Mar De Monstros - Brittana
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Mal pude distinguir a ilha à nossa frente — apenas um ponto escuro na névoa.
- Quero que me faça um favor — disse Santana. — sereias... Estaremos ao alcance do canto delas em breve.
Lembrei-me das histórias sobre as sereias. Elas cantavam modo tão encantador que sua voz enfeitiçava os marinheiros e os seduzia para a morte.
- Sem problemas — assegurei-lhe. — Podemos simplesmente tapar os ouvidos. Há um grande barril de cera de vela no convés de baixo...
- Eu quero ouvi-las.
Eu pisquei.
— Por quê?
- Dizem que as sereias cantam a verdade sobre o que a gente deseja. Contam coisas a seu respeito que nem você mesmo percebe. É isso que é tão encantador. Se você sobrevive... se torna mais sábio. Eu quero ouvi-las. Quantas vezes terei uma oportunidade dessas?
Vindo da maioria das pessoas, aquilo não teria feito sentido. Mas sendo Santana... Bom, soava menos estranho.
- Não. – respondi.
- O quê? Mas...
- Não. Eu não vou te ajudar com isso. Você vai se machucar Santana. Parece até que eu estou vendo você se atirando no mar e indo em direção às sereias. Não! – disse determinada.
Santana fez uma cara emburrada e me segurou pelos ombros. Desviei os olhos de seu rosto e ela puxou meu queixo para encará-la.
- Isso é importante para mim, Britt. – ela disse – Quando eu vou ter uma chance dessas de novo? Eu estou segura com você.
- Eu não quero te perder – desabafei – Não sabe como eu fiquei com medo quando você e Circe estavam brigando. Eu achei que ela fosse te matar, Santana! Não sei se eu consigo fazer isso.
Ela pousou as mãos na minha nuca e me puxou em direção aos seus lábios. Abracei sua cintura e escondi meu rosto no seu pescoço. Ultimamente eu estava ficando muito sentimental.
- Está bem. – respondi e ela se atirou no meu pescoço – Você ia fazer com ou sem a minha ajuda, não ia?
- Você me conhece bem demais, Cabeça de Alga. – ela respondeu com um sorriso largo tomando conta de seus lábios.
Ouvi seu plano e concordei em ajuda-la a se preparar. Ordenei as cordas do navio que a amarrassem no mastro principal.
- Não importa o que eu diga ou o que eu faça, não me solte. A não ser que queira que eu me jogue no mar. – ela disse enquanto eu me inclinava para beijar seus lábios carnudos.
- Não vou te soltar, Sabidinha. – respondi levantando.
Coloquei os tampões no ouvido e vi os lábios de Santana segurarem o riso. Para quem estava amarrada em um mastro sob o meu controle, ela estava sendo bem engraçadinha. Considerei a hipótese de amarrar a boca da morena também, mas eu não a ouviria de qualquer maneira.
O silêncio era assustador. Eu não conseguia ouvir nada a não ser o sangue correndo na minha cabeça. Quando nos aproximamos da ilha, rochas pontiagudas assomaram no nevoeiro. Ordenei ao Vingança da Rainha Ana, nome do navio, que as contornasse. Se chegássemos mais perto, aquelas rochas iriam retalhar o casco como lâminas de liquidificador.
Dei uma olhada para trás. De início, Santana pareceu totalmente normal. Depois ficou com uma expressão intrigada. Seus olhos se arregalaram. Ela forçou as cordas. Chamou meu nome — eu sabia só de ler seus lábios. Sua expressão era clara: precisava se soltar. Era questão de vida ou morte. Eu tinha de soltá-la das cordas imediatamente. Parecia tão infeliz que foi difícil não libertá-la. Forcei-me a desviar os olhos. Encorajei o Vingança da Rainha Ana a ir mais depressa.
Eu ainda não conseguia ver a ilha muito bem — apenas nevoeiro e rochas -, mas flutuando na água havia pedaços de madeira e fibra de vidro, destroços de velhos navios, e até alguns assentos flutuantes de aviões. Como a música podia desviar tantas vidas de seu curso? Quer dizer, com certeza havia algumas canções entre as mais tocadas que me faziam querer mergulhar nas chamas em queda livre, mas ainda assim... Sobre o que as sereias deviam cantar?
