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5 Quatro Decisões Diferentes



-Muito bem. Agora — o chefe Balrog suspirou recostando-se nja parede da caverna perto da fogueira — Chegou a parte mais difícil do avanço de classe de um Guerreiro.

-Outro desafio? — Davien perguntou em um sussurro. Seus amigos encaravam o homem, pensando que nova provação ele teria que passar.

Depois que Thugles e Nick voltaram à cidade, encontraram Vampiritico sentado casualmente ao lado da loja de poções. Eles ralharam um pouco porque ele havia saído da luta sem nem tentar ajudar — o que ele rebateu dizendo que Davien pedira pra que fizessem isso, e que conseguiria lidar com eles sozinho. De fato, o rapaz com a foice chegara uma hora depois, e dissera que o gatuno fizera o certo. Ao permanecerem junto com ele, os dois magos só atrapalharam.

Ele contou que, depois de acabar com os javalis, havia encontrado o musculoso instrutor de Guerreiros de segunda classe. Ele não falar muito, apenas o enviara para um novo mapa cheio de cães-esqueleto, alguns deles com resto de bandagens de mumificação. O objetivo era simples: matá-los até dropar trinta Pérolas Negras, que segundo o instrutor, estavam cheias da energia maligna dos monstros.

-Não foi tão difícil — ele contou quando lhe perguntaram — Só é chato. Menos da metade deles dropava as malditas bolas, e eu gastei umas dez poções de HP. Mas no final eu ganhei uma medalha — acrescentou mostrando o pequeno disco de ouro preso a uma fita verde e vermelha.

Depois de encerrado o assunto, eles foram direto para a tenda do chefe Balrog, que não pareceu surpreso ao ver a medalha que o orgulhoso aluno mostrava. Ele assentira para o grupo e então havia pedido que se sentassem.

-Ah sim, esse é um desafio muito mais difícil do que os cachorros. Para alguns — acrescentou — Mas acho que, pra você, vai ser uma verdadeira provação.

O rapaz ergueu os olhos, ligeiramente desapontado. O chefe sorriu.

-Não se preocupe, não é que eu duvide de sua força — ele disse em um tom muito sincero — Ou de sua capacidade. Mas é que esse desafio não se trata de matar monstros ou mostrar sua força. Essa prova — ele fez uma ligeira pausa — É uma pergunta.

-Um enigma? — adivinhou, o ânimo decrescendo. O velho guerreiro fez que não com a cabeça.

-Não exatamente. É uma decisão, que uma vez tomada, não poderá ser mudada. É o que você vai ser pelo resto da sua vida, o que você vai representar, pelo que você vai lutar. Muito poucos guerreiros sabem o que querem ser antes de chegar o momento.

-Espera, então ele pode escolher outra classe? Tipo... Uma ramificação dos Guerreiros?

-Exatamente — o chefe sorriu para Thugles, que tinha um olhar cheio de expectativa — Todas as outras classes têm essa opção. Como aprendiz, você vê que existe o uso de arcos e bestas, espadas e lanças, garras e adagas. Você então escolhe uma delas, mas mesmo dentro de uma classe, existem várias armas e técnicas que cada classe pode ter, e o segundo avanço é onde você decide em qual delas se especializar.

-Cada uma das cinco classes possui duas opções, exceto os Bruxos e os Guerreiros, que possuem três — continuou — Você poderá escolher entre Soldado, Escudeiro ou Lanceiro. Sobre qual delas você quer aprender primeiro?

-Hm... Não sei — Davien hesitou, pensativo — Não sei nada sobre nenhuma delas, então, pode ser na ordem que o senhor disse.

-Muito bem, Soldados então. Eles focam no uso de espadas e machados, de uma ou duas mãos. As de duas mãos são mais fortes e têm alcance maior, mas as de uma mão são mais rápidas e permitem o uso de um escudo. São, como o nome sugere, a linha de frente do combate. Focam no dano e em atacar o máximo possível, com boa velocidade de ataque.

