Marcada
19 O Início do Fim.
Notas iniciais
Não me lembro bem em que exato momento comecei a cochilar, o tempo simplesmente parecia não passar ali. Com a pele enrijecida, amaldiçoei aquele vento frio que penetrava meus poros, o que contradizia toda a lenda de que o Inferno era quente, acreditem, não é! Busquei algum resquício dele ou de alguma propriedade ou alma viva, mas nada encontrei exceto pelo amontoado de neve que nos engolia ali. Alguns passos a leste e tenho uma visão que me faz cair de joelhos; um lobo branco, sentado de costas poucos metros a minha frente. Sua pelagem era cheia, macia e esvoaçava sob o vento gélido. Meu coração já não batia mais, não sabia como ainda estava viva, pois não sentia meu pulmão expulsar o ar. Milhões de imagens bombardeavam minha mente como uma metralhadora, pés cravados no chão. Sua cauda balançava de um lado para o outro em movimentos leves fazendo marcas na neve. Garganta seca, lábios trêmulos...
— Kae-----
Minha língua trava quando avisto um par de violetas olhando pra mim ao invés de um oceano.
— Diego... – digo, com mais pesar do que gostaria. Tentei esticar os lábios e disfarçar, mas não havia disfarce para aquilo, por um momento tive o mundo em minhas mãos, e agora o havia perdido em meio aquele arroxeado que me observava solenemente.
— Algum problema?
Nem tinha visto o momento em que ele havia se transformado de volta. O lobo branco agora tinha pernas, usava uma camisa preta de algodão com mangas compridas, deixando a mostra apenas metade da mão. Um cachecol vermelho e preto com estampa xadrez que agora era envolvido levemente ao redor da minha nuca por cima das minhas madeixas ruivas.
— Você parece mal. – ele se ajoelhou na neve a fim de igualar as alturas. – Está com febre? – tocou minha testa com o dorso da mão. – É, está com febre, deve ser o frio.
O vi se aproximar de uma árvore de médio porte, e como se estivesse arrancando uma simples muda, ele retira um enorme galho, partindo-o em várias partes.
— Vai fazer o lance do palitinho e tentar fazer fogo? Homem das cavernas!
— Tsc, por favor! Aqui é habilidade pura! – vi uma pequena chama se formar na sua palma da mão e se transferir para a madeira que rapidamente começou a queimar.
— Tá... – exclamei observando aquela fogueira e depois olhando para ele. – Você é um Pokemon, está comprovado! – ele me olhou de forma estranha, como se não entendesse a referência, mas pareceu se contentar em observar minhas risadas frenéticas.
— Está com fome?
— Por quê? Você cria comida também? – só então havia parado para pensar, fazia dois dias que meu pobre e solitário estômago não via alimentos.
— Pode-se dizer que sim... – o vi tirar atrás de si uma corda com alguns grandes peixes atrelados, o que até então, nem havia notado.
— Ual... Você é Jesus em versão Pokemon, entendi... – para o meu azar, dessa vez ele havia entendido a referência, e notei a reprovação naquele olhar indiferente enquanto segurava os peixes próximo a fogueira.
— Quer um conselho? Não nos compare com os lá de cima, nunca! – acenei lentamente em confirmação.
Meia hora depois já havíamos nos fartado. Meu estômago parecia sobrecarregado, e o pequeno “aquecedor” que ele havia montado,tornava propicio um cochilo. Ultimamente minha carga horária de sono havia aumentado consideravelmente. Ele permanecia sentado do outro lado portando um pequeno galhinho que usava para mexer a madeira e espalhar melhor o fogo. O movimento dançante das chamas enalteciam ainda mais sua imagem. Era a primeira pessoa cuja eu não conseguia distinguir a expressão, não havia uma. Era como um livro de páginas em branco, um enigma, uma incógnita, o maldito “x” da questão. Parei para observar o cachecol que ainda me mantinha aquecida, tinha um cheirinho adocicado, e era aconchegante. Olhando para aquele céu sem nuvens, me perguntei o que os Ackles estariam fazendo agora... Sam tomando seu chá na sua xícara francesa, Derick treinando artes marciais, e Kaeth... Provavelmente já estaria de volta a mansão, e estaria na companhia de uma bela loira de seios fartos, o que me levou a olhar para os meus, e a ausência deles, realidade cruel! Por fim, deveriam estar de volta a realidade deles, realidade a qual eu não fazia mais parte.
