Marcada
13 Paradise
Notas iniciais
Já haviam passado três horas desde que havia entrado na Scaglietti do Sam. Ele falava algo sobre como eram os anciões, e que como seria difícil extrair alguma informação deles. Não conseguia acompanhar seu raciocínio direito, estava concentrada demais na paisagem, e minha mente já pairava longe dali. Não ouvi a voz de Derick a viagem toda, ele permanecia focado na visão à sua frente, não havíamos trocados muitas palavras desde a última noite. Sinto minha bolsa se remexer, e vejo Key pôr a cabecinha para fora, tento escondê-la rapidamente e abafar seu miado. Logo em seguida Sam começa a espirrar freneticamente, forcei uma expressão despreocupada.
— Há algum animal aqui? – o ouço perguntar e entro em pânico.
— Ué. Temos parte de uma matilha aqui, serve? – tentei ironizar entre pequenas risadas, não surtira muito efeito, pois ele continuava a me fuzilar com o olhar pelo espelho do retrovisor. – Tá, desculpa era brincadeira...
— Você trouxe algum bicho de pelúcia ou algo do tipo consigo?
— Eu? Claro que não! Já passei dessa fase! – menti com uma pressão absurda daquela sobrancelha arqueada pra mim.
O restante do percurso fora tranquilo. Sam continuava espirrando e reclamando sobre a alergia, Derick sem dar a mínima e eu a fazer cara de paisagem. Tentei esconder Key o máximo possível na bolsa, e a cada olhar que surgia daquele retrovisor era uma desviada da morte. Mais duas horas haviam se passado, e finalmente tínhamos chegado ao nosso destino. Havíamos trago todas as malas conosco, e a reserva do hotel já havia sido encerrada, senti uma pequena tristeza em ter que deixar aquele lugar tão luxuoso.
— É... Não mudou nada, hein? – Derick indaga, fechando a porta atrás de si e observando o lugar.
Era simplesmente paradisíaco. Estávamos no paraíso literalmente. A casa era gigantesca, e havia sido construída bem no meio da floresta, e a sua frente a imensidão do mar se exibia deslumbrantemente. Era uma ilha, mas não qualquer ilha, o lugar era uma mistura de luxo e simplicidade. Me aproximei um pouco da entrada arrastando algumas malas, e tive que segurar meu queixo para não cair. A frente da casa o que deveria ser um jardim, era uma flora incrível. Haviam árvores imensas e diversas, da onde se deslanchavam flores diferentes e coloridas. Tinha coqueiros espalhados por todo o lugar, e redes armadas abaixo daquele céu azul maravilhoso. Soltei as malas quando avistei a cena mais linda de todas... Um pequeno grupo de animais se reunia próximo a casa. Um casal de macacos comiam algumas frutas, e outros saltavam entre os galhos apanhando algumas bananas, e o som das aves ecoava de dentro da floresta. A cena seguinte me fez parar completamente, havia um tigre imenso se espreguiçando despreocupadamente sob a sombra de uma árvore. Key que já observava o lugar com aqueles olhinhos azuis curiosos, ela se encolheu rapidamente na bolsa ao avistar o tigre bocejando e exibindo aquelas imensas presas, contive uma risada.
— Alguém me explica como viemos parar no filme do Tarzan?! – me voltei para os irmãos e esperei alguma reação de surpresa, mas ele só descarregavam as malas como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
— Se está falando da casa, é nossa. – Derick disse simplesmente dando de ombros.
— Vocês... vocês... O quê?!
— Vínhamos pra cá quando queríamos passar o tempo, faz alguns anos desde então. Acabamos por deixá-la com um amigo. Pensamos em vender, mas não achamos ninguém que pudesse comprar. Achei que seria melhor ficarmos aqui até irmos à anciã. – concluiu Sam.
Eles já adentravam a casa, resolvi fazer o mesmo. De vez em quando Key teimava em sair da bolsa, e tinha que empurrá-la de volta antes que Sam percebesse, quanto mais próximos estávamos, mais ele espirrava. Derick largou as malas próximo à porta, e se jogou no sofá. Sam já ia em direção ao restante dos cômodos, resolvi acompanhá-lo. A beleza de fora refletia dentro da casa. A mobília era sofisticada e ao mesmo tempo simples, remetia o clima tropical perfeitamente. A maioria dos móveis eram feitos de madeira, incluindo a mesa de jantar e as cadeiras. A cozinha era simples, porém acolhedora. No seu centro havia uma mesa redonda e pequena com três cadeiras contadas, e uma bandeja com algumas frutas. Haviam quadros com pinturas de paisagem, uma em particular chamara minha atenção, ela retratava o pôr do sol no horizonte e as ondas do mar, era realmente linda.