"Já os Escudeiros, como o nome também diz, não dispensam um bom escudo. Usam maças ou espadas de uma mão, e sua principal vantagem é a defesa. Usam escudos e armaduras pesadas, chegam a ser um pouco lentos, mas têm um truque especial: em níveis futuros, ficam mais adeptos a usar magia. Podem carregar tanto a arma quanto a armadura com cargas elementais, como fogo, gelo, raio e até mesmo o atributo sagrado".

Mas Davien já fizera uma careta quando o chefe começara a parte sobre magia.

-Não, Escudeiro não. Quero ser um Guerreiro "puro", tipo, nada de depender de magias e poções de MP. Um bom golpe com a lâmina é o que importa.

O chefe Balrog deu uma risadinha.

-Não é um mau pensamento, mas há um pequeno equívoco. Guerreiros sempre usam MP, seja ele um Escudeiro ou qualquer outra classe. Claro que, mesmo focando em nossas armas, um pouco de magia nunca é dispensável. Mas só em pequenas quantidades — acrescentou num leve sorriso — Deixamos a parte de magia para os Bruxos.

-E por fim, restam os Lanceiros. Eles, obviamente, usam lanças, que podem ser comuns ou feitas para batalha. Eles são parecidos com os escudeiros, mas a diferença é que focam em resistência, e não em defesa. São ágeis, as armas têm bom alcance e têm defesa superior à dos Soldados. São, usando uma definição bruta, um híbrido entre Soldados e Escudeiros — ele deu uma leve espreguiçada — E usam um pouquinho de magia em níveis superiores, também. Agora — ele acrescentou, sério — Qual a sua decisão?

Davien hesitou, sem saber o que dizer. O chefe Balrog assentiu.

-Como eu pensava. Como eu disse, pouquíssimos Guerreiros terminam essa parte rapidamente. Alguns ficam dias, até semanas, decidindo-se qual caminho seguir. Seja qual for sua decisão, Lanceiro, Soldado ou Escudeiro, você vai ganhar um belo bônus para a arma da classe que focar. E as três escolhas são boas, não há uma melhor ou pior. Apenas para você — acrescentou — Para cada Guerreiro, apenas uma escolha é a correta. E não se preocupe com a indecisão. Qualquer que seja sua escolha, você aprenderá a gostar dela e não vai se arrepender. Eu sei como não deixar isso acontecer, entende.

Ele exibia um sorriso sincero e paternal, que fez Davien sorrir também. Mas agora, o que ele escolheria? Escudeiro ele já sabia que não seria. Precisava escolher entre Soldado e Lanceiro.

-Bem, pense no que você mais gosta de usar — Thugles sugeriu quando o rapaz pediu ajuda — Se você for Soldado, o que usaria? Espada ou machado? Acho que essa sua foice se encaixaria melhor como lança... Por falar nisso, ela é o quê? Lança, espada, maça...

-Uma foice é uma foice — o chefe Balrog respondeu — Definitivamente, não é uma maça. Mas ela se assemelha muito às lanças de batalha. Portanto, os bônus passivos de lanças de batalhas a afetariam.

-Mas isso não significa nada. Essa foice é boa, mas você não pode pretender usá-la pra sempre, afinal, certamente existem armas mais fortes.

-Acho que não, hein, Nick. Eu pensava isso também, mas o ataque dela vem aumentando cada vez que eu passo de nível. É uma arma que upa junto comigo, então é bem provável que eu a use. Mas não sei se quero ser Lanceiro — disse o rapaz.

O chefe Balrog inclinou-se para o lado e sussurrou alguma coisa no ouvido de Nick. O garoto arregalou os olhos levemente, mas assentiu e ficou olhando para Davien na expectativa. O rapaz ia perguntar, mas o chefe lhe deu uma piscadela avisando que ignorasse.

