Mar de Lírios
26 Para Isso Estou Aqui
Notas iniciais
“And you standing there at the doorway crying
And me wondering if I’d ever be back”
-Loved By Grace, Lara Fabian
Caspian
Lembro de notar o quanto o céu exibia o mais puro azul. O vento era constante e soprava na direção certa. No convés todos se empenhavam para colocar o Peregrino em curso mais uma vez. A estadia na Ilha de Ramandú havia sido agradável, embora eu estivesse com a insistente sensação de estar deixando passar algo. A expressão que Susana me dirigiu vinte minutos atrás, quando embarcamos, deixava isso muito claro. Mas de alguma forma, minhas recordações não traziam muitas informações anteriores que pudessem me ajudar, fora o que eu conseguia lembrar, estava tudo nublado.
Ela logo partiu acompanhando Tarvos para conferir o armamento assim que embarcamos, adiando qualquer chance que eu pudesse ter de lhe falar. Por onde se juntavam, era possível ouvir os marinheiros comentando o quanto a filha de Ramandú era encantadora, bela e atenciosa, ou o quanto desejam passar mais algum tempo lá no caminho de volta, pois a presença da estrela era revigorante. Isto me envergonhou por razões que não estavam claras, confusas entre as nuvens em minha mente, então optei por ignorar até que não pude mais.
Drinian estava ao manche direcionando o navio, em minhas mãos a luneta trabalhava encurtando a distância entre nós e a ilha adiante. Ainda não era possível obter muitos detalhes topográficos àquela distância, o que era natural. Por outro lado, era assombroso o fato de que, mesmo à luz do dia, a escuridão, o nevoeiro e as nuvens negras não se afastavam daquele lugar ou sequer perdiam intensidade. A luz permanecia do lado de fora.
-O armamento foi conferido – anunciou Tarvos, fazendo-me baixar a luneta. Ele estava só, o que me levou a direcionar os olhos para o convés a tempo de ver Susana seguir para a sala de registros onde os mapas eram produzidos e guardados.
-Algo que precisamos saber? – Drinian perguntou.
-Tudo na mais perfeita ordem.
-Ótimo! Trabalhe nos registros até o final da manhã, não sabemos o que nos aguarda.
-Sim, senhor – Tarvos fez uma reverência e se retirou. Houve um breve silêncio.
-Algum problema, Majestade? — Drinian perguntou com cautela, notando meu olhar fixo na porta daquela cabine.
-Posso contar com sua sinceridade, meu amigo?
-Sempre, Alteza, se não se importar.
-Notou algo diferente em Susana?
A pausa que Drinian fez, embalada por um leve e discreto suspiro, me disse que sim, havia algo. Ele ergueu as sobrancelhas discretamente, como se refletisse, e sua resposta demorou mais alguns segundos. Comecei a ficar ainda mais preocupado. Drinian jamais hesitava.
-Bem, de fato, não podemos negar que a ilha, assim como seus anfitriões, é encantadora. Talvez até demais. Não me entenda mal, Majestade, não tenho intenção de ser esnobe com quem nos estendeu a mão.
-O que quer dizer?
-Eu digo, Majestade, que já vi coisas assim acontecerem com marinheiros antes. Ficam tão encantados que não se dão conta do que ocorre à sua volta. Apesar de Lorde Ramandú e Lady Lilliandil serem nossos amigos, não houve um só homem que não tenha se deslumbrado sem medidas. Por ela, em especial. Já vi isso acontecer no mar, mais vezes do que gostaria. E, deve concordar comigo, que a Rainha Susana não preenche, como nós, o requisito principal para estar tão encantada. – fez uma pausa e viu que deveria se fazer mais claro: — Ela não é homem. Minha teoria é a de que ela estava bem atenta a tudo enquanto nós estávamos deslumbrados demais. — seu olhar voltou ao horizonte, mas espiou-me de esguelha para avaliar minha reação lenta e perdida. Depois de um tempo, confessei:
-Ainda não entendi.
Drinian sorriu de lado.
-Isso confirma minha teoria.
-Vamos, Drinian, por favor – supliquei.
-Posso estar enganado, senhor, mas por diversas vezes me pareceu que lorde Ramandú faria bom gosto em casá-lo com sua filha.
Eu ri. Drinian apenas me encarou com uma expressão incrédula e desafiadora. Gesticulei com a mão.