Próximo à bancada avisto um porta-retrato e me surpreendo com a foto que vejo. Os três irmãos juntos na praia irradiando felicidade. Derick com um calção preto com os cabelos molhados, com o braço envolto ao pescoço de Kaeth, e com a outra mão bagunçava o cabelo do irmão que vestia um calção azul claro e sorria alegremente imitando o número dois com os dedos. Logo atrás com a sua postura ereta estava Sam bem no meio, com um calção cinza. Ele contornava o pescoço dos outros dois e pela primeira vez vi um sorriso largo estampado naquele rosto. Eles sorriam alegremente, estavam todos molhados e exibindo um físico perfeito. Olhei para aquela foto e pude sentir o amor fraternal emanar daquela imagem, me perguntei quem estaria tirando a foto. Olhei para Sam tomando seu suco de laranja despreocupadamente com aquela postura indiferente, e sorri ao notar o contraste com aquela foto em minhas mãos. A pus de volta na bancada e fiz de conta que não a tinha visto.
— Então... qual será a próxima parada?
— Eu tenho cara de guia turístico, por acaso? Vá olhar você mesma, eu vou descansar. – concluiu, repondo a jarra de suco na geladeira e seguindo seu rumo. – E a propósito – ele interrompe os passos me encarando apenas pela sua visão periférica – tem um enlatado de atum na geladeira, dê para ela. – disse apontando para minha bolsa, e só então percebi que Key estava com o rostinho e as patinhas para fora da bolsa, encarando-o ternamente. Não soube o que dizer, havia sido pega no flagra e nem tinha percebido, apenas fiquei observando-o partir.
Depois de colocar água e comida, fiquei observando-a se saciar. Aquele pêlo branquinho, e olhos azuis traziam lembranças constantes dele. Me perguntei se não seria um jeito que o destino teria dado para nos mantermos juntos. Uma brisa forte arrebatara a janela, e me aproximei me deixando tomar por aquela visão, fiquei alguns instantes hipnotizada pelo movimento das ondas. O mar parecia calmo, e o ressoar das aves fez um belo contraste, o sol estava mais baixo, deveria se pôr logo. Percorrendo um pouco mais o olhar, um objeto me chamara atenção. Havia uma prancha de surf no canto da parede; ela era branca e tinha uns desenhos abstratos muito bem detalhados. Me aproximei do objeto, e nele pude ver uma correntinha presa à sua extremidade. Era um colar com o símbolo do infinito, mas só tinha a metade dele, tomei-o nas mãos para ver melhor e sou surpreendida por uma voz que me fez enfiá-lo no bolso imediatamente.
— Gosta de surfar? – perguntou Derick já entrando no cômodo. Ele usava um calção preto parecido com o da foto, e estava sem camisa exibindo aqueles músculos bronzeados e tão bem definidos. Tentei não focar tanto naquela imagem, mas entre olhar aquele corpo de atleta e aqueles olhos dourados, eu não sabia qual era pior.
— É seu? – pigarreei antes de perguntar. Ele exibiu um sorriso ao notar meu desconforto. Como podia ser tão petulante?!
— A prancha? Não, é do Kaeth. – aquela frase foi suficiente para limpar toda a minha mente. Era como se só a pronúncia do seu nome fosse o suficiente para me deixar em transe. – Costumávamos vir aqui há uns anos atrás, era divertido até. Ele vinha com mais frequência, gostava de surfar a manhã toda, e depois ver o pôr do sol quando queria esfriar a cabeça. – olhei para o mar através da janela e por um momento pude vê-lo sentado na areia de costas para mim, a imagem se distorceu até sumir. – Mas, isso já faz um bom tempo. – concluiu retirando a prancha das minhas mãos e a pondo no lugar.
— Entendo...
— Você tem biquíni?
— O quê? – perguntei tentando assimilar a pergunta.
— Eu perguntei se você tem biquíni, ué! – disse olhando para o meu corpo como se pudesse ver através das roupas. Envolvi minha cintura com as mãos devido ao desconforto que a ideia de ficar quase despida em sua frente me causara.
— Não!
