Manto Negro
14 Capítulo XIV
Estava acordada, mas não queria abrir os olhos, a ideia de explicar o ocorrido ao Vladimir ou então andar pelos corredores, sentindo a opressão de todos parecia horrível.
— Ainda não acordou? — Ouvi a voz de Leona
Ouvi sua voz foi reconfortante, ao mesmo tempo decepcionante.
— Não, temos que dar tempo a ela — Um rapaz respondeu
— 3 dias não é tempo o suficiente? — Indagou
3 dias? Eu estava dormindo por 3 dias?! depois de ouvir isso, deixei minha mentira de lado e abri os olhos. Leona e o rapaz se viraram-se pra mim, surpresos com meu despertar, mas logo fizeram uma careta.
— Isso é normal? — Ele perguntou
Me entregou um espelho, e vi um reflexo de uma Guta mais velha que o normal, meus cachos sempre rebeldes, apontavam para direções opostas, mas não era esse o motivo das caretas, e sim meus olhos. Já sabia que depois de alguns minutos, a circulação de sangue voltaria ao normal, mas depois de 3 dias ainda estava escuro, como se fosse recente.
— Não exatamente... — Respondi
Entreguei o espelho e ignorei esse pequeno problema.
— Como estão todos? — Perguntei
— Bem, alguns ainda estão meio... desconfortáveis — Respondeu
— Eu não queria isso, sinto muito mas foi como um impulso —
— Por que fez aquilo? A discussão não era sua — O rapaz perguntou
Agora pude vê-lo bem, tinha a mesma altura que Leona, magro e pálido.
— Não sei, quando vi os espinhos da Erza, não me contive — Respondi
— Horus, podia nos dar licença? — Leona pediu
Ele afirmou com a cabeça, e se retirou. Leona sentou na ponta da cama, me encarou por alguns segundos, pensei que iria me eletrocutar.
— Você mentiu pra mim, duas vezes — Falou — Seu poder não era apenas escurecer as coisas, é bem mais complexo que isso.
— E qual seria a segunda mentira? — Perguntei
— Que você não sabia sobre meu moletom, sendo que tinha escondido. O que esta aprontando, Maria Augusta? —
Nunca vi Leona tão seria, quanto naquele momento.
— Não queria falar sobre minhas habilidades porque você viu, não é agradável ou seguro — Falei
Acabei contando sobre minhas fugas para cidade, usei o moletom como um manto, para esconder minha fisionomia e rosto.
— Me diz um motivo pra não te machucar —
Vi sua mão brilhando com a quantidade de eletricidade, só precisava encostar que eu saltaria da cama com a carga fluindo sobre meu corpo.
— Não tenho, vai em frente Leona. Eu mereço — Falei
Mas ela não fez, apenas olhou pra outro lado, frustrada.
— Por que fez isso tudo? —
Não existia uma resposta precisa, era uma mistura de sentimentos, emoções e insegurança, que fui adquirindo ao decorrer do tempo, no entanto, tentei em meio disso, procurar uma resposta.
— Leona, olhe pra mim, veja o que fiz. Acha mesmo que eu iria chegar na Casa e me apresentar dessa forma; "sou Guta, tenho 20 anos e posso despertar seus piores medos, mas fiquem tranquilos, sou legal"
— Pelo menos podia ter me contado —
— Eu quis, mas tinha medo de ser julgada por isso —
— Você é tão idiota, sou como você, e você é como todos aqui —
Leona saiu do quarto sem deixar eu me defender, apenas deu as costas e se foi. Recebi alta,e depois descobri que Vlad, Hazel e Kurt saíram em busca do rastro do Carniceiro, agora eu estava realmente sozinha.
Durante o dia, não saia do quarto e quando chegava a noite, eu e Leona não nos falávamos, continuei minhas furtividades noturnas, sem usar minhas habilidades, apenas andava pelos becos e ruas. Foi assim durante uma semana, a cada dia me sentia mais sozinha e deprimida.
Vivia me questionando sobre o motivo de ter feito aquilo, porque me intrometi naquela discussão, porque tive esse impulso repentino? E porque acordei desapontada por Hazel não esta presente?
Quando Vladimir voltou, ele entrou no meu quarto e não parecia irritado comigo.
— Leona me contou sobre sua situação —
Não respondi.
— Ninguém esta te culpando pelo que fez, não se castigue tanto —
Mesmo ignorando, ele me acolheu com um abraço quente, aceitei e retribui, não conversamos muito, apenas trocamos algumas palavras, me contou que Hazel estava bem e em casa, e logo depois ele saiu.
Quando era quase 2 da manha, me preparei para sair quando ouvi Leona falando.
— Se for na cidade, ao menos leve o moletom, você já estragou ele mesmo —
— Obrigada —
Ouvir isso foi o suficiente pra saber que ela ainda se importava comigo.
A cidade estava mais perigosa do que antes, mas ultimamente, parei de me importar, andei pelas ruas, exposta, esperando alguém aparecer, não demorou muito pra alguém me seguir.
