Mar e Estrelas
1 Capítulo Único
Notas iniciais
A lua tanto lhe avisou sobre a vastidão a seus pés; moldava as suas ondas, no entanto, ainda era seu próprio ser e — como qualquer um tão imenso e belo — a crueldade existia na sua essência.
"Há destruição no seu encalço”, avisou o luar, “e quilômetros de segredos onde está demasiado escuro para os desvendar.”
Ela sabia de tudo, martelava na mente, um diálogo perene com a lua. No entanto, à distância dos céus, ela podia apenas vislumbrar suas ondas, a vida que germinava, as luzes que refletia. Ela mesma, multiplicada, salpicava cada pedaço de noite tão deslumbrante refletido por ela, pelo mar.
O ar engrossou com a presença solene ao seu lado, quando o silêncio da razão fez com que seus pés oscilassem. Antes que Hoshiko pudesse pular no infinito, descansou numa nuvem e colocou o queixo nas palmas, o olhar ainda teimava na água.
— Por que dói tanto, Susabi?
— Porque você só vê a superfície. — O tom grave fez as estrelas estremecerem.
— É tão lindo, eu quero ver de perto. — Olhou para o espírito ao seu lado e tudo o que o adornava. Os seus instrumentos brilhavam numa aura melancólica, adornos de fé vazia, pedaços de céu; Hoshiko era apenas mais um, o que quer que previssem, não podia ser dito melhor que por ela mesma: pelas estrelas. — Meu reflexo, tão longe. Eu quero vê-la, quero ver o mar, quero saber se sou como ela me mostra.
— O mar é traiçoeiro, Hoshiko.
— Mas é lindo, Susabi.
— Você sente isso à noite porque não vê como te esquece durante o dia.
Ele tinha razão, Hoshiko nunca tinha visto o dia, mas o sol era só mais uma estrela. Outra coisa nova a testemunhar na sua jornada até à correnteza. Nada mais poderia mudar sua vontade, e talvez por isso que logo se viu de novo sozinha sobre a nuvem.
Apalpou a solidão uma última vez, digeriu a madrugada que envelhecia diante seus olhos, tempo que não podia ser recuperado.
E pulou.
O sol escalava os céus enquanto a Yōkai despencava. Calor, como nunca tinha sentido antes, queimava a pele ao cair. A tez derretia e escorria pelo corpo, tentou morder o interior da boca, mas encontrou nada mais que uma crosta ensanguentada, queimada. Com cada movimento, enrijecia, e a fumaça pútrida entupia as narinas. Não podia gritar, não tinha mais garganta, não tinha o tato para perceber o ar escapando-lhe os pulmões, pôde apenas cair como tanto desejou.
A liberdade que sonhou veio como um sufoco. O arrependimento congelou-se no interior da queimação e não restou mais espaço para respirar. Continuou com as solas viradas para a luz que a perseguia e viu a água aproximar-se.
O clarão era laranja quando pulou, dourado quando queimou e branco quando aterrou. Sua vista ardia, cada cor levou um pedaço de córnea.
Quando o corpo virou nada mais que poeira, o peso dele condensou-se com o impacto no mar.
Ainda podia ouvir, e seus tímpanos vibraram com o rasgar das marés. O peso das águas exigia forças nunca antes experimentadas por ela, mas sentir seus membros de novo foi um alívio pouco vivido.
A leveza anterior, que tudo levou, era menos dolorosa que o desespero de se afogar. Hoshiko abriu os olhos, que se ajustaram à penumbra a que estavam habituados; à luz distante de uma superfície que tanto aliciava, tudo sensações familiares que a atormentavam com um presságio fúnebre.
Serpentes de luz brincaram nas ondas milhas acima, o afundar de Hoshiko era lento, silencioso e interminável. Não havia mais seu reflexo
Não sentiu as lágrimas no rosto, mas a asfixia dos soluços impediram-na de ver o que quer que fosse, de ouvir o que quer que fosse. Pediu desculpas à lua por não ouvi-la e sentiu a sua falta ao ver apenas a imponência do sol acima. Procurou a voz temerosa de Susabi na memória e desejou poder ouvir o aviso mais uma vez.
Seus pulmões latejaram contra o sufoco mais uma vez, mas acabaram expandidos com a água que engoliu.
A última súplica de Hoshiko.
✯✯✯
O luar estremecia no céu, ignorante das estrelas.
A qualquer momento, o véu negro por trás as engoliria. Era assim que gostava de pensar, que seria a escuridão a levá-las como reprimenda, com sua discreta elegância. Eram muitas, mas fracas quando distantes. Hoshiko sempre soube disso, as estrelas não deviam aproximar-se.
Não gostava da luz, uma lição que não se recordava fabricar. Se foi um preceito que teve o gosto de aprender ou se descobriu-o na pulsação incessante da queimadura em sua pele.
Era a luz que a levava, que a engolia. Uma estrela rebelde que resolveu aproximar-se e decidir-se rainha da vida. Por muito que a terra fugisse, ela sempre voltava e apagava toda a noite precursora.
Mas não foi seu ressentimento pelo clarão que a levou à costa, e sim sua fascinação pelo mar; cuja permanecia intacta com o conforto das ondas no seu ardor, um refresco curativo para a tortura de ter cruzado o seu limite. O céu entupia-a de noite que palpitava no seu coração apertado, uma tristeza embrulhada em saudade e remorso.
Entre o estalar das ondas, Hoshiko captou um arrastar ainda mais suave, um toque de acalento na sua cabeça que seguia o caminho da correnteza, porém, não a encharcava.
— Que bom que você acordou.
