Manto Negro
3 Capítulo III
Não podíamos simplesmente sair andando do cinema, os policiais queriam conversar com algumas vitimas e aparentemente somos as únicas dispostas.
— O que aconteceu com sua amiga? isso é normal...? — O policial falou enquanto fitava meu rosto
Eu sabia do que ele estava falando, porém não respondi. Outra coisa que ocorre depois que uso minhas habilidades, são que os vasos sanguíneos dos meus olhos se tornam escuros, e ficam extremamente visíveis, tornando minha esclera escura, demora alguns minutos até voltar a coloração normal.
— Ah meu deus, Guta trouxe o colírio? — Holly de repente se tornou uma atriz
Segui o embalo da mentira.
— Claro que não! quem imagina que isso poderia acontecer? — Exclamei coçando os olhos
— Senhor policial, minha amiga precisa retornar para casa urgente, isso acontece quando fica muito ansiosa ou nervosa, seus vasos sanguíneos ficam com ela coloração rara. —
Holly mentia tão bem que isso poderia ser seu poder, até mesmo eu pensei que se tratara de uma doença genética naquele momento. O policial demorou alguns segundos para entender a situação e liberou, primeiramente eu, mas então Holly rebateu;
— Senhor, ela fica praticamente cega, precisa que eu a leve para casa! —
Então o policial liberou nós duas, e fomos encenando essa mentira improvisada até ficar longe do campo de visão deles.
— Isso foi genial! — Exclamei
— Eu sou genial, esqueceu? —
Pegamos o táxi e assim que sentei, o cansado se apoderou do meu corpo, usar as minhas habilidades era desgastante, acabei tirando um cochilo e Holly me acordou quando cheguei em casa. Nesse momento meus olhos tinham voltado ao normal, mas minha mãe já sabia que eu usara meu poder, era obvio devido as reportagens.
— Maria Augusta, me diga que não usou o seu poder em publico... —
— Não usei, estava escondida dentro de um armário do banheiro, ninguém me viu — Respondi rapidamente
Isso a tranquilizou por apenas alguns segundos, logo mamãe pareceu lembrar de algo.
— O quanto você usou? — Perguntou
Fiquei calada, tentando amenizar a situação da melhor forma.
— Não muito... -
—Quanto? —
— O cinema inteiro — Respondi
Ouvi o suspiro, mamãe se levantou e apagou todas as luzes, e fechou as cortinas de cada janela.
— Você sabe o risco em que se meteu, não é? —
— Ninguém me viu! —
— Não estou falando das pessoas, e sim daquela besta que caça peculiares como você! -
Na televisão, nunca foi mencionado essa fera, era como uma lenda. Não ousava contrariar minha mãe, pois ela mesmo diz ter visto quando meu pai foi capturado por aquilo.
— Não quero te perder também —
— Não vai, vou estar aqui quando acordar, viva e arrumada para escola — Respondi com um sorriso.
Subi para o quarto, a janela estava aberta como de costume, sempre deixava assim pois me encantava a brisa refrescante que entrava. Adormeci quase de imediato, sem nem ao menos trocar de roupa.
***
Despertei pelo frio que sentia, olhei para o relógio e era por volta de 4 da manhã, levantei e fechei a janela. Assim que o uivo dos galhos e ventos forma abafados, algo tomou seu lugar, algo que estava dentro do meu quarto.
O frio continuava, percebi que não era um frio gelado que um casaco resolveria, e sim interno, como um calafrio. Olhei para a porta do quarto, e algo realmente bizarro estava prantado no canto, era alto de mais para o meu quarto, devia ter quase 3 metros, era cinza e sem rosto, tinha apenas duas orbitas negras e pequenas, como bolinha de gude. Os braços eram tão longos que tocavam no chão, parecia que alguém tinha esticado até o limite, não tinha boca era apenas um risco que fazia perfeitamente 180° naquele rosto deformado. O odor era como algo podre e morto.
O grito ficou preso na minha garganta, junto com a ânsia de vomito. O que eu devia fazer, estava paralisada e aquilo me fitava, como se fosse seu alimento. Foi ele que deu o primeiro passo, se contorcendo para se ajeitar no meu quarto, sai do transe e soltei um grito agudo e desesperador.
Minha mãe apareceu depois de alguns segundos, tentou abrir a porta mas aquela coisa não deixou. Seu braço se estilou até a minha garganta, fechou e me ergueu, eu via minha mãe pela brecha da porta, desesperada para querer entrar e me salvar. Eu tinha que lutar.
Consegui pegar o abaju, só depois persistir muito percebi que era inútil lutar com um abaju na mão. De repente o som se um tiro estourou a porta do meu quarto, e fez a besta me soltar. Traguei todo o ar que consegui, como se fosse o ultimo da minha vida, logo comecei a tossi.
— Mãe! sai daqui! — Gritei
Mas foi tarde, o mesmo braço que se esticou por quase 3 metros para me agarrar, foi o mesmo que atravessou o peito dela, chegou a se prender na parede oca do quarto.
— NÃO! — Gritei ao ver o sangue sendo espichado e seu corpo sendo jogado contra parede.
Não cheguei a fechar os olhos para usar a habilidade, ela veio automaticamente. O meu quarto ficou cinza, não tão cinza quanto aquela besta que agora se encolheu um canto, confuso aparentemente.
Corri até minha mãe, que agora estava em seus últimos momentos de vida, eu escutava o seu coração desacelerando, seu pulmão falhando e ela tentando respirar mas se engasgando com o próprio sangue.
— Não, não, não, fica comigo. Mãe, mãe!! —
Sua ultimas palavras foram "seu pai estaria orgulhoso do seu potencial" e um sussurro falhado e incompleto de "te amo". Sua vida foi se esvaindo do seu corpo antes mesmo que eu compreenda a situação em que me encontrava, desolada, sozinha com uma besta logo atrás de mim.
Eu levantei furiosa, se minha habilidade tivesse um limite, queria quebra-lo, nem que custasse minha vida. Procurei dentro daquilo, o medo, queria expor da pior forma, tortura-lo e humilha-lo, no entanto o que eu encontrei não foi medo e sim algo pior.
Crianças, adolescentes e adultos mortos, uma infinidade de peculiares sendo arrastados para um lugar, parecia uma casa, um porão talvez? Em outra situação, me encontrei ajoelhada ao lado de um corpo aberto, estripado de um garota, agora olhando de outro ponto de vista, a garota estava sendo devorada por essa coisa.
Eu não queria ficar ali dentro, voltei a realidade apavorada, aquilo não tinha medo, apenas uma enorme lista de pessoas mortas atrás de si. Quantos foram? centenas? milhares? Por quantos anos?
Agora ele podia me ver, tentou novamente se aproximar, mas não pegando no meu pescoço, agora parecia com raiva. Pela primeira vez, eu me sentia impotente.
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