Marcada
17 Plano B
Notas iniciais
Os ruídos eram como a interferência de um rádio, e penetravam aos poucos na minha mente estimulando-a a despertar. Um cheiro pútrido carregado pelo ar, varria minhas narinas, dificultando minha respiração. Sinto o frio das rochas que se encontravam abaixo de mim, me fizera levantar. Visões turvas, acompanhadas de sussurros sucessivos me instigavam a descobrir onde eu estava, não havia uma referência sequer,somente frio, escuridão e trevas. O cheiro é rapidamente substituído por uma fragrância de amêndoas, gritos abafados chamavam minha atenção.
— Derick! – corro em sua direção ao avistar seu corpo estirado em meio às pedras. O casaco de couro preto se arrastava sobre a poça de sangue acumulado ali. – Ah meu Deus! O que houve? – Perguntei enquanto apanhava-o em meu colo e analisava suas doloridas feições.
— Jess... – ele tossia intensamente como se fosse cuspir os órgãos a qualquer momento.
— Shhh! Não fale, eu estou aqui! Vou cuidar de você! – embalei seu rosto em meus braços, deixando que seus cabelos se espalhassem por meus dedos. O afastei um pouco quando o vi fazer menção de dizer algo.
— Jess... – mais tosses, mais contrações, podia sentir a agonia escorrendo por aquele suor frio. – Eu preciso que saiba de algo! – ele sussurrou entre tosses.
— Pode me falar depois, está bem?! Vamos sair daqui, vamos voltar pra casa, você irá me ensinar artes marciais e vai rir de mim por não conseguir acertar nem o tronco da árvore! Vamos sair dessa, eu prometo! Podemos travar um duelo, e então------
— Eu te amo! – ele disse, e as palavras antes prestes a saltarem da minha boca, simplesmente despencaram, uma a uma, me deixando sem saber o que dizer. Fiquei encarando aquele sol refletido no dourado daqueles olhos, e senti meu coração se comprimir até se tornar uma bolinha de gude.
— Derick, eu... – um novo barulho se alastrou pelo lugar, provocando um eco imenso. Busquei a rapidamente o autor do barulho, mas não havia nada. Retornei o olhar para o meu lobo negro, mas este já estava desacordado em meus braços.
Levantei do lugar onde estava, e novamente o barulho se espalhou, dessa vez mais nítido. Eram tosses e gemidos de dor. Após verificar se Derick estava respirando, caminhei alguns passos receosos em busca de mais algum sobrevivente. E eis que escondido sob as sombras e escorado numa grande pedra rochosa, vejo um homem. Minha respiração congelou quando vi suas madeixas loiras escorregarem para o lado, meu coração já não batia mais quando fui engolida por aquele mar presente naquele par de olhos azuis.
— Oi, gatinha! – sua voz era rouca e fraca, mas ainda assim o vi fazer esforço para pronunciar aquelas palavras. As lágrimas escorriam freneticamente da minha face ao avistar aquele sorriso mesmo com ferimentos tão graves. Pude notar uma gota de sangue escorrer por sua testa e pousar no canto daquela boca de lábios macios, lábios chorosos. Seu sorriso se desfez quando ele notou meu frenesi de soluços e lágrimas, não me contive.
Não precisou de mais nenhuma palavra, um abrir de braços fora o suficiente para fazer minhas pernas se moverem sozinhas, e em sua direção. Pernas essas que logo ficaram pesadas, tão pesadas que não se moviam mais, Derick tossia mais forte e gritava de dor atrás de mim. Em seguida, fora a vez de Kaeth, esse despejava sangue pela boca como se fosse enxaguante bocal, fiquei aflita. Ambos pareciam precisar de ajuda, e eu não sabia em que direção ir. Minha marca começara a queimar intensamente, e como num movimento involuntário, eu já estava caminhando em direção a um deles. E somente quando encostei em Derick, a dor cessara. Dois segundos depois um grito de dor, dor... era isso que resumia tudo aquilo. Olho para trás e a vejo, Lilly com suas asas vermelhas exalando luxúria e sua espada exalando poder. Espada essa que estava cravada perfeitamente no peito de Kaeth, esse já pendia sob a lâmina, desfalecido. Os sussurros a minha volta tornavam-se mais intensos, minha garganta já tinha atingido seu limite máximo em meio a tantos gritos que proferia. Tudo começa a queimar, uma chama negra, Lilly sorri, todos viram corvos, um estrondo, eu acordo.
