Marcado
26 Capítulo 26
Notas iniciais
Marcado
Capítulo 26
— Qual é o seu problema, Crowley? Por acaso eu sou uma peça que pode ser vendida a qualquer preço? — Carlos gritava enquanto seguia os passos de Águia Negra até o escritório, um cômodo pequeno que continha apenas uma mesa de madeira escura e elegante, uma cadeira alcochoada, atrás dela pendia um quadro que ele conseguira em um leilão, porém com valor alto. O policial fez questão de bater a porta. — Não pode tomar decisões sem me consultar! Você me negociou!
— Não precisa ficar surpreso, criança. Será só por algum tempo. Pense em como Phill vai te tratar bem e me agradeça por manter você fora de perigo. — Crowley pontuou dando de ombros, a histeria dele em nada o faria mudar os planos. Já havia se decidido. — Manteremos contato.
Carlos suspirou irritado, passando as mãos pelos cabelos compridos. Ele não conseguia acreditar como fora tão ingênuo a ponto de não ter percebido o brilho de diversão nos olhos de Águia Negra. A ideia de servir Phill por um tempo que ele mal podia calcular tirou-lhe todas as vontades de continuar fazendo o que fosse por aquele homem. E para aumentar sua revolta, ele levaria Samuel Winchester, logo agora que se simpatizara pelo menino.
— Anime-se... Eu não vou deixar que aquele infeliz interrompa tudo. — Crowley disse com desdém. — Eu o sinto perto.
— Não adianta fugir dele. — Carlos sentiu uma pitada de satisfação. — Aonde quer que vá, onde quer que se esconda, Dean irá encontrá-lo e o fará pagar por tudo.
Crowley fez uma careta, as palavras de Carlos não iriam afetá-lo agora. Pois ele era um homem que não temia nada, muito menos O Torturador. Entretanto, já não poderia dizer que confiava em Carlos como antigamente. Algo nele havia mudado. Abriu uma gaveta e tirou um maço de cigarros e acendeu um, embora não tivesse o hábito.
— Para onde está pensando ir? — Carlos fez a pergunta para provocar, sabia o quanto estava sendo desgastante para Águia Negra lidar com a situação. E, parando para pensar, o que havia em Sammy para fazer com que Crowley tomasse medidas drásticas?
— Gostaria muito de conhecer Istambul, mas não sei se seria um bom lugar.
— Bom, me avise. — Carlos abriu a porta, entretanto não seguiu para fora do escritório. — Por quanto tempo eu terei que servir aquele imundo?
— Não fale assim de Phill, ele gosta de você. — O sorriso de Águia Negra era um completo deboche.
— Está se divertindo, não é mesmo? — As sobrancelhas de Carlos tremeram de nervosismo, sua mente ligada em suas futuras atividades. — Se ele encostar um dedo em mim...
— Sim, sim, eu sei. Agora vá, preciso preparar as coisas para a viagem. — Águia Negra soltou a fumaça devagar, os olhos escuros mirando o homem moreno, sugestivo.
— Você é realmente maluco... — Carlos saiu resmungando, tomado o corredor em instantes. Se ele não tivesse provado as palavras de Águia Negra na pele, meteria um tiro na cabeça dele e se libertaria de uma vez por todas. Contudo, que lucros lhe trariam? Não havia por quem e para quem voltar, Castiel estava cada segundo mais longe de seu alcance.
— Sua cara não está muito boa. — A voz de Sammy o chamou, e Carlos encontrou os olhos verdes inspecionando-o com curiosidade. Talvez não fosse de agora que o garoto lhe observava.
Carlos caminhou até Samuel e levantou o queixo dele com os dedos, analisando o rosto bonito de perto. A inocência, apesar de tudo que ele vinha passando no cativeiro, não havia se apagado. Pelo contrário, se acentuava a cada piscar de olhos. E talvez fosse aquilo que fazia Crowley querê-lo com tanto afinco. Em todo caso, ele sentiria falta das perguntas que o garoto fazia, da forma divertida que ele o olhava e, principalmente, da presença. Afinal, Samuel Winchester era, sem dúvidas, a única coisa boa naquele lugar.
