Mar De Fogo

24 Planos e Armações parte III


Notas iniciais
Obrigada Nunak, Bia, Letícia Samantha, Júpiter, Mary Oliver e Tsukasa pelas recomendações absolutamente lindas.

Eu nunca fui dos melhores alunos em esgrima, ainda que não fosse dos piores. Eu gostava da arte, mas sentia preguiça de praticá-la na maior parte das vezes. Então, quando minha espada se chocou contra a de Garuda, e nós orbitamos ao redor de um ponto imaginário enquanto nossos olhos desafiavam-se mutuamente, eu cheguei a me perguntar o quanto tudo teria sido diferente caso eu fosse realmente bom e houvesse derrotado o Santiago na noite em que o Labareda subjugou o navio de meu pai. Nisso, as mordidas das lâminas tornaram-se mais furiosas.

Garuda desceu a espada contra mim, e tive de erguer a minha para não acabar cortado do ombro até meu baixo abdômen. Pude sentir meus braços vibrarem com o impacto e, tão logo o barulho de metal estalando contra metal estimulou meus ouvidos, Garuda girava o corpo com a espada, para me atingir na lateral com um golpe feroz. Virei a espada para o chão, dando um passo rápido pelo lado e sentindo o cabo quase escapar das minhas mãos ao experimentar o impacto.

Não havia tempo para pensar. Aumentei a pressão no cabo, imediatamente defendendo um segundo golpe, que me levou para trás, e então andávamos pela margem numa dança acelerada, e eu dependia dos meus reflexos enquanto era empurrado para trás, para longe de Helena. Em cima, em baixo, do lado, nas pernas, no alto! Ela gritava, mandava-nos parar, dizia a Garuda que, se me machucasse, ela nunca o perdoaria. Isso me irritou, pois parecia dizer que eu era incapaz de machucar o contramestre.

Então segurei um golpe com a espada em frente a meus olhos, na horizontal, e a empurrei para frente com meus braços, obrigando Garuda a dar um passo para trás. Peguei impulso e tentei afundar minha espada nele, imitando o corte rasgante que ele jogara contra mim, inicialmente. Ele se defendeu e novamente girou, dando uma abertura. Tentei atingi-lo na lateral do corpo contrário ao movimento, mas ele foi rápido e colocou a espada nas costas, sem ter terminado o giro, e impediu meu ataque.

Voltou a avançar contra mim, e eu me vi novamente recuando, sentindo a raiva transbordar. Que me chamassem de hipócrita por querer defender minha irmã daquele pirata quando na noite anterior eu havia entregado meu corpo a um. Porém nunca disse que considerava minhas ações adequadas e sensatas, que eu não era louco por aceitar aquilo tudo; ou que o caminho que escolhi era o que me garantiria o melhor dos futuros. Pelo contrário, era o caminho inconsequente, absurdo, que parecia dizer que eu tinha um desejo oculto de sofrer, e morrer.

Eu não queria isso para minha irmã.

A queria de volta à Inglaterra, segura, com uma vida pela frente, apreciando as mais belas artes, as mais encantadoras peças de teatro, os mais deliciosos jantares e a mais confortável das camas de dossel. A queria rica e feliz, casada com um homem direito que a amasse e cuidasse. Eu lhe desejava a vida que ela teria, caso não houvesse vindo atrás de mim. Eu seria culpado, caso ela perdesse tudo isso por envolver-se com um pirata. Assassino e ladrão, como James dissera. Eu apenas fechava os olhos para isso, quando se tratava de minhas próprias decisões, mas não podia fazer-me de cego com Helena.

Eu continuei sendo empurrado para trás. Também girei para me desviar de um ataque, e ao final do giro consegui cortar-lhe uma panturrilha antes que ele tivesse tempo de pular. Porém isso me rendeu um corte no ombro. Pude sentir o sangue quente escorrendo e esquentando meu braço quando tropecei para trás segurando meu corte que imediatamente curei, com o poder do anel.