-Deixa eu ver... Soldados têm bom ataque, gosto disso... Lanceiros usam lanças, maior alcance, ah...

-Quer dar uma volta ou coisa assim? — Thugles sugeriu.

-É, nos desenhos o cara sempre dá uma volta e aí acontece alguma coisa megafoda e aí ele se decide — Vampiritico ajuntou — Eles nunca se decidem assim de repente.

-Calem a boca.

Eles riram. Passaram-se cinco minutos. Depois dez... Finalmente, Davien ergueu-se de um salto.

-Quero ser Lanceiro!

-Magnífico! — Thugles se levantou parecendo igualmente espantado — Alguém tem um megafone pra eu anunciar aí?

-Cala a boca — disse automaticamente, arrependendo-se ao lembrar de onde estava — Hã... Pois é, eu me decidi. Quero ser Lanceiro.

-Tem certeza? — o chefe Balrog perguntou, olhando fixamente para ele de baixo. O rapaz assentiu.

-Sim. Refleti bastante, e no final acho que é a melhor vocação pra mim. Ser Soldado me pareceu bacana, mas... Sempre achei as espadas da esgrima do MinarForest curtas demais pra mim. Prefiro algo com cabo mais longo, mais alcance.

-Excelente! — o homem sentado sorriu. Então, inesperadamente, ergueu uma das mãos no ar, com a palma aberta voltada para Nick. O garoto olhou confuso por alguns momentos antes de entender e, hesitante, bateu a palma da própria mão na do velho.

-Conte pra ele — o homem sorriu olhando para seu aprendiz. Nick sacudiu a cabeça.

-Bem, ele... Ele me disse que você escolheria Lanceiro — contou, com um dar de ombros impotente — Parece que ele é ainda melhor do que imaginamos.

-É, nisso eu sou bom. Gosto de adivinhar que escolha meus alunos tomarão... E deixá-los decidir para aprenderem a dificílima arte de tomar decisões. Enfim, Davien, está pronto para se tornar um Lanceiro?

-Sim, senhor!

-Muito bem então — ele ergueu a mão e uma aura laranja cobriu o rapaz, como a que os havia coberto no primeiro avanço de classe — Bem, é isso. Não sei quanto aos outros instrutores, mas acho que, quando um guerreiro completa o segundo avanço, a última coisa que ele quer é ouvir palestras chatas do seu instrutor.

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Assim que os amigos saíram da tenda do chefe Balrog, tomaram uma decisão: iriam encontrar Sheddeer.

Mesmo que o amigo tivesse dito a eles para esperar, eles não queriam continuar ali aguardando por ele. Queriam vê-lo, queriam ajudá-lo no que quer que fosse que estivesse tentando descobrir. E além disso, queriam ver como eram as coisas fora da ilha Victoria.

Por isso, eles trataram de upar os três amigos, para que todos pegassem o segundo avanço antes de sair de Victoria. A última parte do guia de Donnie lhes dizia para voltar ao local de escavação, onde encontrariam algum tipo de animal que usava máscaras de madeira. Eles deveriam passar por esse local até encontrarem um ponto onde só tinham Máscaras de Pedra.

O up estava sendo bem rápido, quase lembrando um MMORPG normal. Davien atacava a todos com a foice, ganhando a maior parte da EXP enquanto os amigos, com seus ataques consideravelmente mais fracos, ficavam com o resto(que mesmo assim era bastante). Eventualmente, Vampiritico atingira o nível 30 e saíra em direção a Kerning, pra completar seu avanço.

-Agora só falta os dois maguinhos — Davien disse para eles — Cara, por que vocês upam tão devagar?

-Bom, a gente não tem uma foice muito boa ou ataques rápidos de adaga, só essa Garra Arcana que tem dano estável mas que não ajuda muito em monstros mais fortes — Thugles respondeu.