— É melhor fazer as malas, garoto. — Disse simplesmente, afastando-se do mais jovem.
— Como assim? Para onde vamos? — O coração do adolescente se descompassou. Aquilo não passava de uma brincadeira maldosa, certo?
— Não sei, mas você não me terá por perto, o que é uma pena. Eu realmente gosto das nossas conversas. — Os lábios de Carlos se abriram em um sorriso, e ele sentiu que fosse o mais sincero de toda sua vida.
— Não, eu não quero ir! — Sammy segurou com firmeza o braço do policial, sacudindo-o. — Quero ir para casa! Quero ficar com você! Não pode deixar que ele me leve. — As lágrimas criaram uma película nos olhos claros. — Por favor... Me ajude.
Enquanto ouvia a súplica desesperada do garoto, Carlos tentava entender o que era o misto de emoção dentro dele. Verdade que o sofrimento alheio não lhe despertava interesse, então por que aquele garoto conseguia mudá-lo? Certamente ele se arrependeria muito de suas decisões em relação ao garoto. No entanto, ele não podia deixar que Águia Negra obtivesse o controle de tudo, portanto teria que estar um passo à frente dos pensamentos dele. Livrando-se do contato, Carlos usou todo o seu tom de voz frio e inquestionável.
— Não me amole. Se quer tanto assim fugir, cave a própria saída.
— Você está ficando igual a ele! — Sammy gritou enquanto a figura do policial se distanciava. — Eu não vou estar aqui para te salvar de novo!
— Me salvar? — Carlos estancou os passos, virando-se para encarar o garoto que respirava rapidamente. Um riso nasalado ecoou pelo corredor. — Olhe para você, tem certeza do que está dizendo? O que quer provar?
Sammy engoliu em seco ao vê-lo se aproximar, sem notar deu um passo para trás, encostando as costas na parede. Embora houvesse recuado, ele mantinha contato visual com Carlos, sem desviar sequer um instante. Não iria ser submisso, ainda mais agora que estava começando a não temer as ameaças dele.
— Que você precisa de mim.
(...)
Aquela, com certeza, era a pior situação que Castiel já estivera. Ele sentia as paredes espremê-lo, dificultando sua respiração, a visão turvando pelo bombardeio de decisões que teria de tomar. Pesando-as, de um lado havia sua vida como uma pessoa comum, de sentimentos comuns e sensos ditados como corretos, e do outro sua vida profissional, que o alertava a negar todas as oportunidades que surgiam. Porque esse era o seu dever como policial, um membro e oficial da lei. Entretanto, não lhe surpreendia perceber que já dissera sim a Dean Winchester muito antes de estar naquele quarto sob a tortura dele.
Porém, ele poderia mesmo lidar com aquela interferência?
Enquanto Castiel se decidia, Dean Winchester esperava pacientemente pela resposta dele. E ele rezava para que o policial fosse esperto, caso contrário não poderia assegurar o dia de amanhã. Ele precisava daquela ajuda, precisava ao menos uma vez na vida sentir que não estava se afundando sozinho. Apesar de tudo, independentemente da decisão de Castiel, Dean iria em frente. Sempre.
— Dean... — Ivan adentrou o quarto acompanhado por Ambrose. — Estamos indo novamente ao Beco, como pediu.
— Sim. — O chefe não se deu ao trabalho de olhá-los, sua atenção exclusivamente voltada para o policial. — Tomem cuidado.
Logo, os dois homens ficaram sozinhos novamente. Aquele silêncio pesado e palpável incomodando o ambiente.
— Então, Castiel... Qual é a sua resposta?
Não havia mais o que pensar, sua vida a partir de agora estava nas mãos de Dean Winchester e, por incrível que parecesse, ele não se arrependia de olhar fundo nos olhos verdes e se ver ali, sustentando um sorriso leve e natural. Muitos diriam que ele sucumbira ao cativeiro e se rendera a tortura, literalmente o avaliariam com a Síndrome de Estocolmo, entretanto não era assim. Castiel sempre fora um homem justo, e jamais se desviaria desse caminho.
— Se quer minha ajuda, terá que me soltar. Minhas pernas estão dormentes, Dean.