— Você não tem biquíni? – o vi arquear a sobrancelha como se contestasse que eu era um ser anormal.
— Não, ué. Não fui à muitas praias na minha vida.
— E isso aqui? – o vi balançar como um troféu a parte de baixo de um biquíni antigo que havia trago na bolsa. Tentei arrancá-lo de sua mão, mas ele era mais alto e seus músculos eram impenetráveis.
— Onde você...? Espera aí! Você andou mexendo nas minhas coisas?! – o fuzilei com o olhar, e estava prestes a fuzilá-lo de verdade. A imagem dele mexendo na minha bolsa e vendo minhas peças íntimas me fez arder de vergonha, vergonha que se transformava em raiva. – Seu, seu...
— Ei, ei! Calma, calminha... Quem você acha que foi buscar suas coisas lá na sua casa, hein? Toma aqui – ele ergueu a peça e a tomei bruscamente, e ele aproveitou a proximidade para sussurrar no meu ouvido. – Não se preocupa, não vou contar a ninguém sobre a sua calcinha de unicórnios cor de rosa! – ele ria freneticamente, e quis sufocá-lo ali mesmo. Acabei por empurrá-lo e saí pisando duro, mas ainda dando tempo de ouvir uma última “ordem”. – Te encontro lá fora daqui a meia hora, Rosinha!
Não fazia nem vinte e quatro horas que estávamos naquela ilha, e já tinha pensado em cinquenta formas diferentes de matá-lo. Pensei em sedá-lo e sufocá-lo com o travesseiro. Pensei em pegá-lo enquanto estivesse dormindo e colocá-lo numa prancha e jogá-lo ao mar para servir de comida aos peixes. Pensei até em pôr laxante na sua comida, e quando ele estivesse desesperado para ir ao banheiro, colocaria várias cobras venenosas lá dentro, mas não daria certo... Eu tinha medo de cobras.
A cada três passos que eu dava em sua direção, dois eram de recuo. Ele estava sentado na areia de costas para mim, era como se tivesse conversando com o mar. E eu, bom... estava com a parte de baixo do biquíni que ele havia roubado de mim. Ele era um preto bem básico e discreto, não chegava a ser um “fio-dental”, mas era um pouco cavado atrás. Não lembrava onde havia posto a parte de cima, então optei por uma regata preta. Meus cabelos estavam presos no alto da cabeça como num rabo-de-cavalo,deixando uma ou duas mechas ruivas a solta. Ele pareceu notar minha presença antes mesmo de se virar para mim.
— Pelo visto, foi rápida! – ele já se levantava me analisando da cabeça aos pés. Senti minhas bochechas arderem de vergonha quando flagrei seus olhos presos às minhas coxas, quis sair correndo. – Hum... Acho que tem pano demais aí – ele se aproximava olhando fixamente para minha blusa, e recuei aflita temendo o que ele pudesse fazer.
— O que você---- – ele agarrou parte do pano de baixo da regata, e a rasgou subitamente. O que antes era uma blusa, agora restara apenas um top deixando minha barriga toda à mostra. – O que você pensa que ta fazendo?! – gritei, tentando esconder os quadris com as mãos.
— Vai te dar mais liberdade de movimento... – fuzilei-o com o olhar – O quê? Ah, faça-me o favor. Se fosse um pouco mais esbelta, até que poderia cogitar alguma coisa... Mas uma minhoca pálida como você?! – o encarei e depois a mim mesma, quis enfiar meu rosto na areia como um avestruz. De todos os xingamentos possíveis, aquele fora o pior! Definitivamente, eu odiava aquele homem!
— Antes ser uma minhoca pálida, do que um troglodita feito você. King Kong é um gentleman na sua frente! – retruquei já bufando e ele apenas ria da minha reação, o que me enfureceu ainda mais. – Eu vou embora!
— Ah, não vai não! – ele se pôs na minha frente exibindo aquele tórax sarado. Me sentia uma cadela no cio perto dele! Malditos Ackles e seus físicos perfeitos!
— Por que me chamou aqui? Quer me levar pra correr na praia, por acaso?!
— Não seria uma má ideia, ta precisando perder uns quilinhos mesmo. – antes que eu pudesse retrucar, ele apanhou duas espadas atrás de si, o que me chamou atenção automaticamente. – Tá vendo essas belezinhas aqui? – ele as exibia, e só então pude notar o quão extensas aquelas espadas eram. Elas eram enormes, e suas lâminas finas se mostravam afiadíssimas, capaz de cortar qualquer coisa a sua frente. Engoli a seco quando ele as desembainhou.