-Isto seria impossível, meu amigo! Não! Já escolhi minha esposa, você é testemunha.
Drinian voltou a olhar para frente com uma expressão abafada de vitória.
-É verdade – disse ele – Mas não me lembro da Rainha Susana ter sido apresentada desta forma.
Por um brevíssimo segundo o chão falhou sob meus pés. Fechei os olhos com força, empalidecendo e reprimindo um xingamento. O embrulho no estômago me deixou mais verde que os bosques de Nárnia e tinha certeza de que jamais conseguiria levantar o olhar novamente.
-Não se culpe, Majestade. — ele deu de ombros, porém seu tom demonstrava que ele sequer acreditava no que dizia: — Ninguém tem total controle em um lugar com tanta magia.
-Pode ser – resmunguei – mas isso não muda o fato de eu estar encrencado até o pescoço.
-É. Não muda.
Dei-lhe um sorriso mínimo e amarelo que mais parecia uma expressão de dor. Entreguei-lhe a luneta junto com um agradecimento murcho. Direcionei-me para as escadas e depois para a sala de registros. No meio do convés, porém, minhas pernas começaram a ficar pesadas à medida que os detalhes nublados chegavam à minha mente. Depois do que pareceram horas carregando o peso do mundo das vergonhas, bati na porta da cabine.
-Pode entrar! — ela respondeu de longe.
Susana estava de pé em frente à mesa, com sua atenção voltada para os milhares de papeis sobre o móvel e mais os dois que estavam em suas mãos. Eu sempre amei aquela expressão absorta em seu objetivo, os olhos azuis brilhando inteligência, focados no seu propósito. Era a mesma expressão que tinha quando treinava os arqueiros antes da batalha contra Telmar. A postura e a destreza de uma rainha. Os cabelos longos estavam soltos e caiam levemente para frente, parados de forma harmoniosa, sem nenhuma brisa para espalhá-los, brilhavam à luz natural. Como não falei nada por estar ocupado observando-a, Susana ergueu o rosto para mim.
-Oi – foi tudo o que disse. Minha mente estava reduzida a registrar o quanto os olhos dela ficavam incríveis com a luz que entrava pela janela. Susana lambeu os lábios, curiosa, mas não desviou o olhar. Quando meu corpo precisou de ar, recobrei o pouco do raciocínio que tinha antes da conversa com Drinian. — Tem um minuto?
Ela assentiu e a luz oscilou sobre os arranhões já rosados em seu rosto. Susana pousou sobre a mesa os papeis que segurava. De repente haviam tantas palavras que queria dizer de modo que nenhuma achou o caminho da voz. Sentir que havia falhado terrivelmente começou a me consumir.
-Você está pálido — notou ela, franzindo o cenho e contornando a mesa para chegar até mim. Neguei com a cabeça, acariciando seus ombros.
-Um minuto. Quase não tive esse tempo com você nos últimos dias.
-Foram dias longos.
Toquei seu rosto analisando as marcas finas que já cicatrizavam.
-Quer me contar como conseguiu isto?
-Já lhe contei. Estava escuro, eu estava andando pela floresta, não vi... o chão. E caí.
-E por que saiu andando sozinha pelo bosque?
Susana hesitou, entreabriu os lábios enquanto seus olhos permaneceram fixos nos meus.
-Eu precisava pensar. — ela piscou – vi coisas lá, coisas com as quais eu havia sonhado.
Uni as sobrancelhas.
-Devia ter me dito.
-Você estava ocupado.
Suspirei, fechando os olhos.
-Por favor, me perdoe.
-Por estar ocupado?
-Não! Por... Por não prestar atenção. Se dei a entender coisas completamente erradas. — comecei. Susana soltou um riso curto pelo nariz e se afastou, balançando a cabeça. — Sei que posso não ter agido certo. As lembranças da ilha estão um pouco nubladas agora, mas se você quiser me dizer o que…
-Caspian! — ela ergueu as mãos, interrompendo. Para minha surpresa, seus olhos não transmitiam raiva, mas tristeza. Era pior ainda. — Você não precisa se desculpar por isso. De verdade. Vi e senti o quanto a magia é intensa naquele lugar. Você não era o único hipnotizado pela estrela.
-Eu juro que não lembro com clareza de algumas coisas, ou de como algumas coisas podem ter parecido erradas. Acredite em mim! Mesmo sendo um idiota que não sabe como se explicar.
