Manto Negro

19 Capítulo XIX


De todas as sensações, o frio no momento é o pior. Conseguia ser tão angustiante e penetrante, que não importava quantos cobertores cobrisse meu corpo, eu ainda tremia.

— Guta, acorda ele esta aqui — Hazel entrou no quarto

Seu toque transmitiu um calor que me tirou do transe, e por alguns segundos não soube dizer se estava dormindo ou sonhando acordada.

— Esta tudo bem? — Perguntou

Afirmei dizendo que sim, mas era mentira e ela sabia disso.

— Ainda não concordo com o que você esteja fazendo — Sussurrou

Vlad e Horus estavam na sala, a poucos metros se preparando.

— Mas eu concordo, e isso é o suficiente — Rebati

— Tem algo crescendo dentro de você, que esta te deixando debilitada —

— Se esta sugerindo uma doença, Horus teria encontrado —

— Talvez não seja uma doença, mas você tem perdido muito peso e tem ficado mais fadigada que o normal —

Pra uma pessoa que nunca me viu, ela tinha visto de mais. Uma coisa é você se olhar no espelho, ver seu rosto afinado e seco, tirar a roupa e não ter coragem de encarar o próprio corpo, ignorar tudo isso e seguir em frente, achando que esta tudo bem. Outra é alguém falar isso é voz alta pra você.

— Eu sei disso, tem piorado toda vez que uso meu poder mais do que o necessário —

— Depois de hoje, não use mais, por favor —

— Não posso te prometer —

Vlad entrou no quarto, dizendo que o Carniceiro estava na rua. Me levantei da cama, meu corpo ainda estava exausto mas ignorei e fui pra sala.

Não precisei me aproximar da janela para encontra-lo, ele estava parado ao lado de uma lixeira. A rua estava completamente vazia, ele começou a andar em nossa direção lentamente, mas antes que pudesse atravessar a rua usei minhas habilidades.

Implorei para que desse certo, e por mais que minhas condições físicas fossem ruins, meus poderes não me decepcionaram. Como esperado, a neblina negra não o atingiu, mas ele parou de andar, parecia que o Carniceiro tivesse entendido em que tipo de situação se encontrava, porque de alguma forma senti uma conexão entre nós.

— Vamos... Me mostra o que é você... —

Não teve hesitação da parte dele, foi quase que instantâneo o recebimento de milhares de cenas terríveis, escolhi uma, aonde fui levada a uma caverna escura.

Qualquer passo que eu fizesse, dava pra sentir os ossos humanos raspando sobre a minha pele, o cheiro mórbido era insuportável. O Carniceiro chegou arrastando mais uma de suas vitimas, um garotinho que não deveria ter mais de 14 anos, já estava morto, fechei os olhos e quis mudar de cena.

Agora era uma floresta, estava nublado e chovia forte, as arvores eram tão densas e unidas que se tornava quase impossível a entrada de luz solar.

— Me larga! -

Novamente, o Carniceiro apareceu, agora arrastava alguém vivo. Tive que subir em um tronco quebrado pra poder encontra-los, e pude ver, não apenas eles, mas também uma placa que dizia "Hannaka — área restrita". Quase ignorei a cena que ocorria logo a frente, aquilo era exatamente o que eu precisava, uma dica de onde poderia encontrar o paradeiro dele.

— Por favor não faça isso, eu vou ser pai! —

Isso cortou minha atenção sobre a placa, o homem que estava sendo arrastado estava encardido de lama e sangue, mas ainda podia ver seu rosto. Era fino e moreno, me aproximei mais, e vi pequenas sardas, o cabelo era castanho e enrolado, e quando abriu os olhos senti um calafrio pelo corpo, a coloração brilhante de um predador, como um lobo, me vi refletindo em seus olhos dourados. A voz da minha mãe ecoou na minha cabeça, uma das poucas coisas que dizia sobre meu pai:

"a única coisa que puxou do seu pai, foram os olhos penetrantes de predador".

— Sua filha vai ser como você —

Aquilo foi o suficiente pra me fazer voltar a realidade, voltar para a casa da Hazel, aonde se encontraram deitados no chão agonizando com os pesadelos.

O Carniceiro não se encontrava mais ali, e pra mim, pouco me importava se estivesse, pela primeira vez em minha vida, só talvez, eu tenha visto o meu pai.

Sentei no chão me encostando no sofá, fiquei tempo o suficiente para observar Vlad, Horus e Hazel saindo do transe, confusos e amedrontados.

— Cade ele? — Vlad perguntou

Não respondi

— Você esta bem, ele te feriu? — Agora Horus perguntou

Ainda sem responder, tentava guardar aqueles últimos resquícios do seu rosto em minha memória.

— Hannaka área restrita — falei

— Que lugar é esse? —

— Uma floresta que o Carniceiro arrastou meu pai — Respondi

— Você chegou a ver um laboratório? — Vlad quis saber

— Não, mas ele foi levado pra alguém —

Ficar recordando essas cenas me deixou com dor de cabeça, eu queria voltar a dormir, mas não tinha forças pra levantar. Horus colocou a mão sobre minha testa e sentiu minha temperatura.

— Esta queimando. Vlad, prepara algo pra ela comer, Hazel trás um pano úmido, por favor -

— Ta muito fraca — Ouvi Hazel dizer

— Precisamos de uma equipe maior, se formos pra essa floresta — Ignorei o desgaste

Contei tudo que eu tinha visto, cada detalhe e sensação. Por mais que Vlad negasse recrutar mais peculiares, continuei persistindo, até ele ceder.

— Vou conversar com Erza —