Mantendo Você Perto De Mim

55 Capitulo 55: Sue Sylvester Full Time


Notas iniciais
E voltamos depois de muitos anos.


O vestiário das Cheerios tinha um cheiro insistente de cloro, desodorante sofisticado e adrenalina. O vapor do chuveiro deixava o ar pesado, e cada som — uma porta de armário batendo, a água caindo, parecia alto demais, como se o lugar estivesse amplificando a tensão só por esporte.

Santana gostava de uma boa briga, e dificilmente você a veria apartando uma. Mas aquilo era uma excessão.

Quinn Fabray normalmente tinha o rosto controlado como um sorriso ensaiado, agora era um retrato de ciúme e fúria contida. Os olhos percorriam o vestiário como se procurassem uma prova, uma traição escondida, um motivo para a raiva fazer sentido.

Rachel Berry estava ali, pequena demais para aquele espaço, aterrorizada demais para respirar direito. Encostada na bancada, segurava seu casaco contra o peito como se aquilo pudesse proteger do que vinha. O olhar dela ia de Quinn para Lindsay e voltava, preso num ciclo desesperado de “por favor, para”.

Lindsay, por outro lado, estava com o cabelo molhado, o rosto pingando algumas gotas de sangue, e o motivo estava bem ali na frente dela: ela também tinha se sujado no incidente da festa de boas-vindas de Rachel e tentava apagar aquilo do corpo e da memória, mas a confusão tinha seguido junto, escorregando para dentro do vestiário.

"Eu vi como você olhou pra ela "Quinn disse, a voz fina de raiva, cada palavra como um empurrão. "Não finge que foi “nada”."

Lindsey piscou, ainda tentando entender como aquela conversa tinha escalado tão rápido.

"Quinn, eu nem tava… eu só tava tomando banho. Eu me sujei, tá? Eu nem sabia que"

"Para de mentir!" Quinn cortou, avançando um passo, e sendo impedida por Santana "Você acha que eu não percebo quando alguém tá tentando"

Rachel soltou um som pequeno, quase um soluço. Não queria estar no meio. Não queria ser o centro. Mas era exatamente isso que ela era.

"Quinn, por favor, eu só… eu só me sujei, eu vim trocar… "Rachel tentou, a voz falhando de medo. "Não tem nada acontecendo."

Quinn virou a cabeça para Rachel, e naquele segundo o ciúme ficou pior, porque era óbvio que Rachel estava assustada. E Quinn odiava ser o motivo do medo de Rachel.

Só que odiar não significava parar.

"Tá, tá, tá… não." Santana se colocou com as mãos abertas em frente as duas, como quem separa cães prestes a morder. "Quinn, recua. Lindsay, fica na tua."

"Santana, sai do meu caminho" Quinn rosnou, sem olhar.

"Eu não tô no teu caminho, eu sou um obstáculo" Santana rebateu, firme, já se posicionando entre as duas. "E eu não tô com paciência hoje."

Mas o vestiário inteiro parecia girar em torno da raiva de Quinn, e raiva é uma coisa difícil de conter com frases.

Quinn fez menção de contornar Santana, e Santana esticou o braço para barrar. O contato foi mínimo mas suficiente para a faísca virar incêndio.

"Não encosta em mim! " Quinn disparou.

"Então para de agir como se o mundo fosse teu! — Lindsay devolveu, finalmente explodindo também. "Eu não fiz nada!"

Rachel deu um passo para trás, e a bancada atrás dela pareceu gelada, como se estivesse encostando numa parede de gelo. Os olhos dela brilhavam, e a respiração vinha curta, irregular.

Foi aí que Brittany Pierce apareceu, como se tivesse sido atraída pelo som. Ela entrou com a tranquilidade desconcertante de quem vê um desastre e pensa “ok, vamos arrumar”.

"Oi" Brittany disse, olhando as três e depois focando em Santana. "Eu ouvi gritos. Isso é tipo… um ensaio vocal sem avisar?"

Santana apontou com a cabeça, sem tirar os olhos de Quinn.

"Brit, ajuda aqui."

Brittany assentiu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Ela se aproximou de Quinn com cuidado, sem desafio, e tocou o braço dela de um jeito suave, porém firme.

"Quinn, vem comigo." A voz de Brittany não tinha julgamento, só direção. "Vamos respirar ali, tá?"