— Hey você! — Ouvi
Me virei e era apenas um homem, gordo e barbudo, fedia a suor.
— Eu soube de você, sua cabeça ta valendo muito dinheiro — Disse
Quando ele terminou a frase, tentei usar minha habilidade mas não funcionou, fiquei tão surpresa que ele ficou confuso com minha reação.
— O que esta fazendo, anomalia? — Perguntou
Estava frustada, nada acontecia, não importava o esforço que fizesse.
— Vamos! me obedeça! — Gritei com raiva
Senti uma pancada forte nas costas, tão forte que desabei no chão, ralando as mãos.
— Joff, a recompensa é minha! — O outro cara falou
Minhas costas queimavam de dor, tentei levantar mas foi em vão.
— Espera — Um deles falou
Puxaram meu capuz, revelando meu rosto.
— Uma garota?! —
— Tem certeza que é ela? —
Discutiam entre si, enquanto eu pairava no chão, sem forças pra olhar pra cima.
— Não tem duvidas, esta usando o mesmo moletom das discrições —
Teve um silencio entre eles, até que um deles puxou meu cabelo pra trás, me fazendo olhar diretamente pra eles.
— Vamos nos divertir — Pronunciou
Algo parecia inibir meu poder, e eu senti tanto medo, estava sozinha com esses dois, sem poder fazer nada. O outro rapaz que segurava um taco de ferro, me acertou no estomago, me fazendo cuspir sangue.
Começaram a rir entre si, discutindo a quantidade de dinheiro que poderiam ganhar comigo. Em nenhum momento revidei, o que eu poderia fazer além de usar meu poder? Eram dois homens, um deles era tão gordo que podai facilmente valer por 2.
Me colocaram contra parede, aonde recebi uma sequencia alarmante de golpes no estomago e rosto. Eu cai de joelhos, tentei inutilmente me arrastar pelo chão de pedra, mas depois de receber tantos golpes, sua mente começa a falhar.
— Não acredito que seja essa garota, ela nem se defende — Um deles falou
— Talvez não saiba, é apenas uma anomalia que se acha herói — Rebateu
Começou a chover forte, me distrai por alguns segundos com a água avermelhada que escorria sobre meu rosto. Recebi um chute nas costelas, que me fez virar de barriga pra cima, admirar as estrelas e a chuva que caia do céu.
— Hazel, por favor... — Sussurrei
— O que disse? — Perguntou um dos caras
Outro chute, até que um deles gritou, e o outro foi ajudar. Permaneci no chão, não tinha forças pra me mexer, e era doloroso respirar.
— To aqui, fica comigo — Ela apareceu
Talvez tenha sido um truque da minha mente, mas eu podia jurar que naquele momento ela pode me ver de verdade.
— Vamos pra casa — Ela disse
Ela ajudou a levantar, coloquei a mão sobre seu ombro e fui carregada até sua casa, gemendo de dor a cada passo que dava. Deitei no chão frio, lutando pra permanecer consciente.
— O que fizeram com você... —
Hazel procurou uma tesoura e cortou minha roupa, deixando apenas com a parte intima, com seus dedos começou a tatear, como se procurasse algo, até que parou no lado esquerdo da minha costa.
— Tirando os hematomas e cortes, esta com a costela fraturada — Contou
Fazer o esforço de falar doía, então apenas fiquei quieta enquanto Hazel pegava o kit médico.
— Vou precisar chamar Horus e Vlad, não posso fazer grandes coisas —
Segurei o pulso dela, e fiz um esforço para dizer;
— Perdão pelo que fiz —
— Você me protegeu, Guta, eu que peço perdão por não estar ao seu lado quando acordou — Retrucou
Aquilo me aliviou de tal forma que quis abraça-la, mas me contive em apenas superar as consequências dos meus atos. Enquanto Hazel ligava para Vlad, fiquei pensando em como alguém poderia mexer tanto comigo, quebrei meu próprio tabu por conta dela, fui espancada porque pensei que ela me julgaria como todos os outros, e fiquei aliviada e feliz, por saber que continuava a mesma de antes.
— Eles estão vindo, acho que Vlad esta furioso —
— Não duvido —
— A quanto tempo estão juntos? — Perguntou
— Não estamos —
Ouve um momento de silencio depois da resposta, queria que ela dissesse algo, mas o que?
— Esta um pouco frio, vou pegar algumas coisas pra você ficar mais confortável —
Retornou com cobertores e um travesseiro, eu tentava desesperadamente me aquecer, provavelmente estava ficando enferma porque Hazel me cobriu com 3 cobertores e nada ajudava.
— Seu corpo... Esta muito quente, isso não é bom — Notou
Hazel não precisava me tocar pra saber, estava a menos de um metro de distancia, e sabia minha temperatura. Eu queria chama-la para mais perto, mas antes de ter a coragem, Vlad e Horus chegaram.
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