Mar Revolto
1 Capítulo Único
— Diga-me Tom.
A rouca voz de meu avô tentou atravessar o rugir das ondas. Mesmo que o farol onde estávamos ficasse a centenas de metros acima do mar ele continuava intimidador, como o tigre que a poucos dias rugira para mim por detrás das grades do zoológico, não poderia me ferir, mas ainda me obrigava a manter uma distancia respeitável. Era a manhã do meu sétimo aniversario e meu avô pediu a meu pai para levar-me até as falésias, sem dar muitas explicações, já era perceptível seu gradativo caminho até a senilidade. Vendo que eu não havia o respondido, disse mais alto.
— Tom! — Ele colocava as mãos em concha ao redor da boca, o barulho não estava tão alto a ponto de ser realmente necessário, uma de suas diversas peculiaridades eu supus — Eu sou o velho e você que esta surdo?
Tirei minha atenção das ondas e foquei-me nele, suas incontáveis rugas adornando o rosto redondo e gentil, olhos azuis me encaravam com expectativa escondidos atrás de grossos óculos redondos.
— Desculpe vô, o que disse?
O vento desarrumou o cuidadoso cabelo repartido que minha mãe havia arrumado em mim, meu avô gentilmente começou a ajeita-lo com suas ásperas mãos enquanto dizia.
— Quantos anos esta fazendo garoto?
Ele terminou a rude reprodução do penteado original e voltou a recostar-se no banco de madeira em que estávamos sentados, de frente para o mar e a poucos metros do precipício, separado de nós por um parapeito de aparência precária.
— Estou fazendo sete anos!
Exclamei abrindo um infantil sorriso recortado por alguns dentes faltando, ele respondeu com um sorriso completamente desdentado, abaixou-se e pegou uma pequena pedra do chã revirando-a entre os dedos algumas vezes antes de atira-la em direção ao oceano .
— Sete anos! — Disse em um suspiro, tirando os óculos e colocando-os no bolso da camisa — Acho que você esta crescido o suficiente para ter.
O ar misterioso despertou a faminta curiosidade que apenas as crianças sabem alimentar.
— Ter o que? — Inclinei-me na direção dele com expectativa, havia meses que pedia para que meus pais dessem a mim uma bicicleta, não uma daquelas coloridas feitas de metal barato, uma de verdade, com detalhes em prateado e incontáveis raios nas rodas. — Uma bicicleta nova?!
Ele olhou-me franzindo o cenho e depois voltou a contemplar o horizonte.
— Tolice! Falo de conhecer o desconhecido, as coisas do mundo, os segredos das rochas e das ondas.
Um dia quando meu avô veio nos visitar para um jantar, ouvi meus pais falando baixinho sobre ele na cozinha, papai disse que o mar era sua única verdadeira paixão, e que a loucura munida de paixão pode resultar em estranhas e perigosas criaturas, eu não sabia exatamente o que significava aquilo, então simplesmente pensei que vovô era um daqueles piratas das histórias. Mas, naquele momento, as palavras começaram a se encaixar para mim.
Continuei observando-o, esperando alguma explicação enquanto tentava entender à minha própria maneira. O quebrar de ondas foi o único som durante longos minutos, ele admirava o horizonte com olhos distantes enquanto eu tentava desvendar os mistérios escondidos entre suas rugas. Ele finalmente percebeu minha confusão, revirou os profundos olhos azuis e pousou uma mão em meu magro ombro, apontando para uma grande rocha que erguia-se próxima à base do precipício.
— Vê o monólito Tom? Vê como as ondas açoitam-no como os guardas fazem com quem quer que julguem merecedor?
Assenti com olhos curiosos.
— Vê que ele permanece firme a despeito do quanto o mar ergue-se contra ele? Impassível diante de um algoz que o tem como refém, resistindo à tudo que em sua direção atiram! Mantendo-se firme!
Desta vez permaneci imóvel, incerto sobre como reagir, sua voz subitamente tinha tomado um tom febril e autoritário.
— Percebe como as ondas o atormentam?! Inquisidoras, incansáveis e ininterruptas a o perseguir. Como uma alcateia atrás de um rebanho de ovelhas!
Agora ele começara a chacoalhar-me pelo ombro, apertando mais a medida que falava, com os olhos e a mente vidrados na distante rocha. Quando eu começava a sentir o medo dentro de mim ele parou de chacoalhar-me, relaxando seu aperto e falou com um reconfortante tom.