Garuda olhou com escárnio para isso.

“Não é capaz de aguentar as próprias feridas?” Ele perguntou.

“Não é capaz de manter suas mãos longe de alguém muito acima de você? Você não merece sequer olhar para minha irmã.” O desprezo fez-se evidente em minha voz, e eu o olhei dos pés à cabeça, como se ele fosse um mendigo sujo das ruas de Londres, que me causavam tanto nojo, quanto pena.

Ele rugiu.

“Você não sabe nada sobre minha relação com Helena.” Ele explicitou, e eu ri cheio de deboche. Helena corria até nós quando Garuda avançou de novo e, com um golpe ascendente da espada, fez a minha saltar para o ar. Ele a capturou com a mão livre, e eu me vi completamente desarmado, sentindo o suor escorrer por meus cabelos bagunçados, meu coração movendo-se em meu peito como o mar agitado que eu apreciara mais cedo.

“Garuda!” Helena exclamou, enfim colocando-se entre nós dois. “Pare essa loucura. Meu irmão é impulsivo e inconsequente, mas se você se atrever a machucá-lo de novo...”

Garuda abaixou as espadas, com um suspirou profundo e impaciente.

“Não faria nada muito grave com seu irmão.” Ele declarou entediado, deixando claro que isso deveria ser óbvio desde o início. Eu torci meus lábios, levantei-me e tentei passar por Helena, pois se dependesse de mim aquilo não iria terminar tão cedo, porém alguém segurou meu braço, assustando-me.

Quando me virei, deparei-me com Terrece. Ele estava pálido e o suor brotava abundante de sua testa. Tinha uma expressão mais assustada e amedrontada do que quando estava prestes a cair ao mar em meio à tempestade. E a explicação estava em seu ombro.

Katana estava desacordado, parecendo morto, jogado sobre o ombro do primo.

“V-Você precisa ajudar com... Seus poderes.” Terrence implorou, e sua voz tremia como o fogo de uma vela ao vento, ameaçando apagar-se. “Katana... Ele... Ele desmaiou e está queimando em febre.” Terrence tirou Katana de seu ombro e deitou-o no chão. Katana parecia ainda mais pálido e, para espanto de todos nós, começou a convulsionar assim que Terrence o largou.

“Meu deus...” Helena murmurou, e Terrence segurou Katana, gritando para que eu fizesse alguma coisa. Senti uma ligeira tontura, mas me ajoelhei em frente ao rapaz.

Eu não sabia o que fazer. Não sabia o que ele tinha! Coloquei minhas mãos sobre ele, mas em todas as outras vezes eu havia curado um corte, ou um osso quebrado. Eu sabia com o que estava lidando. Com as sereias, eu sabia que elas apenas estavam fracas e perdendo energia, então eu lhes entregava energia da natureza e pensava que queria fechar o ‘caminho’ por onde essa energia poderia escapar.

Talvez eu tenha de fazer a mesma coisa aqui. Minhas mãos também tremiam quando segurei Katana. Ele convulsionou por algum tempo, e meu coração se apertou ao ver Terrence chorar, lágrimas escorrendo silenciosas de seu rosto. Ele me olhou com tanta confiança, que eu me senti quebrar. Porque eu não conseguia encontrar em que me concentrar. Fechei os olhos, mas o corpo de Katana parecia repudiar minha ajuda, não deixava a energia do vento fluir para dentro dele. Eu tampouco sabia para onde direcioná-la.

Afastei minhas mãos, assustado.

“N-Não consigo.” Katana continuava tão desacordado quanto antes, mas agora começava a murmurar palavras inconscientes, suando como um homem condenado. Condenado... Ele não pode morrer.

“Tente de novo!” Terrence exclamou. “Seu filho da puta inútil, tente de novo!” Ele me xingou no desespero, mas eu sequer me importei. Poderia socá-lo mais tarde. Tentei de novo, fechando os olhos e me concentrando ao extremo.