-Além disso, se alguém não tivesse perdido boa parte do nosso dinheiro, poderíamos comprar equipamentos melhores — Nick acrescentou, e isso encerrou firmemente a discussão. Mas Davien não ia deixar se abater tão fácil.

-Isso não muda o fato de que eu estou trabalhando e vocês catando o lixo que sobra — resmungou, mas ninguém o ouviu.

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Em um lugar muito longe dali, um outro homem sofria em meio a dezenas de monstros.

Eles eram grandes e sólidos, e seus ataques tremiam o chão de uma maneira que, se ele não resistisse ou pulasse, cairia contra o solo colorido. Aqueles monstros realmente estavam lhe dando trabalho. Matara dois, mas ainda havia dezenas...

Eles, entretanto, não eram dragões, lagartos ou fantasmas, em uma terra árida ou alguma mansão mal-assombrada.

Eram golens feitos com peças de brinquedo, em um mundo inteiramente construído com tijolos de lego.

Fazia dias que andava à procura dos Golens de Brinquedo. A torre de Eos, com todos os seus cem andares, não oferecia nenhuma pista de onde eles poderiam estar. Tampouco os Gorduchos que cuidavam da manutenção da torre sabiam lhe ajudar. Só restou ao homem procurá-los em cada um dos andares, sempre tendo que lutar contra os monstros que perambulavam pelos confins da torre.

A cidade onde estava, Ludibrium, era realmente feita com lego(o que tornava o lugar impossível de se andar sem sapatos), e seus monstros eram inspirados da mesma maneira. Ratos de corda, aranhas, polvos de brinquedo... Esses eram os monstros que ele tinha que enfrentar.

Mas como sempre, não se deixara enganar pela aparência infantil do lugar. Vira o nível dos monstros, provara o quanto eles poderiam ser mortais se subestimados. Mesmo assim, ele podia enfrentá-los facilmente. Não era um guerreiro comum, não era um simples jogador evoluído demais só porque havia participado do beta. Aquele era Gatts.

E ele não estava ali apenas para curtir as invenções da cidade. Chegara ali com um único objetivo: encontrar os monstros mais poderosos da torre e derrotá-los, para conseguir mais uma peça de seu equipamento.

Fazia alguns dias desde que iniciara aquela Quest. Provavelmente, seria a mais longa de toda a sua estadia naquele jogo... Ele a começara pela primeira vez durante o beta, encontrara o NPC secreto em uma cidade e descobrira que a Quest era única, ou seja, apenas um jogador poderia completá-la. Faltavam dois dias para terminar os testes quando isso acontecera, e quando entrou no jogo novamente em sua escola, a primeira coisa que pensou foi em ser o primeiro a encontrar o NPC...

E lá estava ele, em uma caverna de El Nath, atarracado e musculoso, com as roupas rasgadas e cheias de fuligem exatamente da maneira como ele se lembrava. Obviamente, não deu sinais de ter reconhecido o rapaz. Mas Gatts se lembrava bem. No beta, conseguira juntar apenas parte do raríssimo equipamento...

Agora, ele poderia completá-la. Não havia o risco de ter que sair do jogo não cedo, a menos que morresse. E ele não pretendia morrer. Só lhe restava continuar a busca pela armadura.

Depois de encontrar a primeira peça em El Nath, partira para a próxima em Ludibrium. Qualquer pessoa poderia encontrá-la, mesmo sem ter a Quest, mas apenas quem a tivesse saberia onde procurar a peça. E era virtualmente impossível que mais alguém estivesse na torre de Eos procurando a passagem secreta onde ficavam os Golens(mesmo porque, durante o beta, ele não havia encontrado nenhuma outra menção ao lugar onde procurá-los) se não tivesse a Quest.

E se tivesse, se houvesse alguma pessoa com a infelicidade de estar procurando pelas mesmas peças que ele, pagaria o preço.

