Notas iniciais
Solicitei ao staff do Nyah para acrescentar as personagens ao rol disponível, editarei assim que isso ocorrer.

Talvez — só talvez — Câncer estivesse começando a se arrepender da ideia que tivera.

Tudo o que queria era fazer um bolo mais elaborado para o aniversário de sua amiga Peixes no dia seguinte. Admitia que suas habilidades na cozinha até eram boas quando se tratava de comida do dia a dia, mas em matéria de confeitaria propriamente dita só uma pessoa naquela casa poderia ser considerada “foda”.

E ela era… intimidadora.

— Cheguei! Trouxe bastante coisa do mercado, assim teremos liberdade para experimentar ideias diferentes!

Câncer tinha certa reserva com Escorpião porque, em sua opinião, a escorpiana não era um exemplo claro de transparência. Não que ela não fosse uma pessoa confiável, mas exalava uma aura estranha de que tinha muito mais coisa se passando abaixo da superfície

E, na impressão de Câncer — e da casa toda — o que se passava ali era safadeza.

Quer dizer… aquelas frases ambíguas, aqueles olhares cheios de eletricidade, aquele sorrisinho peculiar que dava arrepios… tudo aquilo parecia transmitir uma única e intensa mensagem: “quero seu corpo nu”.

E o pior era que aquela energia toda parecia até contaminá-la um pouco. Ainda que se considerasse muito aquém das outras meninas da casa em termos de corpo, beleza e mil outras qualidades que julgava não possuir, no fundo… bem no fundo, quando Scorpy se dirigia a ela daquela forma, às vezes se perguntava se...

— O que foi? — Escorpião a olhava confusa, já que a canceriana parecia imersa em pensamentos.

— E-eh? Nada, nada...

A escorpiana acomodou as compras e se sentou a uma cadeira, encarando Câncer. Um silêncio desconfortável tomou a cozinha por alguns segundos.

— O… o que foi??? — A voz de Câncer saiu meio esganiçada.

— Ué, tô esperando você falar das suas ideias, dos seus planos… pra gente começar.

— Ah… ah, então… — Câncer pigarreou e buscou retomar o foco — Eu tava pensando… sabe, numa coisa meio temática de mar, com… ondas e peixinhos e corais… — Por que sempre se atrapalhava quando estava falando com Escorpião?

— Uhum… — Scorpy assentiu, sorrindo — A gente podia fazer algo com glacê azul e branco simulando ondas… ah! E podemos fazer peixinhos de pasta americana ou de leite ninho! Nisso você é melhor que eu, aqueles biscoitos que você fez aquele dia ficaram perfeitos!

Câncer queria morrer ao se lembrar dos fatídicos biscoitos em forma de piroquinhas que, com a graça de todos os deuses, foram confundidos com peixes por Scorpy. Ou talvez ela não tivesse de fato confundido e estivesse apenas zoando com a sua cara? Nunca se sabia, afinal, o que estava se passando na cabeça da escorpiana.

Bom, pelo menos poderia dar um formato mais decente aos tais peixinhos desta vez.

— Bom, ah… podemos dar uma caprichada melhor naqueles peixinhos desta vez, hehehe…

Não que eu ache necessário, mas enfim… mãos à obra? — Scorpy se levantou da cadeira parecendo bem disposta e foi se aproximando da canceriana na bancada. Colocou uma mecha de seu cabelo bordô atrás da orelha, os lábios finos se torcendo em um sorriso de canto — Sabe que a gente deu sorte?

— Por quê…? — Câncer ergueu uma sobrancelha, desconfiada, enquanto se encolhia contra a bancada.

— Porque todo mundo saiu… hoje à tarde temos a cozinha toda só pra gente aproveitar…

Câncer viu a mão esguia em sua direção e congelou. O que Scorpy ia fazer??? Ia aproveitar de sua inocência ali na cozinha? Ia falar alguma coisa pervertida ao pé do seu ouvido? Mas logo ela, tão feia e sem graça…? Escorpião queria brincar com ela?