Novamente em vão.

“Melhor levá-lo até o Reno. Ele talvez saiba qual a melhor conduta.” Helena falou, mostrando que já tomara conhecimento sobre o médico do Labareda. “Ou ao Perec, o médico do Tigre Imperial.” Ela estava igualmente nervosa, torcendo as mãos.

Helena era delicada, impressionava-se com facilidade e sempre fora muito sensível quanto à morte. Uma vez, fizera luto por um mendigo que vivera por anos na rua de sua mansão, a quem ela costumava ajudar e, por vezes, até dar abrigo em dias frios de tempestade, mandando empregados acomodarem o velho senhor na área de serviço da mansão. Não que eu não me impressionasse com a morte, mas eu nunca havia feito luto por um mendigo. Em realidade, eu nunca havia feito luto por ninguém.

Eu me afastei novamente, frustrado por minha incapacidade. Achava que havia dominado o poder do anel, mas agora percebia que estava longe disso. Eu sabia apenas lidar com situações óbvias, e com a energia simples que nos cercava. Ergui-me um tanto zonzo. Esforçar-me tanto para usar o anel havia me desgastado. Ainda não havia me alimentado desde que acordara, já havia curado a sereia e a mim mesmo, e esse parecia ser o meu limite.

“Vamos até o Reno.” Eu determinei. Aquela poderia ser uma doença caribenha simples, que ele resolveria com facilidade. “Ele irá cuidar o Katana.” Eu precisava acreditar nisso.

Terrence também.

De modo que se ergueu novamente com Katana no colo, e nós corremos retomando o caminho para a vila.

Eu teria de lidar com Garuda mais tarde.

XxxX

A casa era simples, como qualquer outra naquela vila, e uma mosca passeava pelo cômodo com seu barulho irritante enquanto alguns mosquitos entravam em cena, zumbindo vez ou outra em meu ouvido. Katana estava deitado sobre o catre tosco, já com vários panos gelados sobre seu corpo, e continuava a delirar, numa conversa monocórdia dentro de seus próprios desvarios adormecidos.

“Ele reclamava de febre, e logo depois de torcicolo. Depois ele desmaiou e então... Começou a se sacudir daquela maneira...” Terrence explicava, agitado. Coçava os braços e mexia na barba de segundo em segundo, seus olhos mais furtivos do que nunca, olhando para cada canto da casa, menos para o primo doente. Helena não aguentara e saíra da casa, mas eu a entreguei aos cuidados dos ingleses, pedindo que a mantivessem longe de Garuda. Eles me olhavam com desprezo por minha traição, mas ficaram felizes com a ideia de manter o pirata longe dela.

Helena ficou furiosa, também porque queria explicações sobre meus poderes — que ela provavelmente já teria escutado de Garuda e outros, mas ainda queria ouvir por mim -, e Garuda teria vindo tirar satisfação, caso Santiago não houvesse aparecido.

“Sabe o que pode ser, Reno? Talvez Dominic precise entender do que se trata para usar o anel.” Santiago sugeriu, aproximando-se de mim e colocando uma mão sobre meu ombro. “Você também parece péssimo... Está bem? Soube que andou brigando com o Garuda.”

Havia certa repreensão em seu tom. A qual eu obviamente ignorei.

“Não é ele que tem de estar bem! É meu primo! É ele que parece que irá morrer a qualquer momento!” Terrence exclamou completamente alterado, seu peito subindo e descendo em uma respiração pesada. Reno suspirou massageando a testa, parecia tão perdido quanto qualquer um de nós.

“Já li relatos de algo assim, mas muito vagos... Essa dor que ele sente na nuca, a confusão mental e os delírios, talvez se trate de algo afetando-lhe o cérebro. Mas com essa evolução tão rápida... Irei preparar algumas infusões, porém é tudo que posso fazer. Opções são escassas nesse fim de mundo, resta o repouso e uma boa alimentação.” Reno parecia o único realmente calmo. “Terrence, poderia conseguir alguns caranguejos? Li uma vez que pó da casca deles tem boas propriedades.”