A voz ressoou calma, misturava-se com a brisa e encantava como o estrelar.
Ela nem quis abrir os olhos, pelo contrário, podia embalar-se de volta para o sono. Impediu-se apenas com o medo de acordar para o pesadelo anterior.
Rodou o rosto sobre a superfície aveludada contra o seu cabelo, havia se afundado no colo de uma desconhecida. Seu rosto desfocava-se na distância, mas a expressão trabalhada em volta de um sorriso subtil a despertou.
Tinha o cabelo cacheado, azul — como o dela mesma — apenas mais escuro e teimando com tons esverdeados. Brilhava tanto que parecia permanentemente húmido. Hoshiko não sabia onde terminava, pois derretia-se num fluido que nunca tinha visto antes, borbulhava no ar, e cada bolha estourava em segundos.
Sentia a poeira pesar em sua pele, mexer-se era um golpe na pele tenra, mas queria afastar-se das ondas e admirá-las de novo, com pouca distância. Tinha caído para isso.
O abraço da desconhecida libertou-a, e o gelo envolveu-a como compensação, Hoshiko arrastou-se para longe do limiar da água e acabou encostada de novo em quem a tinha acordado. Não precisou falar ou pedir, apenas acomodou-se no seu peito sem a postura afetada e as sequelas da queda palpitando com pouco eco.
— Quem é você?
— Meu nome é Manami. — O coração entalou-se na garganta. — Eu cuido dessas águas, mas essa noite tive que cuidar de você.
O sorriso subtil voltou, a pouca luz que as rodeava focava-se apenas nela. Hoshiko engoliu seco e olhou seu redor pela primeira vez, sentiu cada músculo protestar, mas conteve-se no calor de Manami. Tudo estava trémulo, escuro. Hoshiko vidrou-se no horizonte funesto, percebeu que não tinha mais o poder de distingui-lo.
Seu norte perdeu-se no breu e nem mesmo as constelações trilhavam o caminho para casa.
— Não tenha medo, logo a luz vem, você verá como voltar para casa.
— Não! — exclamou. — Eu não quero a luz.
Manami arregalou os olhos, e Hoshiko engoliu as palavras ao fraquejar perante a faísca nos seus olhos.
Focou-se nas ondas, aproximando-se com mãos trêmulas, a poeira ao seu redor erguia-se a medo, unia-se ao seu cabelo e vestes, brilhava amena como se tivesse ouvido. Sua mão escorregou para a correnteza, e o reflexo da lua verteu em sua volta.
— Quando a luz chega, eu deixo de ver o seu azul. — Sacudiu os dedos e viu os respingos salpicarem o reflexo. — Eu deixo de ver tudo. As estrelas não deveriam aproximar-se do mar.
Manami cruzou as pernas e inclinou o tronco para a frente. Como se estivesse aprendendo algo novo com sua ingenuidade. Hoshiko não estava habituada àquele tipo de atenção, pelo menos não de alguém que importasse.
— Não é verdade, quando o sol chega perto, o azul fica mais claro. — Hoshiko sentiu o coração bater forte em desagrado. Maldito sol e seu egoísmo. — Tudo ganha vida na luz, e tudo descansa na escuridão. As marés precisam de ambos. As estrelas podem aproximar-se do mar quando quiserem desde que não se afoguem.
Hoshiko cruzou os braços, seu cabelo dividiu-se com a ponta dos dedos de Manami. Rodou o rosto e trancaram olhares. Suas orbes eram uma amostra de sol, uma prova que nem sempre doía.
Talvez fosse apenas ela e sua imprudência.
— Eu me afoguei.
— Não depois de eu te salvar.
— Mas as estrelas deveriam continuar longe para evitá-lo.
— Arrisque, muitas coisas boas acontecem quando as estrelas caem no mar.
E antes que o fôlego viesse para poder discutir, o rosto de Manami aproximou-se do seu.
Hoshiko congelou no calor da proximidade, e os lábios colidiram como astros. Encontrou o caminho para os céus ao fechar os olhos e abraçá-la. Manami acariciava o lado do seu rosto com aquele ritmo que ondulava sobre a pele.
Quando não teve outra escolha, abriu os olhos para vê-la envolvida num clarão prata.
Seguiu a luz quando Manami desviou o olhar de volta para o mar, segurava a sua mão. Não saíram do lugar, apenas partilharam a intimidade de fitarem a mesma coisa.
Era um reflexo, como aquele que Hoshiko quis ver de perto, mas não era o dela.
Flutuava diante seus olhos uma convergência sublime delas duas. A ondulação congelava em sua volta, e Hoshiko perguntou-se:
Era uma estrela?
Não podia dizer, mas brilhava como uma, o cinza que refletia não era ameno, roubava o fôlego. Era luz, mas não cegava.
Era o mar?
Talvez, algo lhe dizia que não existiria sem ele para suportá-la. Serpenteava com a corrente, mas não se perdia nela. Decidia a forma que teria independente dos remoinhos e das protuberâncias. Cada respingo afastado da figura embelezava-a.
Viu-a amortecer quando quis soltar a mão de Manami para tocar-lhe.
E só aí entendeu de verdade que era um reflexo de ambas. Hoshiko decidiu que ignoraria a dor todos os dias para vê-lo novamente, e Manami prometeu-lhe no silêncio que sempre a embalaria nas suas correntes até ela despertar da queda.
Demasiado belo para existir em apenas uma, imponente quando unido. Era a luz mais fria, a maré mais rasa. Uma intrínseca mistura de dois espíritos que engoliam a dor para unir-se. Apenas isso para formar algo tão belo.
Mar e estrelas.
Você.
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