O guerreiro os encontrara no quarto andar da torre depois de várias horas de procura. A passagem era uma peça no formato de um leme de navio posicionada acima de uma placa azul de brinquedo em uma parte discreta do andar, plana demais para estar ali por acaso. Ele o girou e a porta se abriu, revelando a aura azul que era um portal. Excitado, ele entrou.

Quase imediatamente, fora atacado pelo que tanto procurava.

Ele se esquivou com destreza, levando apenas um segundo para registrar o que enfrentava. Os golens eram imensos, umas duas cabeças maiores do que ele e feito de blocos grandes e pesados de lego. A cabeça era um tijolo com seis "pinos" de encaixar.

Esses eram os amarelos, que pareciam menos fortes. Havia também um outro tipo, menos comum naquela sala, cujos blocos tinham uma cor azul bem escura, quase cinzenta. Tinham três tubos presos às costas que davam a impressão engraçada de serem um jetpack. Eles também tinham um par de enormes parafusos um de cada lado da cabeça, como se fossem orelhas.

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Assim que o viram, eles partiram para cima do guerreiro, que chegou a sorrir. Finalmente chegara ao lugar que procurava...

Como que também ansiosa pelo combate, sua arma saltou da sua cintura e foi parar na cabeça do primeiro golem. A maça, um cabo longo com uma pesada esfera dourada na ponta, não tirou muito HP, mas o primeiro ataque veio acompanhado de um segundo, um terceiro, uma chuva de golpes pesados e mortais.

Não demorou até que o primeiro Golem estivesse derrotado. Ele, entretanto, não se dissolvia em uma nuvem de poeira amarela como esperado, mas tombou no chão e se desmontou, esfarelando-se em um monte de tijolos de lego quebrado. Gatts nem chegou a vê-lo desaparecer completamente.

O segundo Golem também morreu logo em seguida. Eufórico, ele derrubava um atrás do outro, aproveitando a vantagem de que eles eram muito lentos, perguntando-se onde estaria a peça que procurava...

Foi quando ele sentiu o primeiro impacto, causado por um Golem que erguera ambos os braços e depois descera-os com toda a força no chão. Tomado de surpresa, ele caiu sentado, depois foi sacudido com o segundo tremor causado por outro golem, depois outro, e mais outro. Quando o terremoto finalmente cessou, um dos golens escuros já estava em cima dele, com os braços erguidos pronto para descê-los sobre ele...

Não fosse a incrível destreza e velocidade de Gatts, ele teria recebido toda a força do impacto. Mesmo assim, o Golem havia atacado o chão muito perto do homem, o que fez com que ele sentisse um tremor muito maior e perdesse um pouco de HP. Ele precisou de um tempo para levantar e se recuperar da leve tontura.

Os Golens, aparentemente, não eram afetados pelo tremor. Por sorte, sua força e tamanho os fazia ser bem lentos, senão o rapaz talvez já estivesse morto com todo aquele monte em cima dele. Alerta, ele viu outro golem erguer os braços novamente...

Ele se aganhou no chão e enrijeceu os músculos com toda a força que tinha, na tentativa de evitar o tremor. E conseguiu. Mas então veio o segundo, e o terceiro quebrou sua resistência, jogando-o ao chão novamente.

Sem ofegar, Gatts levantou-se novamente. Precisava pensar em algo. Não poderia continuar daquele jeito, como se estivesse em um triturador. Outro golem erguia os braços novamente...

Em uma idéia repentina, ele pulou com toda a força que tinha. Alegre, constatou que dessa vez o tremor não o afetara. O golpe apenas fazia efeito quando ele estivesse tocando o solo. Ele precisou dar mais uns pulos para evitar o resto das batidas dos Golens, e quando eles pararam, já tinha um plano em mente.