Terrence concordou nervosamente e correu para a rua, deixando apenas nós três, e Katana.

“Vou tentar de novo.” Avisei aproximando-me do catre. O problema talvez estivesse no cérebro. Era onde eu me concentraria. Coloquei minhas mãos nas têmporas do Katana, fechando os olhos. Santiago me impediu antes que eu tivesse tempo de me concentrar. Algo complicado, pois não havia nenhuma energia realmente vibrante naquele cômodo.

“Você ainda não se olhou num espelho, Dominic? Parece exausto. Deveria descansar antes de se desgastar. Reno pode cuidar do Katana por algumas horas.” Ele disse, olhando-me com censura, seu aperto forte em meu braço. As imagens da noite anterior insistiam em invadir minha mente a cada momento em que eu o encarava, então desviei o olhar.

“E de quem é a culpa por isso?” Perguntei retórico, escorrendo sarcasmo. “Não vou dar chance ao azar, Reno recém falou que é um caso grave, ele não parece que conseguirá se recuperar sozinho.” Me afastei do Santiago, ignorando seu suspiro irritado, e voltei e me concentrar. Consegui captar certa energia, que me beijou os dedos, mas isso foi tudo.

Por mais que eu me concentrasse, não conseguia entender o que eu deveria fazer. Comecei, sem perceber, a tentar doar minha própria energia, sentindo a tontura aumentar e meus músculos cederem, fracos. Santiago segurou-me quando eu quase caí, afastando-me antes que eu acabasse me matando.

Reno se adiantou, pois Katana havia aberto os olhos.

“Katana?” Reno chamou.

Eu cheguei a sorrir achando que havia funcionado, mas então Katana revirou os olhos e começou a resmungar, pedindo por misericórdia. Retirou com ânsia os panos de cima de si, como se fossem insetos asquerosos lhe mordendo a pele, e gritou por socorro, antes de virar para o lado e vomitar um líquido amarelado.

Tapei minha boca com o dorso da mão. Também me sentia nauseado.

“Ele está alucinando.” Reno falou gravemente, segurando Katana contra a cama para impedi-lo de se debater.

“Não, por favor! Não deixem eles chegarem perto de mim! Estão em mim, eu sinto eles se mexendo, eu sinto. Na minha cabeça, estão se movendo!” Katana chorou e apertou as mãos na cabeça, agarrando seus cabelos como se tentasse arrancá-los. Empurrou Reno, que caiu de bunda no chão, e continuou gritando. Santiago se aproximou e deu-lhe um soco que voltou a colocá-lo num estado adormecido.

“Não precisava ter sido tão bruto!” Eu exclamei, enquanto ajudava Reno a se levantar. Trinquei os dentes, sentindo meus olhos arderem. Por que eu era incapaz de ajudar? “Você está bem?” Perguntei ao Reno, que assentiu, e me joguei cansado em uma cadeira, minha cabeça estourando. Que maldição, eu sou jovem e saudável, não deveria sentir-me tão cansado por tão pouco. Acariciei meu anel, mesmo que parte de minha raiva se dirigisse a ele.

Tapei meu rosto apertando meus olhos.

“Dominic... Você precisa de ar. E nós dois precisamos conversar.” Santiago recomendou, e eu não encontrei forças para contestar. Apenas deixei ele me levantar e me guiar com ele para onde quer que me levasse. “Reno, cuide do Katana. É um bom garoto, não merece morrer tão cedo, muito menos dessa forma.” O pesar no tom do capitão talvez fosse um dos motivos de eu não xingá-lo por me pegar no colo no instante seguinte.