— Vê?
Apressei-me em assentir, embora metade das palavras de seu discurso tenham chegado até mim quase irreconhecíveis, como abelhas depois que se atira uma pedra na colméia.
— Não é o suficiente. — Afirmou, correu os olhos pelo horizonte até que focou em algum ponto especifico, tentei identificar para onde olhava mas não consegui. — E aquele redemoinho Tom? Você o vê?
Ele apontava e gesticulava eloquentemente, mas não havia nada ali para ver, apenas ondas, talvez estivessem agitadas mas ainda assim eram apenas ondas. Balbuciei algumas sílabas como se ainda tentando perceber o que ele dizia.
— Não, onde esta? Não consigo ver nada.
Ele pareceu zangar-se, segurou minha cabeça e orientou-a para o centro do mar à nossa frente.
— Ali garoto! Não vê um redemoinho enorme?!
Espremi os olhos tentando ver o que meu avô tanto tinha para me mostrar, revistei cada centímetro de água meus olhos puderam beber, mas não encontrei nada sequer parecido com um redemoinho, senti um misto de tristeza e apreensão.
— Vovô; eu não vejo nada.
Ele se ajeitou no banco.
— Bom, suponho que não se pode ver tudo, e o céu garoto, ele você consegue ver correto?
Não entendi muito bem se ele caçoava de mim ou se fazia uma pergunta sincera.
— Mas é claro que vejo!
Apenas quando adulto que se entende o quão estranho é uma criança que tenta imitar a raiva. Meu avô manteve a mesma aparência serena, lembrei-me do monólito ao olhar para ele desta vez.
— A é? Então se o vê tanto assim imagino que deva conhecer cada curva que ele faz, imagino que deva conhecer todas as histórias do céu!
Ele fingiu a exclamação, a realidade é que divertia-se com a situação, eu por outro lado murchei, não conhecia nenhuma das histórias que o céu tinha para me contar.
— Não, acho que não conheço as histórias do céu...
— Foi o que pensei! — E acenou bruscamente com a cabeça, mas logo apontou para algumas nuvens e começou a falar — O céu tem mais histórias até mesmo do que sua mãe Tom.
Isso foi um pequeno choque para mim, até então eu achava que minha mãe conhecia todas as histórias do mundo.
— O que? — Não pude controlar o tom perplexo.
Ele crocitou uma risada.
— Isso mesmo garoto, mais historias do que sua mãe. — Ele ergueu as duas mãos, com uma capturou todo o céu, enquanto a outra aninhava o sol. — Por exemplo, conhece a eterna maldição do céu?
Já tinha ouvido os padres falarem sobre maldições, diziam que eram coisas horríveis.
— Não, qual é?
— O céu é um amante incorrigível Tom, ele não vive sem amar! Todos os dias o céu se apaixona pelo sol, apenas para ser deixado sozinho quando ele se põe! A lua até tenta consola-lo, mas acaba por abandonar o coitado também...
Imaginei o céu beijando o sol, e senti minhas bochechas ficando avermelhadas.
— Mas por que ele não aprende a lição e para de amar o sol? Ele é bobo?
— Com o tempo, o céu vai aprender que os amores vêm e vão, vai contentar-se com o jeito com que as coisas funcionam, talvez um dia ele entenda que não vale a pena tentar encontrar algo que não existe.
Olhei para a imensidão azul que se precipitava acima de mim, espelhada nas aguas turbulentas, imaginei quantas outras historias ele teria a dizer através do meu avô.
— Espero que ele encontre um amor para si.
Não sabia exatamente o que significava o amor, imaginava que era algo quentinho e que nos fazia sentir bem, como o ensopado mamãe fazia quando eu ficava doente, era algo que desejaria a alguém.
— Ele nunca vai encontrar um, mas aceita este fato.
Ficamos em um silencio desconfortável por alguns segundos, ao longe vi um barco que capturou minha atenção, navegando na linha do horizonte.
— Olha vô! Um barco!
Ele pôs a mão acima dos olhos para tapar o sol, e alegrou-se ao ver a embarcação, seu sorriso remetia à pura empolgação.
— Os barcos são ótimos sabia ? São muito corajosos.
Ate uma criança tem seus limites no que se refere a coisas impossíveis.
— Os barcos são corajosos? Como assim?