— O que pretende fazer com isso?
— Te treinar! – disse, girando-as no ar, como se fossem brinquedos de plástico.
— Me o quê?! Ah, não... Eu passo! Nunca pratiquei nem futebol na escola, quem dirá artes marciais! Eu dispenso. – tentei sair de fininho, mas ele estendeu a espada posicionando-a frente a minha garganta.
— Calma, não vou te matar. Não se você me impedir. – olhei seu semblante esperando que fosse mais uma de suas ironias, mas não era. Ele estava falando sério.
— Por que isso? Não tem necessidade, vocês já são fortes o suficiente, não? Sou só uma humana inútil, não vai servir de nada me treinar.
— Você tem razão quanto ao inútil – o vi ponderar, e aliviei um pouco mesmo sob a ofensa. – Mas querendo ou não, você tem um grande poder dentro de si, não é a toa que matou os três guardiões da fênix! Acho que vai ser bom se você aprender a lutar, e usar esse poder ao seu favor. Nem sempre vamos estar por perto pra te proteger, Jess... – essa frase foi o suficiente para instalar o pânico no meu pobre e sofrido cérebro.
— Tá. O que eu tenho que fazer, então?
— Simples... Eu vou tentar te matar e você vai tentar me impedir! – tentei protestar e questionar, mas ele já corria em minha direção com as duas espadas em punho. Não esperei que ele estivesse realmente falando sério, até ver sangue escorrendo da minha face. Em poucos segundos de distração ele havia feito um corte com a espada.
— Ei! – gritei – Você ta louco?! Olha o que você fez! – apontei para o sangue que escorria da lateral do meu rosto.
— Se tivesse desviado não teria te cortado. – o vejo olhar para mim sadicamente, ele empunhava uma das espadas com mais vigor. De repente ele a lança no ar com uma precisão incrível! Por sorte consigo desviar, e ela passa de raspão. A espada estava perfeitamente cravada no tronco atrás de mim. Um pouco mais para a esquerda e ela estaria cravada no meu pulmão.
— Ei! Sério isso?! Qual é?! Você é um demônio, Derick! Eu sou só uma humana, como espera que eu lute contra você?
— Não, você é uma humana com poderes de um Deus! Respire fundo, e tente concentrar esse poder num ponto só. – tentei questionar, mas ele encarava a espada e a mim como se fosse a faca e o queijo, e ele um rato sádico e faminto de presas enormes.
— Você não... – indaguei esperando que ele não fosse fazer o que eu estava pensando.
— Ah, vou sim! Se você não pegar aquela espada antes de mim, eu vou tomá-la e cortar sua garganta com ela! – seu semblante havia mudado,ele realmente estava me encarando como um oponente. Lembrei da noite que ele tentara me matar em sua forma de lobo, é... Não podia subestimar aquele ser.
Corri o mais rápido que pude, como se minha vida dependesse disso, e estava realmente dependendo. Ele estava cada vez mais próximo de alcançar a espada, foi quando tomei um impulso maior e saltei sobre um galho caindo próximo à ela. A retirei do tronco com uma força um pouco maior devido ao seu peso. Estava tão feliz com meu feito que nem notara que Derick já vinha em minha direção como um touro! Tentei desviar, mas ele era rápido! Com um chute ele tirara a espada da minha mão que caíra alguns metros à frente. Tentei buscá-la, mas ele me deu uma rasteira e caí ao chão. Me arrastei sobre a areia a fim de pegá-la de volta, mas o atrito não ajudava. Ele empunhava a espada mais uma vez, e rolei na areia tentando desviar, a espada estava cravada nela, ele com certeza não estava ali para brincar. Ele repetiu o gesto e consegui desviar de novo, já me pondo de pé. Corri em direção à espada que havia caído, mas não houve tempo. Ele saltara de um dos galhos me golpeando com um chute, e em seguida puxando meus cabelos para trás, notei um olhar hesitante, mas logo ele se fora, Derick me atira contra um tronco violentamente, e quase desmaio.
— Chega, Derick! Chega, por favor... – pedi já arfando e sem conseguir falar direito, mas ele não parecia se comover, sequer alterara a postura.
— Você precisa aprender a se defender! Nem sempre vai ter alguém pra pular na sua frente, Jess! Use a força que tem dentro de você, e lute! Lute para sobreviver!