Fiquei tão perdido em pensamentos que sequer percebi para onde ele me levou. Olhei para o porto simples, e vi os homens trabalhando na querenagem dos navios, para limpar-lhes a parte inferior. Garuda dava ordens aos homens, cuidando de todo processo. Nena também estava por ali. Agora que estava de volta, ela era novamente a Imediata do Labareda, e eu era novamente apenas a ‘boneca do capitão’. Torci os lábios para isso, mas sem a mesma indignação de antes.

Sentia-me triste com meu fracasso.

Acabei em um quarto da estalagem, apenas eu e Santiago. Ele se sentou na cama, mantendo-me em seu colo. O olhei estupefato quando ele acariciou meus cabelos bagunçados, encarado-me de uma maneira que me fez estremecer.

“Não pode se culpar por não conseguir curá-lo.” Santiago disse em seu raro tom suave, ainda que seu timbre natural jamais perdesse o tom grave e forte. “Nem tudo sai como gostaríamos.”

“E-Ele é tão jovem...” Murmurei apertando as mãos em minha calça, sobre minhas coxas. “Um ano mais novo que eu apenas. E é importante para o Terrence. Como ele ficará se o primo morrer? Katana me agradeceu de uma maneira tão sincera quando eu salvei o Terrence...” Disse, lembrando-me do sorriso dele, da felicidade em seus olhos. “Por que não consigo usar o anel?”

“Talvez o anel não cure tudo, ou talvez ainda haja muito que você precise aprender sobre ele. Mas em nenhuma das hipóteses a culpa é sua, então não faça essa cara de choro como se fosse você assassinando o garoto.” Santiago demandou, levemente autoritário, mas sincero. Seu braço circundava minha cintura e, cansado, eu descansei meu rosto em seu peito. Não disse nada. Não queria pensar na possibilidade de o Katana realmente morrer.

Ficamos em silêncio por alguns minutos, e eu cheguei a fechar os olhos, sentindo que poderia adormecer a qualquer momento, principalmente com os afagos dele em meus cabelos. Aquilo era tão bom. Era raro o Santiago demonstrar algum carinho assim – ou melhor, qualquer tipo de carinho –, aparentemente sem segundas intenções. Também era raro eu ficar tão dócil no colo dele, mas eu não estava com paciência para discussões, ou reclamações.

“Então, não vai me contar por que brigou com o Garuda? Ter uma boa relação com o contramestre é algo importante, se é que esqueceu. Garuda é bem relacionado na tripulação, e é a pessoa que faz o intermédio entre as vontades dos marujos e o Imediato, que responde a mim.” Santiago explicou, ao que eu soltei um resmungo. Não estava me importando em me dar bem com a tripulação no momento, ainda que eu tivesse de me preocupar com isso mais tarde. De qualquer forma, Nena voltara a ser Imediata e eu estava livre desse cargo que havia sido enfiado em minha goela de um modo nada democrático.

“Ele está tentando seduzir minha irmã.” Resmunguei tentando não alterar a voz, porém meus lábios franziram com o simples desgosto amargo da frase. Santiago demorou alguns segundos a me responder, e eu cheguei a pensar que não me escutara, devido aos sons das preparações no cais, movimento na rua da vila e gritos de gaivotas que subiam os ares e invadiam o quarto em estranha sintonia.

“E qual o problema?” Santiago enfim perguntou, e eu me afastei levemente para olhá-lo. “Homens tentam seduzir mulheres desde que o primeiro mar surgiu na terra.”

Soltei uma risada sarcástica, nasalada, e me levantei de seu colo. Fui para a janela, e apoiei uma mão no peitoril, sentindo a brisa que trazia todos aqueles sons acariciar meu rosto e cabelos. Como podia aquele lugar ser tão belo, e tão desoladamente solitário ao mesmo tempo? Minha irmã merecia sua vida devidamente confortável e nobre em Londres.

“O problema é que minha irmã é uma tola romântica, e eu não quero vê-la magoada. Ou melhor, não quero vê-la deflorada por um pirata.” A palavra me escapou com mais desprezo do que eu esperava, porém só conseguia associá-la ao Garuda no momento. A imagem dele com o rosto enfiado no decote de Helena fazia-me estremecer de indignação. “Não vou permitir que ela estrague o futuro dela dessa forma.”