Isso a fez sorrir e a tristeza em seus olhos abrandou, mas não desapareceu. Eu a tinha magoado. Aquele momento me deu a certeza disso. Drinian estava certo e eu era o mais infeliz dos homens. Mas ela permaneceu ali, parada a minha frente com um sorriso singelo apesar do olhar triste, brilhante e gentil. Algo me corroeu por dentro, deixando uma marca que não sumiria. Estava pronto para me ajoelhar e suplicar seu perdão quando Susana encurtou a distância entre nós, segurou meu rosto entre suas mãos e beijou meus lábios com carinho.
Minha respiração oscilou ao passo que aquela sensação acalorada e aconchegante inundava meu ser. Retribuí seu beijo, segurei sua cintura e a puxei para mais perto, envolvendo-a com meus braços para que não se afastasse. Jamais, se fosse possível. Ela interrompeu o beijo com delicadeza.
-Você não é idiota, Caspian X.
-Sinto que a magoei.
-Ah – sorriu de lado — está se referindo ao fato de que quase ficou noivo da filha de Ramandú?
-Pela jub...!
Antes que o desespero tomasse conta de mim, ela me fez calar mais uma vez. Tenho certeza de que também ouvia o bater acelerado em meu peito.
-Por favor, nunca mais diga ou sequer pense algo assim. — sussurrei.
-Não estou magoada com você.
Pisquei.
-Então?
-Eu, bem... — Susana escapou de meus braços e recuou, olhando pensativa pela janela. — Não pude deixar de notar as intenções de Ramandú e o quanto ele as deixou às claras por diversas vezes. Acredito que você estava alheio demais, mas… isso também me fez pensar… que Lilliandil seria uma ótima senhora de Nárnia. Ela deve ter sido preparada para isto a sua vida toda, por alguma razão.
-O que quer dizer? — fui obrigado a interromper. O rumo da conversa não estava me agradando em nada.
Susana voltou a me olhar e deu de ombros.
-Não sabemos o que nos aguarda.
Foi tudo o que disse, e foi o suficiente para minha mente dar uma volta completa ao redor de tudo que estava implícito naquela frase e relutei contra todas as imagens que começavam a se formar. Dei um passo em sua direção, pronto para protestar e contestar, quando alguém bateu à porta. Sem saber da minha presença, Rince pediu permissão para entrar e em segundos ele e Tarvos estavam na sala, prontos para começar a trabalhar. Sem saída, me retirei, mas não sem antes ouvir Susana dizer que estava tudo bem. Com esta simples frase, saí para o convés tendo a certeza de que nada estava bem.
O restante do dia correu cheio de afazeres, porém em nenhum momento as palavras de Susana saíram de meus ouvidos. Por onde eu andava, podia notar os olhares que logo eram disfarçados. Olhares levemente desconfiados e hesitantes, que demonstravam certa curiosidade e até mesmo compreensão. Era humilhante demais, ter falhado daquela forma. Colocando-me no lugar deles, tendo participado da solidão e da celebração de seu rei, vê-lo alheio a novas insinuações de casamento era no mínimo desconcertante. Principalmente porque, embora tenha escolhido minha noiva sob seus testemunhos e aprovações, e que perante nós o casamento estava consolidado; todos sabiam que perante Telmar e a corte, nossa união somente seria oficializada e aceita quando celebrada e acordada com os devidos proclamas e protocolos reais, o que seria realidade apenas quando retornássemos à Nárnia.
Não acreditava, porém, que isto tudo seria motivo de desconfiança ou desonra para a tripulação, afinal estavam cientes da magia e das normas. Ainda assim, era desconcertante demais. A culpa pesava em meus ombros mais do que as cordas que tinha que puxar ou os canhões que tinha que posicionar ou abastecer. Dar prosseguimento aos proclamas e protocolos exigidos seria sem dúvida a primeira coisa que faria ao voltar. Era o que mais ambicionava depois de resgatar os narnianos perdidos, e assim tornar legal e oficial o casamento que sonhei há anos atrás. Eu havia falhado com Susana naquela ilha e faria questão de corrigir isso no caminho de volta.
No fim do dia, quando nos reunimos na cabine de comando, eu estava esgotado. Susana olhou para o mar de onde estava, sentada próximo a janela, assim que entrei e Drinian, de pé ao lado da mesa, calou-se. O que quer que falavam ficou pairando no ari. Me acomodei na primeira cadeira que vi. Drinian pigarreou.