Ele estava em cima do Golem Amarelo mais próximo, e agora o atacava. Jogou a cabeça para trás e gritou, e de sua boca surgiu um fantasma negro com olhos brancos que desapareceu em um segundo. Aquela era a habilidade Intimidar, que reduziria a defesa e o ataque dos inimigos. Assim que zerou o HP do golem onde estava, pulou para o próximo, depois caiu no chão fazendo uma curva no ar com a maça, passando para o próximo. Sempre que um dels erguia os braços no ar, ele esperava o momento e pulava, depois aproveitava o movimento para descer a pesada arma com toda a força. Há muito havia descoberto que o golpe dado em um salto praticamente dobrava o dano. Se estivesse segurando a arma com as duas mãos, mais ainda. Mas esse ataque veio carregado de eletricidade, e do chão surgiram raios que acertaram a maioria dos Golens, reduzindo ainda mais as barras de vida.

Ele precisou parar para respirar depois de matar todos os Golens, e foi quando o triunfo começou a ser substituído pela decepção. Havia matado todos eles, era verdade, mas... E agora? Não havia sinal de peça de armadura, nada que indicasse que ele havia ganho um prêmio. Será que...

Enquanto divagava, ele apareceu.

Formado por blocos de brinquedo pretos, os pulsos e as mãos quadradas em cor laranja, o Rombot surgia no centro do mapa, duas vezes maior que os Golens. No bloco que deveria formar sua cabeça, tinha algo que parecia um disquete ou cartão de memória, com um fio que o ligava a algo bizarro: um joystick colocado à frente de uma cadeira de couro onde, sentado, havia um polvo roxo. E acima da cabeça desse polvo, estava outro polvo, minúsculo e cor-de-rosa escuro.

Ele nem terminou de aparecer e já fora atacado. Dessa vez, ele usara uma habilidade que o permitira dar um impulso para a frente, duplicando o dano inflingido. O choque da maça contra o pesado golem nem chegou a empurrá-lo, mas tirou-lhe um bom dano.

O Rombot atacou, mas seus ataques eram ainda mais lentos do que o dos Golens. Gatts atacava com a maça, acertava-lhe os punhos, rodeava e lhe atacava pelos lados, mas nunca pelas costas. Achava covardia rodear um inimigo para atacá-lo por trás. A cada golpe, o dano dele decrescia, ele ergueu as mãos, e o homem aproveitou para flanqueá-lo...

Mas ele tinha esquecido do que aquele erguer de mãos significava. O tremor causado pelo Rombot foi tão forte que, dessa vez, ele foi mesmo jogado para trás e para cima, a vários metros o chão. Atingiu o chão com estrondo, perdendo mais da metade do HP.

Felizmente, a distância que o golpe o jogara era tão absurda que não havia como o Rombot atacá-lo. Ele bebeu uma poção de HP — um Elixir — e correu ao ataque novamente.

Agora ele o golpeava com ferocidade, sempre alerta aos golpes de terremoto. O Rombot chegou a invocar um grupo de Golens, mas eles não duraram muito. Houve uma vez que ele se distraíra a ponto de levar mais um golpe que o jogara longe, mas aquele foi o último. O polvo sentado no banco de couro mexia freneticamente no joystick, mas o que controlava não era rápido o bastante para aguentar os golpes de Gatts. E ao vê-lo, ele teve a mais óbvia das idéias.

Ele foi recuando até chegar a uma pequena elevação, um dos montes de tijolos firmemente empilhados que haviam por ali. Quando estavam muito perto dali, ele subiu o monte, tomou distância e saltou, usando a habilidade de impulso e o segurando a arma com as duas mãos em direção ao que imaginou ser o ponto fraco: o polvo que o controlava.

A quantidade de HP que ele perdera havia sido demais. E assim que chegara ao chão, Gatts iniciou uma enxurrada de pancadas, que só não eram incrivelmente rápidas porque o peso da maça não permitia.

-Uff!

Ele recuou alguns passos quando o Rombot começou a se desmontar. Primeiro o bloco principal se desprendeu do resto, a cadeira de couro saiu e jogu o polvo no chão. O resto do golem, então, começou a desmoronar... E o polvo foi enterrado pelos destroços, que já começavam a desaparecer.