— O-olha aqui…

— Que foi? — A mais alta perguntou enquanto alcançava seu avental branco que estava ali por perto — Está se sentindo bem?

— Ah! — Era só pra pegar o avental, claro! A voz da canceriana saiu aliviada — Tô sim, eu só… ah… olha aqui o meu avental novo, hehehe...!

Meio sem jeito, a loirinha vestiu seu avental com um caranguejo bordado com chapéu de chef, o que arrancou um sorrisinho divertido de Scorpy.

— Que adorável! Combina demais com você!

Câncer corou e sorriu. Talvez não precisasse ser tão defensiva com Scorpy, no fim das contas…

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Depois de planejarem direitinho o que fariam, Câncer e Escorpião começaram a fazer o bolo de aniversário. A massa até que era fácil, então a maior se focou nos detalhes, como o recheio e o glacê de cobertura.

Lá estava nossa heroína canceriana mexendo furiosamente as claras em neve com Escorpião dando instruções atrás de si. Era complicado! Nunca chegava na consistência certa exata que queria… enquanto mexia na tigela (não queria usar batedeira porque sua sagrada mãezinha dizia que não era a mesma coisa!), suspirava desalentada.

— Acho que é a hora de te ensinar um segredinho meu…

O coração de Câncer quase pulou do peito ao sentir o perfume envolvente de Scorpy se intensificar. Pôde sentir o calor da mais alta antes mesmo que o corpo dela se colasse ao atrás de si… o que era aquilo, uma espécie de aura?

— Scorpy…?

Os dedos alongados envolveram suas mãos gordinhas e a loira estremeceu.

— Olha, é tudo uma questão de ritmo e constância… — Scorpy guiava suas mãos enquanto a envolvia por trás — Conseguiu sentir?

— E-eh???

Sentir o quê? Pelo amor, ela tá de saliência comigo??? M-mas eu não entendo o que ela viu em mim… será que tô interpretando errado? Mas o que era pra eu estar sentindo??? Olha o jeito safado que ela tá fazendo as minhas mãos se moverem, parece até que ela tá imitando uma...

— O movimento, Can — A voz de Scorpy atrás de si transmitia uma obviedade meio confusa — É mais fácil memorizar ativamente os movimentos, assim você consegue reproduzir sozinha depois, não acha?

Ah, claro… ela só queria ensinar o movimento

— Ah… ah, sim, sim… nossa, já tá virando…

Virou o rosto ligeiramente para o lado em tempo de ver os lábios da escorpiana formarem um sorriso algo orgulhoso.

— Isso aí! Agora misturamos os outros ingredientes… isso, assim mesmo… e agora separamos uma parte do glacê pra gente tingir e decorar os peixinhos de leite ninho! Isso… e podemos pingar o corante azul no glacê que vai pro bolo agora… — Scorpy pingou algumas gotas e sorriu ao ver a cor se fundir à medida que era misturada delicadamente pela canceriana — Viu como você consegue? Um glacê colorido no ponto certinho!

— Ai, finalmente!

Câncer se virou, o sorriso iluminado, e em resposta recebeu um beijo no rosto. Corou violentamente e fitou confusa a mais alta, que sorriu.

— Você é uma gracinha…

A loirinha se limitou a sorrir toda vermelha, a marca roxa do batom de Scorpy bem visível em sua bochecha.



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Bolo recheado e devidamente coberto com glacê, era hora de cuidar da decoração. Isso incluía usar o famigerado bico de confeiteiro.

— Ai… não sei se consigo fazer as ondinhas de glacê branco como eu tava imaginan… IH!

Havia apertado o saco com muita força, espirrando glacê branco sobre o azul em áreas que não pretendia fazer. Pronto! Estragara o bolo… já estava com os olhos marejando, sentindo-se incompetente e responsável por arruinar todo o tempo investido não apenas por ela, mas pela Escorpião…

— Hey, hey… florzinha, por que tá chorando?

A voz suave da escorpiana a fez soluçar.

