Marés do Tempo
7 Marés do passado - Lembranças eternas
Notas iniciais
Eu nunca saberia dizer se nós expulsamos as sereias por tocarmos bem ou mal demais, mas isto é detalhe. Depois de um longo jantar com meu tempero, rock e bebidas para todos, a tripulação já estava bem melhor, e já havíamos voltado a navegar pelo fundo do mar.
–Capitão!- Elizabeth apareceu na taberna.- Há algo a frente!-
Eu me levantei, dei um ultimo gole em minha bebida, limpei a boca com o braço e sai correndo para o convés, corri para as redes de cordas e subi em uma delas para melhorar meu raio de visão.
A nossa frente se erguia a majestosa Atlântida, a cidade mítica que fora submersa, e nunca fora encontrada. Deixando apenas mitos e lendas pelo mundo.
O que se estendia a nossa frente era apenas uma pequena parte do que deveria ser a cidade, um recorte de uma cidade que deveria abrigar milhares de habitantes, com ruas, templos e magníficos palácios de arenito, colunas e centros de entretenimento.Agora me formava o pensamento cômico de que a Atlântida original havia sido espalhada pelo universo em pequenos globos de neve, como uma lembrancinha para alienígenas que visitaram a terra.
A cidade estava quase completamente tomada pela vida marinha, mas parecia uma aquisição recente do planeta, apesar de tudo. As ruas tinham algas entre as pedras, e as casas foram tomadas por peixes e outros seres, podia-se ver resquícios de habitação humana, e até alguns esqueletos abandonados aqui e ali, já que a cidade afundara sem aviso, mas agora, parecia um lugar estranhamente colorido e pacifico, com toda a vida que circulava por suas antigas ruas.
Mas algo me impedia de ficar totalmente maravilhado. Não havia nenhum portal ao nosso redor, nem o menos um brilho estranho, nada, tudo que havia eram ruínas e peixes.
Eu fiquei preocupado, escalei o cordame que ligava ao mastro, cheguei até o cesto e olhei ao redor... Não havia nada.
Olhei mais atentamente com minha luneta, havia apenas uma rua central onde a cidade fora cortada, e esta, por sua vez, era cortada por um arranhão imenso, uma fenda, que se abria quase exatamente no centro da grande avenida, formando um X. Tirei o olho da lineta e olhei a bandagem em meu braço, onde havia um X de sangue vermelho-vivo.
Sorri de lado, meu canino brilhou a luz do oceano.
–Companheiros!- Gritei, enquanto descia escorregando por uma corda.
–Acho que tenho nosso portal... Johnathan, qual é o estado do dispositivo temporal?-
–Extremamente avariado, capitão... Tem até uma gosma verde escorrendo dele-
Corri até lá, de fato, tinha uma gosma verde escorrendo da pequena caixa preta, com uma ampulheta desenhada, que ficava acoplada a um pedestal no centro do navio... Ela era quase indestrutível, por ser feita com tecnologia de outra civilização, até quem sabe de outra dimensão, embora tivesse sido aperfeiçoada no pós-segunda guerra da terra.
Nós havíamos roubado ela e dado a nós mesmos com uma intervenção temporal. Eu planejei tudo isso por dias, e, no ultimo minuto, um capitão quase estragou tudo, mas eu dei um jeito, bem a meu jeito. Foi no triangulo das bermudas, coincidência?
Olhei-a, de alguma forma, era como se aquela pequena maquina, pouco maior que um cubo mágico comum, tivesse sentimentos, tivesse uma mente... Mas, espere... Parecia faltar algo nela, ela parecia... Vazia. Tive um mal pressentimento, meu sangue gelou, meus olhos dispares se travaram em um ponto fixo a frente por um momento. Minha mente agia a toda a potencia.
Girei em meus calcanhares e caminhei até a porta da taverna. Abri a porta com as duas mãos, e lá estava.
Ghost estava simplesmente parada a minha frente, sorridente, o espectro temporal... Agora entendia sua existência, ela era parte da maquina, parte que fugiu da ferida e se condensou em minha mente, Ghost era a lembrança dela mesma, que se formara quando o tempo se rompeu, Ghost era, de certa forma, a maquina.
Eu suava frio quando ela veio em minha direção, creio que deixei aberto meu poder de ler mentes, por que ela pareceu ler a minha pelos meus olhos. Ela me abraçou e disse:-Eu não quero voltar a ser a caixa, gosto de mim assim... Posso navegar com você, ser sua companheira...-
Eu senti-a em meu corpo retesado de tensão, retribui o abraço, e, compartilhando meus sentimentos, decidi.
–Você não precisa mais ser a maquina, contanto que navegue a meu lado, sempre, como sei que sempre esteve.-
Ela sorriu, eu senti isso. –Você pode concertar?- perguntei. –Sim, facilmente, mas precisarei estar perto, pois a caixa necessita da energia que está em mim, por enquanto, se ela não recarregar completamente, nunca mais poderemos sair do tempo em que estamos.-
Virei-me. –Vamos sair daqui companheiros!- (Aeeeew!) corri para o timão, e Ghost postou-se ao meu lado com a caixa, semi-concertada, conseguiríamos utiliza-la mais uma vez, para ir para casa, depois ela teria que recarregar.