Gatts sorriu. Havia finalmente derrotado o Rombot. A experiência havia sido boa, afinal — tanto de lição de luta quanto a que enchia a barrinha amarela. Mas logo esses pensamentos abandonaram a mente do rapaz.

Pois ali, na parte mais elevada da sala, alguma coisa flutuava. Excitado, ele correu para ver o que era.

Estendendo a mão em direção ao item, ele não sabia se ficava animado ou decepcionado. Esperava encontrar uma peça, o que o deixaria mais perto de completar a armadura, mas o que vira era um par de botas cor de bronze, com um certo brilho avermelhado. Não era a armadura, mas ainda assim, era parte do equipamento que procurava, e poderia usar agora mesmo. E ele soltou um leve assobio ao ver os status da arma. Definitivamente, era um excelente equipamento.

Junto com a arma, havia um pequeno pedaço de papel. Gatts o pegou. O desenho era uma montanha isolada, no meio de uma região árida e deserta. O rapaz sorriu quando reconheceu o lugar. Colocou o papel no bolso, tirou as botas de ferro que usava e as substituiu pelas novas. Foi em direção ao portal e puxou um pergaminho, que o retornaria à cidade mais próxima — Ludibrium. Depois, ele retornaria a Perion.

O mundo pareceu sumir, como era costumeiro do pergaminho. Quando voltou, entretanto, definitivamente não havia voltado a Ludibrium.

Estava em pé num chão gramado, no meio do que parecia ser um imenso centro de pesquisa. Havia satélites, construções metálicas e aparelhos de radare que pareciam gigantescas antenas parabólicas. Homens e mulheres de jaleco branco e roupas mais extravagentes podiam ser vistos por toda parte. Aturdido, ele olhou ao redor e viu a torre de Eos erguendo-se acima de tudo o que tinha ali. E mais em cima, centenas de metros no alto, estavaa cidade de Ludibrium — um imenso domo de cabeça pra baixo, sustentado apenas pela torre de Eos... E uma outra torre do outro lado da cidade.

-E aí cara, perdido?

Gatts virou-se para o homem, um guerreiro de armaduras de aço e espada larga nas costas.

-Cara, que lugar é esse? — perguntou, aliviado por achar uma outra pessoa ali — Eu usei um pergaminho de retorno no quarto andar, por que estou aqui?

O rapaz deu uma grande risada.

-Ai ai, não acredito! Os pergaminhos de retorno te levam pra cidade mais próxima, e a mais perto do quarto andar de Eos é o setor Ômega!

-Setor Ômega...

Ele deu um tapa na própria cara enquanto o outro ria, gargalhava do rapaz que, depois de derrotar centenas de golens e matar o monstro mais poderoso de toda a Torre de Eos, perdera-se por um engano idiota.

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Finalmente, só faltava Thugles e Nick para completarem seus avanços.

Davien e Vampiritico estavam um pouco mais afastados, deixando os dois ficarem mais perto do instrutor. Haviam se impressionado de verdade com a sabedoria do homem, mas ficaram um pouco relutantes em se aproximar mais.

Vampiritico havia conquistado seu avanço antes deles, e agora era Arruaceiro, que era o tipo de gatuno que se especializava no uso de adagas. Estava ansioso para sair do nível 30 e ganhar novas habilidades além das de esquiva e do Ataque Duplo, mas forçou-se a esperar pelos dois amigos.

Thugles e Nick haviam pego as trinta Pérolas Negras, em um mapa cheio de Lupinos Zumbi(macacos que atiravam cascas de banana como ataque). A luta tinha sido bem difícil, e eles consumiram muitas poções de MP com a Proteção Arcana. Finalmente, o grande momento chegara.

-Finalmente, chegou o momento — Grendel anunciou satisfeito — Não tenho mais nada a dizer a vocês, exceto apresentar as escolhas que vocês poderão seguir.