— Cuidado, se pensar demais pode acabar dando tilt! – o vi gargalhar exibindo aquele conjunto de dentes perfeitamente brancos.
— Hum? Ei! Isso foi cruel! – joguei um pouco de neve nele, mas passara longe, minha mira era péssima!
— Um pouco mais pro lado e poderia ter acertado a árvore!
— Há-há-há! Muito engraçado! – ironizei. – Mas e você, também parece muito pensativo, algo errado? – perguntei e o vi hesitar por um momento antes de responder.
— Meus pensamentos são muito complexos para uma mísera humana entender.
— Mas não sou humana, devo-lhe lembrar... Sou a encarnação de uma poderosa deusa! – me gabei, e só então percebi a merda que havia feito. Para mim, era apenas um receptáculo de uma deusa qualquer, para ele, era a encarnação do seu verdadeiro amor!
Fui engolida por um profundo olhar por longos segundos, o senti penetrar na minha pele, não demorou muito para eu começar a fazer cosplay de pimenta. Pigarreei antes de mudar de assunto.
— E então... Sua família, onde está? – Seus olhos rapidamente procuram abrigo em outro lugar, e pude sentir uma onda de tristeza emanar dali. – Tem irmãos? – insisti.
— Sim, quatro. – disse, ainda sem me encarar de volta.
— Que bacana! Eles--------
— Eles morreram! – disse naturalmente, e minha garganta se fechou. Não sabia como responder aquilo.
— Sinto muito... – fora o máximo de palavras que pude juntar.
— Um deles sobreviveu, vai conhecê-lo em breve...
— Sobreviveu? Foi um atentado?
Ele me encarou por um breve momento, olhou ao redor e largou o galho a sua frente.
— Sim. Um clã de miseráveis os mataram. Jurei que vingaria suas mortes! – podia ver o ódio transbordando entre suas pálpebras.
— Mas por que eles fizeram isso?
— Uma série de coisas. Mas tudo começou com a minha irmã mais velha, Anastácia era o seu nome. Ela era muito forte, apesar de ser uma Quatro, poderia liquidar um Dois facilmente. Ela nunca se importou em mudar sua classe, queria ser forte apenas para proteger a família, mas acabou por esquecer de proteger a si mesma.
— Como assim?
— Ela era muito poderosa, quando vestia sua armadura era quase invencível, mas havia um lugar... um único lugar em que a armadura não conseguia proteger... O coração!
—--------------------------x---------------------------x-----------------------------
Anos antes...
Já passavam das quatro da tarde, o céu aos poucos se despedia do Sol, as aves ressoavam entre as árvores anunciando o toque de recolher. Homens iam e vinham, e aos poucos o fluxo de pessoas ia diminuindo, e isolada daquelas idas e vindas, daquele alvoroço e o que chamam de cotidiano, uma jovem que expelia seu cansaço entre uma arfada e outra, continuava com seu treinamento viril. Isenta de qualquer companhia, a floresta era o seu campo de treinamento, sua arma era uma espada com o triplo do seu peso, e tudo que sua visão pudesse focar, poderia vir a ser um alvo fácil. A roupa de couro um pouco desgastada cobria-lhe a camisa verde de algodão que roçava na pele suada. Os cabelos castanhos claros escorriam por suas costas até a altura de sua cintura em uma só trança voltada para trás. Seus olhos negros permaneciam focados e eram sempre acompanhados por movimentos sucessivos seguidos de cortes no ar, era ágil como o vento num desfiladeiro.