—Até que enfim, hein! – ouço uma voz falar, mas não consigo distinguir quem é. Minhas mãos estão trêmulas, forço um pouco mais o olhar e consigo enxergar com mais precisão. A minha frente, seus olhos violeta me encaravam fixamente, um vento forte faz seus cabelos prateados esvoaçarem, era Diego.
— Onde eu estou? – perguntei avaliando o lugar, mas só conseguia avistar a neblina que nos cercava.
— Bem, bem longe de casa. Tive que dar uma parada, você adormeceu e foi ficando mais pesada. – revirei os olhos tentando ignorar aquele suposto insulto.
— Talvez seja porque não estou acostumada a voar com homens que se transformam em gaviões.
— Mesmo assim, não pareceu surpresa quando me viu transformar, não é mesmo? – olhei-o de relance e foi o suficiente para notar a desconfiança pura instigada naqueles olhos arroxeados.
— É o que acontece quando se assiste muita ficção. – arrisquei, mas ele não pareceu acreditar muito. Precisava desviar sua atenção. – Mas e então, como vai ser... Você vai me prender aqui, vamos jogar pôquer até um de nós morrer de hipotermia ou tédio?
— Você é muito sarcástica para uma humana... – vi um leve sorriso se formar no canto dos seus lábios.
— E você é bem bonito para um demônio! – retruquei e ele sorriu enquanto observava a paisagem.
— Sabia que o sarcasmo foi invenção nossa? – ele começou a fazer traços abstratos na neve.
— Sério? Achei que tivesse sido inventado por algum ator pornô. Sabe, daqueles que fazem caras e bocas, aquela expressão de ironia e sarcasmo são tão legais. – ele parou os movimentos que estava fazendo e voltou a me encarar, e após uma expressão séria, voltou a gargalhar.
— O sarcasmo é uma forma de nos divertirmos enquanto fazemos pessoas como você, sofrer... Mas chega de conversa, acho que já está na hora de você contar a sua história, tenho certeza que deve ser bem interessante! – Ponderei um pouco e imaginei que conselho Sam me daria. Falar a verdade para um ser que mal conhecia não parecia lá uma boa alternativa.
— Não é nada de mais. Apenas preciso falar com Crowley, preciso da ajuda dele para algo. Entendo que esteja curioso, mas infelizmente eu não posso lhe dizer. Se você puder, por favor me levar até ele, eu ficaria muito grata! – tentei forçar o máximo de sutileza na voz, mas não surtira muito efeito. Ele se contorcia entre risos e gargalhadas, caçoando do que eu havia dito.
— Você acha mesmo... – ele parou para cessar a crise de risos – que vou te levar até ele assim, só porque me pediu por favor? Acho que você ainda não se tocou do lugar onde está , não é mesmo? Deixa eu te situar então... — suas unhas rapidamente se transformaram em longas garras que penetraram minha barriga. – E então, está se situando agora? – Podia sentir sua mão comprimindo meu estômago, a dor era insuportável. – Acha que pode me contar agora, hum?! – Não conseguia parar de tossir, ânsia de vômito acompanhada da dor intensa, era indescritível.Tentei segurar sua mão, mas ele era forte demais, com muito esforço acenei com a cabeça afirmativamente e implorei entre lágrimas para que parasse.
O sangue quente escorria pela minha barriga, e a dor do estômago recém esmagado ainda era estarrecedora! O corte era imenso e se continuasse daquela forma, iria morrer facilmente. Olhei para ele e não vi nenhum sinônimo de misericórdia ou compaixão. Ele estava certo, eu estava no Inferno e ali não encontraria nada de bom. Nenhum deles era como os Ackles, e tinha que estar preparada, pois eles também não estariam ali para me salvar.
— Está se curando... Como eu pensei, tem mágica em você! Diga-me flor, o que você é? – ele entrelaçou seus dedos rispidamente nos meus cabelos, puxando-os para trás com força. Uma lágrima escorreu, e ele enxugou antes que descesse pela minha face. – Será que terei que lhe situar novamente? Garanto que serei bem mais severo dessa vez... – sua ameaça fora o bastante para me fazer ignorar todos os supostos conselhos que Sam me daria naquele momento. Seja lá o que me esperasse, não poderia ser pior do que a dor que havia sentido.
— Eu... eu lhe direi tudo!
— Hum... – ele puxou minhas madeixas com mais força e pude sentir seus olhos violeta adentrarem minha alma e percorrê-la por inteiro. – Tudo bem, você tem cinco segundos até eu arrancar seus braços, começando... – ele olhou para o relógio. – agora!