O nosso galeão-submarino acelerou pelas ruas em ruínas da cidade, olhei para meu braço, com o corte em X tinha que ser isso...
Passamos pelas ruas da cidade, afastando peixes e seres marinhos, e estávamos chegando ao centro do grande X de ruas da cidade. Deveria haver um praça ali, cercada de colunas, mas havia apenas a grande fenda, que levava a escuridão.
Preparei-me, concentrei-me, encarei Ghost, ela me olhou, sorri de lado. Pela escuridão entramos, pela escuridão sairíamos. Posicionei o navio exatamente no centro da fenda, ele, ao invés de encaixar-se, afundou. A escuridão nos cobriu novamente.
–Certo, companheiros... Vamos mais uma vez as marés do tempo!-
O tempo e espaço se distorceram, entramos novamente nas marés do tempo, e eu estava novamente ao timão, conseguimos o que nenhum pirata jamais conseguiu, escapamos do planeta do tesouro.
As marés do tempo me surpreenderam, estavam agitadas como nunca antes. O vortex temporal chamado de rio estige parecia uma imensa nuvem rodopiante de tempestade eterna, e fissuras no tempo surgiam aqui e ali, eu desviava, cair numa delas era um fim inimaginável, eu girava o timão de um lado a outro, desviando das fissuras que exalavam energia e sentimentos confusos, dos quais, se caíssemos, viraríamos apenas mais um turbilhão de emoções perdidas no tempo, esquecidas e mortas.
Eu gritava para meus companheiros, que amarravam cordas, esticavam outras, puxavam velas, corriam de um lado para o outro, lembranças de tempos perdidos que caiam eventualmente caiam agora como chuva... Ursinhos de pelúcia abandonados e zarolhos, anéis de noivado que nunca encontraram seu lugar, fotos de pessoas que nunca mais se viram, cartões de aniversários passados, de um futuro desconhecido.
Navegar nas marés do tempo é algo que realmente tem o poder de nos sensibilizar por que, por mais durões que possamos ser, o tempo sempre esconde algo que vai nos tocar. E eu, frágil e solitário, sofria com todo o passar do tempo. O tempo é escrita que não se apaga, mas que muda, com ele mesmo. E muda sempre, para você, unicamente, como para todos. O tempo é paradoxo ordenado, é ironia, karma e lógica. Entender o tempo é navegar em mares desconhecidos, e enfrentar vida e morte, e morrer e viver.
O tempo cura, mas enlouquece. O tempo sara, mas cria as cicatrizes. O tempo muda, levando consigo a existência.
Uma fissura enorme surgiu a nossa frente, duas luzes brilharam no escuro, eu girei o timão até o limite, para desviar daqueles olhos, mas eles me viram, e encararam os meus, Ghost caiu desmaiada, todos gritamos, eu me perdi no meu interior.
Creio que também desmaiei. Aqueles olhos eu já conhecia, eram como os do velho Huracan, ao menos havíamos desviado o navio... Estava mais preocupado com minha mente.
Levantei do chão entupido de livros velhos, ursos de pelúcia, Filmes que marcaram infâncias, e CDs de épocas amadas e passadas... Olhei ao redor, estávamos no mar, um mar azul claro, eu conhecia aquelas águas.
O céu era azul também, o cheiro de sal e madeira subia ao ar, o céu estava azul com o sol do fim da manhã, ouvia-se ao longe gaivotas, não estávamos longe da terra. Um vento macio e revigorante passou por minha face, retire o casaco de capitão para sentir melhor a brisa, respirei, sorrindo, e virei-me.
Ghost estava se levantando ao meu lado, com a caixa preta na mão, eu dei minha mão para ajuda-la, e, quando ela ficou de pé, abracei-a segurando pela cintura.
–Aprecie o mar do caribe, minha cara senhora do tempo.- Sorri de lado, com os olhos brilhando, os cabelos balançando ao vento, ela sorriu, eu me virei e tive um súbito impulso de beija-la, ela viu-o em meus olhos, e completou a ação.
Lembrei me de que era romântico. Isto fora bloqueado no dia em que sai do cais de Jasminy. Romantismo não rima com pirataria, não rima com a minha vida, não desde Jasminy. Ela sim sabia o quanto é duro para um homem romântico ser tão solitário.
Olhei para o horizonte, meu sangue gelou. Eu sabia que o emocional afetava as Marés do tempo, mas nunca havia chegado a me afetar daquela maneira, não até agora.
Corri para o topo do mastro, ao chegar, tirei minha luneta do bolso e abri-a ao Maximo, coloquei-a sobre meu olho direito, e sob o por do sol eu vi um navio. Que estava escrito: The Unforgiven. Era o meu navio. Voltamos no tempo para o dia em que comecei minha viagem.
–Oh, merda.-
O rugido dos canhões ao longe deu-me tempo apenas para gritar: -Abaixem-se!- antes das balas, pesadas e flamejantes, chegarem ao casco do Fade to Black. E o caos começou.
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