rapaz sentado ao seu lado.
— Shin-chan? Shin-chan! Está distraído demais hoje — Takao resmungou.
— Aa.
— Fala sério! — fez um bico e voltou a assistir o jogo.
Midorima não se importou. Não estava distraído, pelo contrário. Sua atenção permanecia no máximo da concentração, consciente não apenas do rapaz ao seu lado, mas de todos os Betas que podia captar, perto ou não. Focado nos companheiros de Pack, inclusive nos três que jogavam a partida.
Havia algo no ar, inegável. Sentia-o denso, pesado. Seu animal interior remexia-se inquieto, desconfiado. Não podia dizer o porquê de tal comportamento nada usual. O clima dentro do ginásio em si não era ruim, nenhum shifter dava sinal de perigo. Mas nem por isso relaxava.
Momoi e Kise estavam juntos na parte de trás da arquibancada, mas do lado oposto a Akashi, dando continuidade ao perímetro de proteção. A garota estava um pouco triste, queria que Kuroko vencesse a partida. E cada vez mais ficava claro que não seria assim. A vitória estava nas mãos de Daiki, muito bem segura. O clima entre os dois Betas era ameno. Eram bons amigos e se respeitavam, apesar da confusão amorosa em que estavam envolvidos. Kise não culpava Momoi pela parte animal da garota ter reconhecido Kuroko como companheiro e sido correspondido. Satsuki achava triste que a parte humana dos dois garotos nutrissem sentimentos. Isso acontecia com certa freqüência no mundo deles. Geralmente, não havia felicidade para os envolvidos. E nem a quem culpar.
— Pobre Kagamicchi — o loiro sussurrou ao ver o Ômega perder o equilíbrio e cair na quadra. Forçava os limites e mesmo assim Seirin perdia pateticamente. Daiki não tinha compaixão.
— Eles precisam treinar muito para mudar. Calculei os dados de cada um deles, não vejo maneira de vencerem Touou em um futuro próximo — uma das habilidades da garota era estudar seus inimigos e conseguir ler suas formas de agir dentro de limitadas opções. Isso fazia dela uma auxiliar técnica perigosa.
— Está tudo bem, deixar seu time por conta própria? — Ryota perguntou. Afinal, Satsuki fazia parte da equipe de basquete da Academia Touou. Sempre acompanhava o time durante as partidas.
— Tudo bem — ela cruzou as mãos atrás das costas — Por algum motivo Tai chan quer que eu esteja aqui com Ki chan hoje. De qualquer forma, não é como se Touou corresse algum risco de perder...
Voltaram a prestar a atenção no jogo e no que acontecia ao redor. Fatos ocorriam que não podiam ser ignorados. Touou venceria, haviam Betas e Alphas rivais espalhados no ginásio e o Ômega realmente conspirara para que eles acabassem ali, naquela vigília. Mas, por quê?
Do outro lado, fechando o círculo, estava Murasakibara, assistindo ao jogo sozinho e entediado. Odiava basquete e não suportava jogadores fracos, que não tinham chance de ganhar e insistiam em tentar. Seirin perderia feio. Um time daquele não deveria ter o direito de sequer pisar em quadra.
Quando o juiz encerrou a partida, estava na metade do segundo saquinho de amendoins caramelados. O placar falava por si só. Cento e doze a cinqüenta e cinco. Basquete era um esporte cruel. Esmagava sem piedade, assim como às vezes se sentia esmagado, consumido pelo enorme vazio dentro de si.
R&B
A derrota foi uma rasteira no humor de Taiga e o fim de Seirin no circuito do Intercolegial. Chegaram tão longe e atingiram o limite, até serem destruídos pela máquina chamada Touou. Mais trinta segundos de jogo e teriam que chamar o carro do IML para retirar os restos mortais dos jogadores.
O Ômega estava arrasado e sua tristeza alcançava a todos os Betas e ao Alpha, mas não era o tipo de dor que pudessem fazer algo para aliviar. Perder na competição era uma possibilidade e se tornara realidade, porque não eram bons o bastante para enfrentar o colégio de Aomine. Taiga não tinha nível para jogar contra Daiki de igual pra igual.
Nem o ruivo era imaturo de colocar a culpa nos efeitos da Marca. Se conhecia. Mesmo em perfeitas condições, talvez não vencesse daquela vez e humildade para reconhecer suas próprias fraquezas era uma de suas características. Mas treinaria. Até desmaiar! E daria o troco em quadra assim que os dois colégios se enfrentassem novamente.
Como não havia motivos para comemorar, os derrotados se despediram e se separaram, cada um disposto a ir curtir sua dor sozinho, talvez derramar algumas lagrimas pelo esforço em vão e sonhos desfeitos.