-Majestade, como eu dizia à Rainha Susana, nosso arsenal está em perfeita ordem e temos mantimentos suficientes para três semanas no mar. O senhor Ramandú e sua filha foram muito generosos conosco.
Assenti com cautela, acrescentando em seguida:
-Drinian, não fazemos ideia do que encontraremos, por isso repasse com a tripulação todos os nossos protocolos e estratégias. Providencie o melhor que puder para Eustáquio, ele precisa estar bem alimentado. Também retornaremos ao regime de refeições que usávamos antes.
-Precisaremos também de acomodações. — Susana se pronunciou. — Muitas pessoas foram levadas pelo nevoeiro, vamos precisar de espaço livre para que façam a viagem de volta.
-Temos salas que estão sendo usadas para guardar mantimentos – lembrou Drinian – Vou prepará-las para mulheres e crianças.
Susana assentiu e ficamos em silêncio por poucos segundos. Drinian, no entanto, se cansou disso primeiro.
-Se me permitir escolher, certamente eu o faria.
Estremeci. Susana o olhou com profundidade, Drinian falava com ela.
-Fora de cogitação. – Susana respondeu – Você é necessário aqui.
Eu soube exatamente sobre o que falavam, mas ainda assim, me incluí na conversa.
-A que se referem?
Drinian me olhou e suspirou de maneira breve.
-Algo tem me incomodado, senhor. Lorde Ramandú foi muito claro quando falou sobre o preço que pagaremos para quebrar o encanto. Mais um. Quando pedimos orientação ao Lorde Coriakin, ele nos disse para pousarmos as espadas na Mesa de Aslam e assim quebrar o feitiço. Agora, para despertar os dorminhocos, há uma nova condição, mais dura do que a outra. — ele segurou as próprias mãos. — Quero que saibam, altezas, que me ofereço para tal.
-Nós resolveremos isso, Drinian. — Susana lhe disse com gentileza.
-Susana tem razão — levantei-me e me aproximei dele, pus as mãos em seus ombros e olhei diretamente em seus olhos. — Você é necessário aqui, meu amigo. Além disso, sua esposa afundaria o Peregrino se você não chegasse conosco a Nárnia. Posso ir até o fim do mundo, mas não vou enfrentá-la.
Um minúsculo sorriso apareceu no canto de seus lábios. Drinian assentiu uma única vez em sinal de agradecimento.
-Agradeço, meu amigo.
Drinian fez uma breve reverência, pediu licença e se retirou. Susana se serviu de um pouco de água e se aproximou da sacada.
-Teremos um longo dia amanhã — comentou baixo. Embora eu concordasse, não consegui deixar passar o que ficou grudado em meus ouvidos. Aproximei-me e ela continuou a divagar calmamente, olhando o horizonte. — Tenho pensado nisso a todo momento – sussurrou, — Não nos restam muitas opções.
Um fio frágil de esperança amarrou meu coração para que permanecesse no lugar apesar de meu subconsciente gemer com a dor que lutou tanto tempo para evitar. Aquele lado furioso e desesperado também formigou sob minha pele, reprimido por tanto tempo e com tanta força que parecia ser capaz de destruir o mundo. Qualquer palavra ou gesto proferidos naqueles curtos minutos poderiam desencadear a avalanche que me soterraria em desespero.
-Por favor – supliquei, tão baixo que não soube dizer se fui ouvido.
Susana ergueu os olhos para mim com um vazio transbordante de tristeza e determinação.
-Para isso estou aqui. Esta missão é minha.
Susana
-Por favor.
O sussurro entrou como uma brisa em meus ouvidos fazendo cada centímetro meu ser inebriado pelo suplício contido naquelas palavras. Porém, algo em mim já havia se rompido e a obviedade da nossa condição estava fixada em minha mente de forma que eu não via outra opção além de renegar todas as nossas vontades e nossos sonhos em prol do dever. Mais uma vez.
Não foi fácil olhar para Caspian naquele momento, mas ele era meu único consolo.
-Para isso estou aqui. Esta missão é minha.
-Isso está completamente fora de questão! — Caspian urgiu, descartando com um gesto de mão bastante enfático. Começou a andar de um lado a outro, as mãos nos quadris como se quisesse segurar a si mesmo. Senti meus olhos arderem, contornei a mesa para me aproximar dele sabendo que grande era a dor que aquele momento reservava e que nada seria como antes. No entanto, diante de todo o perigo desconhecido que enfrentaríamos em algumas horas, não havia espaço para desperdício de tempo ou de esclarecimentos.