Mais alguns movimentos de artes marciais e ela é interrompida por um garotinho que repentinamente surge a sua frente disputando espaço com a sua lâmina que tem rapidamente seu movimento interrompido em pleno ar. Ele aparentava ter os seus nove anos feitos, seu cabelo cor de gelo era bem cortado e ao mesmo tempo desarrumado, seu nariz fino e bem afilado era exibido num rosto que parecia ter sido feito à mão, um perfeito boneco de porcelana! Seus pequenos olhos cor de violeta exploravam o lugar com o vigor que só uma criança tem. Suas roupas eram de algodão e remendadas entre um tecido e outro, ele era magro, o que deixava a mostra sua clavícula que saltava para fora da costura.
— Diego! Sabe que não pode vir aqui! – repreendeu-lhe a mulher já guardando a espada.
— Desculpa, mana, mas eu queria ver você treinar, já que não me ensina a lutar! – bufou o garotinho torcendo o pequeno nariz.
— Sabe que não pode, não ainda. És muito novo, “D”! Quando crescer prometo que-------
— Quando crescer, quando crescer... Quero aprender agora! Quero ser forte como você! – insistiu o garotinho cruzando os finos braços e produzindo seu pequeno drama.
— Ora... Deixe de melancolias! És um homem ou não?! – ele persistia em sua atuação, sem perder a pose, claro. – Venha cá! Quem é meu irmão preferido? Hum? – ela afaga as madeixas prateadas e logo a pose se desfaz dando espaço a um pequeno sorriso incontido.
— Ana... – alertou o pequeno, já se afastando lentamente com o olhar fixo atrás da garota.
— O quê? – ela acompanha seu olhar e a reação é quase que instantânea. – Abaixa! – gritou, se jogando por cima do menino e desviando agilmente do golpe.
— Quem são eles?
— São demônios selados, não sei o que estão fazendo aqui.
Haviam dois deles, eram feras de quase três metros de altura, não tinham pele, apenas uma espécie de gosma em volta de si, mas tinham forma própria. Eram esbranquiçados e possuíam algumas manchas pretas abstratas pelo corpo. Não havia um rosto formado ali, não haviam olhos, nariz... Apenas uma bocarra gigantesca que expelia um liquido esponjoso que gotejava por um conjunto de presas enormes. O primeiro que havia saltado, acertara um tronco em cheio e havia se despedaçado, mas como um passe de mágica, já se regenerava rapidamente. O outro que os cercava parecia mais inteligente, apesar de não apresentar o sentido da visão, era como se estivesse estudando cada detalhe do cenário.
— Ana... Eu estou com medo! – indagou o garoto já se escondendo entre as pernas da irmã.
— Calma... Vamos sair dessa! Lembra quando brincamos de pique esconde da última vez e você me achou bem na hora que eu estava prestes a correr? Lembra como você teve medo de perder para mim e correu o mais rápido de que pôde?
— Sim... – confirmou o menino, agora, mais calmo.
— Faz de conta que esses bichos estão brincando de pique esconde com você.
— Mas---------
— Você quer perder pra eles, “D”? – ela apanhava seu fino rostinho entre as mãos. – Vamos lá, eu sei o quanto você odeia perder!
— Tudo bem. – ele confirma com um fraco acenar de cabeça.
— Esse é o meu garoto! No três você corre, está bem?!
— Mas e você? – Quis saber o rapazinho, que já contraía as pequenas pálpebras para impedir as violetas de transbordarem.
— Eu ficarei bem, vou derrotá-los, eu prometo! – enfatizou com um sorriso.
— Como sabe disso?
— Porque eu sou invencível, bobinho! – ela afagou-lhe as madeixas uma última vez. – Pronto? – ele consente. – Um, dois... Três!!! – ele corre atraindo rapidamente a atenção do primeiro monstro, o que não aparentava racionalidade.
Ana corre em sua direção a fim de impedi-lo, mas é interrompida pelo outro demônio que já se prostrara a sua frente. Esse ainda não havia esboçado nenhuma reação, e era incrivelmente ágil.