Kagami e Kuroko seguiram lado a lado para fora do ginásio, em silêncio. Encontraram com Daiki, que esperava por eles. Alpha e Ômega se encararam por alguns segundos, tempo em que o ruivo teve certeza de que ouviria alguma piadinha ou deboche. Para sua surpresa o outro não disse nada. Apenas deu as costas e começou a caminhar, num claro sinal de que deveria ser seguido.
Kuroko observou quietamente. Os dois se afastavam, seu companheiro de time ia cabisbaixo, chateado. Uma visão que lhe trouxe certa angústia. Por um instante, pensou em segui-los, dando; inclusive, um passo a frente. Mas paralisou-se. Não fazia parte do grupo de vigia. Aquela noite, a segurança estava por conta de Murasakibara, Midorima e Momoi, trio que revelava a estratégia agressiva de Akashi. Se algum shifter ousasse se aproximar, a intenção não era reagir de modo pacifico. Não que temessem por isso, afinal, não havia lugar mais seguro do que o apartamento de Kagami. Todos receberam rotas individuais de acesso que dificultavam uma perseguição. Seijuro criara planos alternativos de fuga, para o caso do inimigo atacar em grande número. Tentara pensar em todas as possibilidades para proteger os interesses do Pack.
Chegar em casa não melhorou o humor de Kagami nem um pouco. Mas admitia que Daiki respeitar sua dor pelo menos não piorava tudo.
Por isso cedeu que o Alpha tomasse banho primeiro, enquanto ia ver o que tinha na geladeira para comer, ignorando a exaustão. Encontrou legumes e carne, com o que poderia improvisar um oden. Deixou tudo terminando de cozinhar para tomar seu próprio banho.
Foi ao sentar-se à mesa, em frente ao companheiro, para dividirem o jantar que a ficha caiu. Seirin estava fora do Intercolegial. Todo o treino, a dedicação, o esforço... Todo o suor derramado fôra inútil. Lutar com garra contra a Seiho, a partida impressionante contra Shutoku... De nada valera.
Arrasado, Taiga abaixou a cabeça e deixou as lágrimas caírem.
Os sonhos seriam colocados de lado por enquanto. E a promessa feita no telhado do colégio, não cumprida.
R&B
Três pratos de oden, algum consolo fluindo pelo vínculo e muitas lágrimas depois, Daiki sentiu que já podia oferecer apoio de modo mais enfático. Pegar leve na partida nunca estivera em seus planos, muito menos proporcionar uma derrota humilhante para seu companheiro. Apenas fizera o que amava: jogara pra valer. O placar final que somava mais do que o dobro de pontos, era a conseqüência disso.
Qualquer palavra de conforto soaria inadequada. Por isso deixara por conta da Pantera e do Tigre remendar o coração de Kagami, assim ele podia curtir um pouco a própria dor. Fazia parte da experiência e ajudava no amadurecimento. Bom, aquilo em teoria e para os outros, claro. Aomine odiaria perder. Nunca perdera e jamais perderia. Ele era um Alpha, no fim das contas.
Estavam meio sentados, meio deitados no sofá, com Taiga apoiado em Daiki, que passara um braço ao redor dele, aconchegando. O clima pior já passara, mas ainda não parecia um bom momento para bate-papo leviano. Dividiam uma intimidade diferente de vezes anteriores, onde apenas a companhia um do outro era suficiente.
Então o animal interior de Daiki ficou em alerta. A audição anormal se aguçou, captando passos no corredor que seguiram até parar em frente ao apartamento de Kagami. Os dois rapazes se entreolharam. Não sentiam presença de nenhum shifter ou algo sobrenatural. Mas também não esperavam visita.
“Fique aqui”, o Alpha ordenou para o ruivo, levantando-se com movimentos gatunos e silenciosos. Atravessava o meio da sala quando batidas soaram na porta e Aomine captou o cheiro. Um humano. Descontraiu-se aliviado, mas não menos na defensiva e pronto para uma rápida reação. Humanos não o preocupavam.
Mas nada o prepararia para o que viu ao abrir a porta. Não se deparou com um humano qualquer. Encarou um homem adulto, por volta dos quarenta anos, vestindo o casaco em tons de verde e preto, uniforme da Kirisaki Daichi. E ele segurava uma arma.
“Sinto Betas se aproximando”, a voz de Momoi soou urgente pelo vínculo, direcionando-se a todos no Pack.
“Por aqui também”, Midorima comunicou-se da mesma forma.
“Dois. Vou esmagá-los”, aquela frase de Murasakibara revelou que os inimigos atacavam os três ao mesmo tempo.
Uma ação ousada, em que a Kirisaki Daichi envolvera humanos e de alguma forma descobrira o endereço do Ômega. Subestimaram o Pack rival. Terrivelmente.
Antes que Aomine tivesse a menor chance de responder ao elo mental ou tentar uma reação, aquele homem puxou o gatilho.
continua...
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