Caspian havia parado de costas para mim, uma das mãos permanecia em seu quadril enquanto a outra estava em sua testa numa massagem compassada, como se quisesse clarear os pensamentos. Engoli em seco, ainda olhando suas costas, antes de continuar.
-Desde que recitamos o feitiço do livro de Coriakin o nevoeiro se tornou minha última preocupação. Isso é um tanto egoísta, não acha? — parei para engolir parte do embargo que subia por minha garganta. Caspian não respondeu ou se moveu, mas eu sabia que ouvia. — Na Ilha de Ramandú eu pude compreender tudo o que eu vi no espelho, tudo o que eu estava sonhando até ali, no exato momento em que Lilliandil desceu do céu. Era ela que estava nos sonhos.
Caspian baixou a mão e voltou-se para mim.
-Foi por isso que você saiu sozinha pelo bosque – concluiu. Assenti uma vez, piscando para espantar as lágrimas.
-Quando Ramandú falou sobre a quebra do encanto, tudo fez mais sentido ainda. Eu… só não consigo entender por quê.
Caspian lambeu os lábios e fechou os olhos antes de eu continuar, sem conseguir esconder o embargo na voz.
-Deve existir outro jeito. — ele murmurou, tenso.
-Por mais que doa e por mais que seja nosso desejo mais profundo, meus irmãos e eu nunca pudemos ficar aqui de vez. — pausei ao sentir a primeira lágrima descer – Mesmo assim, nunca recuamos a qualquer perigo por amor a este mundo, ao povo, a Aslam e às pessoas especiais que encontramos aqui. — mordi o lábio para conseguir continuar, mesmo com o rosto já molhado. Caspian mantinha os olhos fixos nos meus e eu podia ver o quanto ele se esforçava para permanecer firme — Não seria diferente agora.
-Você estar aqui já é diferente. Eu não posso aceitar isso. — protestou – Eu poderia entregar o reino a você, eu poderia te entregar a minha vida ou a minha morte, Susana. Mas eu não posso aceitar o que você está dizendo. Não de novo. — Caspian pronunciou cada palavra com a convicção e a firmeza de um guerreiro, com os olhos ardendo em um fogo antigo e inerente ao seu ser. Perto da porta, notei um vislumbre verde, rápido demais para ter certeza.
-É o nosso dever manter todos em segurança. Não podemos exigir isso de ninguém.
-São homens valorosos, guerreiros valentes — disse Caspian, firme. — Não há dúvidas de que se ofereceriam com honra.
-Então quem você escolheria? — solucei, mal podia acreditar no que ouvia, ele não podia estar falando sério — Qual daqueles homens lá fora você escolheria? Qual deles jamais retornará para casa? É nosso dever fazer com que todos voltem para casa em segurança.
Uma lágrima desceu por seu rosto e ele se aproximou de mim com passos firmes, pronto para responder, mas sem conseguir, emendou em outra volta pela sala.
-Você não pode ir — continuei, com calma para não sufocar — Nárnia precisa de você, precisa que seu rei volte e lhe garanta a estabilidade de um governo de paz, a prosperidade de uma dinastia.
Caspian me olhou com um rancor e uma indignação que jamais esquecerei. Lampejos da conversa de mais cedo passando por seus olhos.
-O que está dizendo?
-O reino precisará da estabilidade de um herdeiro. — continuei, sem recuar. — E você dará.
Caspian se aproximou devagar, aquele fogo ardendo mais do que nunca. Cada palavra saiu flamejante enquanto ele falava com clareza.
-Meu maior desejo é levá-la comigo para casa. Nos casaremos como manda a lei assim que pisarmos em Nárnia. Eu já escolhi a minha esposa, a minha família. — eu solucei e ele negou com a cabeça. — Aslam não é cruel.
Caspian fez uma pausa amarga e eu já estava incapaz de elaborar uma frase completa quando ele continuou:
-Mas, se por acaso você tenha se arrependido de qualquer coisa, me diga. Me diga e eu não me oporei se quiser retornar ao seu mundo.
Foi como se uma fenda fosse aberta em meu peito.
-Como pode pensar que eu tenho algo a me arrepender, depois de tudo o que vivemos aqui? Depois de tudo o que já passamos?