Ponderei um pouco sobre aquelas palavras antes de me erguer novamente. Ele estava certo! Não podia viver sob os cuidados dos Ackles, eles já haviam se sacrificado demais por mim. Precisava ir à luta! Tentei me prostrar em posição de batalha novamente, mas minha visão estava sem foco, o impacto havia me deixado zonza. Ele apanhou a espada na areia e a jogou para mim. Tentei empunhá-la da forma certa, mas o peso e a fraqueza não facilitavam. Corri em sua direção, e tentei golpeá-lo, mas fui imprecisa demais. Ele segurou meu pulso puxando-o para baixo me impedindo de movimentar a espada, e a com a outra mão ele me segurava, foram três chutes na costela e só então ele me jogou longe. A areia subia, e eu tossia enquanto cuspia sangue. Tentei me levantar mais uma vez, mas meu corpo todo doía, estava sem forças.
— Pelo visto não está conseguindo se concentrar, não é? Talvez precise de um pouco de motivação... – o vi se aproximar arrastando a lâmina no solo, fazendo a areia subir. Tentei falar algo, mas não tinha forças o suficiente. – E se eu te der um bônus... Talvez você se esforce mais, não? – ele segurava meu cabelo, puxando-o levemente para trás a fim de me encarar.
— Bônus? – perguntei entre tosses, e mais sangue.
— Há uma maneira de quebrar o pacto que fez com Kaeth, e trazê-lo de volta. – essas palavras foram o suficiente para me alertar. Meus olhos facilmente encontraram foco, e meu semblante deveria estar notavelmente interessado, pois assim que percebeu minha reação, Derick me soltara.
— Mas, mas... Como isso é possível?!
— Em resumo? Existem uns caras no submundo que podem lhe conceder alguns desejos. Pessoas os procuram quando precisam quebrar as regras, ou conseguir algo irrefutável. Mas pra isso você vai ter que passar por alguns testes que exigem muita aptidão. Testes que são difíceis até mesmo pra mim. Se você não estiver cem por cento certa do que quer, pode morrer no processo. Mas fraca do jeito que está agora, não vai conseguir nem entrar no submundo. – concluiu já me dando as costas e retomando seu rumo.
Levei um certo tempo até assimilar toda aquela informação. Vi uma pequena fagulha se ascender dentro de mim e se transformar numa forte chama. Apesar de tudo, ainda havia esperança! Não importava que provas eu tivesse que enfrentar, eu iria quebrar esse bendito pacto! Com um pouco mais de força, consegui me levantar e apanhar a espada. Respirei o mais fundo que pude, e senti pequenas partes do meu corpo arderem, como se tivesse uma corrente elétrica dentro das minhas veias. A imagem de Kaeth veio a minha mente, e toda a coragem e determinação que tinha, se concentrou naquela espada. Corro em direção à Derick que ainda caminhava de costas para mim. Ele se vira, e rapidamente desvio saindo de sua visão. Ele observava surpreso ao seu redor, mas fora tarde demais. Saltei de cima de um dos galhos de um ângulo que ele não avistara, entrelacei sua nuca entre minhas pernas e o joguei no chão, fazendo-o soltar a espada que escorregou para longe.
Ele me olhava surpreso, e tentava ir em direção à espada, mas senti como se pudesse deslizar sobre o solo, tinha adquirido uma velocidade imensa em pouco tempo. Ultrapassei-o no caminho, apanhando sua espada caída ao chão, e subi no tronco da árvore tomando impulso, e num salto mortal, o golpeio pelas costas jogando-o contra uma árvore. Há sangue escorrendo de sua testa, ele a toca e observa abismado. Vejo raiva transbordar daqueles olhos dourados, ele corre em minha direção, e por pouco não perco a postura e deixo me levar pelo medo. Ele avança como um touro em minha direção. Tento golpeá-lo com um chute, mas ele segura minha perna no ar, me lançando longe.
Antes de cair, consigo recuperar a postura, corro na direção oposta atraindo seu olhar, e com um novo salto corto alguns cipós fazendo uma árvore despencar. Um momento de distração sua fora o suficiente, salto por cima de seu ombro, com uma das mãos agarro seu braço puxando-o para trás o máximo que podia, e com a outra mão empunhava a espada que já tinha sua ponta a milímetros de distância da sua garganta. Nós nos entreolhávamos, seus olhos dourados estavam fixados à mim. Não parávamos de arfar, seu olhar intercalava entre a espada apontada para sua nuca, e para o meu rosto que estava próximo ao dele. Só depois de notar a proximidade excessiva, eu o solto. Sorrindo intensamente, exibindo minha espada, assim como a minha vitória.