Santiago riu como eu havia feito, porém com ainda mais escárnio. Minha mão apertou o peitoril da janela e eu me virei parcialmente para encará-lo, com uma expressão já não muito boa. Meu humor estava por um fio e, eu até poderia estar exausto, mas não estava falando nenhuma brincadeira para ouvir uma de suas risadas debochas. Santiago levantou-se e se aproximou de mim, seus olhos pregados em meu rosto, deixando-me tenso pela forma como se movia, a graça leve de um animal, uma fera predatória.

Meu coração disparou tolamente.

“Então quer dizer que alguém que é deflorado por um pirata terá o futuro arruinado.” Ele disse, e eu não soube identificar se era uma pergunta, afirmação ou sugestão, mas a indireta estava perfeitamente colocada. “Está insinuando que eu estraguei teu futuro ontem à noite?” Um arrepio me percorreu de cima abaixo apenas com a menção da noite anterior, como se as palavras apertassem meu corpo como aquelas mãos brutas haviam apertado.

Controle-se, Dominic, você está pior que uma gata no cio. Me recriminei, virando o rosto novamente para a rua, e vendo uma garotinha correr atrás de um cachorro vadio, seguida por outros dois garotinhos, as risadas parecendo tão inocentes e despreocupadas que cheguei a invejá-las, apesar de seus pés descalços e sujos, a pele cinzenta de fuligem e os cabelos ensebados.

“Não seja estúpido, isso não é sobre nós dois.” Eu falei baixo, mas meu tom me denunciava, e Santiago não era nenhum tolo. Segurou meu queixo, obrigando-me a encará-lo. Maldita mania de tentar me subjugar pela força, algum dia ainda o faria comer suas próprias mãos num espeto.

“Como pode não ser, se é exatamente a mesma coisa? Despreza tanto a ideia de tua irmã com meu primo, mas tudo bem me chamar de amante e se deitar comigo com toda aquela paixão e entrega?” Ele perguntou inicialmente sério, mas o amaldiçoado sorrisinho convencido apareceu ao final, enquanto minha face queimava e meus olhos arregalavam.

Tive vontade de rir novamente, mas o som deixou meus lábios de uma maneira um tanto desconcertada.

“Santiago, você estragou minha vida desde que resolveu me raptar, isso bem antes de acabarmos caindo na cama, e eu posso ter aceitado tudo isso por motivos que nem eu entendo; muito provavelmente porque sempre tive um péssimo juízo para a maioria das coisas em minha vida, mas não vou deixar minha irmã cometer as mesmas loucuras que eu.” Tentei livrar meu rosto do aperto, mas ele aumentou a pressão em minha mandíbula, e eu torci os lábios pela dor.

Seus olhos castanho-negros insondáveis teriam me feito fugir caso eu não estivesse tão aprisionado a eles.

“Isso se chama hipocrisia, Dominic. Viver loucuras é um dos desejos secretos de qualquer ser humano. Gostamos de nos arriscar, de seguir o incerto mesmo com a possibilidade de que isso acabe com nossas vidas.” Ele se aproximou mais, um único passo à frente que deixou a região lombar de minhas costas pressionadas contra o peitoril da janela. Tive de erguer meus olhos para continuar olhando-o nos orbes negros, e o ar ao meu redor fugiu, tornando-se rarefeito.

Maldita atmosfera e suas mudanças bruscas de condições climáticas.

“Não fale como se todos quisessem agir como piratas, arriscando levar um tiro na testa a todo o momento.” Ladrei, ignorando a fisgada em minhas entranhas. Respirei fundo em busca de saciar a fome de ar em meus pulmões.