-Como posso não pensar? — gemeu ele – Como? Se você fala sobre não ficar, sobre regressar ao seu mundo, sobre uma dinastia que não será sua? Já que ama Nárnia, que outro motivo haveria para ir?
-Eu ainda não conheço o porquê! — solucei — Porém tudo que tem sido mostrado a mim, as visões no espelho, os sonhos... tudo mostra que não ficarei aqui… Mas você não acredita em mim. — dizer isso em voz alta doía mais do que eu podia descrever.
-Sei que falhei com você na Ilha de Ramandú, e estou disposto a fazer o que for preciso para me redimir — disse ele, sério demais. — Se não for suficiente para me perdoar, me diga o que fazer. Mas por favor, não me torture desse jeito…
-Três anos se passaram para mim. Três anos em que eu não conseguia parar de pensar como seria revê-lo, como seria estar aqui de novo, como seria não partir. Você acha mesmo que o que houve na ilha seria suficiente para me fazer escolher o meu mundo?
-Então lute! — urgiu ele, o queixo levemente trêmulo, segurando-me pelos ombros e tocando a testa na minha. — Lute comigo para que esses meses se tornem uma vida inteira.
Fechei os olhos permitindo mais lágrimas transbordarem. Toquei seu rosto sentindo a textura da barba sob os dedos.
-Você me tem por inteiro. E eu lutarei até meu último fôlego. – garanti. — Mas antes de nós sempre haverá o dever. Somos Reis antes de tudo.
Caspian balançou a cabeça, suas mãos se fecharam firmes em minha cintura, seus lábios pressionaram os meus com urgência, acentuando o gosto salgado, e eu podia sentir o calor de todo seu corpo. No segundo seguinte, ele se afastou. Seu rosto trazia uma sombra e uma tristeza que me quebraram.
-Deve ter outro jeito – afirmou enquanto recuava até a porta. Quando sua mão segurou a maçaneta, ele se virou para mim. Ainda haviam lágrimas novas descendo por seu semblante sério. — Também se passaram três anos para mim. Aslam não é cruel. Se o propósito é levá-la e me mandar de volta para os últimos anos, por que ele não me mostrou também?
Sua imagem, parado à porta com a luz do fogo iluminando suas lágrimas foi tudo o que vi, mesmo depois que Caspian saiu e me deixou só. Segurei-me na mesa para manter-me de pé e logo a visão ficou embaçada pelas lágrimas. Cobri a boca como se conseguisse conter os soluços que pulsavam de meu peito sangrando. Como eu queria ter uma resposta. Como eu queria que não doesse tanto.
Não suportaria viver sabendo que Caspian carregava aquela dor que eu podia ver queimando em seus olhos, sabendo que estava sofrendo novamente. Foi ali então que, mesmo me afogando, fiz um pedido a Aslam.
Permaneci naquela cabine até que as lágrimas secassem em meu rosto e que eu notasse o quanto a lua estava alta. A noite estava fria do lado de fora e poucos marinheiros estavam no convés. As lanternas balançavam suavemente no ritmo do Peregrino e a noite estava calma. Mesmo no escuro, a Ilha Negra se distinguia no horizonte como um poço sem fundo onde nem mesmo a luz da lua e das estrelas adentrava. Quando fui acolhida pelo calor da nossa cabine, notei que Caspian já dormia. Ainda usava o colete e o cinto, mas não ousei despertá-lo. A comida estava sobre a mesa, intocada. Eu tampouco tive vontade de comer. Deitei-me ao seu lado e tudo o que consegui fazer foi encarar o teto.
Havia pinturas em cada parte da cabine e ali, no teto sobre a cama, víamos os galhos de árvores frondosas escondendo o céu e nos dando sombra. Se olhasse com atenção, tinha a mesma sensação de estar deitada na relva de bosques narnianos com a luz do sol dourado tocando o rosto, a brisa suave afagando a pele e balançando as folhas. Respirei fundo algumas vezes, fundo e devagar, e pude jurar que sentia o cheiro de orvalho e terra. Caspian se moveu, mas não acordou, decidi fechar os olhos já sabendo que seria recebida pelos familiares relances de sonhos conhecidos.
[...]
Um balançar rápido despertou-me. A cabine ainda estava parcialmente iluminada pela luz de poucas lamparinas e lá fora a noite estava em seu ápice de escuridão. Ergui-me com os cotovelos ao ver Caspian sentado à beira da cama. Estava de costas para mim, suas mãos estavam apoiadas sobre a colcha e seu tronco, curvado para frente.