— Eu… eu estrag-guei t-tudo… d-descuuuuulpa…!

— Desculpa pelo quê? — A escorpiana estava confusa.

— P-porque eu desp-perdicei o seu t-tempo e a sua t-tarde e…

Scorpy sorri e a aninha cuidadosamente, fazendo a loira arregalar os olhos lacrimosos.

— Você não desperdiçou nada e nem estragou nada… olha só…

Scorpy sorriu e pegou uma espátula, entregando-a a Câncer. Ante o olhar curioso da canceriana, guiou sua mão, alisando gentilmente o glacê branco sobre o azul de forma a espalhá-lo e afiná-lo. Ao cabo de alguns minutos, o que era um acidente havia se transformado em uma espuma dispersa, como as ondas que correm o oceano.

A loirinha arregalou os olhos e fitou a mais alta, que lhe sorriu.

— Você sabe tão bem quanto eu… porque somos água, querida. A água se adapta, a água toma a forma que precisar. Mas a água, quando precisa transbordar… ela transborda, e não há nada que a impeça de fazer isso… — Enxugou delicadamente uma lágrima de Câncer — Esse é o nosso poder, esse é o seu poder. E a gente transformou a força… em arte, vê?

Na verdade Câncer não tinha entendido quase nada do que a escorpiana havia falado, mas… bem, aquela voz e aquelas palavras eram tão hipnóticas e fascinantes…

— Acho que sim…

— E você, Canzinha, é a Lua! Você que movimenta marés e ondas, é você que diz aonde elas vão. Igual você fez com essa espuma desobediente…

Câncer a olhou sem saber bem o que dizer. Escorpião parecia absorta demais em sua própria metáfora e seguia falando, os olhos âmbar fixos nela.

— Nós somos filhas da água… você é o signo de água cardinal, é a que inicia as ondas e tormentas… e eu, signo fixo… dou forma e estrutura ao que você começa…

Escorpião pestanejou e seu olhar outrora intenso se amenizou.

— Eu deveria ler um pouco menos sobre Astrologia… acho que viajei um pouquinho, hehehe…

Câncer não sabia o que dizer. Aquilo tinha sido tão ardente e poético…! Apenas levou a mão ao peito, ofegante.

Os olhos de Escorpião faiscaram feito ouro por um momento. Em seguida, a escorpiana sugeriu que fossem fazer os peixinhos de leite ninho.

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Quatro mãos jeitosas trabalhavam melhor que duas mãos inseguras, supôs Câncer. Os peixinhos decorativos ficaram graciosos e a loirinha até arriscou fazer algas e corais. Ao final, decoraram o bolo, que parecia profissional.

— Ficou incrível! — Os olhinhos azul-céu de Câncer se iluminaram — Você faz milagres, é uma confeiteira profissional!

— Minha querida… foi você que fez o trabalho todo — Escorpião a corrigiu — Só o que fiz foi ensinar. Você foi capaz de fazer tudo com suas próprias mãos… — Segurou delicadamente as mãos claras da menor — Você só precisava de mais confiança…

— N-não sou muito boa nessas coisas de confiança…

— Você é maravilhosa, só não consegue enxergar isso. Mas ninguém é completo, pensando bem…

— Como assim?

Scorpy sorriu e alisou o rosto redondo.

— Que não dá pra gente ser perfeito. Então às vezes a gente consegue o que nos falta… fora da gente. Nos amigos. Na família. Nas viagens. Em quem ama…

Aproximou-se de Câncer.

— Se você não consegue ainda ter confiança em você… eu posso te passar essa confiança. Pelo menos enquanto você quiser e precisar…

Aninhou-a, enfim, e Câncer se encolheu, sentindo — mais do que ouvindo — o coração de Scorpy que batia forte. Aquele perfume… tinha uma coisa meio apimentada, oriental… não era como os perfumes florais adocicados que costumava usar. Era um perfume forte que marcava presença, e só uma pessoa de aura igualmente forte e marcante poderia fazer jus àquele aroma.