Quinn puxou o braço num impulso, mas Brittany não cedeu nem se alterou. Ela simplesmente segurou melhor, não com força bruta, mas com presença. Com aquela teimosia gentil que era, ao mesmo tempo, irritante e impossível de ignorar.

Santana, aproveitando o segundo de distração, virou para Lindsay:

"E você. Para. Agora." Ela apontou para o banco. "Senta. Fica quieta."

Lindsey ainda tremia, o rosto vermelho, mas obedeceu, respirando como se tivesse engolido um nó.

Por dois segundos… pareceu que ia dar certo.

Por dois segundos.

Então Quinn olhou de novo para Rachel e o terror no rosto da namorada foi como uma afronta. Como se o medo provasse que tinha algo errado ali. Como se Quinn estivesse perdendo o controle de novo.

"Eu só queria… " Quinn começou, a voz quebrando por baixo da raiva. "Eu só queria saber por que você tava aqui com ela."

Rachel abriu a boca, mas não saiu som.

E Lindsay, do banco, soltou um “ah, pelo amor de Deus”, involuntário, e foi o suficiente para Quinn girar o corpo de novo na direção dela.

Santana se preparou para segurar, Brittany também, as duas prontas, mas cientes de que estavam tentando controlar uma tempestade com as mãos.

E então…

O som de um apito cortou o ar ao redor como uma lâmina.

Curto. Seco. Absoluto.

As quatro congelaram.

Um segundo depois, Sue Sylvester apareceu na porta do vestiário como se fosse dona da arquitetura, do oxigênio e da moralidade daquele lugar. O agasalho estava impecável, a expressão era a de alguém que acordou já irritada com a existência humana e decidiu transformar isso em método pedagógico.

Ela entrou sem pressa. Sem surpresa. Como se aquela cena fosse apenas uma variação medíocre de algo que ela já tinha visto e vencido mil vezes.

Sue olhou para Quinn. Depois para Lindsey. Depois para Santana e Brittany. Por fim, fixou o olhar em Rachel, que parecia uma pessoa prestes a desaparecer.

"Que comovente" Sue disse, a voz sem emoção, o sarcasmo tão bem treinado quanto as Cheerios deveriam estar. "Uma reunião espontânea de garotas sem supervisão, num ambiente escorregadio, com níveis alarmantes de histeria e praticamente nenhuma dignidade."

Ela deu mais um passo, e a presença dela empurrou o caos para as bordas.

"Quinn Fabray. Lindsay Shay." Sue pronunciou os nomes como se fossem itens numa lista de problemas a serem resolvidos. "Vocês duas estão prestes a aprender uma coisa que seus pais falharam em ensinar: há consequências."

Quinn tentou falar.

"Treinadora, eu"

"Não." Sue cortou, simples. Uma palavra que não permitia continuação. "Você não “explica”. Você obedece."

Sue apontou para o chão no centro do vestiário, entre os armários e os bancos.

"As duas. Aqui. Agora. Frente a frente.

Quinn hesitou por meio segundo. Lindsey também.

Sue ergueu o apito na mão, como se aquilo fosse uma arma carregada.

"Eu sopro isso de novo e o zelador entra aqui pra ver o que vocês estão fazendo. Vocês querem esse nível de humilhação ou preferem uma disciplina privada?"

As duas se moveram. Rígidas. A raiva ainda no corpo, mas agora encurralada.

Sue se colocou entre elas de propósito, impedindo qualquer avanço.

"Santana. Brittany." Sue nem precisou olhar muito. "Bom trabalho evitando uma agressão física e um processo. Vocês duas podem ficar… como testemunhas do fracasso alheio.

Santana abriu a boca para reclamar, mas Brittany apertou a mão dela e Santana, surpreendentemente, ficou quieta.

Sue então virou a cabeça para Rachel, que estava branca.

"Rachel Berry. Pare de parecer um cervo prestes a ser atropelado por uma minivan." Sue apontou para um canto. "Vá para ali. Sente. Respire. Se você desmaiar, eu vou te reanimar só para poder te dar uma bronca acordada."

Rachel obedeceu na mesma hora, como se Sue tivesse puxado um fio invisível.

Sue voltou para Quinn e Lindsey, e o silêncio que ela criou foi tão pesado que parecia empurrar o vapor do chuveiro para baixo.