“A maioria é assim, Dominic. Você é assim, sua irmã é assim, ambos têm alma de pirata.” Santiago falou, com uma disfarçada sugestão de zombaria. Sem qualquer aviso, sua boca simplesmente atacou a curva de meu pescoço, parecendo uma lambida de fogo na pele. Ergui a mão para o contorno duro de seu queixo, tentando empurrá-lo, mas falhando. “E ambos gostam de sentir o fogo de um pirata, de ter a vida destruída por um...”

“Não.” Ainda tentei empurrá-lo, mas isso era tão efetivo quanto um gatinho tentando dar patadas em um leão. Senti-me profundamente ofendido com suas palavras, e ofendido com meu próprio corpo. Eu tinha a doce ilusão de que, após transarmos, eu me tornaria imune às suas provocações e toques. “Não pense que só porque transamos eu vou me entregar e fazer tudo que você quiser. Não virei seu brinquedinho, nem nunca vou virar!”

“Eu não estou fazendo nenhuma brincadeira aqui, Dominic.” Santiago sussurrou, e praticamente feriu-me com um beijo punitivo por minha teimosia.

Tomou-me num abraço constritor e, se antes eu já estava com falta de ar, agora poderia desmaiar asfixiado, com uma escuridão prazerosa rondando os limites de minha consciência, lentamente tomada por sua virilidade agressiva. Gemi contrafeito ao ser ainda mais pressionado contra seu corpo pétreo, meus braços presos entre nossos corpos. Puxei o ar com força quando ele me permitiu. Lembrei-me do quanto eu sempre odiara ser manipulado e dominado, e parecia que era apenas isso que Santiago fazia comigo, esmagando-me contra seus músculos rígidos.

Concentrei-me em minha raiva, associando-o com Garuda, que talvez agora estivesse dando um jeito de enfiar-se sob as saias de Helena.

“Pare com isso...!” Exclamei sem fôlego.

“Quer que eu pare depois do que houve ontem à noite? Depois de me deixar conhecer e explorar todo seu corpo, gemer sob mim, mostrar como seus quadris esbeltos foram feitos para receber um homem?”

Se meu rosto não estava da cor de meus cabelos após tais palavras, eu então jamais atingiria tal tonalidade facial, pois nada poderia ser tão constrangedor quanto uma afirmação como aquela. Oh, como ele podia fazer-me odiá-lo tanto, com tão poucas palavras?

“O-Ontem à noite eu estava fora do meu juízo perfeito! Foi a bebida, o álcool!” Grasnei encurralado, novamente tentando empurrá-lo, e novamente não conseguindo movê-lo um centímetro sequer. Santiago riu disso, e uma de suas coxas acomodou-se persuasivamente entre minhas pernas, escancarando para nós dois minha excitação.

“E qual tua desculpa para isso?” Ele quis saber, sorrindo maquiavélico, movendo a coxa, de tal forma que solucei um gemido indigno, misto de surpresa, vergonha e excitação. Minha vida tornara-se uma sucessão de desonras desde o rapto. “Hoje de manhã você parecia bastante disposto, e não havia mais nenhum álcool para culpar.”

“C-Continuo fora de meu melhor juízo.” Garanti num gaguejo, e puxei o ar antes que, após um riso nasalado, ele esmagasse novamente meus lábios. Senti-me tonto demais para resistir à língua exploradora do Santiago. Justamente o contrário do que eu esperava acontecera. O sexo não me deixara mais resiliente a tais investidas, e sim mais vulnerável e responsivo. Eu sentia que iria explodir, meu corpo implorava para experimentar as mesmas sensações da noite anterior, queimando com as lembranças recentes de seus toques.

Santiago agarrou meus pulsos e levou minhas mãos para abraçá-lo.

“Por que não me toca como ontem à noite?” Ele perguntou sedutor, segurando-me o rosto, e seus olhos estavam tão próximos que cheguei a sentir-me um pouco vesgo ao fitá-lo, enxergando-o um pouco embaçado. Minha boca abriu e fechou, sem palavras, até eu encontrar uma boa razão para não acariciálo como na noite anterior. Deus que me perdoe, mas eu havia criado um monstro. Ou melhor, alimentado um monstro.