— Ora Tom, olhe só pra ele, singrando o mar, cruzando enormes distancias protegendo cargas preciosíssimas, vulnerável às feras marítimas. Qualquer erro por menor que seja poderia afunda-lo!
Por algum motivo, dentre todos os pensamentos filosóficos que ouvi naquela tarde, este eu não pude engolir.
— Por que ele não pode ser apenas um barco? — Perguntei fazendo beicinho.
Meu avô resmungou algo e se levantou batendo em suas roupas, fiz menção de levantar mas ele me impediu com um gesto.
— Fique aqui, vou até o carro, volto logo.
Ele partiu às minhas costas deixando-me com o mar, aquele tigre azulado que espelhava a dor do céu.
Ouvi um som bem alto de pedra raspando em pedra, tentei encontrar sua fonte e pasmei ao ver o gigante monólito, a pedra lisa muitas vezes mais pesada do que eu, lentamente ceder e tombar para frente. Ele foi relutante no começo, se desprendeu de sua confortável posição e começou a escorregar para a água, que por sua vez o atacava com renovado ânimo, depois de vários minutos resistindo o colosso se entregou as ondas, e deslizou os últimos centímetros ate ser engolido pelo mar, sorrindo para mim antes de desaparecer.
Fiquei um tanto transtornado, indeciso sobre como reagir a tal acontecimento, como se deve proceder depois de presenciar um dos assuntos de meu dia ser apagado da existência? Porém, meus devaneios foram interrompidos pelo chamado de meu avô.
— Tom, não se vire, feche seus olhos garoto.
Obedeci prontamente e ouvi seus passos se aproximando de mim, amassando a grama molhada com um leve som de arraste em seu encalço.
— Pode olhar.- Disse com um suspiro alegre.
Esta ordem não precisei pensar muito para obedecer, abri meus olhos e o vi parado ao lado do banco de madeira, segurando um pequeno pedaço de meus sonhos infantis em suas mãos, uma bicicleta vermelha com detalhes em prateado, completamente nova.
Não pude conter minha felicidade, me joguei para frente tentando alcança-la mas ele a tirou de meu alcance.
— Ultima pergunta garoto, prometo que depois terá a bicicleta — Ele apontou para o mar, mas continuou olhando para mim — vê o redemoinho?
Me senti irritado e confuso, para mim era uma questão de vida ou morte, a pergunta que valia toda a minha existência. Virei-me para a imensidão azul e empenhei-me para achar o tal redemoinho, olhei e olhei sem encontrar, procurei próximo ao barco que passava ao longe, entre as falésias, próximo a praia, nada. Tentei dizer algo.
— Vô; eu não...
Estaquei ao capturar um movimento de relance, carreguei o sobrolho quando meus olhos viram a água dançar para mim e lentamente tomar um sentido horário, formando um círculo, pisquei com força e a imagem tremeluziu, estava incerto sobre o que eu estava vendo. Espremi os olhos e ela o redemoinho se fixou, claro como jarra de cristal bem polida, alegrei-me imensamente, não sabia o que pensar mas estava vendo, ele estava lá.
— Eu o vejo! — Exclamei pulando do banco e ficando de pé — Ali está ele!
Apontei para meu avô, ele limitou-se a continuar me encarando, fechou os olhos por um momento e exalou pesadamente, disse em uma voz baixa e taciturna.
— Muito bem garoto você é exatamente igual a ele — Não prestei muita atenção a oque ele dizia, apenas a bicicleta me interessava, e ele lentamente estendeu-a para mim — Exatamente igual.
A bicicleta estava a poucos centímetros de mim, apressei-me em tentar alcança-la, mas pouco antes perguntei enquanto avançava.
— A ele quem vô?
Foi então que tudo ruiu, assim que meus finos dedos resvalaram no guidão, a forma vermelha foi arrancada do chão alçando voo, o momento se passou em câmera lenta para mim, meu avô atirando a bicicleta por cima do parapeito em direção ao abismo, e eu inutilmente indo atrás dela apenas para observar o pequeno ponto vermelho tendo o mesmo destino do monólito, engolfado pelas negras ondas.
— Igual ao céu garoto estupido! Assim como ele você esforça-se para encontrar coisas que não existem.
Ele deu meia volta e andou em direção ao carro parado ao longe, deixando-me recostado no parapeito, lágrimas escorriam, aquela bicicleta era meu sol, o mar revolto tornou-se minha lua.
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