E aquela pessoa — Câncer concluiu ao erguer o olhar celeste à outra — era Escorpião.

Seus lábios se entreabriram e a loirinha fechou os olhos com força, corada e meio receosa. Sentiu os lábios delgados da outra se colarem à testa.

— Você é um amor. Agora é melhor guardarmos o bolo na geladeira para amanhã… e dar um jeito de a Touro não aparecer na cozinha.

— A-ah… eu… eu vou arrumar a cozinha e fico de olho… muito obrigada por hoje, Scorpy…

A escorpiana sorriu e piscou.

— Disponha sempre, meu bem…

Guardou o bolo com cuidado na geladeira e partiu, o salto ecoando corredor afora enquanto deixava uma ofegante canceriana para trás.

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Enquanto lavava a louça e afugentava uma taurina faminta da cozinha oferecendo um pote inteiro de sorvete, Câncer não conseguia parar de pensar na tarde que tivera ao lado de Escorpião.

Seu coração ainda não havia se acalmado totalmente, o rosto ainda corado. Bastava fechar os olhos por um momento e o perfume típico da outra parecia retornar ao recinto, impregnando-se em suas narinas assim como já estava impregnado em sua memória.

Lembrava-se do calor de seu corpo, da delicadeza de suas mãos, do pulsar de seu coração. Da segurança que transmitia, da poesia em sua voz. Havia se sentido tão querida e acolhida!

Scorpy não havia sido maliciosa ou assustadora como costumava enxergá-la antes… talvez a única coisa assustadora para si era a possibilidade de acabar se fascinando por aquela mulher. Possibilidade, aliás, que havia se confirmado naquela tarde, pelo visto.

Suspirou e passou a secar a louça. Achava-se tão… sem graça, sem beleza, sem qualidades… mas por outro lado as palavras da escorpiana pareciam cravadas em seus ouvidos lhe transmitindo força e, talvez… só talvez…

Um pouquinho de confiança?

Quem sabe…

Sacudiu a cabeça para tentar retomar o foco, mas um sorrisinho bobo brincava em seus lábios rosados.

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A escorpiana não conseguia parar de sorrir.

Tinha receado passar aquela tarde com Câncer. Era tão adorável e talentosa na cozinha que não via possibilidade de ensinar algo de relevante a ela. No fim das contas, até que conseguiram fazer um excelente trabalho em equipe!

Fechou a porta do quarto atrás de si e sorriu, delineando os lábios finos e arroxeados com a unha. Lembrava-se da maciez de Câncer em seus braços, daquele perfume floral suave e acolhedor. E aquela boquinha de rosa… como queria beijá-la naquele momento!

Mas precisara se conter. Não queria que ela pensasse que o que sentia por ela — que já vinha de um tempo — fosse algo de momento ou focado somente em sensações físicas. E depois, Câncer era tão doce e inocente… queria o momento certo. O momento em que ela não se encolhesse de vergonha e receio em seus braços.

Queria fazê-la feliz e estaria ali para isso. Daria confiança, coragem… e, quando Câncer finalmente estivesse em condições de aceitar ser amada por alguém…

Bom, estaria ali. Sempre.

Escorpião era paciente. Um dia, aqueles lábios macios se abririam para si por livre e espontânea vontade e buscariam os seus. Um dia, aqueles braços macios e quentes envolveriam seu corpo com a mesma vontade como Scorpy a abraçara naquela tarde. E, aí sim, poderia dar vazão àquela vontade de beijá-la, tomá-la para si e protegê-la do mundo.

Quem sabe…

Ah. Eu sei.

FIM

Notas finais
Bom, foi isso. Confesso que não sei ainda se é um retorno às fics (deste fandom ou de algum outro), mas foi bacana escrever um pouco, pra variar. Tirar as teias deste perfil, rs. Ah! E eu não entendo nada de confeitaria, então se houver alguma incongruência... por favor, tomem como licença poética. Obrigada por lerem! Lune Kuruta (18/08/2019)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!