"Agora" Sue disse, lenta, cada palavra um prego. "Vocês vão me dizer o que aconteceu. E se eu ouvir “ela começou”, eu juro que faço vocês duas correrem voltas suficientes para descobrir se ciúme e estupidez evaporam pelo suor.

Quinn apertou a mandíbula. Lindsey respirou fundo.

E, pela primeira vez desde que a briga começou, as duas cheerleaders realmente pararam. Não porque estavam cansadas. Não porque Santana e Brittany tentaram. Mas porque Sue Sylvester tinha entrado.

E quando Sue entrava em cena, o caos aprendia a se comportar. Ou era esmagado.

Sue cruzou os braços.

"Estou esperando."

Quinn abriu a boca primeiro, como se a própria postura pudesse convencer o mundo de que aquilo tinha justificativa.

"Treinadora Sylvester, eu só… eu só estava tentando entender o que estava acontecendo. A Rachel.."

"Ah, sim, claro" Sue interrompeu, inclinando a cabeça com um sorriso fino que não tinha nada de simpático. "A velha investigação particular de vestiário. Porque quando alguém se suja e vai se trocar, a explicação mais lógica é sempre “traição em andamento”. Brilhante, Fabray. Realmente um cérebro desperdiçado na liderança de torcida.

Quinn fechou a mão ao lado do corpo, a raiva querendo voltar, mas Sue estava ali, plantada, impossível de atravessar.

Lindsay tentou entrar na conversa, a voz saindo mais rápida do que deveria.

"Eu nem tava fazendo nada! Eu, Rachel e Santana só viemos aqui, porque nos sujamos na festa e… e ela começou a gritar comigo do nada, eu"

"Shay". Sue levantou um dedo, como quem silencia uma propaganda. "Eu não perguntei qual de vocês é a vítima do dia. Eu perguntei o que aconteceu. E, francamente, depois de ouvir vocês duas, minha vontade é pedir transferência para treinar uma equipe de robôs. Eles pelo menos têm programação.

Santana e Brittany ainda estavam perto da porta, observando, prontas para intervir. E Rachel, no canto indicado por Sue, parecia menor do que nunca, abraçada às próprias roupas, os olhos úmidos e arregalados.

Brittany se aproximou devagar, como se Rachel fosse um animalzinho assustado. Ela agachou na frente dela e falou baixo:

"Ei. Respira comigo, tá? Um… dois… três…"

Santana ficou ao lado, uma mão no quadril e a outra segurando a toalha que alguém tinha deixado cair, encarando Quinn como se pudesse derreter a autoestima dela só no olhar.

"Você tá bem, Berry?" Santana perguntou, tentando soar rude por reflexo, mas falhando um pouco.

Rachel assentiu, mesmo sem estar bem.

"Eu… eu acho que sim.

"Você não “acha”. Você tá sim." Santana disse, mais firme, como se decretar fosse mais fácil do que confortar. "E se não estiver, eu vou… sei lá, eu vou bater em alguém por você. Depois eu penso no resto.

Brittany colocou a mão no ombro de Rachel com cuidado.

"A gente tá aqui."

No centro do vestiário, Quinn tentou recuperar o controle, como se pudesse reorganizar os fatos e fazer Sue concordar.

"Treinadora, eu só fiquei nervosa. Eu vi a Rachel e eu… eu pensei que"

"Que ela é incapaz de existir sem ser o centro da atenção de alguém? "Sue completou, seca." Sim, Fabray, todos nós pensamos isso sobre a Rachel. A diferença é que nós não transformamos esse pensamento em uma briga de boxe semi-nua em propriedade escolar."

Quinn ficou vermelha, humilhada e furiosa ao mesmo tempo.

Lindsay, do outro lado, soltou uma risada curta, sem querer, nervosa e Sue girou o olhar para ela como um holofote.

"Ah, ótimo." Sue apontou para Lindsey. "Shay achou engraçado. Adoro quando a audiência participa."

Lindsey imediatamente tentou se corrigir.

"Não foi isso, eu só, eu tô nervosa."

"Eu também fico nervosa" Sue disse, a voz suave demais para ser boa notícia. "E sabe o que eu faço quando fico nervosa? Eu corro. Até a sensação passar. Às vezes, horas. Às vezes, dias.

