Manual para ser pedida em casamento
15 When You Get Older, Plainer, Sober…
O medo não chegou como um impacto.
Ele não entrou arrombando portas, não fez barulho, não avisou que estava vindo.
Ele se infiltrou, silencioso e persistente.
Como se já soubesse exatamente onde me encontrar.
Na primeira noite, foi apenas um sonho. Confuso, fragmentado, daqueles que a gente esquece metade ao acordar… mas não esquece a sensação. Eu estava em Capri, mas não era a Capri que eu lembrava. O céu estava escuro demais, pesado demais, como se uma tempestade estivesse prestes a cair a qualquer momento. O mar, lá embaixo, não era azul — era quase preto, profundo, ameaçador, como um abismo esperando por mim. O vento batia no meu rosto, forte, frio, e ainda assim… eu não conseguia me mover.
E eu não estava sozinha.
Eu nunca estava.
— Bella…
A voz veio baixa, arrastada, como um sussurro que não deveria estar ali, mas estava… perto demais.
Eu virei devagar.
E ele estava lá.
Damon.
Parado, tranquilo, elegante como sempre… mas havia algo errado. Não era o sorriso que ele usava em Capri. Não era o homem que dançava comigo, que ria, que me chamava de “bella” com leveza.
Era outra coisa.
Mais fria.
Mais escura.
Mais… real.
— Non puoi scappare da me, amore mio… — ele disse, dando um passo na minha direção.
Meu corpo reagiu antes da minha mente.
Eu tentei correr.
Mas não consegui.
Minhas pernas não obedeciam.
Era como se o chão tivesse me prendido ali, como se o próprio ar tivesse decidido que eu não sairia.
E então…Edward apareceu atrás dele e tudo aconteceu rápido demais.
Um segundo ele estava ali.
Inteiro.
Vivo.
No outro…sangue.
Muito sangue.
— NÃO!
Eu acordei gritando.
— EDWARD!
Meu corpo inteiro tremia. A respiração vinha falhada, irregular, como se eu tivesse corrido quilômetros. O quarto estava escuro, silencioso, mas meu coração batia tão alto que parecia preencher todo o espaço.
— Ei… ei… — Edward já estava sentado ao meu lado, me puxando para ele com urgência — Bella, olha pra mim… olha pra mim…
Eu agarrei a camisa dele com força, enterrando o rosto no peito dele como se aquilo fosse a única coisa que me mantinha ali.
— Ele… — minha voz falhou — ele te matou…
Edward segurou meu rosto com as duas mãos, forçando meu olhar a encontrar o dele.
— Foi um pesadelo.
Eu balancei a cabeça, desesperada.
— Não… não foi só isso… parecia… parecia real demais…
Ele encostou a testa na minha, respirando junto comigo, mais lento, mais controlado.
— Eu estou aqui.
Silêncio.
— Eu estou aqui com você.
E eu queria acreditar, queria muito.
Mas quando fechei os olhos de novo…
eu ainda conseguia ver.
As noites seguintes não foram melhores, foram piores.
Porque os sonhos não eram iguais.
Às vezes era Edward.
Às vezes… era eu.
Eu corria.
Sempre corria.
Por ruas que eu não reconhecia, por espaços que mudavam, se distorciam, como se nada fosse fixo, como se o mundo inteiro estivesse contra mim e ele sempre aparecia.
Sempre.
Calmo.
Paciente.
Como se estivesse me esperando.
— Se non sei mia… — ele dizia, segurando meu braço com força suficiente para me fazer parar — non sarai di nessun altro.
E então…escuridão.
— EDWARD!
Eu acordei novamente, dessa vez já chorando antes mesmo de abrir os olhos. Meu corpo inteiro tremia, e o som da minha própria respiração parecia alto demais dentro do quarto silencioso.
Edward me puxou imediatamente, me envolvendo com os braços, firme, presente.
— Ei… calma… calma… — ele murmurava, passando a mão pelo meu cabelo — eu estou aqui… olha pra mim…
Eu escondi o rosto no pescoço dele, sentindo o calor da pele dele, tentando me agarrar a algo real.
— Eu não aguento mais isso… — sussurrei, quebrando no meio da frase.
Ele apertou o abraço.
— Eu sei…
— Ele está na minha cabeça…
Silêncio, pesado e diferente.
Edward não respondeu na hora.
Quando respondeu, a voz dele estava firme.
— Então a gente tira ele de lá.
Eu levantei o rosto devagar.
— Como?
Ele me olhou e havia algo diferente ali.
Mais duro.
Mais decidido.
— Descobrindo como ele está fazendo isso.
Meu coração apertou.
Porque no fundo…eu já sabia.
Isso não era só medo.
Era presença.
Na manhã seguinte, as flores chegaram.
Mas não eram vermelhas.