Por um momento perigoso entendi a curiosidade de Santana. Fiquei tentada a tirar os tampões de ouvido, só para ter ideia da canção. Podia sentir as vozes das sereias vibrando no madeirame do navio, pulsando em meus ouvidos junto com o ruído do sangue.
San implorava. Lágrimas escorriam em seu rosto. Lutava com as cordas como se a estivessem impedindo de alcançar tudo que mais importava para ela. Como pode ser tão cruel?, parecia me perguntar. Pensei que me amasse. Olhei fixamente para a ilha enevoada. Tive vontade de destampar minha espada, mas não havia nada contra o que lutar. Como se luta contra uma canção?
Tentei muito não olhar para Santana. Consegui fazer isso por cerca de cinco minutos.
Foi meu grande erro.
Quando não pude aguentar mais, olhei para trás e encontrei uma pilha de cordas cortadas. Um mastro vazio. A faca de bronze de Santana estava caída no convés. De algum modo, ela conseguira se contorcer até pegá-la. Tinha me esquecido completamente de desarmá-la.
Corri para a amurada do barco e a vi dando braçadas desesperadas em direção à ilha, as ondas a arrastando direto para as rochas pontiagudas. Gritei seu nome, mas, se ela me ouviu, de nada adiantou. Estava hipnotizada, nadando rumo à morte. Olhei para o timão atrás de mim e gritei:
- Pare!
E então pulei da amurada. Caí na água e ordenei que a correnteza contornasse meu corpo, num fluxo que me atirou para frente. Cheguei à superfície e avistei Santana, mas uma onda a pegou, arrastando-a por entre duas presas de pedra afiadas como navalhas.
Não tive escolha. Lancei-me atrás dela.
Mergulhei por baixo do casco destroçado de um iate, trancei por entre uma coleção de bolas flutuantes de metal presas a correntes que, depois, percebi que eram minas. Tive de usar todo o meu poder sobre as águas para evitar que fosse esmagado contra as rochas ou preso nas redes de arame farpado esticadas logo abaixo da superfície. Atirei-me entre as duas presas de pedra e me vi em uma baía em forma de meia-lua. A água estava atulhada de mais rochas, destroços de navios e minas flutuantes. A praia era de areia negra vulcânica.
Olhei em volta desesperada, à procura de Santana. Ali estava ela. Por sorte ou por azar, era boa nadadora. Conseguira passar pelas minas e pelas rochas. Estava quase na praia negra. Então o nevoeiro se espalhou e eu as vi — as sereias.
Imagine um bando de abutres do tamanho de pessoas — com plumagem preta enlameada, garras cinzentas e pescoço rosado e enrugado. Agora imagine cabeças humanas em cima desses pescoços, mas as cabeças humanas ficavam mudando.
Eu não conseguia ouvi-las, mas podia ver que estavam cantando. Enquanto as bocas se moviam, os rostos se nos transformavam de pessoas que eu conhecia — minha mãe, Poseidon, Finn, Joe, Will. Todas as pessoas que eu mais queria ver. Elas sorriam de modo tranquilizador, convidando-me a prosseguir. Mas, não importava que forma tomassem, as bocas eram gordurosa. Recobertas de restos de antigas refeições.
Santana nadava na direção delas. Eu sabia que não podia deixá-la sair da água. O mar era minha única vantagem. Sempre me protegera, de um jeito ou de outro. Impeli o corpo para frente e agarrei o tornozelo dela. No momento em que a toquei, um choque atravessou meu corpo, e vi as sereias do modo como San devia estar vendo.
Três pessoas sentadas sobre uma toalha de piquenique no Central Park. Havia um banquete espalhado na frente delas. Reconheci o pai de Santana pelas fotos que ela me mostrara — um cara de aparência atlética, cabelos cor de areia, com seus quarenta anos. Estava de mãos dadas com uma linda mulher muito parecida com San. Ela estava vestida de modo informal — calça jeans, blusa de algodão e botas de caminhada -, mas algo na mulher irradiava poder. Sabia que estava olhando para a minha sogra. Ao lado dela sentava-se uma garota, loura com olhos verdes e um sorriso encantador. Era a menina do meu sonho.
Pisquei com força. Quando abri os olhos, tudo o que vi ali foram as sereias — abutres horrendos com feições humanas, prontos para devorar mais uma vítima.
