Notas iniciais
Aqui está o primeiro capítulo, yeee. Obrigada a todos que vão ler.
Espero que gostem e boa leitura.
... E ela pega em meu rosto e eu não consigo parar de rir. Minha costas doíam por carregar ela por tanto tempo. Em cada risada solta por ela, eu podia sentir mais o calor que o dia não trouxe. Depois de um tempo ela se retira de cima de mim se deitando na cama e sorri mais uma vez. Me aproximo e fico a observando, estava séria agora. Olhar pra ela me fazia ter tremedeiras, meu estômago revirava, meu coração parecia que ía sair de dentro do meu corpo, ela era linda demais pra poder existir. Suas bochechas rosadas, sua pele clara por nunca pegar sol. Seus olhos castanhos claros, sua pele macia. Sua boca rosada e carnuda. Seus braços finos e sua magreza eram evidente, isso porque mal comia. Cabelo loiro curto com mexas rosas na ponta. Ela vestia um moletom rosinha sem desenhos, uma calça jeans solta e sorrizinho torto.
Ela sai da cama e olha o relógio, diz que sua mãe esta chegando e que eu deveria ir embora. Se volta a cama, pega uma revista qualquer e lê sem muito interesse. Digo que estou indo e me olha sem muitas esperanças. Diz adeus e eu vou pra casa.
Minha casa era a dois segundos da dela. A minha era um pouco maior por ser de dois andares, mas nós dois vivíamos na mesma pobreza. Morávamos ali desde que nascemos. Era um lugar triste. Não havia muita pessoas. Tinha um parquinho bem a frente de nós dois. Nossa diversão era ficar na casa dela ou ficar por aí vendo o céu, que todo dia estava cinza. Nós não podíamos sair de perto da vizinhança, porque era extremamente perigoso. Toda a vez que me deparo onde eu moro me sinto deprimido, o lugar me trazia sentimentos ruins e eu só queria fugir pra longe. Isso, que chamamos de casa era um buraco que enfiava as pessoas cada vez mais fundo.
"Oi, chegou cedo" diz meu pai preparando o jantar. Fecho a porta de casa em silêncio e corro pra cima. Passando pela porta aberta do quarto dos meus pais, vejo minha mãe. Ela está de cama já faz um bom tempo, não temos carro pra levar ela até o hospital e sempre ligamos pra alguma emergência e eles nunca vieram. Ela me da um sorriso leve e eu quase desabo. Minha família era tudo que eu tinha e eu não queria perder um se quer integrante. Minha mãe sempre esteve presente. Eu, mas principalmente meu pai, não aguentaria vê-lá partir. Meu pai sempre foi bem calado, mas sei que sofre do mesmo jeito que eu. Quando ela ficou pior, ele se sentou na cadeira da cozinha e chorou muito, não se aguentou em pé. Logo depois de pequenos segundos me deparo a observando e ela está rindo devagar e baixinho, dou um sorriso e sigo ao meu quarto. Tranco a porta e durmo o tanto que posso.
Quando percebo já era outro dia, e novamente, como todos outros peço pra ficar em casa: "minha barriga está doendo, deixa eu ficar?" peço ao meu pai e ele nem responde, demostrando que não vai deixar. Teria que ir pra escola do mesmo jeito. Saio e encontrei ela me esperando. O caminho era de cinco minutos, mas as vezes, como hoje, paramos pra sentar um pouco. "Onde achas isso?" pergunto quando ela tira o cigarro da mochila. Não me responde, só me entrega. Enquanto fumava sempre olhava para o céu. Imagino que pede algo, seus olhos sempre ficam cheios de lágrimas e ela quando percebe que vai chorar abaixa a cabeça e joga o cigarro no chão. Nunca fala nada, está sempre quieta quando fuma, então nunca me atrevi a perguntar algo relacionado a isso. Penso também que ela está apenas cansada disso tudo. Não é que não a vejo sorrir e que não seja feliz, mas ela perdeu a esperança na vida, ela já não vê mais graça no cotidiano repetitivo que temos, eu acho pelo menos. Ela estava triste, e eu não podia fazer nada. Nós não podíamos. "Você vai hoje a noite?". Ela se levanta da pedra que estávamos sentados e vai até um poste, se encosta e olha pra mim séria. "Sim!" ela diz com um tom de certeza. "Sua mãe deixou?" "meu padrasto" "e sua mãe? ela odeia quando sai de casa, ainda mais comigo" "meu padrasto deixou" parecia brava. Saí do poste e chega mais pra perto, pega o cigarro da minha boca e fuma. "A gente tem prova hoje" "eu sei, mas não estava afim de ir" digo e ela sorri de canto. Nós saímos dali e fomos para um campo. Lá sempre corríamos o máximo que podíamos e nos jogávamos nas flores. Minhas mãos sempre ficavam agitadas, meu corpo balançava no ritmo dela, meu cabelo voava com o vento. Era um lugar só nosso. Era tudo meu e dela.
Aquele campo me lembra de quando nos conhecemos, quando pequena, ela segurava uma flor enquanto girava rindo sozinha num brinquedo do parquinho na frente de nossas casas. Eu esperei ela terminar de girar pra sentar também. Quando parou, me olhou e nós ficamos de frente um ao outro. Ela disse que estava tonta e que ia vomitar, fiquei sem reação. Sem tempo para fazer algo de útil, ela me entrega a flor que segurava e vomita em meus sapatos, ainda sentada no banco. Eu saio de perto, mas mesmo assim seguro seu ombro e seu cabelo enquanto está corcunda vomitando. Depois que terminar ela me olha, diz obrigada envergonhada, pega a margarida da minha mão, sai correndo e foge da minha vista. Foi ali que me vi pela primeira vez apaixonado, rapidamente a cada passo dela. A encontrei no dia seguinte na mesma situação, mesmo vomitando ela sempre ia no brinquedo e eu sempre estava ali segurando seu ombro, seu cabelo e sua flor. Depois de um tempo a ajudando pergunto seu nome. "Júlia" ela sussurra com uma leve tontura parecendo estar enjoada. Me sento do lado dela com uma pequena distância e pergunto o porque dela sempre fazer isso se ela vomitava depois. "Eu gosto de girar, gosto desse brinquedo. As consequências são consequências, o que posso fazer? eu gosto de brincar aqui. Se vomitar não machuca ninguém, a não ser a mim, por que não irei fazer o que gosto?". Eu a encaro e me seguro para não beijá-la.
Notas finais
Obrigada por ter ido até final!!
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