“Há um homem morrendo nesse exato instante, um homem da sua tripulação! E você acabou de defender o Garuda! Deveria estar no meu lado.” Eu reclamei, estreitando os olhos. Podia sentir o desejo primitivo e insidioso dele justamente pressionado contra meu abdômen, mas tentava ignorá-lo, e ignorar justamente os efeitos disso em mim. Meu corpo poderia estar tão febril quanto o de Katana.

Santiago riu zombeteiro, com certa irritação.

“Do seu lado? Você acabou de deixar bem claro que despreza nós piratas e não quer um com sua irmã, destruindo a vida dela, que também não deseja para ninguém a vida que leva agora... E devo te apoiar?” Ele soltou-me abruptamente e se afastou, passando uma mão pela cabeça. Havia raiva e impaciência em seus gestos. “Às vezes eu não sei de onde encontro paciência para lidar com você. Deve ser a maneira como move os quadris para andar, rebolando essa bunda para cima e para baixo.”

Deliberadamente optei por ignorar a questão do rebolado, era uma mentira tão obscena que não merecia uma gota sequer de minha saliva. Concentrei-me em assuntos pendentes mais importantes.

“Não sabe como lidar comigo?! Eu que não sei como lidar com você! Como ontem no bar, em que me humilhou na frente de todos aqueles homens, avisando para Deus e o mundo o que iríamos fazer. Eu deveria tê-lo deixado na mão. Literalmente.” Rosnei apertando meus pulsos e me aproximei alguns passos indignados dele, minhas botas estalando no piso de madeira velha.

Ele bufou achando minha lembrança ridícula.

“Todos souberam que transamos, qual o grande drama? Deveria estar satisfeito que deixei todos saberem que havia resistido a mim até ontem, e não empinado o rabo logo nos primeiros dias, algo que eu teria preferido bem mais.” Santiago contrapôs, irônico, seus dentes surgindo entre os lábios torcidos. Ele agarrou meu braço logo acima do cotovelo e me puxou bruscamente, de modo que precisei apoiar minhas mãos em seu peito para não tropeçar.

A tentativa de acertar-lhe um soco falhara de uma forma mais miserável do que eu imaginara.

“E apenas para constar,” Ele sorriu torto. “Eu não dou a mínima se estraguei tua vidinha londrina perfeita. Garuda provavelmente não se importará em estragar a da tua irmã.” Deu-me um beijo estalado nos lábios, tão irônico e provocativo quanto seu sorriso, enquanto eu ainda piscava estonteado, e imediatamente largou-me para dirigir-se à porta.

“Descanse. Você está precisando, fica ainda mais insuportável quando cansado, pior que uma criança sonolenta e birrenta.” Ele disse indiferente, já abrindo a porta e parando um momento para me olhar. “Mandarei que preparem algo para você comer. E irei ver como Katana está, certificar-me que não o deixem morrer. Quem sabe assim na próxima vez você esteja mais disposto a abrir novamente as pernas.”

Eu quase pude sentir a fumaça escapando de minhas orelhas. Peguei a primeira coisa que minhas mãos encontraram, mas o Santiago fechou a porta segundos antes que a lamparina do quarto se espatifasse em seu rosto irritante. No lugar disso, ela explodiu contra a madeira da porta, e logo eu me jogava na cama, abafando um grito de ódio num dos travesseiros.

Como eu poderia ter pensado, por um segundo sequer, que estava apaixonado por alguém como ele?

Notas finais
Próximos capítulos serão mais dark... Fica o aviso. :3 Ah, e consegui dar uma respondida nos reviews, porém os do cap. passado ainda não. Irei respondendo-os aos poucos. Provavelmente no final de semana. Obrigada a quem continua acompanhando. Pretendo dar mais foco nessa história até terminar o primeiro arco dela. Beijos!