Puxei Santana de volta para as ondas. Não pude ouvi-la, mas percebi que estava gritando. Ela me chutou no rosto, mas continuei segurando. Ordenei às correntes que nos arrastassem para dentro da baía.
Santana me esmurrava e me chutava, dificultando minha concentração. Ela se debateu tanto que quase colidimos com uma mina flutuante. Eu não sabia o que fazer. Jamais chegaria ao navio, vivo, se ela continuasse lutando. Afundamos, e San parou de se debater. Sua expressão ficou confusa. Então nossas cabeças afloraram e ela começou a lutar de novo.
A água! O som não se propagava bem embaixo d'água. Se eu conseguisse submergi-la por tempo suficiente, poderia quebrar o encantamento da música. É claro, Santana não ia conseguir respirar, mas naquele momento isso parecia ser um problema menor. Agarrei-a pela cintura e ordenei às ondas que nos empurrassem para baixo.
Mergulhamos nas profundezas — três metros, seis metros. Eu sabia que teria de tomar cuidado, porque era capaz de suportar muito mais pressão do que San. Ela lutou e se debateu para respirar enquanto bolhas subiam à nossa volta. Bolhas.
Eu estava desesperada. Tinha de manter Santana viva. Imaginei todas as bolhas do mar — sempre se agitando, subindo Imaginei-as se juntando, sendo empurradas até mim. O mar obedeceu. Houve um turbilhão de branco, uma sensação de cócegas, e quando minha visão clareou San e eu tínhamos uma enorme bolha de ar ao nosso redor. Apenas as pernas continuavam mergulhadas em água. Ela engasgou e tossiu. Seu corpo todo estremeceu, mas quando ela me olhou soube que o encantamento tinha sido quebrado.
Santana começou a soluçar — quer dizer, soluços horríveis, de partir o coração. Encostou a cabeça em meu ombro e eu a abracei.
- Vamos voltar ao navio. Está tudo bem. Apenas aguente firme.
San balançou a cabeça para me dizer que estava melhor, depois murmurou algo que não pude ouvir por causa da cera nos ouvidos. Fiz a corrente manobrar nosso pequeno e estranho submarino de ar por entre as rochas e o arame farpado, e de volta para o casco do Vingança da Rainha Ana, que mantinha o curso lento e estável, fugindo do alcance da voz das sereias. Então subi para a superfície e nossa bolha de ar se desfez. Ordenei que uma escada de corda descesse por cima do costado do navio, e subimos a bordo.
Mantive meus tampões de ouvido, só por garantia. Navegamos até a ilha ficar completamente fora de vista. Santana ficou sentada, aconchegando-se em um cobertor no convés dianteiro. Sentei-me ao seu lado e abracei sua cintura. Por fim, ela ergueu os olhos, confusa e triste, e murmurou, salvas.
Removi os tampões. Nenhuma cantoria. A tarde estava silenciosa, a não ser pelo som das ondas batendo no casco. O nevoeiro desfizera e o céu estava azul, como se a ilha das sereias nunca tivesse existido.
- Você está bem? — perguntei.
No momento em que disse isso, percebi a besteira que tinha falado. É claro que ela não estava bem.
— Eu não sabia — murmurou ela.
- O quê?
Seus olhos estavam tristes e mais escuros do que o normal.
- Como a tentação seria poderosa.
Não queria admitir que tivesse visto o que as sereias haviam prometido a ela. Eu me sentia uma intrusa.
- San... – Comecei – Quando puxei seu tornozelo...
- Me perdoe, Britt. Não quis chutar seu rosto, eu juro. – ela disse vindo em direção a minha bochecha e deixando um beijo no local.
- Não é isso... É que... Bom, eu vi o que você viu. Quer dizer, seu pai, sua mãe e... – Não precisei completar a frase.
- Eu não... Britt, não era nada de mais. Era apenas... Uma amiga. Ninguém especial. Ei, eu te amo. – ela sussurrou se encolhendo em meus braços.
- Eu também te amo. – respondi mais tranquila.
Navegamos por cerca de mais meia hora quando Santana levantou os olhos e saltou dos meus braços, puxando-me pela mão.
- Britt, olha. – ela disse.
A frente havia outra mancha de terra — uma ilha em forma de sela com colinas cobertas de florestas, praias de areia branca e campinas verdes -, exatamente como eu tinha visto em meus sonhos. Havíamos chego ao lar do Ciclope.
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