Sue deu um passo à frente. O apito na mão parecia um martelo simbólico.

"Vocês duas: eu vou explicar o que vai acontecer agora, porque claramente vocês têm dificuldade de entender pistas sociais."

Ela apontou para Quinn.

"Você está com ciúme. Patético? Sim. Humano? Infelizmente. Mas você decidiu transformar isso numa cena."

Depois apontou para Lindsay.

"E você decidiu que, em vez de sair do caminho, ia responder. O que me diz que você tem duas qualidades ótimas para uma Cheerio: orgulho e falta de noção."

As duas tentaram falar ao mesmo tempo.

"Treinadora"

"Mas"

Sue levantou o apito, e só o gesto fez o som desaparecer do vestiário.

"Eu disse. Sem. Explicações."

Silêncio.

Sue inspirou, como se estivesse contendo a própria irritação para não virar um crime.

"Punição."

Quinn engoliu seco.

"Treinadora, por favor, eu posso"

"Você pode correr, Fabray." Sue sorriu, agora com satisfação. "Você pode correr tanto que vai começar a amar a física, porque vai sentir na pele o que é aceleração."

Ela virou levemente o corpo em direção à porta, indicando a saída.

"As duas. Para o campo. Agora. Uniforme de treino. Sem maquiagem de guerra. Sem cabelo de comercial. Quero ver suor real, não esse brilho artificial de “eu sou melhor que todo mundo”."

Quinn hesitou, e Sue nem precisou levantar a voz.

"Quinze voltas no campo para cada segundo que você ficar parada me olhando como se eu fosse negociar."

Quinn se mexeu imediatamente.

Lindsey também.

"E mais uma coisa..." Sue acrescentou, acompanhando as duas com o olhar enquanto elas se apressavam para pegar as coisas. "Se eu ouvir QUALQUER pessoa dizer “foi só uma briga”, eu dobro o treino. Porque isso aqui" Sue apontou para o vestiário, para a tensão no ar, para Rachel tremendo no canto "não foi “só” nada. Isso foi falta de controle. E eu não treino descontrole. Eu treino campeãs."

Quinn e Lindsey passaram pela porta com pressa, quase batendo uma na outra de novo e Sue estalou a língua.

"Sem encostar. Eu acredito que vocês conseguem existir no mesmo planeta sem se atacarem. Me provem que eu estou certa. Uma única vez na vida de vocês."

Sue saiu logo atrás, os passos firmes pelo corredor. Antes de sumir, ela lançou um último olhar para Santana e Brittany.

"Lopez. Pierce." Sue falou como se estivesse designando uma tarefa simples. "Mantenham a Berry viva. Eu não quero preencher papelada."

Santana ergueu a mão em um meio-sinal de “tá”.

"Tá bom, treinadora."

Brittany assentiu com seriedade.

"A gente cuida dela."

A porta fechou, deixando o vestiário com um silêncio diferente. Não era mais a pausa antes do impacto. Era o resto do impacto a poeira baixando.

Rachel deixou o ar sair devagar, como se só agora tivesse permissão.

"Eu… eu odeio brigas" ela sussurrou.

Santana revirou os olhos, mas se sentou ao lado dela no banco, perto o suficiente para ser proteção sem parecer carinho.

"Sim, Berry. Normalmente ninguém gosta." Ela deu um leve empurrão no ombro de Rachel, de um jeito quase gentil. "Você não fez nada errado.Sua namorada cabeça de vento hiper ciumenta precisa de uma surra apenas"

Brittany sorriu para Rachel e pegou uma garrafinha de água do banco.

"Água ajuda quando o coração tá correndo mais rápido que a pessoa."

Rachel aceitou com as mãos tremendo.

Do lado de fora, ao longe, já dava para ouvir o apito de Sue cortando o ar e a promessa implícita de que, no campo, Quinn Fabray e Lindsay Shay aprenderiam, do jeito mais severo possível, que Sue Sylvester não tinha paciência para drama.

Só para disciplina.


Notas finais
Não sei se ainda tem gente das antigas esperando por uma atualização. Se estiverem, eu peço desculpas por essa demora. Não foi proposital e nem falta de respeito com vocês. Isso eu garanto. Eu disse que ia terminar essa história, e vou. Estamos de volta meninas.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.