O Torturador se aproximou cauteloso, sem saber ao certo como julgar aquelas palavras. Sacando do bolso um molho de chaves, livrou as pernas do policial das pesadas correntes, vendo uma expressão de alívio tomar contar de Castiel.
— E mais uma coisa: Terá que confiar em mim. — O policial dizia enquanto se colocava de pé devagar. O formigamento se alastrava pelos membros inferiores, não dando o devido suporte ao seu peso. — Acho que não precisa mais me ver como o homem que quer te colocar na cadeia.
— Eu já confiei em algumas pessoas antes e elas me abandonaram. — Era impossível não se lembrar do vazio que Chester e Alan deixaram, contudo admirava-os por terem decido seguir suas vidas longe de todas aquelas atrocidades. A propósito, valera à pena ter matado tantas pessoas? Não que estivesse se arrependendo de cada passo que trilhou até aquele momento, porém, estranhamente, aquilo passou a ser simples atos. Um molde de seu passado desesperado. Os sangues daquelas pessoas nunca sairiam de suas mãos. — Como posso ter certeza que quando estivermos bem perto de encontrar o meu irmão, você não me dará as costas?
— Eu sou um homem de palavra, Dean. Não irei traí-lo só porque pode ser uma rota simples para mim. — Castiel agora se sentia melhor, o fluxo de sangue nas pernas aumentara e já podia ficar de pé. Caminhou até Dean, mantendo uma distância mínima. De perto, ele não via mais do que um homem assustado e que não sabia mais que rumo tomar. E se ele queria que fosse sua direção, assim faria.
Afeiçoara-se por Dean, não ao ponto de perdoar tudo o que ele fez, pois lhe rendera muitas noites sem dormir e destruíra famílias, todavia estava muito longe de maldizer o caráter dele. Colocou-se diversas vezes no lugar dele, imaginando se teria força e coragem para fazer e seguir massacrando todos para ficar mais perto do irmão. E a resposta Castiel se envergonharia em proferir.
— Eu... — Dean começou, porém sem saber como terminar. Um simples obrigado mudaria as coisas? Faria Castiel vê-lo de uma forma diferente? Não, ele sabia que não. Talvez ainda não fosse à hora de agradecer. Teria esse momento. — Está bem, Castiel. Vou acreditar em você.
Antes que Castiel pudesse expressar qualquer reação, deparou-se com a mão de Dean estendia em sua direção. Os dedos longos e calejados, cansados de sempre terem que se movimentar em mal do próximo. Quase imperceptível havia um sorriso bailando nos lábios do Torturador — que ele confessava não ser mais necessário intitulá-lo assim naquele momento. Lentamente, Castiel uniu as mãos em um aperto forte.
Após alguns instantes, Dean entregou roupas limpas e uma toalha a Castiel, deixando-o a vontade para se lavar. Apesar de ainda estar tentando se habituar a situação de que agora eram parceiros, o Winchester ainda mantinha um pé atrás. Esperou paciente sentado à mesa, bebericando uma garrafa de cerveja. Logo passos se aproximaram e Castiel apareceu trajando calça de corrida, moletom e tênis. Os cabelos molhados bagunçados, penteados apenas com os dedos. Uma imagem rebelde, comparando-se com o habitual estilo do policial.
— Deve estar com fome. — Dean empurrou um prato contendo um sanduíche e uma lata de cerveja. Era tudo o que ele tinha a oferecer. — Eu não sei como iniciar isso, acho que devemos esperar Ivan e Ambrose voltarem.
— Certo, faremos como achar melhor.
— Ivan e Ambrose talvez não confiem em você, mas não precisa se preocupar com eles. São pessoas boas.
— Eu sei.
E Dean não estava gostando daquela falta de interesse do policial. A sobrancelha franzida denunciava, porém Castiel parecia não vê-lo mais. Contudo sua frustração não durou muito ao perceber que fazia horas que não oferecia nenhum alimento a Castiel. Dean quase sorriu ao vê-lo se dedicar ao sanduíche, e não era preciso pegar a lata de cerveja para saber que já estava na metade.
E a partir daquele dia eles não seriam mais Policial e Assassino, apenas dois homens lutando por uma única causa por um caminho ainda mais perigoso.
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