E isso, de alguma forma…era pior.
Pretas.
Um buquê enorme, denso, quase sufocante. As pétalas absorviam a luz ao invés de refletir, e aquilo dava uma sensação estranha, como se algo ali estivesse… errado. O cheiro não era doce. Era pesado, metálico, incômodo.
Eu parei antes de me aproximar.
— Bella… — Edward chamou, baixo.
Eu caminhei devagar, cada passo mais pesado e peguei o cartão.
Minhas mãos tremiam quando abri.
“Lo sai, vero?
Eu sei de tudo.
Do anel.
Do ‘sim’.
Da vida que você acha que pode ter sem mim.
Se non sei mia…
non sarai di nessun altro.”
O ar sumiu.
— Ele sabe… — sussurrei.
— Isso acabou.—Edward pegou o cartão da minha mão, o maxilar travado.
Mas não parecia, nada daquilo parecia.
O apartamento ficou cheio em menos de uma hora.
Alice andando de um lado para o outro.
Rosalie com os braços cruzados.
Jasper em silêncio, analisando tudo.
Emmett… tentando.
— Ok, então oficialmente não gostei do italiano — ele disse.
— Agora você não gosta? — Rosalie respondeu seca.
— Antes eu gostava pelo barco.
Ninguém riu.
— Vamos ligar para o Stefan — Edward disse.
A chamada conectou.
Stefan apareceu.
Sério.
Cansado.
— Eu imaginei que isso ia acontecer — ele disse.
— Ele está ameaçando ela — Edward respondeu.
— Ele está fazendo mais do que isso.—disse ele sério— Damon tem negócios em Seattle.
Meu coração disparou.
— Que tipo de negócios?—perguntei.
Stefan hesitou.
— Um deles… é a revista onde a Bella trabalha.
O mundo parou.
— Não… — sussurrei.
Minha respiração ficou irregular.
— Ele estava lá… o tempo todo…
E foi aí que tudo saiu do controle.
Eu comecei a andar, depois a correr.
Abrindo gavetas.
Derrubando coisas.
— Bella!— Edward chamou minha atenção.
— NÃO! — gritei — ELE ESTÁ AQUI!
Peguei um objeto qualquer e joguei no chão.
— Ele sabe de tudo!
— Bella, para! — Edward tentou me segurar.
— NÃO!
Minha visão estava turva e meu coração batendo rápido demais.
Eu comecei a olhar tudo, cada detalhe, cada canto e então…
eu vi.
Um ponto.
Pequeno.
Quase invisível.
— Edward… — sussurrei.
Ele se aproximou.
Eu apontei.
Ele tocou.
Clique.
Uma câmera.
O silêncio foi absoluto.
— Tem mais… — murmurei.
E comecei a procurar.
Outra.
E mais uma.
E mais uma.
O apartamento inteiro…
vigiado.
— Ele estava vendo tudo… — Alice disse, pálida.
Edward não disse nada, mas os olhos dele…estavam perigosos.
A campainha tocou.
Ninguém se mexeu.
— Eu atendo — Emmett disse.
— Não!— gritou Rosalie.
Tarde.
Ele abriu.
Um entregador.
Uma caixa.
Grande.
Pesada.
— Eu oficialmente odeio esse cara — Emmett disse, trazendo.
Edward pegou o cartão.
Leu.
E ficou rígido.
— O que diz? — perguntei.
Ele me entregou.
“Te l’avevo detto…
Io sono ovunque.
Eu estou em todos os lugares, meu amor.”
Minhas mãos tremiam.
— Abre — Alice disse.
Edward abriu e tudo parou.
A lingerie vermelha de Capri e fotos.
Muitas...
Espalhadas.
Eu.
Edward.
Na cozinha.
Na sala.
Nova quarto
Na empresa.
No restaurante.
Hoje...de manhã.
Meu corpo gelou.
— Ele está aqui… — sussurrei.
— Não — Edward disse, firme — Mas ele quer que você pense isso.
Silêncio.
Pesado.
Irreversível.
Mais tarde…quando todos já tinham ido…o apartamento parecia diferente.
Menor.
Mais fechado.
Eu estava sentada no chão.
Sem conseguir me mover.
Edward se aproximou.
Ajoelhou na minha frente.
— Bella…
Eu levantei os olhos.
— Ele vai te machucar…
Minha voz saiu quebrada.
Ele segurou meu rosto.
— Olha pra mim.
Eu olhei.
— Eu não vou deixar ninguém encostar em você.
— Você não sabe disso…
— Eu sei.
A firmeza dele…me desmontou.
— Eu te amo.
— Eu te amo…muito.— Ele encostou a testa na minha.— Eu vou lutar por você... Até o fim...
E pela primeira vez…o medo não sumiu.
Mas não estava sozinho.
Porque agora…tinha amor lutando contra ele.
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