-Caspian? — chamei baixo — Está tudo bem?
Por um momento ele nada disse, nem se moveu.
-O que nós fizemos? — ele sussurrou. Sua voz estava triste, triste de um modo que eu nunca ouvira antes. — Por que não conseguimos a única bênção que tanto desejamos?
Sentei-me devagar.
-Queria poder responder a você.
-Desde a derrota de Miraz, não houve um momento de descanso. Lutamos e trabalhamos sem parar para melhorar a vida de todo o povo. Depois de séculos, finalmente há paz. — sua voz era calma, compassiva, e onde quer que seus olhos fitavam, não era no navio. — Quando resgatei você no mar e me dei conta de que estava ao meu alcance outra vez, acreditei, com todas as minhas forças, de que finalmente era merecedor da dádiva de tê-la ao meu lado. Por toda a vida, se assim você quisesse. — ele deu um sorriso triste. — Você tentou abrir meus olhos. Compreendeu tudo mais rápido do que eu, mas eu não pude enxergar. Ignorei a razão me agarrando a toda esperança possível, ao ponto de não considerar a gravidade de deixar um desses homens para trás… Talvez eu não seja merecedor de fato.
Fui até ele de joelhos, abraçando suas costas. Seu cheiro invadiu meus sentidos, criando raízes no fundo de minha memória.
-Ainda não compreendo o motivo de estar aqui, ainda mais sabendo que eu jamais deveria voltar. Se há perigo, por que não Lúcia ou Edmundo, porque eu e não Pedro? Se você acha que não merece, tampouco eu mereço. — confessei. — A única coisa que sei, é que Nárnia não poderia ter um rei melhor. Drinian não se ofereceu por mim, mas por você. O amor do seu povo é a prova do seu merecimento e da sua grandeza. Nunca se esqueça disso.
Caspian desfez meu abraço e virou-se para mim, levou sua mão ao meu rosto e olhou-me nos olhos profundamente. Embora mais discreta, a tristeza ainda estava ali, dando aos seus olhos um brilho marejado. Sua expressão calma estava bem diferente de horas antes, havia agora uma certeza, uma segurança. Além disso, havia algo maior. Como se agora ele não somente compreendesse meu modo de ver e encarar as circunstâncias, mas como se soubesse de mais… era a paz e a sabedoria que só vi Aslam dar.
-Acredito que descobrirá, mais cedo ou mais tarde — sussurrou. — Quero que saiba que sei que tem razão e que isso só me faz amá-la mais. — um sorriso brincou em seus lábios. — É nosso dever garantir que todos voltem para casa em segurança.
Assenti, sentindo meus olhos arderem. Caspian segurou meu rosto com as duas mãos, seus polegares acariciavam minha pele quando os lábios quentes tocaram minha testa, tão reverentes, que eu não me importaria se deixassem uma marca ali. Agarrei seus braços, fechando os olhos. Da testa, seus lábios migraram para os meus com tal intensidade que a luz do fogo oscilou. Ele puxou-me para o seu colo e envolveu-me com os braços em brasa. Mal pude respirar enquanto seu beijo me isolava de qualquer coisa lá fora. Quando os tecidos sumiram e o toque quente alcançou minha pele, o universo inteiro se resumiu àquela cabine no meio do oceano e ao seu calor.
Eu amava Caspian mais do que podia expressar ou entender. Morava em mim a certeza de que o amaria até o fim da vida, e que nada poderia nos tirar aquilo que vivemos, mesmo que o peso de nossas coroas nos obrigasse a tomar caminhos dolorosos. Nosso reino e nosso povo estavam acima de qualquer um de nós e de qualquer que fosse o desejo de nossos corações. Naquela noite, nos amamos com a voracidade de quando se espera a morte no dia seguinte e com a calma de acreditar que o dia seguinte jamais fosse chegar.
[...]
Na manhã seguinte, Caspian despertou-me avisando que o desjejum já havia sido entregue. Estranhei pois a luz do dia ainda estava cinzenta, o sol ainda não tinha nascido completamente. Cobri-me com o lençol e sentei.
-Parece que alcançaremos a ilha mais cedo do que o previsto. — explicou ele. — Venha enquanto está quente.