-Sem mais delongas, primeiro, vocês podem escolher entre dois tipos de Feiticeiros. Temos o de Fogo e Veneno, que são os mais destrutivos. As magias de fogo têm um efeito queimante que faz os inimigos continuarem sofrendo dano mesmo depois que você pára de atacar. Some isto ao veneno, e você terá um poder bem devastador. Em níveis mais altos, também podem conjurar explosões e nuvens venenosas, por exemplo.

-Ooooooh!

-O segundo tipo de Feiticeiro é o de Gelo e Raio. É um tipo um pouco mais tranquilo, usa o gelo para paralisar os inimigos e dar um tempo extra para fugir, pensar ou planejar o próximo ataque. E além do gelo, podem conjurar tempestades de raio verdadeiramente destrutivas, que são ainda mais fortes se o inimigo estiver molhado ou, obviamente, congelado. Basicamente, eles usam o gelo para paralisar, e o raio para destruir... Embora as lâminas de gelo também não sejam nada inofensivas.

-Essa deve ser a classe daquele cara vendado! — Nick comentou com euforia — Aquela magia de gelo, a tempestade de raios... A classe que derrotou o Davien! É essa mesmo que eu quero.

-Ele era segundo avanço — Davien resmungou automaticamente — Se eu fosse Lanceiro naquela época, ele ia ver só.

-Claro, claro — Vampiritico deu-lhe um tapinha, sorridente.

-Eu gostei mais do de fogo e veneno — Thugles ponderou — Acho que vou escolher esse, isso é, se eu não gostar do terceiro tipo de avanço.

-É mesmo, o chefe Balrog disse que os Bruxos e os Guerreiros têm três opções — Nick lembrou.

-Exatamente. É aquela sobre qual eu ia falar antes de vocês me interromperem.

-Ah...

-É...

Grendel riu.

-Então, o último tipo não é considerado um feiticeiro. Chamam-se Clérigos, e são o caminho mais difícil de um Bruxo. Primeiro, porque são muito frágeis, e segundo porque seus ataques são os mais fracos dentre todos os Bruxos. E terceiro, porque seu caminho exige uma fé muito grande, uma profunda dedicação no principal objetivo de um Clérigo: ajudar os outros. Mas isso é porque eles focam em outra coisa. Eles têm habilidades que abençoam, protegem e reforçam o grupo, e sua principal função é não deixar o grupo morrer, e não atacar. Mas claro, eles possuem algumas magias de ataque, com dano massivo em demônios e mortos-vivos, o tipo mais maligno de criatura que se pode encontrar.

-Classe de suporte — Thugles parecia quase não ser capaz de controlar a própria excitação — Essa mesmo que eu quero, serei Clérigo!

-E eu vou ser Feiticeiro. De Gelo e Raio!

-Puxa, bem mais rápidos que você — Vampiritico disse para Davien, enquanto Grendel dava as últimas palavras antes de avançá-los.

-E você por acaso foi rápido assim também?

-Não tanto. Mas a outra opção era Assassino, uma classe que usa shuriken. É legal, mas decidi que seria melhor usar a adaga. Além de que tinha mais uns jogadores fazendo o avanço comigo, e todos eles escolheram Assassino. Achei que seria melhor ser Arruaceiro.

-Hm — Davien disse, sem algo melhor para responder.

Duas auras de cor laranja envolveram os dois amigos, os mais novos Clérigo e Feiticeiro do jogo. Animados, eles se voltaram para os outros dois.

-Pra onde a gente vai agora?

-Quero aumentar essa Cura, quero ter Invencibilidade, quero aumentar Bênção!

-Deixa eu ver — Davien abriu o menu para pegar o guia de Donnie, o que dizia onde eles deveriam upar naquele nível. Era a última seção do guia. O rapaz arregalou os olhos levemente, depois exibiu os dentes em animação.

-É bom vocês se prepararem. Nós vamos pra Selva do Sono.