— Parece que achamos sua motivação... – o ouço dizer num tom seco e frio. Meu sorriso vitorioso logo se desfez ao notar a decepção estampada naqueles olhos amarelos. Abri a boca para contestar, mas fui interrompida pela voz de Sam, ele nos chamava da varanda da casa. Ambos fomos em sua direção, sem mais trocas de palavras ou de olhares.
Algumas horas depois...
Já passava das oito da noite, e finalmente havíamos chegado até a tão falada “anciã”. A viagem havia sido tranquila, ninguém havia falado nada e achei melhor permanecer em silêncio. Não parava de lembrar do que Derick havia me dito, mal podia esperar para romper aquele pacto e vê-lo de novo. Fui retirada dos meus pensamentos pelo barulho da porta do carro. Todos haviam saído, nós havíamos chegado. Não havia ninguém e nenhuma residência próxima. Era um verdadeiro deserto, e o vento frio me trouxe um arrepio que me alertava que algo ruim estava para acontecer.
— Ué, mas ela não deveria estar aqui? – perguntei vasculhando o lugar em busca de alguma alma viva.
— Ela é uma anciã, eles não costumam viver em sociedade fora do seu clã. Os exilados então vivem escondidos por questão de segurança. – explicou Sam, já trancando o carro.
— E ela vai nos dizer como tirar isso de mim? – perguntei apontando para a marca em meu braço.
— Eu não sei. Não dá para prever se ela irá nos ajudar ou não, principalmente por ser uma anciã exilada. Não sabemos os motivos pelos quais a expulsaram. Mas se atentem a alguma coisas – ele me encarava como se estivéssemos prestes a adentrar o território inimigo. – Não fale nada se não for perguntada, não a olhe nos olhos, não toque em nada, e se possível nem pense em nada! Se ela achar que você está desacatando-a, ela irá te matar num piscar de olhos e não poderemos fazer nada. Também não demonstre medo, quanto mais segura estiver, melhor! Entendido?
— Hum... Não olhar nos olhos, ok! Entendi!
— Ah céus, não sei por que ainda insisto! – o vi revirar os olhos, e assim todos partimos.
Caminhamos mais um pouco até chegarmos no meio do nada. Tentei questionar se o lugar era aquele mesmo, mas Sam parecia tão concentrado que temi por minha vida caso perguntasse. Derick já parecia despreocupado como sempre, só olhava ao redor em busca de rastros que não fossem os nossos. Sam caminhava alguns passos à frente, e o vejo cortar a própria mão com um pequeno punhal, ele a espreme até sair uma quantidade considerável de sangue. E de repente o vejo escorrer pelo solo formando algumas palavras em latim que não pude identificar o significado. O chão começara a tremer, e do solo se erguera três colunas, cada uma delas continha uma pedra de cor diferente. A de Sam era uma pedra verde, a de Derick era vermelha, e a minha era roxa. Sam nos encarou novamente e fez sinal para que nos aproximássemos. Ele pôs a mão sobre a pedra, e a mesma começou a brilhar intensamente, e em seguida pediu para que fizéssemos o mesmo.
— O que ele ta fazendo? – sussurrei para Derick que estava mais próximo.
— Para conseguirmos falar com um ancião, antes temos que selar um compromisso de troca. Você deixa parte da sua alma aprisionada na pedra como garantia que irá voltar, mas se acontecer algo errado durante o percurso, você ficará aprisionado aqui para sempre. Agora vamos... – ele me puxou pelo braço levemente me levando a coluna erguida a minha frente. Ele tocou na vermelha e ela começou a brilhar assim como a de Sam. Era minha vez, ergui minha mão relutante em direção à pedra e apoiei-a sobre a mesma. Olhei para os dois ainda hesitante e temerosa, mas ambos me olhavam ternamente e sabia que aqueles olhares me diziam que eu poderia confiar neles, e seguir em frente. Um pouco mais segura, respirei fundo e fechei os olhos, tentando repassar toda a minha energia para aquela pedra. Abri-os lentamente e vi as três pedras brilharem intensamente em meio à escuridão da noite. O chão voltara a tremer, e dele erguia-se um enorme templo. Era chegada a hora...
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