Caspian já vestia suas calças marrons e camisa branca, seu cabelo estava preso para trás e sua expressão estava serena, com certeza sem nenhum sinal do pouco sono da noite anterior. Bem diferente da sensação amassada que eu sentia em meu rosto.
-Meu rei poderia ser gentil e pegar para mim aquela camisa que foi parar no chão, misteriosamente?
Um sorriso travesso tomou conta de seu rosto e não reduziu quando ele me olhou.
-Com a visão que estou, acho que deixar você levantar e pegar seria muito mais interessante.
Não havia escuridão no universo que pudesse esconder o calor em meu rosto, mas sustentei seu olhar em desafio mesmo quando seu sorriso se abriu ainda mais. Por longos segundos, Caspian não desviou o olhar, deixando-me ainda mais vermelha, até o ponto de eu não resistir e rir.
-O que está fazendo?
Caspian foi até a camisa, pegou e trouxe-a até mim, sentando-se na cama. Seus dedos tocaram meu rosto e seus olhos pareciam acompanhar todo o trajeto.
-Estou memorizando.
Toquei seu rosto e o beijei calmamente. Caspian sorriu outra vez.
-Vamos, temos pouco tempo.
Cedi ao seu chamado, vesti a blusa grande e nos sentamos à mesa. Havia uma grande variedade de comidas ali e tudo estava maravilhoso, bem mais farto do que o que comemos em boa parte da viagem, certamente regalias de Ramandú. Ao finalizar, terminei de me vestir. Ajustei o colete bem firme ao corpo e deixei a calça por dentro das botas como de costume. Penteei o cabelo, deixando-o parcialmente preso. Caspian me ajudou a colocar a braçadeira e, quando terminou, pediu que aguardasse. Ajustei mais o cinto, e então ele estava novamente à minha frente.
-Tome — estendeu-me a mão, revelando o punho dourado com a cabeça do leão. Olhei-o curiosa. Caspian deu de ombros. — Não sabemos o que vamos encontrar e alguém me disse que você é uma boa espadachim — ele piscou.
Eu ri, pegando a espada de Pedro e atando-a à bainha sem deixar de notar o olhar de Caspian conferindo se o elixir de Lúcia estava comigo.
-Caso a gente não passe — começou ele. — Seja o que for… Quero que saiba que eu faria tudo de novo. Você e seus irmãos foram a melhor coisa que me aconteceu. São a minha família, onde quer que estejam, e eu não mudaria nada.
Naquele momento, não encontrei palavras equivalentes ao que disse, muito menos melhores. Havia uma sinceridade genuína nas palavras de Caspian e sem dúvida a reciprocidade era verdadeira. Ele estava certo, éramos uma família antes de tudo. Segurei sua mão e fiquei na ponta dos pés para beijá-lo. Quando meus calcanhares tocaram o chão outra vez, Caspian, satisfeito com sua resposta, olhou-me nos olhos:
-Está pronta?
-Estou.
Caspian se dirigiu para fora, mas eu parei no caminho, pois estava faltando algo. Fui até um dos armários, peguei a lanterna de Edmundo, guardei-a no bolso e então o segui.
Sair da cabine foi como atravessar uma bolha. Meus sentidos foram invadidos pelo barulho, cheiro e pólvora e pelo intenso movimento no convés. Alguns homens transportavam barris, caixotes e sacas do convés para baixo enquanto outros se ocupavam com o infindável balé de cordas e velas. Nenhum deles parecia olhar para a ilha. O dia, que já deveria estar radiante àquela hora, estava cinzento tal nossa proximidade aumentava.
A Ilha Negra parecia maior e mais assombrosa que antes, erguendo-se em direção ao céu e se perdendo em nuvens escuras, projetando-se como se fosse engolir o navio. Aquelas nuvens escondiam muito bem os picos e o céu acima delas enquanto giravam em torno da ilha. De dentro dela, emanava o nevoeiro verde que serpenteava tentando nos alcançar.
Chegamos ao manche, onde Drinian estava ao comando, com Tarvos ao seu lado. -Majestades — cumprimentou ele.
-Como estão as coisas, meu amigo?
-Tudo conforme o planejado, senhor. Cada homem neste navio está perfeitamente ciente do que deve ou não fazer.
-Excelente — Caspian assentiu. — Vamos resgatar nosso povo.
“I want to die in yours arms
‘Cause you get lighter
The more it gets dark
I’m going to give you my heart”
-A Sky Full of Stars, Coldplay
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