— Sabe... – ela desembainha a espada presa a cintura. – Vocês não me pegaram num bom dia hoje! – ela defere um veloz golpe que chega a atingir o monstro, mas era como cortar uma gelatina, ele não se feria, e simplesmente voltava a sua forma original instantes depois.
Enquanto isso o menino corria o máximo que podia sem olhar para trás,mas o primeiro apesar de não parecer raciocinar, estava próximo de alcançá-lo. Ana tenta golpeá-lo de todas as formas e ângulos possíveis, mas ataques físicos não pareciam ter efeitos neles. Fora a hora da reação, eis que um par de “braços” se formam de dentro do amontoado de gosma e começam a se esticar continuamente até se enroscar completamente ao redor da garota. Ela tenta se soltar e cortar-lhe ao meio, mas sua espada havia sido jogada longe no momento em que fora surpreendida.
A bocarra do demônio se exibia pela primeira vez deixando a mostra um conjunto de presas que, assim como o primeiro, gotejavam um líquido com um odor excessivo. Ana tenta se soltar, tenta se livrar das “amarras”, mas sua força parecia estar sendo sugada, só então ao sentir sua pele queimar, ela percebe... Um líquido verde que se desprendia do corpo do demônio penetrava a pele da garota, que ao entrar em contato, expelia um gás, literalmente queimando toda a extensão do seu corpo.
— Ana!!! – a voz do garoto ecoa de dentro da floresta, e seus instintos automaticamente são aprimorados. Seus olhos agora pareciam muito mais focados, mesmo com mais da metade dos tecidos queimados, ela consegue mudar de tática. Seus olhos se fecham, sua respiração se torna mais leve e a dor é ignorada por completo. Uma áurea negra começa a emanar dos seus poros, o vento circula mais rápido, as árvores parecem agitadas, e o céu regozijava de escuridão.
O demônio entra em frenesi e em uma crise incessante de gritos agonizantes, a áurea negra se expande, um circulo de chamas negras se abre abaixo dele e o mesmo começa a deteriorar lentamente entre gritos de dor. Sua morte iminente dera passagem para a garota deslanchar seu par de asas negras e voar em direção ao irmão. Galhos se rompiam ao mesmo tempo em que rasgavam sua pele, outros penetravam os músculos já desprovidos de pele. A dor das queimaduras causadas pelo veneno ainda repercutiam por seu corpo, fazendo-a cair e se reerguer mesmo sob quase nenhuma força.
— Diego!!! – ela grita já caindo próxima ao irmão que parecia estar em condições melhores que as dela. – Você está bem?! – ela o apalpava no rosto, nos braços e pernas procurando algum ferimento.
— Eu estou bem... Mas e você? Está ferida!
— Ah não ligue para isso. Espera, onde está o outro demônio, o que estava atrás de você? Ele te machucou?
— Não, ele me salvou... – o menino aponta com o pequeno dedo atrás da garota que já aparentava uma palidez exorbitante.
— Quem? – ela acompanha seu olhar, mas não há ninguém.
— Ué... Ele estava bem ali! Eu juro!
— Tem certeza? Como ele era? Ele fez alguma coisa com você?!
— Não. Ele era bom, ele matou o monstro antes mesmo que eu pudesse piscar. Foi tão rápido que nem vi o momento em que ele o destruiu. Ele era alto, bem alto, usava um casaco preto, comprido, e era muito forte, parecia ser um Dois.
— Um Dois? – questionou a garota tentando absorver aquela informação.
— Sim. Não entendo porque ele foi embora sem se despedir.
— Bom... Vamos sair daqui, está bem? Já tivemos muitas aventuras por hoje! – ela apanha o rapazinho no colo, e ainda sob reclamações dos ossos que já estavam fracos (o veneno havia se espalhado bastante), ela alça voo deixando seu espectador e salvador para trás.
Fale com o autor