— Espera! O que? Não-------
— Cinco... quatro-----
— Eu sou um receptáculo! – gritei e ele parou.
Ficamos ambos nos olhando por longos instantes. Sua expressão parecia mais séria que antes. Seus olhos se estreitaram e temi quando o vi se aproximar.
— Do que você ta falando? Os receptáculos foram extintos a eras atrás! Vai pagar caro por essa mentira! – meu coração parou quando vi seu semblante assassino.
— Não, eu não estou mentindo! Olha! – levantei a manga da camisa, já erguendo o braço e deixando a mostra a marca. Ele a analisou fixamente, sua feição enrijecera, e depois pareceu aliviada. Até que o vi se aproximar lentamente, e segurar meu braço com uma sutileza incomum. Seus dedos começaram fazer traços abstratos na minha marca, até ele finalmente me encarar e sorrir. Não sabia se estava aliviada por não estar morta, ou confusa por não entender nada do que estava acontecendo. Ele me olhava com ternura, como se fosse o Romeu e eu, a Julieta.
— Viu? Escuta, eu não sei como isso veio parar aqui, e nem quero saber. A única coisa que eu quero, é tirar essa coisa de mim e voltar pro meu mundo e viver a minha vidinha pacata e tediosa, ok? Então se você puder-------
— Lilly! – ele disse, e seus olhos se encheram de lágrimas, estava mais perdida que cego em tiroteio.
— Não, não! Jessie... Jessie Parker!
— A marca, você é um receptáculo dela, não é?
— Sim... Como sabe?
— A marca... – ele segurou meu braço novamente e começou a pincelar com o próprio dedo formando um desenho.
— Uma foice? – perguntei ao notar o desenho que estava se formando.
— Sim, mas se você virar de cabeça para baixo... Se torna um “L”, de Lilly! – mediante ao seu toque, a marca começara a brilhar, e finalmente pude avistar o tal “L”.
— Você a conhecia? – perguntei, e o vi desviar o olhar para algum ponto cego. Seu sorriso se desfizera e pude ver uma ponta de melancolia naqueles olhos. Um vento frio se dispersara e alguns flocos de neve se misturavam as suas madeixas prateadas. – Pelo visto a conhecia bem... Qual a sua relação com ela?
— Ela era minha noiva!
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Casa dos Ackles...
— Aconteceu alguma coisa? Vi o carro dele saindo. O que ele queria? – perguntou Derick já se aproximando do irmão que permanecia sentado em sua poltrona de couro, com o olhar fixo as fagulhas que se desprendiam da lareira.
— Ele veio me pedir um favor... – respondeu Sam, sem encarar o irmão.
— Favor? Que favor? – Diante da falta de resposta e do silêncio iminente, Derick insiste... – Sam? Me diz que não é o que eu to pensando!
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— Sam! – ele grita, e ao encarar aqueles olhos acinzentados, Derick já sabia do que se tratava. – Porra, Sam! Diz que você não fez isso, cacete! – ele gritava, mas o irmão permanecia com seu queixo pendendo sobre as mãos cruzadas, e sem encará-lo. – Você sabe o que isso significa, cara? Sabe o que vai acontecer quando ela souber? O quanto ela vai sofrer?! – ele agarra a gola da sua camisa forçando a encará-lo. – Achei que fosse proibido usar nossos poderes dentro da família! – ele o solta rispidamente.
— Eu não tive escolha, Derick! Ele já havia tomado sua decisão, eu... eu não pude fazer nada! Derick? Onde você vai? – este já apanhava o casaco, indo em direção a porta.
— Cansei de ficar aqui, eu vou atrás dela!
— Sabe que não pode... – ele insiste.
— O que eu não posso é ficar aqui com um bando de idiota que só faz merda, enquanto a garota que eu amo ta sofrendo no Inferno. Foda-se se eu não posso voltar, eu cavo um buraco, eu vou num disco voador... mas vou tirá-la de lá!
— Espera! – Sam grita, e a porta é impedida de ser fechada.
— O quê?
— Ele veio por outro motivo também, nós temos um plano, uma ajuda na verdade. A gente não pode ir até lá, mas tem alguém que pode!
— É? E quem seria?
— Eu! Ao vivo e a cores! – surge Kristen carregando consigo um conjunto de malas. –E então?Podemos iniciar a operação resgate?!
Ambos se entreolharam, e com um olhar excitado e um sorriso empolgado, ela indaga;
— Estou ansiosa para voltar pra casa!
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